Gostam de teorias da conspiração?


Rui Rocha,

Então, dou-vos mais uma. Nos últimos dias, a investigação sobre José Sócrates acelera. Perante os factos recolhidos, a decisão torna-se evidente. Deve ser detido logo que regressar a Lisboa para que não possa prejudicar a investigação ocultando ou eliminando provas, tal como está previsto no Código de Processo Penal. A equipa de investigação procura manter o máximo sigilo. Todavia, elementos ligados a Sócrates dentro da PGR acabam por aceder à informação e transmitem-na imediatamente para Paris. Sócrates hesita e adia a viagem para Lisboa para ganhar tempo. Chega à conclusão de que não regressar implica assumir que cometeu os actos que lhe são imputados. Todavia, sabe que é fundamental desacreditar a investigação. Decide voar para Lisboa. Antes de embarcar, faz chegar a um órgão de comunicação social a informação de que será detido quando chegar à Portela. A detenção é filmada e transmitida. No dia seguinte, círculos próximos de Sócrates atacam a isenção de uma investigação que foi incapaz de respeitar o segredo de justiça e que provocou um circo mediático. João Soares, como lhe é habitual, não sabendo de nada, ajuda à festa assumindo o papel de idiota útil.

Rebuscado? Claro que sim. Tanto como afirmar que a investigação tem como objectivo fragilizar o PS quando ainda falta mais de um ano para eleições. Inverosímil? Provavelmente. Tanto como afirmar que a detenção de Sócrates tem como objectivo abafar os efeitos da investigação sobre os Vistos Gold.

Cayetana, rebelde e simples


Rui Rocha,

Os meios de comunicação social espanhóis entraram nas últimas horas numa competição extenuante pelo título da peça jornalística mais elogiosa sobre a longa vida e incomensurável obra da Duquesa de Alba. Na política, da direita mais empedernida que não perdeu a oportunidade de se exercitar na técnica da hagiografia, à esquerda naturalmente mais comedida, também ninguém quis perder a oportunidade de juntar ao cortejo fúnebre de elogios e panegíricos. Pelo visto, e de acordo com a abundante matéria produzida sobre o tema, aquela que alguns no país vizinho não hesitam em apelidar como “la más grande de España”, era uma mulher rebelde e simples. Esta parece ser uma descrição adequada da realidade. Sobre a rebeldia, basta ter em conta que durante a guerra civil espanhola, quando toda a população passava fome, Cayetana decidiu permanecer na abundância. Depois, em 1948, com o país sumido na mais tremenda penúria, um dos seus casamentos terá custado coisa de 500 milhões de euros a valores de hoje (dados publicados em 1988 pela revista HOLA que, como se sabe, é nestas matérias a publicação de referência). Sobre a simplicidade, também não restarão grandes dúvidas. Bastará perguntar a qualquer um dos seus 15 motoristas, 2 mordomos, 24 criadas, 10 jardineiros ou 8 moços de estrebaria e nenhum dirá menos do que isso. Pois isso, Cayetana. Descansa em paz que, por cá, o mundo fica mais pobre. De espírito.

Prazeres de Canelas


Rui Rocha,

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Prazeres sai da casa caiada na Rua do Frengo exactamente 30 minutos antes do início da missa. O nevoeiro da manhã esbate o contorno da sua silhueta austera que se move, em passos ligeiros, sobre o chão empedrado das ruelas do centro de Canelas. Veste-se sempre de forma modesta e decente. Mais ainda ao Domingo. A saia tapa o joelho e um pouco mais. A camisolinha de malha comprada na feira de Espinho cobre os braços e a parte de baixo do pesoço. Os sapatos são rasos, como devem ser. Não ambicioneis coisas altas, mas acomadai-vos às humildes, lera nas Escrituras. Dobra a última esquina antes de avistar a Igreja. Olha, como sempre faz, para a Rua do Padre Costa que se desenha à sua esquerda. Um santo, o Padre Costa. Merecia outro reconhecimento. Prazeres não consegue reprimir um suspiro que contém, na sua imensa fragilidade, uma infinita piedade por todas as malfeitorias sofridas, aqui, agora e sempre, pelos justos da Igreja. Retoma imediatamente a compostura. O dia não está para desfalecimentos. Apressa o passo apesar dos cansaços que lhe desafiam os movimentos. As camisolas pretas tinham dado mais trabalho do que previra. O mais difícil fora escolher frase. De tantas que lhe vieram à cabeça, Deus quis que acabasse por escolher aquela: Cristo foi traído – Quem o traiu retirou as consequências.  Direitinha ao Bispo do Porto: pega lá que já almoçastes. E o ensaio dos cantos… Minha Nossa Senhora! Mas, no final, a Laida, a Tona, a neta do Tobias e a Micas tinham decorado as falas: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. Os dados estão lançados. Vão ficar com as orelhas a arder, os vendidos que forem à missa. Quando chega ao adro da Igreja faltam dez minutos para a homilia. Um olhar em redor confirma que já lá estão os que devem estar. Com gestos rápidos, abre o saco de ginástica da Puma e distribui as camisolas. As do coro ensaiado também já estão prontinhas. A tensão sobe enquanto o nevoeiro se dissipa. Dois minutos depois, o gajo chega. Acompanhado pela GNR, todo borrado de medo mas a dar ares de galifão. Os vendidos entraram na Igreja a passo. Deus lhes perdoe. Ouvem-se vozes, afinadas e pias, em cântico: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. As camisolas já vestidas nos corpos dos que, na primeira fila, gritam e empurram. Prazeres sorri. Um trabalho bem feito. O melhor ainda está para vir. Não perdes pela demora galifão. Quarenta e cinco minutos depois, termina a missa. As mesmas camisolas, os mesmos cânticos. O padreca tenta sair, escoltado pela GNR. Prazeres vai buscar forças não sabe a que santo e grita-lhe com quantas forças o Senhor lhe dá: badalhoco, tem apresentação, corta o cabelo e a barba! A pequena cruz com um Cristo que traz ao peito salta e faz-lhe um lanho no pescoço. O padreca desaparece do adro no carro onde foi metido à pressa pela GNR. O resto do Domingo passa-se do jeito que Deus quer, interrompido aqui e ali pelo regozijo provocado pelas imagens do triunfo sobre o padre Albino que passam nos telejornais da RTP. O relógio da igreja bate as 10 da noite. Prazeres apressa de forma quase imperceptível as orações. Depois de assegurar que a porta do único quarto de cama da casa onde vive sozinha está fechada, dirige-se ao roupeiro onde guarda uma pequena caixa escondida num fundo falso de uma gaveta. Afasta o rosário que trouxe de uma viagem da paróquia à Terra Santa e, enquanto aconchega contra o peito uma fotografia do padre Roberto, murmura com a voz a tremer: ah meu sacana, que ainda me fazes perder…

Uma lição para Passos Coelho


Rui Rocha,

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Sem dispor de qualquer informação que não seja rigorosamente a que tem vindo a público, considero que Miguel Macedo tomou a decisão correcta. Por muito que seja completamente alheio aos factos em investigação, as suspeitas que existem sobre pessoas que lhe são próximas constituiriam sempre um factor de fragilização da sua posição como ministro. É bom registar que se recuperam padrões de conduta política que sobrepõem o interesse do país e a respeitabilidade das instituições ao interesses pessoais, às agendas de grupo e às solidariedades de percurso. Se de facto Miguel Macedo não tem qualquer responsabilidade no caso dos “Vistos Gold”, acaba de dar uma lição de conduta politicamente responsável. Mas, ao contrário do que já vi dito, esta não se dirige a Nuno Crato, nem a Paula Teixeira da Cunha. A lição vai direitinha para Passos Coelho que não soube, em casos como o de Miguel Relvas, colocar a credibilidade das instituições acima dos seus vínculos pessoais.

A Era dos Grandes MAMIL


Rui Rocha,

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Os MAMIL constituem uma classe de animais vertebrados do sexo masculino. Caracterizam-se pela presença de glândulas mamárias razoavelmente desenvolvidas, pela ausência de pêlos nas pernas e pela perda progressiva de cabelo. Os MAMIL são animais endotérmicos ou seja, de temperatura constante, e apresentam, em geral, velocidade baixa. O cérebro controla a temperatura corporal e o sistema circulatório, incluindo o coração que tem quatro câmaras. Os sistemas Runtastic, Endomondo ou Sports Tracker controlam o percurso, os quilómetros percorridos e outra informação relevante que permita afagar egos algo angustiados. Esta informação, depois de empolada, é normalmente partilhada no Facebook. Acredita-se que os primeiros MAMIL tenham surgido há aproximadamente 10 anos, quando os homens de meia-idade que compravam carros desportivos para exorcizar os demónios da crise da meia-idade começaram a extinguir-se. O equipamento básico do MAMIL médio integra a bicicleta de carbono, o capacete meia-concha, a camisetazinha térmica e o culotte que tem a dupla função de proteger o sim-senhor e áreas limítrofes da abrasão do selim e de dissimular a ligeira hipertrofia da próstata. A camisetazinha e o culotte são de lycra, material que define a relação dos MAMIL com o mundo e que está na origem do próprio acrónimo (Middle-aged man in lycra). Nos países ditos avançados, os MAMIL circulam ao fim-de-semana em grandes manadas urbanas, constituindo as ciclovias generosamente disponibilizadas por prestimosos autarcas o seu habitat natural. Como é usual, o mecanismo de imitação faz com que a moda chegue, felizmente com alguns anos de atraso, a Portugal. Mas já se vislumbram vários exemplares nas nossas cidades. Como é também usual, o mecanismo de imitação faz com que, como sucedeu com o tabaco, este tipo de vícios acabem por ser seguidos igualmente por seres humanos do género feminino. Quando tal acontecer, é provável que, nos casos com prognóstico menos reservado, o acrónimo utilizado para designar os referidos exemplares femininos venha a ser MAMILF.

Comunismo nunca mais


Rui Rocha,

Vera Lengsfeld nasceu na RDA. Até determinada altura cumpriu as regras. Inscrita na Partido Comunista, fiel à nomenklatura, leal ao pai que era agente da STASI desde o final da guerra. Depois converteu-se ao cristianismo. Uniu-se a um grupo pacifista, ligado à Igreja Luterana, que protestava contra a presença de mísseis nucleares na Europa, incluindo a de mísseis soviéticos na RDA. Foi expulsa do Partido Comunista. Foi constantemente vigiada. Foi presa por curtos períodos várias vezes. Foi afastada das suas funções de professora da Academia de Ciências Socias em Berlim. Em meados da década de oitenta, existia na RDA um agente da STASI por cada sessenta habitantes. Portugal tem hoje, vinte e cinco anos depois, quatro médicos por mil habitantes. Em meados da década de oitenta, cinco por cento do orçamento da RDA era consumido pela STASI. Vera Lengsfeld era vigiada, nessa altura, por sessenta agentes da STASI. Apesar das dificuldades, a vida de Vera continuava. Casou com o matemático Knud Wollenberger. Tiveram dois filhos. Em mil novecentos e oitenta e oito o pai de Vera foi afastado pela STASI. Para se manter na polícia secreta teria de cortar qualquer tipo de relação com a filha. O pai de Vera recusou. Em mil novecentos e noventa e dois Vera e Knud divorciaram-se. Knud tinha sido um dos sessenta membros da STASI encarregado de a vigiar. O primeiro encontro, a relação, o casamento, tinham sido um embuste. Uma forma de a manter sob observação muito próxima. Tão próxima que Knud informava o seu agente de contacto na STASI de cada detalhe da sua vida em comum, dos seus momentos íntimos, das conversas na cama, das chamadas telefónicas, das variações de humor, das alegrias, angústias e tristezas. Mais tarde, quando Knud se encontrava em estado terminal, Vera perdoou-lhe.O muro de Berlim caiu há vinte e cinco anos. Na altura, o Partido Comunista Português, cego a todas as atrocidades cometidas pelos regimes totalitários comunistas, condenou o acontecimento. Vinte e cinco anos depois, o Partido Comunista Português mantém-se do lado errado da história. Depois de tanto tempo, os veados vermelhos das florestas situadas na fronteira entre a então RFA e a Checoslováquia continuam a não atravessar a linha que era dividida por uma vedação eléctrica. O Partido Comunista Português, por seu lado, continua preso à sua cegueira histórica, incapaz de dar um passo no sentido dos princípios da democracia. Perante visões do mundo desta natureza, impõe-se agora, como há vinte e cinco anos, um grito inquestionável pela liberdade: comunismo nunca mais!

A síndroma do défice de atenção divino


Rui Rocha,

À primeira vista, pensar-se-ia que Deus, estando em todo o lado e de tudo sabendo, não precisaria que lhe chamássemos a atenção para determinadas coisas. Ao que parece, todavia, não é bem assim. É por isso que muitos, temendo que Deus não esteja suficientemente atento, decidem rezar, pedindo-lhe que interceda por eles em determinados assuntos. E aí temos, por exemplo, o caso do futebolista que pede a graça da intervenção divina, levantando as mãos quando entra em campo. Fará uma tabelinha que desequilibrará a defesa contrária. Desarmará o adversário. Cabeceará a bola na sequência de um canto, evitando um golo mais do que certo. Rezou e obtém por isso o favor de Deus, ganhando uma vantagem decisiva sobre todos os outros que se esqueceram de rezar. Sobra todavia uma questão. Quando um futebolista pede a Deus que o ajude a marcar um golo, não estará com isso a desviar-Lhe a atenção das necessidades das crianças que morrem de fome em África?

Em defesa de Pires de Lima


Rui Rocha,

Face à onda de comentários sobre a prestação de Pires de Lima na Assembleia da República, gostaria de manifestar a minha indignação. Em português correcto são admissíveis as formas “bêbedo” e “bêbado”. Já “bebedo”, como tenho visto em variadíssimos escritos e comentários, está errado. Posso por isso garantir, eu caia aqui já, que Pires de Lima “bebedo” não estava. Nem é.

O video da semana e uma certa esquerda presa no seu próprio labirinto


Rui Rocha,

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O video da semana mostra uma mulher que percorre as ruas de Nova Iorque durante 10 horas. A jovem mulher é abordada constantemente. Como a Fernanda Câncio sublinha, o que o vídeo evidencia é o carácter repetitivo, importunador, exasperante do “piropo”. Mostra como sair à rua é, para qualquer mulher, um estado de alerta permanente, o de quem sabe que a qualquer momento pode ser abordada por um estranho com ofertas de sexo e sujeita a apreciações, mais ou menos alarves, sobre o seu aspeto. Esta parece ser uma descrição objectiva dos factos. Seria, portanto, de esperar que a partir deles se gerasse um amplo movimento de condenação das atitudes retratadas no video. E que essa condenação fosse consensual nos sectores à esquerda do espectro político, que reivindicam para si o património histórico da promoção dos direitos das mulheres. Surpreendentemente, nomeadamente nos EUA, é da própria esquerda que chegam vozes que questionam as conclusões aparentemente óbvias que resultam do video. O problema, ao que parece, reside no facto de a protagonista ser uma mulher branca. E de as abordagens filmadas serem quase sempre protagonizadas por homens de raça negra. Não tardaram vozes como a de Kristin Iverson que denuncia no video uma clara intenção de defender e proteger “a mulher branca inocente”, isto é, a “estrutura social de poder existente”. Rapidamente o argumento foi mais longe. E logo surgiu quem afirmasse que o video tem claros propósitos racistas. Dion Rabouin di-lo com todas as letras: há uma clara intenção de passar a ideia de que as mulheres brancas não estão a salvo de “sex-crazed black and brown men”. Na escalada de argumentos, Aura Bogado refere um viés intencional no video: as filmagens teriam sido feitas deliberadamente em bairros em que os residentes são maioritariamente negros com o objectivo de perpetuar o mito de que estes são os responsáveis por todos os aspectos negativos da humanidade e que é preciso salvar a mulher branca. A solução seria, ao que parece, filmar um novo video com um elenco universal, em que a protagonista seria “a black trans woman”. Mas houve quem fosse ainda mais longe. Emily Gould justifica as abordagens como sendo uma forma de grupos marginalizados ajustarem contas com quem (a estrutura social de poder branca existente) os condena a estarem à margem. As ondas de choque foram de tal forma intensas que o grupo Hollaback que promoveu a divulgação do video já veio a público reconhecer que este pode ter ferido a susceptibilidade de alguns sectores mais sensíveis. Como refere Charles Cooke na ampla resenha que faz sobre o assunto, o que subjaz à incomodidade provocada pelo video nestes sectores é a ideia, também tão cara da esquerda, de que os autores das abordagens são meras vítimas das circunstâncias e que foram forçados, pelas suas condições, a importunar uma mulher branca inocente. O problema é que a injustiça não se apresenta, na realidade, em silos estanques e segmentados. As camadas de injustiça sobrepõem-se, interpenetram-se e multiplicam-se. E essa esquerda que se esqueceu das grandes ideias gerais como a igualdade e cedeu ao apelo da apropriação da injustiça minoria a minoria, caso a caso, perdeu-se no seu próprio labirinto. Daí que lhe falte critério quando é confrontada com escolhas definitivas: radicalismo islâmico ou direito das mulheres. Radicalismo islâmico ou direito à orientação sexual? Direitos das mulheres (sejam elas brancas, baixas, altas ou negras) ou paternalismo para determinados comportamentos?

Descobrir-lhe a careca


Rui Rocha,

Impressionado pelas conclusões dos estudos pioneiros do João Lisboa, aqui deixo o meu modesto contributo para a disciplina da tricologia política. A validade científica da hipótese inicial parece ficar confirmada com esta abordagem que, creio, traz à discussão um ângulo de análise que ainda não tinha sido explorado. O material foi recolhido na sequência de intenso trabalho de campo desenvovido nos Açores:

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