E pensar que ainda há poucos milhares de anos caçávamos bisontes


Rui Rocha,

Um café curto, sem princípio, pingado, em chávena escaldada, com adoçante e um copo de água.

6 comentários em “E pensar que ainda há poucos milhares de anos caçávamos bisontes”

  1. Que caçamos bisontes não há dúvidas, que por vezes ė necessário engoli-los também, mas não nos falta sofisticação e exigência à hora de pedir a ‘bica’ …
    😜!

    1. Deve fazer parte dessa sofisticação o ritual de mexer repetida e rapidamente, de dedo mindinho espetado, o café, depois de nele largada a dose de açúcar ou adoçante e depois beber a mistura em gestos rápidos, pequenos golpes da cabeça para trás e rápidas rotações da chávena (o tal dedinho sempre espetado), ou xícara ou como se lhe chame, comprimindo – de olhos no infinito, ou misteriosamente cerrados – os lábios, em solene ausência de conhecedor. Ocasionalmente aplicam-se breves movimentos rotativos sobre a dita chávena, quando da bebida já nela pouco resta, supostamente para assegurar que o resíduo sólido de açúcar é maioritariamente tragado no derradeiro gole.

      Um verdadeiro momento, pelo ritual implicado, de ascensão social (deve ser o “elevador social” que nos resta, enfim). Que aquilo seja uma mistela de mau café e água a saber a cloro – o açúcar resolve o caso, que o que se quer afinal é qualquer coisa quente e doce -, e que de todas as precisões invocadas no acto de a pedir talvez se consiga ajuizar, quanto muito, do efectivo cumprimento da temperatura da chávena e da quantidade de bebida servida, serão coisas secundárias.

      Costa

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