Gigantes com BES de barro.
Pensamento da semana
Rui Rocha,
Gigantes com BES de barro.
Empreendedor: indíviduo inodoro, incolor, insípido, terno, saudável, fofinho e biodegradável que, em lugar de explorar um negócio com fins execravelmente lucrativos, concebe estratégias de inovação com o objectivo de promover o crescimento sustentável, o desenvolvimento da sociedade, o bem-estar da humanidade e a paz no mundo; ilumina-se com a simples menção do termo start-up; não confundir com empresário (bandido); não confundir com candidata a miss universo.
Curriculum Vitae: descrição detalhada de um percurso laboral recheado de sucessos que, exposto à luz, revela nódoas e zonas cinzentas; antologia de grandes êxitos profissionais que se oferece a menos de metade do seu valor facial devido a uma diminuição persistente da procura.
Curriculum Vitae (desambiguação): obra de natureza puramente ficcional em que, a pretexto de uma candidatura a uma função profissional, um artista ainda não devidamente reconhecido pelo público dá asas à sua natureza eminentemente criativa.
– O que vês, bravo Legolas?
– Desolação, destruição, corrupção…
– Orcs?
– Não. O Telejornal.
Máximas de 15º em Braga, Porto, Coimbra e Lisboa. De 18º em Faro. O pior vai ser quando chegar o degelo.
A angústia que perpassa por estes nossos dias não é a da Liberdade, como nos diria Sartre. É a da prisão. Ou melhor, a da viagem até à prisão. Costa vai a Évora? Esta é a pergunta que atormenta o jornalista. Esta é a inquietação que acorda a meio da noite o cidadão. Costa, o filósofo da acção que tem todas as respostas para o crescimento, o homem-solução, o positivo-humanista do progresso cientificamente provado dirigido às pessoas, já respondeu. Que sim, que vai. Mas, pergunta-se o tal cidadão acordado a meio da noite, entre suores frios, que tipo de viagem é esta? Uma daquelas ao jeito de Kerouac, de ruptura, de fuga ao sistema e às convenções, uma daquelas em que vamos e não queremos voltar? Parece que não. Perguntado pelo Expresso, Costa diz que vai. Mas afirma e interroga: “Só me ficaria mal se não fosse. Você não faria o mesmo se um amigo seu fosse preso? Isto é, Costa vai mas quer voltar. E quando voltar da viagem quer que nada de essencial se tenha alterado. Como cada um de nós, quando faz férias de duas semanas. Vamos. Mas quando regressamos queremos ver a nossa casa no mesmo sítio onde a deixamos. O mesmo cão de louça no parapeito de sempre. A mesma toalha de renda no tampo da mesa. E o mesmo resultado nas sondagens. A viagem de Costa a Évora é mais do imperativo categórico do que da liberdade de ir ou não ir. Ao que parece, tem fundamento nas obrigações sinalagmáticas que decorrem de uma certa solidariedade com os amigos. No fundo, dessa solidariedade que o eminente jurista Calvão da Silva refere no parecer que justifica a oferta de 14 mihões de certo construtor a Ricardo Salgado: o bom princípio geral de uma sociedade que quer ser uma comunidade – comum unidade –, com espírito de entreajuda e solidariedade. Mas o ponto é exactamente este. Supondo que sim, que qualquer um de nós, jornalista ou cidadão acordado a meio da noite em suores frios perante a angústia da viagem, iria ver um amigo à prisão, qual de nós esperaria pelas férias do Natal para fazer os cem quilómetros que separam Lisboa de Évora? É provável que Sócrates, por ter amigos, não morra na cadeia. Mas, a julgar pelo tempo que terá de esperar pela visita do amigo Costa, pode muito bem sair do presídio bastante mais envelhecido. Se virmos bem, o tempo de pouco mais de uma hora de viagem entre Évora e Lisboa é o mesmo que demora a fazer o caminho entre a angústia e a perplexidade.
O sempre previsível Correio da Manhã abriu uma nova e profícua linha de investigação do chamado caso Sócrates. Pelo visto, aproveitando a recente queda do recluso mais famoso de Évora para o estilo epistolar, decidiu pedir a um especialista em grafologia para analisar a última carta manuscrita por Sócrates. Com toda a credibilidade científica grangeada pela grafologia ao longo de anos como pano de fundo, o especialista não teve qualquer dúvida em concluir que: 1) Sócrates “está em pânico”; 2) Sócrates não é uma pessoa transparente; 3) por ter escrito a tinta vermelha, Sócrates está efervescente. Perante uma análise deste calibre, eu próprio me senti estimulado a utilizar os meus profundos conhecimentos científicos para formular duas conclusões que aqui partilho de forma absolutamente desinteressada. Por um lado, na qualidade de leitor experimentado de jornais, folhas-de-couve e pasquins, posso garantir que pela análise do estilo e conteúdo das suas notícias, o Correio da Manhã integra esta última categoria, situando-se, nesta ordem dos pasquins, entre os que são da pior espécie. Atrevo-me mesmo a afirmar que, se é possível dizer que Sócrates está em pânico pela inclinação da sua letra, por maioria de razão podemos afirmar que o Correio da Manhã está um penico pela qualidade dos seus artigos. Por outro lado, a minha vasta experiência na análise de ventas e focinheiras humanas diz-me que o especialista, cuja imagem reproduzo ali mais acima, apresenta uma elevada probabilidade de ser parvo. Cheguei a essa conclusão, entre outros indícios recolhidos com extrema perícia que questões de sigilo profissional me impedem de partilhar, pela análise da forma como arqueia as sobrancelhas.
O ovo ou a galinha? O ovo, claro. Pois se os dinossauros já punham ovo… De nada, de nada. Mas, se quiserem, podem passar a chamar-me filósofo.
O brinde tinha saído à Fava.
A propósito de Congressos, sejam eles de que partidos forem. Ou de comícios. Qual a razão de os políticos, com apenas algumas excepções, estarem aparentemente tão zangados quando falam? E de discursarem aos gritos? Estão zangados contigo? Comigo? Com os apoiantes? Com os abstencionistas? Com os adversários? É que eu, pela minha parte, não lhes lhes devo nada. Faltava mais ter ainda de os aturar aos gritos.
Pensamento crítico, análise inteligente, resistência sem concessões ao políticamente correcto e visão aguda da realidade são marcas distintivas do José Meireles Graça, um dos autores que muito aprecio na blogocoisa. Razão mais do que suficiente para recomendar vivamente uma visita ao Gremlin Literário onde é acompanhado por outros autores que leio sempre, também, com muito proveito.
O Congresso do PS constituía um tremendo desafio. Costa não podia permitir que o partido ficasse refém dos graves acontecimentos mais recentes e que esta reunião magna viesse a tornar-se apenas mais um elo dessa cadeia de acontecimentos. Tinha ainda que demontrar que este novo PS não foi capturado pelos interesses que têm dominado a sociedade portuguesa nos últimos anos. Por motivos pragmáticos, era ainda fundamental que não ficasse cativo da agenda política dos partidos da esquerda mais radical, nem confinado a um espaço ideológico que não lhe permita apelar aos eleitores mais à direita. O país pede um PS que não se vire para si próprio, que não fique aferrolhado a ideias velhas ou pré-concebidas, nem trancafiado nos seus próprios problemas, sob pena de a curto prazo ficar condenado à irrelevância. Um partido enclausurado nunca serve, sequer, os seus próprios interesses. Qualquer propósito de cegueira perante a realidade deve ser imediatamente detido. É, em qualquer circunstância, imperioso saber resistir à coacção dos media e da opinião pública que exigem acções que, quantas vezes, são irreflectidas. Os dados estão lançados. O futuro dirá se o PS ficou ou não prisioneiro das circunstâncias e se está preso ao passado.
Desculpar-me-ão os caríssimos congressistas, mas já vi arguidos em preventiva bastante mais animados.
Muito bem. Mas, pelo que se vê, também não tem ideiazinha nenhuma do que vai fazer com o presente de Sócrates ou com o futuro do país.
Acabam de sobreviver a mais um discurso do Ferro Rodrigues.
Indigno-me contra a leviandade dos que insistem em considerar que os casos de Vale e Azevedo e Sócrates são comparáveis. Exigia-se, parece-me, maior contenção.Tenha-se em conta, por exemplo, que ainda ninguém veio acusar Sócrates de ficar a dever o pagamento das casas em que viveu.