O prémio Shit-zker


Rui Rocha,

A Cãmara Municipal de Leiria decidiu vender o Estádio Municipal em hasta pública. Aquele que foi um dos palcos do Euro 2004 terá como preço base 63 milhões de euros. Considero que esta é uma péssima decisão. A maturidade de um país mede-se, também, pela capacidade de assumir erros e fracassos. Os estádios de futebol do Euro 2004 deviam ser mantidos na esfera pública, encarregando-se o tempo de providenciar a sua degradação, até se tornarem colossos em ruínas. É fundamental que suportemos os custos mínimos e indispensáveis de tal processo até ao último tostão. Para aprendermos. As páginas dos livros de história devem inclui-los nos capítulos dos desastres, com dimensão equivalente à de Alcácer Quibir. Salientando a diferença fundamental. D. Sebastião desapareceu e os responsáveis por este atoleiro continuam por aí. O país é periférico, tem matriz católica, o solo não é muito fértil,  o euro está em crise, os especuladores são lixados e um par de botas.  Com as solas rotas. Mas, que diabo. Nós cavámos bem a nossa parte do buraco e não devemos prescindir de o afirmar com provas e evidências. Pedagogicamente, as visitas escolares do futuro deviam começar todas numa escola secundária reabilitada pela Parque Escolar. Sim, é importante apreciar no local os jardins interiores, os candeeiros torneados, os sofás e os tapetes. E contactar com a realidade. Começando pela disponibilidade de fabulosos quadros interactivos que ninguém usa e a quase total indisponibilidade de verba para os marcadores necessários para escrever um exercício ou uma frase. Depois, a visita deveria prosseguir em direcção a Leiria, assegurando-se, independentemente da origem, uma passagem prolongada pela indispensável Auto-estrada do Pinhal Interior. Para terminar, no centro do Estádio em ruínas, deveria ser projectado um vídeo de Mesquita Machado, o autarca de Braga, afirmando o seu orgulho pelo facto de a capital do Minho dispor, não de um, mas de dois estádios municipais. A nossa redenção passa por encararmos este passado recente de frente. Para tal, proponho ainda a instituição do Prémio Shit-zker. A atribuir anualmente ao responsável público que mais se distinguisse na promoção de projectos inúteis com potencial para pôr em perigo o futuro das próximas gerações.

Provas de fogo. Posto!


Rui Rocha,

 

Manhã de nervos. Prova de fogo. Teste com fogo real. Pelo visto, a coisa está mesmo muito séria. Nestes momentos, sinto-me um bocadinho envergonhado por não cumprir aquilo que parece ser o meu dever patriótico. Tendo em conta estes títulos, e outros do género, lidos na imprensa e ouvidos na rádio, por esta hora o meu coração devia alternar entre palpitações, arritmias e taquicardias. Nos dedos das mãos já não deviam existir unhas para roer. E o chão à minha volta devia estar atapetado por cabelos arrancados a esmo. Todavia, nada disto acontece. Esforço-me quanto posso, mas não consigo angustiar-me com o drama que envolve a eleição de Fernando Nobre. Não consigo, pronto. Agora, que confessei esta culpa sinto-me ainda menos angustiado. Lamento muito. Dito isto, estou pronto para aceitar as consequências. Julguem-me por falta de amor à pátria se a tanto se sentirem obrigados. Peço apenas a realização de três desejos derradeiros. Antes de ir a Tribunal, pretendo ser julgado pela opinião publicada de forma sumária, bárbara e expedita. Até trânsito em julgado da sentença que vier a ser proferida, não aceito qualquer limitação aos meus direitos. E, hoje em dia, não se nega a ninguém o direito a um julgamento na praça pública. O segundo pedido é o de o processo em Tribunal decorrer com as delongas próprias do nosso sistema judicial. Tudo o que seja uma condenação antes de decorridos sete anos sobre a constituição como arguido parece-me um abuso. Para além do mais, esse será o tempo necessário para que um dos auditores que foi apanhado a copiar no CEJ possa ascender ao Supremo Tribunal de Justiça. A Justiça dos Deuses far-se-á a seu tempo. De momento, pretendo que o meu veredicto seja assinado por homens ou mulheres cheios de defeitos como eu. O ultimo pedido relaciona-se com uma ideia de justiça relativa. Não quero ir sozinho. Os milhões de estarolas que hoje estiveram no trânsito a ouvir o Café da Manhã ou as pilhérias do Vasco Palmeirim na Comercial também se devem sentar no mocho. Vi-os na fila, ao meu lado, tão despreocupados com a eleição do Nobre como eu. E isto é assim. Ou há moralidade, ou comem todos.

Fracturante


Rui Rocha,

«Mas a política, e tudo na vida, faz-se respeitando a dignidade das pessoas, agindo com boa-fé e não lançando sobre elas suspeitas em filigrana. O mínimo que espero de Francisco Louçã é que esclareça a confusão que levianamente criou, peça desculpas pelo facto, e retracte o seu texto.»

Rui Tavares, deputado no Parlamento Europeu, eleito nas listas do BE, aqui

Um café chamado nota dez


Rui Rocha,

O Moinho de Pão fica mesmo ao lado de um dos Tribunais de Braga. O seu ciclo de vida diário está alinhado pela agenda de magistrados e funcionários judiciais. Tipicamente, as mesas enchem-se até às 9h00, para um pequeno-almoço retemperador, sempre necessário depois do sono. Esse que, tratando-se de quem se trata, só poderá ter sido o dos justos. Depois, algures entre as dez e picos e as onze e tal, a sala volta  a estar completa. Os mesmos que tomaram o pequeno-almoço, saboreiam um cafezinho e, quem sabe, uma nata dessas que o forno há dias colocado junto ao balcão mantém sempre quentes. Um consolo para o estômago, depois de consumados os adiamentos da praxe ou, dando-se o caso de um assomo anormal de produtividade, de terem sido forçados no remanso do gabinete alguns acordos que, se não compõem adequadamente os interesses das partes, sempre tornam menos negras as estatísticas da Justiça. O café repete-se depois do almoço e os que resistiram à nata matinal, consumidos pelo sentimento de culpa, acabam por ceder à tentação. O dia não acaba sem nova visita, esta à razão de chá e torradas, depois dos adiamentos e dos acordos vespertinos, num movimento de eterno retorno que se inicia com a abertura do ano judicial, este sinalizado por hossanas à Justiça, e que nunca mais acaba. Se tivesse por hábito fazer um registo das principais ocorrências do dia, hoje, o gerente do Moinho, que já foi o Jorge e agora será outro, anotaria um pouco mais de burburinho nas mesas dos magistrados e um prolongamento de cada visita para, aproximadamente, três quartos de hora. Sendo certo que, em dias normais, a duração média andará por escassos trinta e tal minutos. Quanto às mesas dos funcionários judiciais nada de muito novo teria para registar, a não ser uns sorrisinhos sacanas mal dissimulados pelo bigode do Mendes do 3º Juízo e pela  barba do Lopes da 2ª Vara. Entretanto, amanhã, todas as rotinas serão retomadas. E nestas mesmas mesas se sentarão, no dia seguinte, alguns dos que ontem copiaram. É por essas e por outras que nunca tratei o Moinho de Pão pelo nome. Para mim, chamava-se CEJ, a abreviatura que encontrei para designar o Café onde é possível fazer Estudos profundos sobre a situação nos meios Judiciários. A partir de hoje, passei a chamar-lhe Nota Dez.

Quem tramou Francisco Assis?


Rui Rocha,

A candidatura de Francisco Assis a Secretário-Geral do PS promete transformar-se num longo calvário pessoal. Logo à partida, e como bem salienta o Paulo Tavares, António Costa escolheu a pior maneira de manifestar-lhe apoio. Hoje, foi José Lello, outro apoiante declarado da sua candidatura a acertar-lhe em cheio. Os tiros com origem nas nossas próprias linhas são sempre os mais perigosos. No caso de Assis, este é um friendly fire de chumbo grosso. Quem é posto em causa desta forma pelos amigos e apoiantes está condenado a nunca ser eleito, sequer, para Administrador de Condomínio. Já todos tínhamos percebido que o papel de Assis era o de uma lebre. Agora, ficámos a saber que se trata de uma lebre no churrasco. Sem se comprometer com uma única ideia política concreta, o António José está cada vez mais Seguro.

O meu governo


Rui Rocha,

 

 

Primeiro-Ministro: Padre Fontes. Isto  não  foi  lá  com  mentiras.  Talvez se  arranje  com  mezinhas. É homem para fazer o esconjuro da dívida.

Ministro das Finanças: Anthímio de Azevedo. Uma revolução nas contas públicas: vamos acertar uma previsão de vez em quando.

Ministro das Obras Públicas: José Malhoa. Apitó Comboio / Lá vai apitar… 

Ministro da Economia: Galopim de Carvalho. Vai ser preciso escavar muito até encontrar o caminho do crescimento.

Ministro da Educação: Jorge Jesus. As coisas ‘vão melhorarem’ no ensino.

Ministro dos Negócios Estrangeiros: Zezé Camarinha. A chave disto tudo é a Merkel. O ZeZé tem muita experiência em diplomacia com as bifas. E sabe falar inglês: “Want you ZeZé to massajate your back, Angela”? Carrega, Zezé!

Ministro do Emprego: Quim Barreiros. Um gajo que ganha dinheiro a cantar o Mestre da Culinária e a Garagem da Vizinha também é homem para criar 500.000 empregos. Digo eu.

Ministra da Agricultura: Rita Pereira. Uma nova reforma agrária! Aposta nos leitifúndios e na  monocultura intensiva da meloa lusitana.

Ministra da Saúde: Rita Pereira. Sim, vai ficar com um par de ministérios. E daí? Alguma coisa contra? Quem preferir a Ana Jorge que escreva um post.

Ministro da Cultura: José Sócrates. Depois de rebentar com o Estado Social, acabar com os subsídio-dependentes das artes e dos espectáculos vai ser uma brincadeira de meninos. Ficamos todos a ganhar.

Ministro da Defesa: Padre Vítor Melícias. Tem um nome para-militar e sempre se poupava na pensão de reforma. Nada de acumular seu maroto!

 

Para racionalizar custos, o Conselho de Ministros passará a reunir no salão paroquial de Vilar de Perdizes que, diz quem conhece, é um espaço com alguma dignidade e não será pesado ao erário público.

 

*republicação de post de 3.12.2010, justificada pelas circunstâncias.