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Voltei ontem à Feira. Desta vez só em busca de livros muito baratos. Rondei a zona dos alfarrabistas, dos volumes em segunda mão. Que muitas vezes – demasiadas vezes – estão como novos.
Trouxe de lá um Proust – Os Prazeres e os Dias – por apenas três euros, preço de duas imperiais. Em estado impecável. Obra da Editorial Estampa, que deixou um rasto de nostalgia junto dos leitores.
Outro com a mesma etiqueta já desaparecida foi o primeiro volume do romance Milagre Segundo Salomé, obra que andava há anos a perseguir sem sucesso – e à qual já me tinha referido aqui. Ei-lo finalmente nas minhas mãos, por cinco euros. Fica só a faltar-me o segundo.
Reparo: está como se tivesse acabado de sair do prelo. Interrogo-me como é possível. “Veio há dias do nosso armazém”, esclareceu-me a senhora do pavilhão. Arrecadado em armazéns em vez de disponível nas livrarias: eis o triste destino de um dos melhores prosadores portugueses do século XX.
Que mais?
A quarta edição de Felizmente Há Luar!, o célebre texto dramatúrgico que Luís de Sttau Monteiro editou originalmente em 1961 e só viria a ser representado após o 25 de Abril. Custou-me também cinco euros, esta versão da extinta Portugália com magnífica capa do pintor João da Câmara Leme. Igualmente imaculada, apesar de datar do início da década de 60. Um selo colado no interior informa-me que o exemplar foi adquirido na Tabacaria Central, em Torres Novas. Provavelmente já não existe.
Trago outra obra que há muito procurava: os dois grandes volumes de E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell, chancela da Estampa. Estão como novos. O primeiro com 631 páginas, o segundo com 638.
Custam-me dez euros. Só.
Finalmente, e por cinco euros, adquiro Agosto Azul, de Manuel Teixeira Gomes. Contos do prosador que foi também Presidente da República, aqui na terceira edição, de 1958 – a original surgiu em 1904. Outro livro em estado impecável, que teve a particularidade de ser propriedade de António José Forte (1931-1988), um dos nossos mais destacados poetas surrealistas, pertencente ao célebre Grupo do Café Gelo, juntamente com Cesariny, Manuel de Lima, Herberto Helder, Ernesto Sampaio, Helder Macedo, António Barahona e Mário Henrique Leiria.
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Questiono-me que voltas terá dado este objecto até me chegar às mãos. Enquanto reparo na bem legível assinatura, aqui reproduzida.
Só por si, vale mais do que o livro me custou.

Parece que este alfarrabista tem a primeira edição dos dois volumes do livro “O Milagre Segundo Salomé”: http://www.bibliofeira.com/livro/3276086 61/o-milagre-segundo-salome-1-edicao-197 4/.
Vou indagar já. E muito lhe agradeço
Três euros é “o preço de duas imperiais”?! na minha zona compra-se três, e nalguns casos até cinco imperiais com três euros! E nem é preciso escolher muito o local onde elas sejam servidas!
Não duvido.
Expressei-me mal. Refiro-me a preços da própria Feira do Livro de Lisboa.
Ainda dizem que a gente não tem cultura, como é que a malta pode ser culta se duas bejecas na feira custam três euros.
Se for “cerveja artesenal”, agora tão na moda, são 2,5 euros por copo.
E tem muita saída. Até junto daqueles que se queixam de os livros serem “muito caros”.
Caro Pedro,
Partilhamos a mesma paixão, a dos livros, a outra é uma Fé.
Possuo vários exemplares autografados e com dedicatórias, entre eles, um livro sobre a metodologia do planeamento de treinos em futebol, oferecido pelo autor, com uma extensa dedicatória, a um tal José Sócrates, secretário de estado do desporto, comprei-o por tuta e meia.
Livros novos, livros usados, jornais, revistas, recortes de jornais, enfim coisas que nos dão prazer mas que a longo prazo se transformam numa grande dor de cabeça, principalmente, quando precisamos de fazer mudanças.
Forte abraço e boas leituras
Partilhamos sim, Pedro.
Eu tenho resolvido esse dilema fazendo ofertas periódicas a bibliotecas de freguesias mais carenciadas e a lojas de pessoas amigas que comercializam livros em segunda mão.
A triagem impõe-se, a partir de certa altura. E embora eu tenha livros distribuídos por duas casas sei muito bem como isso é um problema.
Claro que há livros que me acompanharão sempre – desde logo aqueles que tenho sublinhados por estar em permanente diálogos com eles. A Bíblia, Os Lusíadas e Os Maias à cabeça.
E vários que tenho autografados. Como este que hoje refiro ou um outro de Augusto Abelaira de que falei há dias.
Abraço amigo.
Pedro,
Uma das minhas cegueiras foi a colecção de contos piliciais de Ross Pynn editados pela editora Ibis nos anis 60. Cobsegui aduirir is que me faltavam através da OLX onde tenho encontrado muitos livros antigos, especialmente BD.

Boas escolhas.
Obrigado, meu amigo.
A tua sugestão fez-me lembrar a XIS – belíssima colecção de policiais. Julgo que o director dessa colecção foi Dinis Machado, o autor de “O Que Diz Molero”.
Tenho alguns – mas poucos. Graficamente, eram excelentes. Com capas desenhadas, em fundo negro.
Do Ross Pynn também tenho alguns. E outros do Dennis McShade.
Abraço.
Sobre a “Tabacaria Central” de Torres Novas, há uns anos ela tinha mudado de nome, quando um anterior proprietário faleceu. Não sabemos, porém, se neste momento ainda existe (com um novo nome).
Mas uma pequena questão – porquê esse fascínio que muita gente tem com o “Felizmente Há Luar”?
Tenho um fascínio por edições antigas, a preços baratos.
Quanto à obra, não a conheço – daí tê-la comprado. Embora considere que as peças são para ser vistas em representação cénica, não propriamente para serem lidas.
Do autor li na adolescência dois livros de que gostei muito: “Um Homem Não Chora” e “Angústia Para o Jantar”.
Obrigado pelo esclarecimento. Convém explicar o contexto – essa obra era, pelo menos até há uns anos (não sabemos se ainda se mantém actualmente), de leitura obrigatória no ensino secundário, mas nunca encontrámos absolutamente ninguém que gostasse dela. Se são raras, por exemplo, as pessoas que gostam dos “Lusíadas” que leram em tempos de escola, e algumas mais até gostam dos “Maias”, nunca conseguimos localizar UMA que tivesse gostado da obra em questão. Daí a curiosidade na questão, por estes lados pensámos que já a conhecesse e tivesse especial gosto por ela!
Tenciono lê-la em breve. No meu tempo de estudante não era leitura obrigatória – nem andava lá perto. Para as aulas do liceu li ‘Os Lusíadas’, ‘Os Maias’, as ‘Viagens na Minha Terra’ e mais alguns livros – hoje totalmente esquecidos, como ‘Bonecos de Luz’, de Romeu Correia.
o Pedro parece, aqui, outro.
Desde logo nao é comum as pessoas admitirem procurarem livros baratos (coisa que fiz durante anitos ) , e a forma como fala nos preços ( e tambem nos livros ) é, é, está a faltar-me uma boa palavra…contagiante, nao, nao é isto que quero dizer, quero dizer que acrescenta humanidade a um Autor, pois o Pedro, que ás vezes suscita duvidas.
Ainda soma, o episodio daquela assinatura no livro, qual criança a quem saiu o cromo mais dificil da colecçao.
E a alegria foi tanta que , desta vez, nem viu ninguem.
Desta vez posso garantir que o Presidente da República não andava por lá. O que facilitava a locomoção.
Fui menos pelo passeio e mais em procura de livros como estes, alguns dos quais já procurava há muito. É do que mais gosto na Feira: das chamadas pechinchas. E não me importo nada que sejam livros em segunda mão, desde que estejam em relativo bom estado. Há vários anos que a maioria dos livros que compro são mesmo assim.
Gostei de ver a inesperada assinatura de António José Forte no ‘Agosto Azul’, de Teixeira Gomes. Hoje as bibliotecas privadas são vendidas ao peso pelos herdeiros, quando desmancham casas, e muitas vezes ninguém se apercebe do valor específico que um autógrafo pode ter. Nem quem vende, nem quem compra.
mas, estamos a falar de livros.
Memoria de um livro mais barato que qualquer, um livro avulso e desconhecido , mas cuja leitura tenha marcado o Pedro ?
Lembro-me, por exemplo, de um livrinho antigo – quase um opúsculo – de Agostinho da Silva intitulado “Vida de Lincoln”. Incluído numa série de biografias julgo que dos anos 50 lançada pelo pensador e pedagogo para uma campanha educativa. Dele li também, na mesma série, biografias de Zola, Benjamin Franklin e Leonardo da Vinci.
Andam ainda aí, em alfarrabistas.
tá bem. Mas nao me terei explicado exactamente bem. E se calhar vou continuar a nao conseguir. Mas estava a pensar em algo do genero : encontrei um livrito esquecido no metro e calhou ser o livro que naquela epoca mais me entusiasmou.
Ou: todos os anos no aniversario recebia livros, mas desses anos, extraordinario mesmo foi o livro Y.
Lembro-me de alguns livros que me roubaram – ou seja, que emprestei e nunca me foram devolvidos.
Um deles, de que gosto muito, é ‘Dias da Birmânia’, de George Orwell. Recentemente, comprei outro exemplar da mesma edição. A reler em breve.
assim de repente tenho um livro que nao devolvi.
Mas tenho uma historia espetacular sobre um livro roubado…daria outro livro. E que nao posso contar, porque tem gente envolvida.
Sobre livros “transviados” muita gente teria boas (ou más) histórias para contar. Eu talvez conte alguma, um destes dias.