A abstenção eleitoral


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Ainda a tarde mal começou e já leio vários lamentos sobre a quantidade de abstencionistas, o alheamento e a ignorância dos eleitores face a estas (e outras) eleições. Quereis combater a abstenção? Depurai-vos de essencialismos, de purismos sobre a política. E que cada votante – após ter cumprido o seu direito cívico (e não dever cívico, como palram os estatistas) – receba um simpático (e parco) vale de compras oferecido pelas empresas das “grandes superfícies”. Vereis como a abstenção cairá, e muito significativamente.

0 comentários em “A abstenção eleitoral”

        1. Vasta discussão essa, sobre o que é “acção” e “reacção”. Seria bem fazê-la, mas não na caixa de comentários de um postal que é uma mera “boca”.

  1. Desculpe, jpt, mas é a Constituição que consagra o direito de sufrágio como dever cívico. Talvez porque ser democrata implique não apenas usufruir da democracia mas também participar – é para isso que há o voto em branco. (e aqui sou a favor da introdução das quadrículas “nenhuma das opções” e “não concordo com o regime”).

    Concordo que no curto prazo a chamada às urnas só tem resposta mexendo no bolso dos cidadãos – mas vou mais por uns adicionais aos benefícios fiscais. Isto de chamar as grandes superfícies ao barulho implica concurso público e já estamos vacinados, não?

    1. a tal constituição também nos obriga (ou obrigou) a ir para o socialismo, escrita que foi por constitucionalistas (alguns tão ilustres que até de quando em vez se candidatam a eleições europeias) que consideraram haver portugueses de primeira e de segunda, e o inscreveram na lei.
      a expressão dever cívico é uma patetice (defendida por alguns desses execráveis funcionários, que até reclamavam pelo voto obrigatório) iletrada – que dever pode haver se não há punição para o seu incumprimento. Há uma recomendação de voto, sublinhada pela vácua formulação, nada mais do que isso. Uma coisa ignra, indigna, pois colocada na lei fundamental

      1. Não está em causa quem a colocou ou deixou de colocar – a CRP já teve várias revisões e lá continua, portanto presume-se que está bem para o poder político e, por representatividade, para nós.

        Por outro lado, não rebate a questão de a democracia exigir participação, pelo que concluo que o problema do dever cívico vem de não haver punição, como aliás refere. Assim, a patetice não recairá sobre o dever mas sobre a ausência de controlo deste dever – uma questão de contrato social.

        Tenho para mim que a maior parte das pessoas não se preocupa com o regime desde que as deixem ter algum conforto – uma das leituras que extraio da abstenção. Se assim for, poderá o dever cívico estabelecer a fronteira entre a democracia e a oligarquia. Estamos em cima da linha.

        1. “Dever cívico” é uma formulação pateta, paternalista, estatista. E incompetente. A constituição é uma lei, não tem que botar éticas. Os deveres são-no porque implicam uma punição. A constituição lembra-me que eu tenho um dever (Moral, ético, como se preferir)? Vão o candidato socratista, o premiado Canotilho, o sacro Jorge Miranda, e respectivos colegas, penitenciar-se pelos deveres que não cumprem e deixem-me e aos meus compatriotas em paz

          1. Mas a constituição define éticas, as relações entre poderes e perante os cidadãos não se definem apenas por leis.

            Que seja paternalista, é uma opinião – vejo-o antes como o atestar da liberdade de opção enquanto estipula que a democracia exige participação. Exige, distinto de obriga.

          2. Isso é retórica. A constituição, que não leio há décadas (li-a parcialmente no liceu), não é documento que me diga como me devo comportar. Os especialistas de ciências sociais (vertente jurídicas) terão decerto imensos argumentos e hábil retórica para contestar a visão do leigo: mas de facto trata-se de documento que não me dá lições existenciais. Como tal esta formulação está poluída de uma pedagogite inadmissível. O voto é obrigatório, possível ou proibido. Os cidadãos ou são obrigados ou são proibidos ou são possíveis eleitores. O resto é conversa.

          3. Invertendo o ónus, uma vez que a acusação é sua, eu sou leiga e de ciências mas não sociais: como traduziria na lei fundamental o compromisso entre democracia e liberdade de opção?

          4. Não fiz qualquer acusação. No que entendo a sua pergunta – relativa ao assunto pretérito – é simples: o voto é um direito cívico.
            E não vou continuar a chover no molhado sobre a questão.

          5. Certo.
            Mas fico com curiosidade sobre como entende o voto, possível ou obrigatório e, se possível, como traduziria tal na Constituição – sabendo que esta não prevê nenhum mecanismo de auto-alimentação e que isso tem conduzido à sua inanição, 30% de votantes.

            Desconfio que o tema será recorrente, vêm aí mais dois actos eleitorais.

          6. Eu acho que está mais do que explícito no que fui botando: é um direito cívico. É possível. Não aceito a obrigatoriedade, o Estado não me pode obrigar a ir votar (aqui na Bélgica é obrigatório, no Brasil também é, não me convence). O Pedro Correia já chamou a atenção – a abstenção real deve ser um pouco menor, dado que os cadernos contém cidadãos entretanto mortos.

            A questão da extrema abstenção nestas eleições tem a ver com factos que não são exactamente ligados à logística eleitoral, ainda que conte: se se vir a queda do PCP toda a gente fala em transferência de votos. Mas é um eleitorado muito envelhecido, porventura muitos morreram – e disso fala-se – mas muitos estarão com mobilidades reduzidas (desse partido e noutros). Assembleias de voto ambulatórias nos lares de terceira idade? Em zonas onde as juntas de freguesia identifiquem núcleos envelhecidos?

            Outra coisa é o vazio. Noutro postal sobre a opacidade das instituições europeias. Os portugueses aceitam a “Europa” como uma necessidade, uma fonte de rendimento mas não a conhecem – as instituições não se dão a conhecer e os partidos também não o fazem. E não é um “debate” televisivo desinteressante entre deputados no mundo televisivo pós-Baião que impulsiona isso.

            E depois há o desinteresse pela política e pelos seus líderes. Com toda a certeza que houve gente que se absteve por desinteresse nos líderes dos partidos preferidos – Rio não entusiasma, Cristas também não, Sousa enfim … (e os comunistas não vão votar no PS, se desiludidos resmungam e ficam em casa).

            Nas eleições “a sério” a abstenção baixará para os valores normais, 1/3 da população não vota – parte disso são os mortos, outra parte são os doentes e envelhecidos, outras os auto-excluídos sociais, há os emigrados, há os migrados (que não vão à “santa terrinha” – mesmo que seja uma “santa terrinha” no interior das grandes Lisboa e Porto – para votar). Outra parte são aqueles que vêm as histórias do Berardo e da GNR a pescar devedores na estrada e clamam (passe o plebeísmo) “estes tipos que se fodam”. Que é, neste último caso, aquilo que eu penso. Junte-se a isso as fracas figuras que lideram, mais as paupérrimas segundas figuras (o secretário-geral do PSD, uma coisa tétrica) que dão para menorizar os “políticos”, e a gente não vota.

            Ou seja, sim, há medidas para reduzir a abstenção. Algumas administrativas: o voto electrónico (mesmo que não domiciliário) – isso permitiria votar em qualquer assembleia de voto, remetendo o voto para o local de recenseaemento, é inacreditável como não existe ainda; as estações junto de onde a população se concentra nesses domingos; nos sítios de trabalho; fazer mais dias de eleição (2/3); os tais pequenos benefícios fiscais e/ou administrativos que V, propôs (de facto a única medida que me parece relevante do seu postal).

            Mas, na realidade, a abstenção advém das fracas figuras (primeiras e segundas) que vêm propôr-se

          7. Não pode apenas dever-se às fracas figuras que se propõem, ou haveria renovação e surgiriam alternativas com abundância. Daí todas as leituras serem possíveis e a auscultação se me afigurar necessária.

            Nem falo do voto electrónico, pois se por um lado facilitaria a mobilidade por outro suscita-me sérias dúvidas num país onde a segurança cibernética é reduzida – e havendo comunicação de dados com recurso a rede externa, a inviolabilidade dos mesmos fica comprometida.

            Nas eleições “a sério” que elegeram Marcelo Rebelo de Sousa, a abstenção foi de 52%.
            Nas autárquicas, foi de 45%. Desconfio que esteja a encarar a abstenção com optimismo, mas ficarei feliz se for eu a pessimista.

          8. Talvez esteja a ser algo optimista Mas sobre este assunto convirá ouvir o que os especialistas (os tipos que realmente interpretam os números) dizem E ainda não li nada – não procurei. Ver as constituintes da abstenção e dos votantes. Quanto à abstenção – as presidenciais estavam decididas, sem verdadeira oposição Isso afasta candidatos.

          9. Não há maior proximidade do que com autarcas, e a abstenção foi de 45% – o que permite questionar a tal identificação, proximidade, que o jpt diz eventualmente existir entre eleitor e representante de círculo

            Quanto aos homens dos números, jpt, é mais fácil medir e diagnosticar uma ocorrência do que uma não ocorrência, como o é a abstenção.
            Aguardemos, que mais não podemos fazer.
            Mas gostaria de ver aplicadas medidas para contrariar estes números já em Outubro, acima de 35% a abstenção fragiliza a nossa (tão pouco) representativa democracia.

      2. Depois de discutir a abstenção em vários postais, alguns meus e alguns de outros, decidi compilar num postal matéria que previa abordar noutro blogue que não o Sarin.
        Convido-o a visitar, pode ser mais uma base de discussão sobre o tema.

        https://sarin-nemlixivianemlimonada.blogs.sapo.pt/para-acabar-de-vez-com-a-cultura-da-86063

          1. Já vi, obrigada.
            Responderei mais logo – são várias questões e que exigem mais tempo do que aquele de que disponho de momento.

  2. Às 19h07m a FN (Frente Nacional) está com uma estrondosa vitória e o partido separatista da Catalunha elegeu vários deputados ao parlamento europeu.

    1. Pojecção Portugal: PS com 30 a 34% (ao contrário dos 38% que davam), PSD 20% e 24% (melhora nas projecções anteriores)e BE 9 a 12% é a terceira força política portuguesa no parlamento, CDU 7 a 9%,Marinho Pinto pode não ser eleito. CDS elege 1 a 2 deputados, é o grande derrotado.

      Orban é o grande vencedor.

  3. 19H35: Projecções dão vitória da Nova Democracia na Grécia sobre o Syriza.
    Abstenção em Portugal, as projecções europeias dão um intervalo entre os 66% e os 70%
    Em Espanha vence o PSOE e o PP sofre enorme derrota. A extrema direita do Vox entra no Parlamento.

      1. Deixando de lado o facto de que votar livremente é o seu próprio bónus, você acha que teria mais efeito motivador um vale de 1€ a cada eleitor, ou um euromilhões a sortear pelos votantes?

  4. A abstenção diminuiria, mas a qualidade do voto também. As pessoas votariam ao calhas, só a pensar no prémio que iriam receber.

        1. Também… mas continua a haver quem arranje carrinhas para levar o pessoal de passeio às urnas e quem distribua hóstias entre nomes e améns, portanto há sempre espaço para desconfiar do voto em consciência – e isto sem entrar na volubilidade associada ao discurso “mas eles obedecem é ao partido (ou ao governo regional ou ao outro lado do partido)”.

          1. Se o transporte fosse inocente, também estranharia. Mas como assisti – sim, assisti – a boleias que, à saída das carrinhas, perguntavam “então qual é o quadradinho em que é para por a cruz?” e “Não se esqueça, é no segundo!”

            Depois disto, acredite que comecei a criticar.

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