Mais uma coisa


Rui Rocha,

Percebo que as campanhas procurem obter informação sobre distribuição de voto para segmentarem populações e orientarem as mensagens eleitorais em função dos seus interesses. Agora custa-me mais a entender a extraordinária utilidade para o público em geral da distribuição de voto depois de concluídas as eleições. A democracia não é essencialmente a expressão da vontade da maioria a partir do princípio um eleitor, um voto? Então o voto de um branco não instruído vale menos do que o de um negro com formação superior? O de uma mulher vale menos do que o de um homem? A eleição de Trump vale menos do que a de Obama devido à composição do seu eleitorado? A de Obama menos do que a de Reagan? Esta obsessão em esmiuçar quem votou em quem parece-me, isso sim, profundamente anti-democrática.

8 comentários em “Mais uma coisa”

  1. De acordo, Rui. Também sou absolutamente contra esta obsessão de distribuir etiquetas, confinando cada pessoa a um rótulo pronto a servir numa feira ideológica qualquer.

    1. Esta obsessão tem implícito um objectivo, Pedro. Catalogar as maiorias em boas ou más de acordo com o interesse do catalogador. É o equivalente às vitórias morais em futebol. E é democraticamente inaceitável.

      1. É útil manter narrativas onde se “re-interpreta” um resultado. Não é tanto a divulgação ao Público, é a maneira como se instrumentaliza a informação para procurar “ensinar” o Público, prescindindo do esforço de aprender com esse Público. No caso mais especifico das Eleições Americanas, como amplamente discutido, até aqui no vosso Blog, demasiada gente do “Beau Monde” falhou na pedagogia – e falharam á grande (inclusive eu…). “Interpretarem” estes resultados com as segmentações que refere não é esforço de racionalização – que exige ciência de maturação – é antes balsamo para doloroso estado d’alma.
        Lembro-me aquela linha de canção dos Prefab Sprout – “when love breaks down/the things you do/ to stop the truth from hurting you”. Se se ficar por aí, não há grande mal. O pior é quando os maus perdedores engendram mentiras de aldrabões para parir Geringonças e zurrar sobre “tempo novo”. Aí sim é que estamos tramados!

  2. A Esquerda pensa em Grupos. Porque é a tactica milenar de controlar comportamentos. É uma construção tribal.

    A pessoa não existe. Quem sai fora é dissidente, não é um verdadeiro preto(oreo), não é verdadeira mulher.
    O objectivo é tornar normativo um determinado comportamento.

    O resultado da lógica de Esquerda que domina o jornalismo Americano é que se arriscam a que os brancos também comecem a votar em bloco.
    Se existe a NAACP a prazo existirá a NAAWP. É inevitável.
    Os EUA são um dos países mais racistas, o mais perigoso deste racismo vem de Esquerda porque existe mainstream nos jornais de grande circulação para perpetuar os grupos raciais como fonte de poder do Partido Democrata.
    Isto terá sempre um grave custo.

    1. Lamentavelmente, acho que tem razão quanto à origem do enviesamento de análise que está subjacente a esta obsessão com a segmentação do eleitorado, Lucky.

  3. Há aqui três aspectos, penso eu, dois deles ligados.

    1) o voyeurismo habitual da população. Querer saber mais sobre os desejos e vontades do “outro”.
    2.1) as empresas de sondagens e jornalistas querem descobrir como erraram. Isso ajudá-los-à a melhorar.
    2.2.) as empresas de sondagens e jornalistas querem desculpar-se por terem errado, explicando que não foi culpa sua.

  4. Por uma vez discordo do RR. Gostaria de saber, por exemplo, a composição etária e sócio-profissional das pessoas que votaram no BE (assim, fico na crença de que foram menores de 25 anos que nunca trabalharam um dia na p*ta da vida), no PCP (enfim, esses acho que todos sabemos) e no PS (não posso dizer o que acho, senão aborreço a minha mãe, as minhas tias, os meus sogros e todos os demais aposentados por quem nutro enorme estima). Tenho a certeza absoluta que os partidos sabem perfeitamente.

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