“Homenagem póstuma a Manuel Pinho” (2)


André Couto,

"O Presidente russo Medvedev recebe o Presidente americano Obama, em Moscovo. Um encontro entre líderes russo e americano evoca inevitavelmente outros tempos. Em 2009 até se comemora uma data redonda: em Moscovo, 1959 (há meio século), o vice-presidente americano Richard Nixon (nas vésperas da sua candidatura falhada contra Kennedy) foi à capital russa, levando na bagagem uma mostra de produtos americanos. Havia uma Feira Mundial e Nixon passeou o líder russo Nikita Khruschev pela cozinha do pavilhão americano: a máquina de lavar Westinghouse, o frigorífico Frigidaire, o detergente Tide… Durante o passeio, Nixon ofereceu a Khruschev água suja do imperialismo, um copo de Pepsi-Cola. Ao ver fotos desse velho encontro, reparo que o poderosíssimo nº 2 do Estado americano não se importou de fazer de caixeiro viajante dos produtos do seu país. Por cá, o ex-ministro de Economia Manuel Pinho foi várias vezes ridicularizado por ter do seu cargo uma noção idêntica. Nixon e Pinho estavam certos. Mas, diga-se, o português tinha mais dificuldade em estar certo. Nixon fazia o que os governantes americanos fizeram sempre."

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias de ontem.

“Homenagem póstuma a Manuel Pinho” (1)


André Couto,

O julgamento de José Sócrates e Manuel Pinho que amiúde é feito revela a pequenez de pensamento de alguns dos nossos políticos e paineleiros. Foi brilhante a diplomacia económica que desenvolveram em conjunto. Algo nunca antes visto em Portugal. Não temos de ter vergonha de andar em todo o lado com o que é nosso, de aproveitar as mais pequenas oportunidades para dar destaque ao que de bom se faz em Portugal. Ao tempo tive oportunidade de escrever sobre isto.

Claro que a direita wannabe e a esquerda caviar ainda hoje gozam. Governar não é estar sentado no trono, é lutar a cada hora, a cada dia, nos vários terrenos que nos surgem. E quando o espírito é grande, a batalha faz-se onde cada homem quiser. No que me toca, acho que foram bravos guerreiros.

“Inesquecível!”?


André Couto,

 

 

(à saída de um hotel, em Madrid)

Jornalista: Ronaldo, o que quer dizer aos portugueses?

Cristiano Ronaldo: Quero dizer-lhes que foi um dia inesquecível para mim e para eles, pelo menos para os que gostam de mim.

 

Gosto de ti, Ronaldo. Foi como ter um filho. Melhor que ter um filho.

Assim não


André Couto,

Leonor Coutinho deu ontem nota da sua indignação, indignação que partilho. É inconcebível que seja em plena segunda semana de Julho, a dois meses das eleições, que se definam as regras para um ciclo eleitoral que há anos estava delimitado no tempo.

Um dos problemas que temos na política interna é a incapacidade de atrair bons valores e boa gente, esses amiúde apostam no privado onde não conhecem tanta exposição e são remunerados a um nível superior. Esta medida agora aprovada reforça essa incapacidade. A política no Partido Socialista deixa de ser algo previsível e aquilo que era verdade ontem passou a ser hoje mentira, o que é especialmente grave tendo em conta que se trata de opções de destino de vida e de carreira feitas por muita gente.

Não está em questão o mérito da decisão. Como já afirmei, concordo plenamente com a não permissão de duplas candidaturas. O Partido Socialista possui bons quadros, de sobra para enfrentar este ciclo e subsequente governação com sucesso. Para além disso é justificável, numa óptica de rejuvenescimento do Partido, a aposta em novos valores e credibilidade junto do eleitorado.

Situações que são iguais (Ana Gomes, Elisa Ferreira, Leonor Coutinho, Sónia Sanfona, por exemplo) estão a ser tratadas de forma desigual, sendo os critérios díspares e imprevisíveis. Se a alteração é feita posteriormente, no mínimo que se peça também a Ana Gomes e Elisa Ferreira que optem desde já pelo Parlamento Europeu ou pelos respectivos municípios.

Não é assim que se define um bom rumo interno e também não será em cima do joelho que se conquista a confiança dos portugueses.

Vasco Gervásio [1943-2009]


André Couto,

Ao longo da nossa vida há pessoas que nos marcam pela lição que são, pelo seu exemplo. O Vasco é uma das que me marcaram. Tive a sorte de o conhecer desde sempre, de receber dele lições que nunca esquecerei, de ouvir histórias impagáveis, daquelas que deixam roídos do inveja os miúdos quando olham para os heróis. O Vasco era um herói para mim, um exemplo de fair-play, alegria e solidariedade desinteressada. Custa muito. Coimbra perde sem dúvida encanto e alegria, nunca mais será igual. 

Perdemos o Vasco ontem à noite, mas ele sabe bem que é daqueles que não vão, que ficam para sempre, bem junto de quem o conheceu.

Até amanhã, Vasco!

 

(Breve biografia feita pelo Público e outra pelo nosso leitor António P.)

(também no CC)

Depois da Laranja Podre, a Foice Ferrugenta


André Couto,

De seu nome Hugo Vairinhos, é um homem muito conhecido na sua terra, Aljustrel. É natural, é Presidente do Sport Clube Mineiro Aljustrelense.

Em nada relevaria este homem na cena política nacional não fosse ter vindo hoje à TSF dizer que "Não foi entregue qualquer cheque, houve sim um patrocínio por parte da EDP, ou seja, material desportivo onde a mesma empresa fez o pagamento à fábrica, mas não chegaram a entrar valores na tesouraria do nosso clube".

Estou em crer que isto é ligeiramente diferente da verborreia solta pelos deputados Bernardino Soares e José Soeiro, parlamentares, claro está, daqueles que não mentem. Disseram os camaradas que "então o Ministro Manuel Pinho, assumindo a condição de cidadão, entregou ao clube um cheque de cinco mil euros da EDP" e que "utilizou o cargo e uma empresa que tutela para procurar contrapartidas da EDP".

Claro está que Bernardino Soares e José Soeiro vão ficar muito indignados com a mentira, vá, com a "partidinha" que pregaram os portugueses. Quero-os pelo menos tão histéricos como ficam quando acusam Sócrates de mentir.

 

(também no CC)

Laranja podre


André Couto,

O Presidente da República aderiu à famosa Política de Verdade. Farto de mostrar algo que não era e de vender uma imagem de Presidente de todos, cedeu ao apelo de Manuela Ferreira Leite e premeia-nos finalmente com o seu esplendor e transparência.

Veio hoje a terreiro criticar Manuel Pinho, indignado. Certo e justo. Mas… onde estava quando José Eduardo Martins mandou Afonso Candal para "o caralho"? Onde estava quando o mesmo José Eduardo Martins chamou "palhaço" a Afonso Candal e lhe disse que resolveriam as coisas "lá fora"? Não se passou tudo isto no mesmo espaço?

Mais, onde estava quando o deputado à Assembleia Legislativa Regional do Partido da Nova Democracia José Manuel Coelho foi impedido de entrar na Câmara para onde os madeirenses o elegeram? Onde ficaram as suas críticas quando Alberto João Jardim apelidou os deputados regionais madeirenses de "bando de loucos"?

O feitiço desfez-se e a viçosa pêra revelou aquilo que é. Fica a imagem recolhida.

Um reavivar de memória para acalmar algumas mentes (justamente) mais indignadas…


André Couto,


 

Adenda: Com este post não pretendo de forma alguma minimizar ou enquadrar a atitude de Manuel Pinho. O seu gesto é a todos os níveis condenável e injustificável. Não há pressão, conjuntura ou diálogo que justifiquem aquela atitude rude na Casa da Democracia. Manuel Pinho soube-o logo melhor do que ninguém e teve uma atitude digna demitindo-se.

Aqui quero apenas frisar que quem tenha protegido o deputado do PSD carece de legitimidade para criticar Manuel Pinho. Tão só.

Manuel Vilarinho, “O Equívoco”?


André Couto,

Fui um daqueles que, nas eleições disputadas entre Manuel Vilarinho e João Vale e Azevedo, fizeram fila até ao Colombo para terminar com aquilo que era a desonra constante do nome e dos pergaminhos do Sport Lisboa e Benfica. Votei Manuel Vilarinho porque ele era o rosto do recuperar da credibilidade perdida e do investimento no Sport Lisboa e Benfica como pessoa de bem. Pergunto agora a Manuel Vilarinho: onde param essas palavras, onde ficou essa atitude?

O pouco que restou depois do apoio público que, na qualidade de Presidente do Sport Lisboa e Benfica deu a um Candidato a Primeiro-Ministro (nem Valentim Loureiro ousou tanto), esfumou-se no dia em que em manifesta e frontal fraude aos Estatutos do Sport Lisboa e Benfica se demitiu, juntamente com os restantes membros dos Órgãos Sociais, para imediatamente anunciar a recandidatura.

Certamente terá consciência que toda esta situação nasceu das suas palavras logo após essa demissão. Bastaria o seu silêncio para que, pelo menos à luz da lei, pouco lhe pudesse ser apontado e nada provado.

Não contente com esse facto permite agora que se perpetue esta situação de terrível indefinição e de consequências por apurar. Como diz no comunicado que emitiu esta tarde "A Mesa da Assembleia Geral do Sport Lisboa e Benfica acabou de ser citada (…) para suspender a deliberação de aceitação da Lista A às eleições dos órgãos sociais marcadas para o dia 3 de Julho de 2009.". Deve Manuel Vilarinho saber que Portugal tem Justiça e Constituição. Consta mesmo que é licenciado em Direito. Uma decisão judicial ou obtém resposta pela mesma via ou é cumprida, jamais é respondida com um comunicado aos Sócios invocando que os Tribunais não mandam no Benfica. O único detentor de poder espiritual conhecido é o Ayatollah Ali Khamenei e apenas no Irão.

Merecem respeito a dimensão do Sport Lisboa e Benfica e a devoção ao Clube que os seu Sócios transpiram. Assuma os seus erros e resolva a questão. Assuma igualmente que a fraude aos Estatutos que anunciou na primeira pessoal, é algo que merece a suprema pena do afastamento do acto eleitoral. Permita que o Benfica siga o seu rumo.

Abra caminho para ser recordado como mais do que um equívoco. Seja, como chegou a ser, um Presidente histórico demonstrando que equívoco foi a impressão que deixou, que estas atitudes foram estranhamente semelhantes com o passado com que um dia rompeu.

 

(Também no E Pluribus Unum)

António Costa convida


André Couto,

 

António Costa promove amanhã, a partir das 18 horas, no Arquivo dos Paços do Concelho, um encontro com as pessoas que participam nas redes sociais para apresentar o balanço do mandato autárquico. É o reconhecimento do crescente papel destes meios e da sua importância na dinâmica que quer imprimir em Lisboa.

Estão todos convidados para este evento. A boa crítica e o bom elogio passam por ouvir o que todos têm a dizer.

Hoje Há Conquilhas, blog da semana


André Couto,

Chegou novamente a minha vez de indicar o blog da semana cá do burgo. Na primeira ronda, há uns meses, escolhi O Divagador, pela juventude e pela irreverência, por ser uma esperança da blogosfera actual.

Desta feita centro os nossos holofotes num blog com história e num blogger consagrado, o Hoje Há Conquilhas do Tomás Vasques.

Habituei-me desde cedo a ler o Tomás e a identificar-me com a sua postura, seriedade e coerência. Tenho-o como um exemplo. Por isso o destaco.

Ao Tomás Vasques deixo um abraço, a todos os outros o conselho de que redobrem as suas visitas ao Hoje Há Conquilhas.

Portugal e o PS: que futuro?


André Couto,

No meio das glorificações que li aos 32% do costume do PSD e à diabolização e morte anunciada "de uma era", li um texto do Rui Paulo Figueiredo, que faz um diagnóstico pragmático e real do que se passou nas últimas eleições e de qual deve ser o caminho a trilhar pelo PS.

 

"Os portugueses passam rapidamente do 8 para o 80 e vice-versa. É sabido! Na política não é diferente. Muita gente no PS considerava as eleições apenas o cumprir de calendário. Agora, estão derrotistas. No PSD, aguardava-se pela disputa eleitoral que se seguiria às eleições autárquicas e legislativas: vide Pedro Passos Coelho. Agora, unem-se em torno de quem só tinha defeitos e já se escolhem pastas, gabinetes e assessores. Ambas as percepções são, para mim, um exagero.

(…)

O terreno é ideal para o populismo e isso nota-se à esquerda do PS e no CDS. Um discurso entre os corruptos, capitalistas, exploradores, mentirosos, e os combatentes pela verdade, pela moralização, pelos direitos de todos a tudo. É uma linguagem moral e populista que é utilizada. Embora, por vezes, se oiçam algumas propostas interessantes. Como não notar, por exemplo, a diferença entre o discurso de Rui Tavares e outros dirigentes do Bloco?

Mas, se descontarmos os riscos de populismo e do providencialismo, que captam, por vezes, o descontentamento conjuntural, é natural que quem vá votar possa ter uma atitude madura e responsável no momento de decidir o seu voto para o governo do país e das autarquias. Ainda que deprimidos e pouco esperançados pela crise mundial, não acreditando nos políticos ou não esperando muito das propostas apresentadas (pelo que dizem nas sondagens e a abstenção demonstra) muitos dos portugueses esperam, penso eu, solidez, seriedade, confiança, segurança e credibilidade no governo do país. Factores que lhes permitam atravessarem a crise e, passada a tempestade, melhorar alguma coisa.

É um programa para tempos difíceis, mínimo mas racional, para os eleitores do "centro", que é onde a maioria dos eleitores está, mas que pode também captar a esquerda que quer continuar a transformar socialmente o país. Não acredito que o eleitor vá votar em grandes questões programáticas que possam traduzir grandes rupturas nem em listas de medidas por muito atractivas que elas sejam. Também não acredito em grandes e repentinas mudanças sem que pareça que o PS se esteja a negar a si próprio.

Acredito, sim, num reforço dessa solidez, seriedade, confiança, segurança e credibilidade face ao PSD e ao regresso ao passado de Manuela Ferreira Leite, Portas, Santana, entre outros. Acredito, também, na necessidade de um reforço da participação dos militantes do PS na vida interna do partido e nas suas decisões a par de um reforço da unidade e da inclusão de todos nas batalhas eleitorais que se aproximam. Não podemos fechar as estruturas em circuito fechado ou fazer listas com base em meras opções internas.

Acredito, igualmente, no corrigir de algumas propostas e/ou atitudes que têm sido contestadas reforçando a componente social e de procura do desenvolvimento económico, da qualificação dos portugueses e de abertura e transparência da vida democrática. O PS deve ouvir, compreender os reparos, ponderar as propostas alternativas e corrigir aquilo que o possa ser. Sem trair o rumo que tem seguido a bem do país, pois não se deve comprometer o futuro com vista ao curtíssimo prazo, mas sem ter a veleidade de deixar tudo na mesma.

Se o fizer e o souber explicar penso que o PS poderá ganhar as próximas eleições. Com muito trabalho, qualidade e unidade. E a certeza que a disputa será dura. Assim seja politicamente engrandecedora para a democracia portuguesa."

 

É este o diagnóstico e o futuro que tem de fazer o PS. Sem medo de olhar para trás e ver que o País não reagiu bem, perceber o que esteve mal, ler isso e traçar o caminho do futuro. Esta humildade é característica do PS e essencial ao construir firme de um País melhor.

Uma coisa está à vista de todos: será a decisão entre voltar a Manuela Ferreira Leite, Pedro Santana Lopes e Paulo Portas, ou seguir o caminho traçado por quem apagou os fogos quando tudo ardia, José Sócrates e António Costa, os mesmos que voltaram a dar dignidade ao País, que o souberam colocar à frente de tudo e lhe deram um rumo, um rumo digno mas mais que isso, um rumo ambicioso.

O suposto luxo privado e comprovada opulência pública


André Couto,

Dia 6 de Maio o PSD apresenta a sua lista às eleições europeias na "Sala Broadway de um hotel de cinco estrelas, com tanta pompa que a circunstância exigiu a melhor roupa de domingo, os perfumes mais activos, um teleponto à moda de Sócrates e Obama e um filme a relembrar Sá Carneiro. Mas que ninguém se iluda, Manuela Ferreira Leite não gosta de espectáculo. [declarações de Manuela Ferreira Leite] "Esta além de simbólica é uma cerimónia muito simples porque nós não gostamos de espectáculo".

No dia 7 de Maio, a primeira edição de um jornal ao qual ainda ninguém pode reconhecer nome ou credibilidade, porque isso surge com o tempo, fala numa loja onde eventualmente o Primeiro-Ministro comprará a sua roupa, descrevendo inclusivamente o modus operandi do estabelecimento.

De um lado está em questão o dinheiro e a prática de um partido, do outro a vida privada e o património de um Homem, coisa com a qual ninguém têm nada a ver. Quero ver por que ruas andará agora a coerência...

 

(Também no Câmara de Comuns)

Em cheio!


André Couto,

“Sou contra o Bloco Central. PS e PSD têm programas distintos, há uma inconciliação absoluta no plano político e ideológico. (…) Se o eleitorado não nos der a maioria absoluta, o PS deve assumir as suas responsabilidades políticas sozinho, com acordos de incidência parlamentar dependendo das matérias, nomeadamente o Orçamento do Estado”, Alberto Martins, líder parlamentar do PS.

 

Gostei desta intervenção de Alberto Martins.

Apesar de muitos não gostarem, era essencial ao País uma governação reformista e corajosa como esta foi. É desejável e justo que o PS tenha nova maioria, porque há muitas reformas por realizar e porque provou ser um partido responsável e corajoso no seu uso. 

No entanto a tónica não deve ser colocada na renovação dessa maioria e muito menos num absurdo e contranatura bloco central. Se o Povo renovar a maioria absoluta, tanto melhor aos interesses do País, caso contrário o PS deve governar com acordos que se firmam ao longo da governação.

Admitir frontalmente a hipótese de governar sem maioria é igualmente honrar a história e o ideário do partido.