Hoje é dia de pensarmos naqueles países onde ninguém pode votar


Pedro Correia,

Nunca me tinha acontecido. É meio-dia e meia, como de costume ando na rua em manhã de domingo, e preparo-me para rumar a casa quando só então me lembro que estamos em dia eleitoral. Isto diz muito sobre a falta de motivação para participar nesta consulta destinada a escolher os nossos próximos 21 representantes no Parlamento Europeu.

Lá me encaminho para o bairro de São Miguel, um dos mais acolhedores de Lisboa, que visito sempre com gosto em dias de chamada às urnas, temperado por uma saudável dose de inveja: bem gostaria de viver aqui.

Na escola básica, secção n.º 3, exerço o direito de voto. Tudo quase vazio, em ambiente de modorra dominical: ninguém diria que hoje é jornada de mobilização cívica. Encontro duas ou três pessoas conhecidas, muito menos do que é costume: fala-se da conquista da Taça pelo Sporting, dos petiscos que apetece ir provando, do calor que já aperta.

Exerci um direito, cumprindo um dever: revejo-me nesta dicotomia e sinto-me incapaz de justificar o discurso pró-abstenção que por aí campeia. Como se fosse indiferente à cidadania sermos ou não representados por dirigentes que resultam do sufrágio universal.

Neste dia, pensemos nas regiões do planeta povoadas por centenas de milhões de pessoas a quem é negado o direito ao voto. Pensemos nas ditaduras que ainda dominam vastas extensões do mundo. Em países como China, Síria, Irão, Bielorrússia, Guiné Equatorial, Coreia do Norte, Azerbaijão, República “democrática” do Congo, Arábia Saudita, Vietname, Argélia, Cuba ou Usbequistão.

É quanto basta, creio eu, para nos motivar a exercer o voto. Seja qual for a nossa escolha.

0 comentários em “Hoje é dia de pensarmos naqueles países onde ninguém pode votar”

  1. Excelente, Pedro!

    Acabei de comer um bacalhau cozido e não tarda vou votar. Enviarei uma fotografia do boletim ao jpt, como prova de que não votei BE…embora também não consiga votar PSD…o jpt já me convenceu a não votar Marisa Matias…irei votar em Paulo Morais.

    Tudo de bom

          1. Tem toda a razão Pedro, o PAN é extremamente (c)onservador e (t)ribalista.

            WW

          2. O PAN, embora necessário, é globalmente constituido por gente frustrada, que procura nos animais, o que só se encontra nas pessoas (Amor). Há um certo misantropismo/lunaticismo num eleitor tipo deste partido, como também há uma certa limitação intelectual -tirando o seitan, tofu, cães/gatos e energia verde, não fazem a mais pálida ideia sobre A Politica e o Mundo.

          3. O PAN é, até mais ver, mero sucedâneo de Marinho e Pinto.
            Com uma diferença: em 2014 o MPT, que então funcionou como barriga de aluguer de Marinho, obteve 7,14%, correspondentes a 234 mil votos. Agora os animalistas conseguiram 5,1%, com 168 mil votos.

  2. Não me diga que ainda credita que o voto vale alguma coisa!

    Portanto você fica contente por escolher quem vai tomar decisões por si sem o consultar para nada e poderá fazer tudo contra a sua vontade.

    Há várias coisas erradas e mesmo graves que deviam mudar, e para isso o voto não vale nada.

    Acordem que andam iludidos e temos um atraso civilizacional grave.

    1. Quem permite que outros tomem decisões por si é você. E todos os que, podendo, não se deslocaram às assembleias de voto.
      Raio de opção essa, a de ficar em casa. Ou a chinelar num centro comercial.

  3. Que medo têm os fieis da religião política se as pessoas forem felizes sem política…

    Lugares vagos na assembleia para abstenção, votos brancos e nulos.
    Assim fica logo explicito quantos precisam de política e do enorme poder com que os fieis da religião se arrogam.

    Lembrar que as maiores mortandades do séc.XX foram causadas por pessoas que acreditavam piamente na política como explicação para o mundo.

    lucklucky

  4. É pena que na União Europeia só votemos na parte folclórica, o PE.

    Os órgãos que verdadeiramente mandam como a Comissão, o BCE, o Eurogrupo, têm as chefias cozinhadas em conferencias de líderes e não respondem perante os órgãos eleitos.
    Um pouco como se cá o primeiro ministro e o presidente fossem escolhidos pelas direções partidárias e o Banco de Portugal não tivesse de responder perante ninguém eleito mas fosse ele quem determinava o que se gastava nos OE.

    Uma democracia coxa. Claro que é melhor que nenhuma, mas não deixa de ser hipócrita.

    1. Você anda muito desactualizado.
      Hoje votámos para o Parlamento Europeu, que elege (por maioria absoluta) o presidente da Comissão Europeia). Além deste, também todos os comissários europeus e o chamado “Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros” necessitam do voto maioritário do hemiciclo em Estrasburgo.
      Alguns candidatos a cargos de comissários já foram forçados a desistir dos cargos, confrontados com avaliações negativas.

      Se nada disto lhe serve, indique-me onde há melhor.

    1. Infelizmente, Bea, mais de dois terços dos nossos compatriotas “votaram” na abstenção. Muitos deles devem bater várias vezes no peito a reclamar “mais direitos” e “mais cidadania”.
      Dizem uma coisa, praticam outra.

  5. Com 70% de abstençāo, o infinito tempo de antena dedicado às eleições é mais um rombo que o regime inflige nos orçamentos das televisões.
    Mais uma vez, a RTP2 é muito mais honesta e transmite futsal…
    De facto, se a gente não vota, muito menos quer este triste espetáculo televisivo.
    Com 70% de abstenção, isto a que fraudulentamente chamam democracia não passa de uma fraude. Confunde -se até com uma qualquer ditadura, uma vez que o povo não a quer exercer e, por isso, lhe é imposta.
    Com 70% de abstenção, qualquer regime decente e com o mínimo de respeito pelo povo pararia para pensar.
    Em vez disso, querem uma aposta em como nada vai mudar?!
    Tal qual como se houvesse 70% de votação!…
    Querem melhor prova de prepotência?
    João de Brito

  6. Daqui a pouco vai começar a dança do costume. Todos vão clamar vitória. Com abstenção nestes valores não há vitória. Mas os partidos vão continuar a negar o óbvio, e o óbvio vai-se repetir até haver uma implosão. Por enquanto lá vão elegendo os seus, e tanto faz que seja por um milhão de votos ou por mil – mas há algo profundamente errado.
    Por mim, muita gente que conheço e não teve tempo, a um domingo, de perder um quarto de hora, está tramada comigo. Estou farto do desporto nacional que é não mexer uma palha e passar cinco anos a queixar-se de que isto assim não pode ser. Cada vez que começar a lamúria vão ouvir das boas.

  7. Um pensamento igual ao que diz que o contrário de estar vivo é estar morto.
    Uma derrota em toda a linha para os “liberais democratas”, seja pelos resultados com ou sem abstenção.
    Insistir nas políticas que nos trouxeram a este ponto, só pode redundar em maior desastre mas talvez seja esse o objectivo …

    WW

    P.S. – O Pedro Correia lembra aquelas pessoas que se dão por satisfeitas por terem UM pão por dia e temerem perdê-lo lembrando-nos quem não tem nenhum, em vez de pensar em ter DOIS ou mais, que é o tipico raciocinio de quem não pretende evoluir, se assim pensassem, os nossos antepassados teriam ficado nas cavernas.

    1. Você adora ver filmes ao contrário.
      O seu idolatrado Rui Rio acaba de sofrer uma derrota em toda a linha. Mais de 11 pontos atrás do PS. O pior resultado de sempre na história do PSD.

      1. O Pedro Correia terá de fazer um post á parte sobre isso, decerto não tardará.
        Tal como os xuxas, o que conta para a vitória é aliança dos derrotados face ao vencedor.

        WW

        P.S. – Não tenho idolatria por ninguém, só sei para onde não vou…

          1. Um partido unipessoal que provavelmente não passa de Outubro, partindo do princípio que lá chega.

            WW

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