Cayetana, rebelde e simples


Rui Rocha,

Os meios de comunicação social espanhóis entraram nas últimas horas numa competição extenuante pelo título da peça jornalística mais elogiosa sobre a longa vida e incomensurável obra da Duquesa de Alba. Na política, da direita mais empedernida que não perdeu a oportunidade de se exercitar na técnica da hagiografia, à esquerda naturalmente mais comedida, também ninguém quis perder a oportunidade de juntar ao cortejo fúnebre de elogios e panegíricos. Pelo visto, e de acordo com a abundante matéria produzida sobre o tema, aquela que alguns no país vizinho não hesitam em apelidar como “la más grande de España”, era uma mulher rebelde e simples. Esta parece ser uma descrição adequada da realidade. Sobre a rebeldia, basta ter em conta que durante a guerra civil espanhola, quando toda a população passava fome, Cayetana decidiu permanecer na abundância. Depois, em 1948, com o país sumido na mais tremenda penúria, um dos seus casamentos terá custado coisa de 500 milhões de euros a valores de hoje (dados publicados em 1988 pela revista HOLA que, como se sabe, é nestas matérias a publicação de referência). Sobre a simplicidade, também não restarão grandes dúvidas. Bastará perguntar a qualquer um dos seus 15 motoristas, 2 mordomos, 24 criadas, 10 jardineiros ou 8 moços de estrebaria e nenhum dirá menos do que isso. Pois isso, Cayetana. Descansa em paz que, por cá, o mundo fica mais pobre. De espírito.

17 comentários em “Cayetana, rebelde e simples”

  1. Não sei que lhes deu, se houve pessoa que encarnasse o “antes muerta que sencilla” era ela. E a própria o assumiria, não tenho dúvidas. O que acho é que a falta de imaginação no jornalismo, a ânsia de dar a ler contos de fadas porque é o que venda, dá nestes clichés que vemos diariamente. São as “plebeias que casam com principes” – sempre, sempre que há um casamento é isto -, as milionárias que afinal até eram tão simples, etc etc

  2. Também eu fiquei bastante surpreendido com esse coro de loas.

    Percebe-se que Rui Rocha não quis ir por aí, mas acrecento eu que, se rezasse, andaria a pedir a todos os santinhos que me ajudassem a não fazer figuras tristes no final da minha vida. Mas que não caísse no outro extremo, o de morrer antes do tempo, que também é tristíssimo.

    1. Casar com quem se ama, e dançar sevilhanas com o povo, parece-lhe a si figura triste! Coitados dos velhos que tem ou terá à sua volta.

  3. Cayetana não deve ter decidido nada na guerra civil, tinha pr’ai 8 anos. O casamento foi caro (500.000.000 euros?) mas isso não faz mexer a economia?
    Demagogia, se me permite. Nem glorificar, nem condenar com base a que os ricos têm é que viver mais pobres que a classe média.
    Cf

      1. Guerra civil espanhola em 1926? Man, as coisas que se aprendem aqui, aquilo de ter decorrido entre 1936 e 1939 foi uma peta que me pregaram.

        1. Caro Luis Marques, decerto não leu bem o que escrevi; a seguir ao ano de nascimento da Senhora, coloquei uma vírgula, pelo que o segundo periodo da frase refere-se à idade que a senhora tinha em plena Guerra Civil – portanto 10 anos, e que de facto om essa idade não tinha poder nem maturidade para renegar os privilégios de que dispunha.
          Antes de criticar, aconselho-o a ler devidamente o que e escreveu 🙂

          É que ir ao google ver o periodo de uma guerra, qualquer um faz.

          1. Fui reler, como aconselha, o seu texto e dou o braço a torcer, escapou-me a fina ironia (mas acho que falta uma vírgula a seguir a civil).
            Agora o que lhe fica muito mal é a referência à ida ao Google, não preciso de lá ir para saber quando foi a guerra civil de Espanha, a invasão de Guadalcanal, o Tratado de Alcanizes ou quando D. Afonso Henriques foi capturado na frustada conquista de Badajoz, dê-me o benefício da dúvida e não me considere, à partida, um ignorante.

          2. Caro Luís Marques

            Está desfeito o equívoco, e tal como refere graças a alguns conhecimentos que fui acumulando, tal como o Luis, tão pouco necessito de ir pesquisar ao motor de busca este tipo de informação. Dou também “a mão à palmatória” acerca da minha referência ao google, associada à sua pessoa – iniciámos uma espécie de “quem com ferros mata, com ferros morre”.

            Por mim está ultrapassado e espero que por si também 🙂

          3. Obviamente que sim, agora é ver o espectáculo que, inopinadamente, nos apareceu na noite de ontem.
            Bom fim de semana.

  4. “Bastará perguntar a qualquer um dos seus 15 motoristas, 2 mordomos, 24 criadas, 10 jardineiros ou 8 moços de estrebaria e nenhum dirá menos do que isso.”

    Grande empregadora. Que será dessas pessoas?

  5. Rui Rocha

    Com esse espírito crítico arriscas definitivamente a hipótese de seres contratado como moço de estrebaria.

  6. Cayetana teria muito dinheiro em 1948 à semelhança de muita outra gente. Se tivesse feito um casamento modesto era uma santa? Gastou uma fortuna com o casamento. Suponho que não agarrou no dinheiro que tinha e o atirou ao Guadalquivir. Deu-o a ganhar a muita gente. A única coisa que eu quero de um rico é que gaste o seu rico dinheirinho. Gaste muito. Insurgir-mo-nos contra o gasto do dinheiro de um rico só faz com que ele poupe e fique mais rico. Devemos elogiar qualquer rico que gaste dinheiro. Mil vezes um rico com empregados do que um rico que faz tudo só para não ter empregados e passar imagem de simples. Os pobre não ficam melhores com a “pobreza” de vida dos ricos, bem pelo contrário.
    Admiro Cayetana não pelo seu dinheiro mas pela sua alegria em viver. Quanto ao dinheiro gastou-o bem gasto, e ainda bem!

  7. Estou como o lucklucky : comparada com os vistos gold em Portugal, a duquesa, essa sim, contribuiu para a criação de postos de trabalho. E não foram só os empregados mais próximos. A nível de cirurgiões plásticos também se devem ter dado alguns impulsos…

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