Um café chamado nota dez


Rui Rocha,

O Moinho de Pão fica mesmo ao lado de um dos Tribunais de Braga. O seu ciclo de vida diário está alinhado pela agenda de magistrados e funcionários judiciais. Tipicamente, as mesas enchem-se até às 9h00, para um pequeno-almoço retemperador, sempre necessário depois do sono. Esse que, tratando-se de quem se trata, só poderá ter sido o dos justos. Depois, algures entre as dez e picos e as onze e tal, a sala volta  a estar completa. Os mesmos que tomaram o pequeno-almoço, saboreiam um cafezinho e, quem sabe, uma nata dessas que o forno há dias colocado junto ao balcão mantém sempre quentes. Um consolo para o estômago, depois de consumados os adiamentos da praxe ou, dando-se o caso de um assomo anormal de produtividade, de terem sido forçados no remanso do gabinete alguns acordos que, se não compõem adequadamente os interesses das partes, sempre tornam menos negras as estatísticas da Justiça. O café repete-se depois do almoço e os que resistiram à nata matinal, consumidos pelo sentimento de culpa, acabam por ceder à tentação. O dia não acaba sem nova visita, esta à razão de chá e torradas, depois dos adiamentos e dos acordos vespertinos, num movimento de eterno retorno que se inicia com a abertura do ano judicial, este sinalizado por hossanas à Justiça, e que nunca mais acaba. Se tivesse por hábito fazer um registo das principais ocorrências do dia, hoje, o gerente do Moinho, que já foi o Jorge e agora será outro, anotaria um pouco mais de burburinho nas mesas dos magistrados e um prolongamento de cada visita para, aproximadamente, três quartos de hora. Sendo certo que, em dias normais, a duração média andará por escassos trinta e tal minutos. Quanto às mesas dos funcionários judiciais nada de muito novo teria para registar, a não ser uns sorrisinhos sacanas mal dissimulados pelo bigode do Mendes do 3º Juízo e pela  barba do Lopes da 2ª Vara. Entretanto, amanhã, todas as rotinas serão retomadas. E nestas mesmas mesas se sentarão, no dia seguinte, alguns dos que ontem copiaram. É por essas e por outras que nunca tratei o Moinho de Pão pelo nome. Para mim, chamava-se CEJ, a abreviatura que encontrei para designar o Café onde é possível fazer Estudos profundos sobre a situação nos meios Judiciários. A partir de hoje, passei a chamar-lhe Nota Dez.

45 comentários em “Um café chamado nota dez”

          1. um licenciado de 10 é o quê? E após no âmbito de uma profissão exclusiva? …mas já percebi que no reino da excelência que é a lusa…um 10 é excelente…

          2. Um dez até dá para ser … presidente de governo regional.

  1. Esta quarta-feira a Universidade de Heidelberg cassou o título de Doutora à deputada europeia Silvana Koch-Mehrin por ter ficado provado o plágio.

    Qual a linha de água que separa Portugal da Alemanha? Desonestos e chico-espertos há nos dois países, só que num são punidos noutro recompensados.
    A leviandade com que “arrumou” este caso é assustadora. Ou será apenas sintomática?

    1. …pretende-se aí um grau académico…aqui trata-se de uma profissão…em que se compete …para toda uma vida…

  2. Rui, imagine que há um grupo de pessoas composto por 100 elementos. todos eles são condutores e conduziram um veículo automóvel preto na avenida da liberdade, na noite do dia 15 de Agosto de 2007. Um peão foi atropelado na dita noite e – hipoteticamente – tem-se a certeza que terá sido atropelado por um dos condutores. Não tendo meios possíveis para identificar o condutor responsável, como pune o culpado e iliba os 99 inocentes?

    Cumprimentos,
    jtf

    1. O melhor é a responsabilidade individual, sem dúvida. Mas quando se sabe, se conhece que foi a maioria…
      Ainda n perceberam que 10 é uma sanção…Aquilo não é a secundária para “passar”, ali não se tem por escopo “aprovar”, há lá gente que sem um 12 ou um 13 sai e vai para outra profissão , se é que já não a tem e em que com a média de 15 a coisa rende mais…

    2. Caro João Teago,

      posta a questão em contexto judicial, não poderia condenar nenhum deles, naturalmente. Quanto ao caso concreto, a Laura Ramos e o J.M. Coutinho Ribeiro disseram nos respectivos comentários tudo o que penso sobre o assunto. Um abraço.

  3. TRATA-se de ser desonesto intelectualmente.
    É grave.

    Mas não foi possivel apurar responsabilidade individual.

    O caso ilustra a forte competitividade que reina na formação de magistrados, algo que o país deveria saber, muito embora nunca por esta triste razão.

    Um 10 é uma nota péssima em qualquer formação. Mas já percebi que a população que vê o mundo a preto e branco, e aparecem com a “moral e os bons costumes” dos outros…criticam a nota positiva.

    É nota positiva…no ensino universitário, secundário, é aprovação do ano. Mas não é disso que se trata.

    Mas o País justicialista…prefere um 10, tudo acha que um dez é uma nota excelente.
    No CEJ fazem-se dezenas de testes…e ter um 10 é mau. É mau porque os 100 que lá estão não foram alunos quaisque nas faculdades…é bom que se medite.

  4. O corrupio aos cafés, natas e torradas do “Nota Dez” também é habitual por estes lados, normalmente entre as 9 as 10. Por vezes também às 11 ou às 14.Trata-se de uma realidade incontornável, muito nossa.

    Normal, Rui, com toda a carga que o termo contém.

    Ser normal, hoje, é isso que a realidade espelha, tu descreves e muitos se indignam. Os outros, como tu ou como eu, que não compreendemos essas subtilezas e temos de viver com elas, respitá-las, seremos os anormais.

  5. Do ponto de vista subjectivo, é grave e lamentável: revela desonestidade, como já se disse.
    Mas então, e do ponto de vista objectivo? É simplesmente inignorável. Porque põe em causa o princípio da igualdade de oportunidades entre os candidatos.
    Este último é que é claramente vinculativo para a entidade que promove as provas, porque se situa no campo das garantias jurídicas que a deviam vincular (e até a dispensa considerações sobre a moralidade dos comportamentos…).
    Não se percebe é como é que isto não é evidente para uma escola de ‘aplicadores’ do direito …

  6. Será que a coisa vai mesmo ficar assim?
    Não haverá, neste desgraçado País, ninguém com poder para pôr termo a tal aberração?
    Mas o que é isto?
    Não se responsabilizam os autores da flagrante pouca-vergonha?
    Que nojo de gente!

    1. …continua o justicialismo….candidatem-se a magistrados…se são tão puros…gentinha que-arranja-treta…

      …opinem sobre as cirurgias.

      OBVIAMENTE que isto é mau.

      MAS que diabo…pôr o país na bancarrota,
      …autarcas a fazerem prédios dignos de revista, câmaras falidas,
      …desemprego acrescido,
      …um presidente que vive em saturno,
      …opinadores de treta (verdadeiros novos juizes mas sem recurso…sem possibilidade de dar o braço à palmatória).
      …o fandango de gente sem preparação a governar, e a legislar…

      …nao é sabido que juizes tivessem enriquecido… e se copiassem sentenças SÓ faziam bem…pois os TUGAS são uns repetitivos : devem, devem, devem, falam, falam, falam. No RESTO, mais nada!
      COPIEM, COPIEM, …pois…esta realidade é toda a mesma…desde décadas

  7. É!

    TANTA TRETA…como se nunca tivessem copiado; se fossem tão puros…tão perfeitos…nao havia os “vigilantes”…EM TODO o lado copia-se!ACONTECE mesmo aos piores e aos melhores.
    ELES não estão lá PARA SEREM SANTOS. Desconfio de juizes moralistas…muito moralistas…como pessoas moralistas …muito moralistas.
    OLHAI para a vosa bidinha…

    Os vigilantes estavam lá a fazer o quê?
    Nada. E nas escolas? não se copia.NUNCA se COPIOU?!

    Se calhar o melhor era virem para os tribunais…decidir os casos, …ouvir este povo serôdio e que se julga perfeito, … …cambada de treinadores de bancada!

  8. Confesso: enquanto estudante universitário, copiei alguma vezes. Não muito. Não porque a tentação não fosse grande, mas, sobretudo, porque tinha medo de ser apanhado. E fui: numa segunda frequência de Economia Política, que teimava em arrastar desde o 1º ano, não tive tempo de engolir a cábula, fui chutado para fora da sala e – pior – lá se foi o meu 13 da primeira frequência. Nunca ocultei o facto, mas também é verdade que nunca me orgulhei dele. Para além de que sempre admirei bastante os meus colegas estudiosos, que não copiavam. Por essa altura, pensava assim: esses são os que vão ser magistrados. São os mais ponderados, os mais estudiosos, os mais justos, os que se comportam bem. E embora eu nunca tivesse tido qualquer queda para a magistratura – apesar dos esforços do meu pai -, aquele deslize arrumou com qualquer veleidade que pudesse ter sobre a magistratura.
    Hoje, depois de muitos anos de advocacia, já não tenho a imagem que tinha sobre o que são os magistrados. Há muitos deles que eu admiro e que correspondem ao perfil que lhes tracei enquanto estudante. Mas há outros por quem não tenho ponta de admiração e serão sempre piores magistrados do que eu seria se tivesse envereado pela carreira. E, o que´me parece mais grave, a degradação está em processo acelerado.
    Posto isto, devo confessar também que já não me surpreende que candidatos a magistrados tenham sido apanhados a copiar nos exames de acesso à carreira. Mas creio que, apesar de tudo, devo ficar suspreendido com a solução que foi dada ao caso: nota 10 para todos. Uns – os justos -, terão sido prejudicados; os outros – os injustos -, terão sido beneficiados. Um mau sinal para quem vai ter de exercer a nobre arte de bem julgar. E, sobretudo, um péssimo sinal para a sociedade que vai ser julgada por tais magistrados.

    (Engraçada a crónica sobre o Moinho de Pão. Que, aliás, também poderia estender-se ao Tribuna, do outro lado)

    1. PENSO que todos tivemos os nossos pecados. Todos. Os magistrados são homens. Aqui, não se trata de magistrados, trata-se de gente que QUER ser Magistrado do Ministério Público.

      O que sei é que a pressão interna é grande.

      Isto não é igual ao ritmo da secundária como alguns querem fazer crer.

      A competição leva as pessoas a saírem fora de si. O que censuro é a falta de motivação para seguirem o rigor intelectual.

      como se sabe estes candidatos foram alunos de 13, 14, ou até de 16…e claro vão estar junto 3 anos. A solução do dez parece-me adequada: um sinal de suficiente para quem que ser excelente.

      1. Não pretendo ser moralista. Mas, discordo da solução de 10. Se copiaram todos, a consequência não pode ser um dez. Se não copiaram todos, há justos a pagar pelos pecadores. Inadmissível.

  9. Esqueceu-se do almoço no Tribuna.

    E nota 10 é mau?
    Claro que é, mas conheço muitos licenciados com notas baixas que são excelentes profissionais, enquanto outros que tiveram altas notas são umas nódoas… é como tudo!

    1. Podia ter referido o Tribuna como referi o Moinho. O almoço é o menos, Reflexos. O pior é o resto. O que se discute aqui não é, naturalmente, a nota em si mesma.

  10. Caro Rui Rocha:
    Se a diferença entre o Moinho de Pão e o Tribuna (onde, em qualquer caso, já fui muito feliz) está na nata, então o post devia ter o título “Nata 10”. Brinco, claro. E aproveito para informar que o que escrevi aqui sobre o assunto, repeti-o num debate de tv nesta mesma noite.

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