Sabe-se lá se, enquanto estamos entretidos com o Lula, não andam por aí a preparar pela calada a abertura de um McDonald’s no Chiado.
Em todo o caso, convém que não nos deixemos distrair do essencial
Rui Rocha,
Sabe-se lá se, enquanto estamos entretidos com o Lula, não andam por aí a preparar pela calada a abertura de um McDonald’s no Chiado.
Esta coisa do Lula da Silva é verdadeiramente abracadabrante.
Esta coisa de as manifestações do Brasil serem operações militares organizadas a partir do exterior está bem esgalhada. Genial a ligação entre os acontecimentos em Pernambuco ou Curitiba e o Cairo E a conclusão de que Lula faz muito bem em “aceitar” ser ministro tem uma lógica inquestionável. Na mesma linha, quando houver tempo, era importante o autor reflectir também sobre o facto de as pizzas serem redondas, as caixas quadradas e as fatias triangulares. Tudo muito suspeito, na verdade. Mas devo dizer que levo mais esta campanha contra Lula à conta de preconceito de género. Se o Lula calha de ser Lulo dá-me ideia que ninguém se manifestava contra ele.
Não me levem a mal, mas a verdade é que chegamos sempre à mesma conclusão: em Portugal há falta de oportunidades. Veja-se, para não irmos mais longe, o caso de José Sócrates. Vivesse ele no Brasil e a esta hora já tinha ido a ministro.
O caso de Lula traz à tona o lado mais perverso da fixação de uma certa esquerda em elevar seres humanos banais, ou muito pior do que isso, à categoria de santinhos milagreiros. Ao confundir as políticas com quem as executa, desistindo de discutir o valor intrínseco daquelas para exacerbar os feitos extraordinários do ícone endeusado, modelo de virtudes inesgotáveis, protagonista de feitos épicos e heróicos, essa esquerda promove o seu envenenamento quando o campeão da democracia, o ás de trunfo dos desfavorecidos, o cavaleiro incansável das causas dos oprimidos, acaba por revelar-se um sacaninha de primeira ordem. O problema é que essa propensão iconoclasta não é apenas um sinal de infantilidade intrínseca ou de uma visão pueril da realidade. É, mais do que isso, um sinal de desconforto e inadaptação do adn revolucionário próprio dessa esquerda à essência do ecossistema democrático. Não admira, portanto, que o PT brasileiro, exemplar acabado dessa visão do mundo, avance agora para uma solução (fazer Lula ministro para lhe assegurar uma via não de imunidade mas de real impunidade) que representa um profundíssimo golpe nas instituições democráticas do Brasil.
Se fosse mais antigo, alguém com juízo teria aconselhado o Ministro Caldeira Cabral a fazer o Doutoramento na Covilhã. Mas claro, como não havia “Tempo Novo” em 2004, Caldeira Cabral acabou por fazê-lo em Nottingham. Nem quero pensar na quantidade de impostos que se perderam em Portugal só pelo facto de este compatriota, distraído ou mal aconselhado, ter acabado por fazer uma escolha tão pouco solidária.
Claro que o homem preferia ficar detido em Évora a passar para prisão domiciliária. Pudera. Quem é que voltaria a casa sabendo que teria de aturar esta tropa? Coitado.
Cavaco Silva é o caso típico do fulano que sai de casa para comprar tabaco e só regressa passados mais de 30 anos.
Uma possibilidade que valeria a pena explorar para não andarmos por aí a acusar e a deter inocentes é Carlos Santos Silva ter emprestado dinheiro a Sócrates e este, por sua vez, ter emprestado dinheiro a Lula
Se os nossos irmãos brasileiros tivessem dado atenção a tudo quanto se escreveu e disse em Portugal sobre a detenção de José Sócrates teriam aprendido alguma coisa. Já saberiam que essa decisão representa um golpe de estado, que alguém que teve tão altas responsabilidades deve ser convidado a apresentar-se às autoridades, que os cidadãos são todos iguais perante a lei, mas que há alguns que devem tratar-se com diferença, que a detenção só faz sentido para crimes de sangue, que estas situações têm como único objectivo humilhar e ajustar contas (sabe-se lá de quê). E um par de botas. Bastava na verdade terem os irmãos lido com atenção o Miguel Sousa Tavares, a Clara Ferreira Alves ou os Soares pai e filho e estariam avisados. Mas claro. Não estiveram atentos e agora detiveram o Lula em casa, coitados.
De acordo com um painel de sectários que se pronunciou sobre o assunto, a decisão de Maria Luís Albuquerque não é criticável porque respeita a separação de poderes: no Parlamento a função é legislativa mas na Arrow Global é não-executiva.