Nada de extraordinário, aliás: a Austrália também concorre ao Festival da Eurovisão


Rui Rocha,

Pelo visto, a DBRS, por casualidade a única agência de rating que ainda resiste a colocar a credibilidade da dívida portuguesa abaixo de lixo três furos e permite, por consequência, que o Dr. Costa e os seus apaniguados entretenham os dias a amestrar vacas que juram poder fazer voar, fez saber que teme não poder continuar a dar asas à maluqueira se o Banco Novo for nacionalizado. Perguntada sobre o tema, a arguta Catarina Martins declarou, sem contemplações, que esta posição da DBRS (da DBRS, coitada, que nos tem aturado) sobre o Novo Banco é “uma chantagem europeia”. O facto de a DBRS (a DBRS, coitada) ser uma agência sedeada em Toronto, no Ontário, em pleno Canadá, não deve, obviamente, ser suficiente para Catarina Martins se desviar um milímetro da teia bem urdida de interesses inconfessáveis e diabólicos que engendrou na sua notável cabecinha. Mas lá que adiciona uma nota picaresca a esta bem esgalhada teoria da conspiração, colocando-a ao nível daquela outra que sublinha que a pizza é redonda, parte-se em triângulos e é transportada em caixas quadradas, lá isso adiciona. Resta esperar, portanto, que o Dr. Louçã, essa espécie de Jorge Mendes da política que se dedica a identificar os talentos que integram o plantel do Bloco de Esquerda, esteja atento. E se o Dr. Louçã não tem dúvidas que Mariana Mortágua está destinada a ser Ministra das Finanças (tivesse a História algum sentido da ironia e caber-lhe-ia juntar os cacos deixados pela bancarrota a que o Dr. Costa alegremente nos conduz) pode bem ser que um dia venha revelar-nos que a lúcida Catarina Martins terá à sua espera, mais cedo ou mais tarde, um lugar de Presidente da Sociedade de Geografia.

 

Moda homem: tendências


Rui Rocha,

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Para 2017, destacamos o regresso dos quadrados numa alegoria que faz referência subtil às grades e aos motivos prisionais, a aposta em acessórios que sublinham a ruralidade com alusão ao imaginário da lezíria e do campino e a entrada em força dos sleeveless jackets com volume. Os casacos, em geral, são oversized. A paleta de cores é arrojada, numa maravilhosa e desconcertante explosão pirotécnica que, num explícito piscar de olho ao universo feminino, recupera os tons rosa. O gender blending é agora assumido com indisfarçado atrevimento: em 2017, a tendência para a entrada do homem no desafiante terreno dos pompons e berloques é assumida sem reticências. No cabelo, a mitra substitui definitivamente o estafado coque masculino. Em contraponto, na praia, e num exercício de refinada ironia, retoma-se o imagináro “Quarteira anos 70” a que não falta mesmo a bolsa de cintura masculina (a famosa “paneleira”) para sublinhar o look operário, tudo numa clara alusão política ao rust belt responsável pela eleição de Donald Trump.

Novos contributos para a exegese da Doutrina Galamba


Rui Rocha,

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O deputado Galamba, que ainda ontem nos explicava com circunspecção que o governo não tem qualquer responsabilidade na evolução dos juros da dívida pública, anuncia-nos hoje no seu mural do Facebook, com mal contida satisfação, que esse mesmo governo é o exclusivo responsável pelos dados do desemprego e outras extraordinárias realizações ao nível do défice e do PIB e mais o camandro. Temos, portanto, contributos frescos para a compreensão da doutrina Galamba. Pegando na feliz expressão do próprio deputado, é como se este afirmasse que a homessexualidade e as drogas não desencadeiam tempestades mas que, em contrapartida, a ganza e a atracção por pessoas do mesmo género são efectivamente responsáveis pela previsão daquilo que, voluntarioso, entende serem boas abertas.

O pequenino lápis azul


Rui Rocha,

O espírito do nobelista vivia esgotadíssimo na Casa dos Bicos onde, como o próprio nome indica, a Pilar não lhe dava descanso. Decidiu, por isso, escapulir-se e refugiar-se nas profundezas mais recônditas do Convento de Mafra, junto mesmo às condutas do saneamento. Esperava, finalmente, encontrar um pouco de paz, ponto E encontrou-a. Encontrou-a, ponto e vírgula Encontrou-a até ao dia em que ouviu ao longe a voz aguda, estridente, de Pilar: “Joselito, iuuuuuuh! Sé qué estás aquí Joselito, iuuuuuh!”. O nobelista, em pânico, agarrou-se aos próprios carrilhões, lançou-se no vazio e, esta é uma vantagem dos espíritos, não partiu as pernas ao aterrar porque, como é sabido, os espíritos não têm pernas. E, com essas mesmas pernas que sendo espírito não tinha, deu às de vila-diogo, ala que é cardume, enquanto ouvia ainda na estridência abafada do vento: “Joselito, iuuuuuh!”. Os espíritos não têm pernas mas têm memória. E humanos que foram apesar de em essência já não serem, acabam sempre por procurar a natureza que melhor os define. O nobelista correu, portanto, esbaforido e sem pernas, para o DN. E desta vez não quis cá riscos que a estridência daquele “Joselito iuuuuh” ainda lhe fere aqui e agora o exacto sítio onde antes tinha os ouvidos. Nem prateleiras, nem arrecadações, nem condutas de saneamento. Rejuvenescido pelas memórias do DN, já cavalo à solta, longa crina esvoaçante, dentes afiados, com as veias a explodir como se as tivesse, puro-sangue, escolheu a vítima e entrou-lhe no corpo, ali exactamente onde devia estar e lhe faltava a coluna vertebral. O nobelista vive agora, espírito, no corpo de Paulo Baldaia. Faltam-lhe os carrilhões que tinha em Mafra, mas dispõe  de um pequenino lápis azul que o Menino Jesus deu ao Baldaia para ele brincar. Foi assim, ponto final

O agente propagador


Rui Rocha,

A disputa política não pode justificar atitudes demagógicas quando estão em causa questões de saúde pública. O país enfrenta um surto de gripe de dimensões assinaláveis? Pois enfrenta. E por isso mesmo não é o momento de investir as nossas energias no jogo do passa-culpas e do arremesso de responsabilidades. Mais à frente haverá oportunidade para discutir tudo isso. Agora, é o tempo de controlar o agente propagador.

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Entendamo-nos


Rui Rocha,

A descrição adequada para Mário Soares é a de um líder histórico e carismático da esquerda com contributos relevantíssimos para a liberdade e para a democracia que, durante o seu longo percurso político, cometeu vários erros. Infelizmente, gente atoleimada já a utilizou para referir-se a um ditador torcionário como Fidel Castro.

Diz-me como decides


Rui Rocha,

Insistir na comparação entre as condutas de Santos Silva e de João Soares para avaliar qual foi a mais grave é perder o essencial. O critério fundamental é o de António Costa. E para este nunca esteve em causa decidir em função do desvalor de ambos os actos. Pelo contrário, Costa guiou-se nestes casos, guia-se sempre, pelo critério da oportunidade. Com João Soares a circunstância deu-lhe a oportunidade para se desfazer de um ministro que lhe era incómodo. É por isso que as desculpas de João Soares nunca serviriam e as desculpas de Santos Silva são obrigatórias para que possa prosseguir. Mais do que avaliar João Soares e Santos Silva pelos seus actos, este episódio permite uma vez mais avaliar Costa pelas suas decisões.