No meio das glorificações que li aos 32% do costume do PSD e à diabolização e morte anunciada "de uma era", li um texto do Rui Paulo Figueiredo, que faz um diagnóstico pragmático e real do que se passou nas últimas eleições e de qual deve ser o caminho a trilhar pelo PS.
"Os portugueses passam rapidamente do 8 para o 80 e vice-versa. É sabido! Na política não é diferente. Muita gente no PS considerava as eleições apenas o cumprir de calendário. Agora, estão derrotistas. No PSD, aguardava-se pela disputa eleitoral que se seguiria às eleições autárquicas e legislativas: vide Pedro Passos Coelho. Agora, unem-se em torno de quem só tinha defeitos e já se escolhem pastas, gabinetes e assessores. Ambas as percepções são, para mim, um exagero.
(…)
O terreno é ideal para o populismo e isso nota-se à esquerda do PS e no CDS. Um discurso entre os corruptos, capitalistas, exploradores, mentirosos, e os combatentes pela verdade, pela moralização, pelos direitos de todos a tudo. É uma linguagem moral e populista que é utilizada. Embora, por vezes, se oiçam algumas propostas interessantes. Como não notar, por exemplo, a diferença entre o discurso de Rui Tavares e outros dirigentes do Bloco?
Mas, se descontarmos os riscos de populismo e do providencialismo, que captam, por vezes, o descontentamento conjuntural, é natural que quem vá votar possa ter uma atitude madura e responsável no momento de decidir o seu voto para o governo do país e das autarquias. Ainda que deprimidos e pouco esperançados pela crise mundial, não acreditando nos políticos ou não esperando muito das propostas apresentadas (pelo que dizem nas sondagens e a abstenção demonstra) muitos dos portugueses esperam, penso eu, solidez, seriedade, confiança, segurança e credibilidade no governo do país. Factores que lhes permitam atravessarem a crise e, passada a tempestade, melhorar alguma coisa.
É um programa para tempos difíceis, mínimo mas racional, para os eleitores do "centro", que é onde a maioria dos eleitores está, mas que pode também captar a esquerda que quer continuar a transformar socialmente o país. Não acredito que o eleitor vá votar em grandes questões programáticas que possam traduzir grandes rupturas nem em listas de medidas por muito atractivas que elas sejam. Também não acredito em grandes e repentinas mudanças sem que pareça que o PS se esteja a negar a si próprio.
Acredito, sim, num reforço dessa solidez, seriedade, confiança, segurança e credibilidade face ao PSD e ao regresso ao passado de Manuela Ferreira Leite, Portas, Santana, entre outros. Acredito, também, na necessidade de um reforço da participação dos militantes do PS na vida interna do partido e nas suas decisões a par de um reforço da unidade e da inclusão de todos nas batalhas eleitorais que se aproximam. Não podemos fechar as estruturas em circuito fechado ou fazer listas com base em meras opções internas.
Acredito, igualmente, no corrigir de algumas propostas e/ou atitudes que têm sido contestadas reforçando a componente social e de procura do desenvolvimento económico, da qualificação dos portugueses e de abertura e transparência da vida democrática. O PS deve ouvir, compreender os reparos, ponderar as propostas alternativas e corrigir aquilo que o possa ser. Sem trair o rumo que tem seguido a bem do país, pois não se deve comprometer o futuro com vista ao curtíssimo prazo, mas sem ter a veleidade de deixar tudo na mesma.
Se o fizer e o souber explicar penso que o PS poderá ganhar as próximas eleições. Com muito trabalho, qualidade e unidade. E a certeza que a disputa será dura. Assim seja politicamente engrandecedora para a democracia portuguesa."
É este o diagnóstico e o futuro que tem de fazer o PS. Sem medo de olhar para trás e ver que o País não reagiu bem, perceber o que esteve mal, ler isso e traçar o caminho do futuro. Esta humildade é característica do PS e essencial ao construir firme de um País melhor.
Uma coisa está à vista de todos: será a decisão entre voltar a Manuela Ferreira Leite, Pedro Santana Lopes e Paulo Portas, ou seguir o caminho traçado por quem apagou os fogos quando tudo ardia, José Sócrates e António Costa, os mesmos que voltaram a dar dignidade ao País, que o souberam colocar à frente de tudo e lhe deram um rumo, um rumo digno mas mais que isso, um rumo ambicioso.