O Estado a que chegámos


João de Teste,

Ontem, um familiar próximo, que para mais já está muito debilitado por doença grave (como chegou aqui foi o resultado de um vasto rol dos falhanços conhecidos – e alguns dos abafados – do nosso SNS, mas isto será assunto para eventual texto futuro), teve um acesso febril, com temperaturas acima dos 40º, acompanhado por fortíssimos tremores para os quais a palavra “espasmos” não é exagerada. Fizemos a chamada para o 112 às 12:32 e, após uma conversa de cinco minutos, prometeram o envio de uma ambulância para o transportar ao hospital. Eram 13:25 quando recebemos um telefonema a lamentar que… não tinham ainda encontrado uma ambulância disponível, mas que nos enviariam uma logo que fosse possível. Chegou finalmente uma da Cruz Vermelha por volta das 13:55. Uma hora e um quarto de espera: demoras que parecem estar-se a tornar cada vez menos uma excepção esporádica.

 

PS: o hospital Garcia de Orta exibia, colada com fita adesiva ao vidro da recepção do serviço de urgência, uma folhinha A4 a avisar quem lá chegasse para urgências de ortopedia (e outra especialidade de que não me recordo) que não havia nada p’ra ninguém e fossem chatear outro hospital. Não é a primeira vez que isto ocorre: pergunto-me se estes “constrangimentos” foram, sequer, rodapé de noticiário ou se a atenção do jornalismo se limita à obstetrícia.

PPS: é de justiça eu dizer que, quando critico o SNS, não critico os funcionários do SNS e sim as suas diversas camadas de gestão hierárquica e política. Acredito que os funcionários, na sua maioria, fazem o melhor que lhes é possível com as condições que têm.

PPPS: o termómetro da ambulância não funcionava. É só mais um detalhe em toda esta história sórdida.

Categorias sns

15 comentários em “O Estado a que chegámos”

  1. Também acontece o que passo a contar.
    Eu, doente de DPOC, tive uma crise e liguei o 112, cerca da 01,00 hora . Contei pelo telefone o que se passava e a resposta foi ‘vamos encaminhar o assunto para…’. Passado 15 minutos apareceu um ‘piquete?’ com um médico e dois técnicos com uns aparelhos de medição e chegaram à conclusão de chamar ambulância com oxigênio pra seguir para a urgência do Hospital Amadora-Sintra. Cerca das 02,00 horas já estava a ser medicamentado. Ás 11,00 já estava de volta a casa. Tudo isto se passou comigo no SNS, mas não devo ser o exemplo.

    1. Correu bem, no seu caso, anónimo. A meus pais, ambos octogenários e de saúde bem complicada, o SNS adiou há dias – e por mais de dois meses – consultas médicas há muito marcadas (e em datas, evidentemente, determinadas pelo SNS). Não foi, claro, a primeira vez que praticamente sobre a data de uma consulta isso aconteceu. Mas suponho que faça parte de uma estratégia de redução do recurso às urgências hospitalares; um muito sábio e desinteressado esforço de gestão de recursos públicos e que eu, cidadão decerto manifestamente egoísta e impenitentemente estúpido, seguramente um neo-liberal que vota naqueles que podendo acabariam (eles sim!) com o SNS, e que só sabe dizer mal do país e do governo, não percebo e não sei merecer. Será isso, decerto.
      A propósito de urgências, ainda mais recentemente, minha nora, com já recorrentes problemas na sua gravidez, viu ser recusada a sua admissão (em situação de urgência, claro, e por ordem médica) no hospital de Santa Maria. Acabou por dar entrada no Beatriz Ângelo, pelo muito científico critério do “deixa ver quem tem espaço”. Vá lá que não tão longe de casa quanto isso, afinal. E a tempo de resolver, manter sob controlo pelo menos, a questão. Não foi a primeira crise na sua gravidez e não foi a primeira vez que andou a tentar a sorte entre hospitais da Grande Lisboa.
      Mas, vá lá, tem tido sorte ela.

      1. Em 2019, fui no início de Junho ao meu centro de saúde para marcar uma consulta de rotina com a minha médica de família. A primeira vaga que havia era no final de Setembro: três meses depois! Duas semanas antes da consulta, recebi uma carta a adiá-la mais um mês. Quatro meses de espera para uma consulta de rotina com a minha médica de família. E isto, é de salientar, aconteceu antes do Covid que tanto jeito deu para justificar o que já corria mal.

  2. O meu tio teve uma infeção grave e teve de ser hospitalizado em Faro (estou a falar de alguém que está numa cadeira de rodas após 2 AVCs) Entre as várias peripécias, destacam-se as seguintes:
    1 – acomodação durante 24h num sofá porque “não haviam camas”
    2 – a seguir ao sofá acomodação numa maca num corredor do hospital onde já se encontravam outros “felizes contemplados”
    3 – após 3 dias lá colocam o homem numa cama decente mas continuou no corredor pois “não háviam quartos”
    4 – após 21 dias e receber alta, devido a ter 13 pessoas a necessitar de ambulância para voltar para casa à sua frente, teve de se desenrascar por si.

    E é para este serviço patético que pagamos todos os meses impostos que ainda por cima são cada vez maiores? Sinceramente, andamos a ser gozados diariamente pela classe política miserável que temos. Pessoalmente só já vou ao SNS se não tiver nenhuma outra alternativa.

      1. É essa a ideia que eu tenho das notícias que leio. O hospital de Faro e o hospital Garcia de Orta, quando há problemas, costumam ser dos primeiros a ser mencionados.

    1. “…Pessoalmente só já vou ao SNS se não tiver nenhuma outra alternativa.”
      Para não ir ao SNS tem de ter outra alternativa, agora se não tiver como é que vai fazer?

      1. Se não tiver tenho de ir ora essa. Felizmente tenho seguro da empresa onde trabalho mas se não tivesse não tinha alternativa.

    2. Uma senhora de idade, conhecida dos meus pais, teve uma experiência semelhante no Garcia de Orta no início do ano. Tendo caído e fracturado uma perna, ficou vários dias a aguardar cirurgia deitada numa maca que ora era estacionada num quarto, numa enfermaria, num corredor, onde quer que houvesse espaço para a colocar. Finalmente, a família dela fartou-se da situação e levou-a para um privado.

  3. Portugal, tal como a generalidade dos países europeus, sofre atualmente de uma gravíssima escassez de mão-de-obra. Isso é causado pela recusa dos países europeus, e das suas populações, em aceitar mais (muitos mais!) imigrantes. A falta de mão-de-obra observa-se a todos os níveis: faltam canalizadores, condutores de ambulância, pedreiros, médicos, e quase todas as restantes profissões. Tanto ao nível do Estado como no setor privado. Enquanto as populações europeias não se decidirem a aceitar a imigração (muita imigração!), a situação só piorará, a todos os níveis.

    1. E também pela recusa em pagar mais aos nacionais. É que os imigrantes também se fartam um dia e vão à procura de oportunidades melhores, ainda por cima eles que não têm o mesmo sentimento de pertença a Portugal que nós nacionais.

      1. É claro que se poderia pagar mais aos trabalhadores nacionais. Mas será sempre impossível pagar-lhes o mesmo que eles aufeririam no Reino Unido ou na Suíça ou em França. Portanto, é expetável que muitos portugueses continuem a emigrar, mesmo que os salários em Portugal sejam aumentados.
        A única forma de fazer face à emigração dos portugueses é substituí-los por imigrantes. Preferencialmente, da América Latina ou dos PALOPs.

        1. O custo de vida nesses países também é diferente. Um salário de 2000€ em Portugal é um bom salário, enquanto na Suíça é um salário de pobre. E como Pedro Abrunhosa dizia, ninguém sai de onde tem paz. Nada contra os imigrantes, são muito bem vindos, mas os países de origem deles não serão pobres para sempre e um dia quererão voltar.

  4. Por isso é urgente a nacionalização de toda a saúde privada e a renegociação das tabelas salariais com os profissionais de saúde. Não é preciso ser de esquerda para defender isto, basta querer o bem dos portugueses.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *