Um café curto, sem princípio, pingado, em chávena escaldada, com adoçante e um copo de água.
E pensar que ainda há poucos milhares de anos caçávamos bisontes
Rui Rocha,
Um café curto, sem princípio, pingado, em chávena escaldada, com adoçante e um copo de água.
“Se faz favor” também se usa.
Isso era há uns milhares de anos
Que caçamos bisontes não há dúvidas, que por vezes ė necessário engoli-los também, mas não nos falta sofisticação e exigência à hora de pedir a ‘bica’ …
😜!
Deve fazer parte dessa sofisticação o ritual de mexer repetida e rapidamente, de dedo mindinho espetado, o café, depois de nele largada a dose de açúcar ou adoçante e depois beber a mistura em gestos rápidos, pequenos golpes da cabeça para trás e rápidas rotações da chávena (o tal dedinho sempre espetado), ou xícara ou como se lhe chame, comprimindo – de olhos no infinito, ou misteriosamente cerrados – os lábios, em solene ausência de conhecedor. Ocasionalmente aplicam-se breves movimentos rotativos sobre a dita chávena, quando da bebida já nela pouco resta, supostamente para assegurar que o resíduo sólido de açúcar é maioritariamente tragado no derradeiro gole.
Um verdadeiro momento, pelo ritual implicado, de ascensão social (deve ser o “elevador social” que nos resta, enfim). Que aquilo seja uma mistela de mau café e água a saber a cloro – o açúcar resolve o caso, que o que se quer afinal é qualquer coisa quente e doce -, e que de todas as precisões invocadas no acto de a pedir talvez se consiga ajuizar, quanto muito, do efectivo cumprimento da temperatura da chávena e da quantidade de bebida servida, serão coisas secundárias.
Costa
Adorei este miniconto – a começar no título. Está a dar-me ideia para uma série colectiva cá no blogue. Depois dá livro.
Ah, ah, ah, ah, ah, ah