Ba-ba-bababa-baba


Rui Rocha,

Uma breve e aleatória consulta do Google para uma incompleta cronologia dos factos:

13.01.2014 – PCP alerta para estratégia criminosa de Paulo Macedo.
5.02.2014 – Bloco de Esquerda acusa Paulo Macedo de preferir tratar a saúde dos credores à dos doentes.
08.07.2014 – CGTP acusa Paulo Macedo de ser o coveiro da Saúde.
10.07.2014 – PS considera Paulo Macedo inadaptado ao lugar de Ministro da Saúde.
08.01.2015: João Semedo pergunta no Parlamento a Paulo Macedo “que tragédia é preciso acontecer para o senhor mudar de política?”.
27.01.2015 – PS acusa Paulo Macedo de estar em negação perante os problemas.
19.02.2015 – PS exige que Paulo Macedo resolva caos no SNS.
24.02.2015 – PS acusa o ministro da Saúde de ser “o principal responsável político” pelos problemas no acesso a medicamentos para a hepatite C, desafiando Paulo Macedo a avaliar se tem condições para se manter no cargo.
02.12.2016 – Finanças confirmam Paulo Macedo como Presidente da Caixa.

 

Num artigo de 14 de Abril de 2015, João Semedo concluía perguntando o que mais teria de acontecer para Paulo Macedo se demitir ou ser demitido. Perante esta cadeia de acontecimentos, é caso para perguntar: o que mais terá acontecido para Paulo Macedo ser agora escolhido para presidir à Caixa?

Ponto de ordem à mesa


Rui Rocha,

Ora então: aqueles que exerceram relevantíssimas responsabilidades políticas e faltaram às comemorações do 25 de Abril quando Passos Coelho era primeiro-ministro não deviam ter faltado; o PS, o PCP e o BE não deviam ter aprovado um voto de pesar pela morte de alguém que esteve 50 anos no poder sem legitimação eleitoral e que quando se afastou o entregou ao seu irmão, tendo privado o seu povo da liberdade e tendo nas mãos o sangue e o sofrimento de milhares; o PSD não devia ter optado pela abstenção quanto a esse voto de pesar nem deveria ter imposto disciplina de voto; os deputados do Bloco deviam ter-se levantado para receber o Chefe de Estado de um país democrático sobretudo depois de na véspera terem manifestado o seu pesar pela morte de um torcionário; o PSD não devia ter faltado às comemorações do 1º de Dezembro. Teria sido melhor se todos fossem um bocadinho mais crescidos e mais democratas. Mas não nos enganemos: por condenável que seja, a gravidade de faltar a uma comemoração não é a mesma que resulta de manifestar solidariedade com o percurso político de um tirano.

A Caixa, com certeza


Rui Rocha,

Este é o momento de manter a cabeça fria e de pôr em prática uma solução que salvaguarde o futuro da Pátria e o da Caixa:

1- Todos os envolvidos continuam em funções mas o Ministro das Finanças fica inibido de tomar decisões em matéria de Finanças, o Secretário de Estado do Tesouro fica inibido de tomar decisões em matéria de Tesouro e o Presidente da Caixa fica inibido de tomar decisões em matéria de gestão da Caixa;

2 – O Dr. António Domingues compromete-se, pela sua honra e pela longevidade do casco do veleiro que tem fundeado em Vilamoura, a devolver oportunamente o valor das viagens a Bruxelas indevidamente suportadas pelo Governo para participar em 3 reuniões com a Comissão Europeia.

3 – O Ministro Santos Silva dá à estampa um novo capítulo do seu Código de Conduta que aborda questões relacionadas com a condução de assuntos das Finanças, do Tesouro e da Caixa a que todos juram obediência colocando a mãozinha no peito (excepcionalmente, aprova-se decreto-lei que permita ao Dr. António Domingues manter a outra mãozinha no bolso que o tempo está frio).

4- Os envolvidos lêem o novo capítulo do Código de Conduta todos os dias antes de deitar.

5 – Tendo em conta que a disponibilização da declaração de rendimentos tinha como objectivo certificar a questão da idoneidade, o Dr. António Domingues fica isento de a entregar: sobre matéria de idoneidade temos já factos suficientes para ficarmos definitivamente conversados.

É o salário, assholes


Rui Rocha,

O salário base do Dr. António Domingues ronda os 420.000 euros anuais a que acresce seguramente outro tanto ou mais em compensação variável. Está bem. É preciso que a remuneração do gestor do banco público seja competitiva face ao que se pratica no sector privado. Entretanto, a remuneração total do Presidente dos Estados Unidos da América é de aproximadamente 375.000 euros anuais. Repare-se que o salário do POTUS não é sequer competitivo face ao do Presidente da Nossa Caixa. Depois admiram-se da fraca qualidade dos candidatos. Cada vez tenho mais pena dos americanos, coitados.

Silly Con Valley


Rui Rocha,

Vamos lá ver. A realização do Web Summit em Lisboa é obviamente uma excelente notícia (excepto para algumas almas que vivem por aí atormentadas com as nefastíssimas consequências de um dramático excesso de turistas). Venham todos os anos, venham muitos, venham outros, todos os que pudermos trazer. Venham a Lisboa, venham a Fátima pelo 13 de Maio e assim viessem a Vilar de Perdizes pelo Halloween (temos provavelmente melhores condições naturais e recursos mais qualificados para Summits da crendice do que da tecnologia mas falta-nos um estudo do Porter que nos diga isso) e a Torres Vedras pelo Entrudo. O resto, os olhinhos arregalados com as startups condenadas em mais de 90% dos casos a não completarem sequer dois anos de vida, a devoção aos empreendedores na condição de que nunca se tornem empresários, os comandos sem pilhas para ligar o Galo de Barcelos, o deslumbramento pateta do discurso que afirma que o bicho faz a ponte (a potne, diria o Medina) entre o passado e o futuro porque tem luzinhas que se ligam à noite, o Costa com a testinha a brilhar das pequenas gotículas de entusiasmo enquanto esfrega as mãozinhas já a antecipar impostos que nunca virão, o aproveitamento político, o jornalismo que nos entretém com as curiosidades do número de pratos de peixinhos da horta servidos em 4 dias, os cartazes municipais com mensagem e com erros, a crença de que um evento desta natureza catapultará o país definitivamente para a vanguarda da tecnologia, enfim, tudo isso são episódios felizmente menores e não surpreendem. Afinal, todos sabemos que estamos mais próximos de sermos um Silly Con Valley, com colinas e tudo, do que outra coisa.

Ainda isto


Rui Rocha,

Abomino Trump. Jamais votaria em Trump. Que o Deus das eleições me perdoe, mas mais depressa votaria num bandalho como Sócrates do que em Trump, ainda que só de pensar nisso já me sinta agoniado. Dito isto, espanta-me muito que os guardiões encartados da democracia venham agora, perante a eleição de Trump, manifestar a sua condescendência: não há problema que o gajo não vai fazer nada do que prometeu. Como diz que disse? Esta gente não aprende? Desvalorizaram a dimensão do eleitorado de Trump antes da ida às urnas. Desrespeitam o sentido do voto democrático que o elegeu logo no dia a seguir às eleições.

Mais uma coisa


Rui Rocha,

Percebo que as campanhas procurem obter informação sobre distribuição de voto para segmentarem populações e orientarem as mensagens eleitorais em função dos seus interesses. Agora custa-me mais a entender a extraordinária utilidade para o público em geral da distribuição de voto depois de concluídas as eleições. A democracia não é essencialmente a expressão da vontade da maioria a partir do princípio um eleitor, um voto? Então o voto de um branco não instruído vale menos do que o de um negro com formação superior? O de uma mulher vale menos do que o de um homem? A eleição de Trump vale menos do que a de Obama devido à composição do seu eleitorado? A de Obama menos do que a de Reagan? Esta obsessão em esmiuçar quem votou em quem parece-me, isso sim, profundamente anti-democrática.

Lisboa, bandeira do mundo livre


Rui Rocha,

medina.jpg 

Leio que anda por aí alguma indignação (não muita, na verdade, que o promotor da coisa é de esquerda e goza da presunção universal da virtude original) contra a iniciativa de Fernando Medina de colocar cartazes anti-Trump na zona onde decorre o Web Summit: Lisboa como bandeira do mundo livre e local onde o cidadão em busca de justiça pode construir o seu futuro. Meia-dúzia de mal intencionados perguntam: “quem é o gajo para estar agora a fazer juízos de valor sobre o resultado das eleições americanas?”. Estas vozes, claro, não perceberam nada. Medina tem consigo a legitimidade absoluta do voto livre dos cidadãos que o elegeram a ele, de forma pessoal e intransmissível, para o cargo que ocupa. Quem é que esse tal Trump pensa que é?