Grandes romances (27)


Pedro Correia,

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ESTA LISBOA DE OUTRAS ERAS

A Escola do Paraíso, de José Rodrigues Miguéis

 

Não é fácil escrever sobre o imaginário infantil sem cair na tentação de recorrer a um fraseado condescendente e pueril. José Rodrigues Miguéis (1901-1980) supera com distinção o teste neste admirável romance em que regressa à sua mais remota infância, decorrida numa Lisboa em grande parte já só existente no nevoeiro das recordações.

Publicado em 1960 pela Editorial Estúdios Cor, a que se manteve fiel durante o longo exílio norte-americano, o autor de Páscoa Feliz devolve-nos nestas páginas à Lisboa em que nasceu e cresceu: foram anos cruciais da nossa vida colectiva, desenrolados na turbulenta década final da monarquia e na convulsa agitação do regime republicano nessa fase em que a palavra “revolução” se banalizara no quotidiano alfacinha.

 

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O pequenino José, o mais novo de três irmãos, assistia ao espectáculo do mundo circunscrito da humilde mansarda onde a família residia, na colina de São Vicente, com o Tejo em fundo. E nós assistimos com ele ao incomparável desfile de personagens que vão entrando e saindo de cena à irregular cadência de um tropel de recordações, em páginas de uma admirável limpidez descritiva, percorridas por diálogos saborosíssimos que o escritor manteve em pousio durante meio século antes de as partilhar connosco.

O enredo não necessitou de ser inventado: foi recriado a partir das minuciosas lembranças daquele país que permaneceu intacto na memória do escritor enquanto Miguéis ganhava a vida como colaborador de jornais e copy desk das Selecções do Reader’s Digest em Manhattan, onde viria a falecer em 1980, com 79 anos incompletos. É, de algum modo, o livro de um expatriado – neste caso de alguém marcado pelo duplo exílio do espaço e do tempo, consciente de que a Lisboa palpitante e popular das suas digressões nostálgicas já pouco se assemelhava à Lisboa enfastiada e burguesa da época em que publicou o livro.

A extensa discrepância temporal entre o experimentado e o fruto dessa experiência revivida em escrita traz um interesse acrescido a este singular romance que Rodrigues Miguéis, fiel ao seu cânone realista, chamou A Escola do Paraíso, em expressa homenagem ao modesto estabelecimento escolar onde aprendeu a juntar as primeiras letras, situado em Alfama, precisamente na Rua do Paraíso. «Por extraordinário que pareça, o Paraíso existe e está ao nosso alcance: ao cimo da calçada, quase ao encontro das três ruas, mas recolhido e ausente.» (p. 37 da 6.ª edição, Editorial Estampa, 1984).

 

aescoladoparaiso[1].jpgÉ um romance edificado a partir de fragmentos desse remoto quotidiano lisboeta – no fundo, um conjunto de crónicas que compõem um mosaico consistente como matéria ficcional e muito revelador enquanto testemunho histórico.

Tudo temperado pelo olhar infantil: arrisco até dizer que, neste sentido A Escola do Paraíso será o melhor romance português centrado na infância – com a sua linguagem muito própria, as suas pequenas alegrias, os seus temores, as suas inquietações, a sua natural ingenuidade, a sua peculiar mundividência construída a partir de experiências alheias e absorvida no incessante processo de aprendizagem dos labirintos da vida.

Esta construção romanesca torna-se ainda mais aliciante devido a um engenhoso artifício de estilo pontuado de pequenos saltos cronológicos e de alternância das formas verbais, fixando o relato numa espécie de presente intemporal que envolve o leitor num abraço cúmplice, tornando-o participante da narrativa. Como se fôssemos contemporâneos destes enredos, como se fôssemos íntimos destas personagens. Começando pelo pequeno Gabriel, falsa terceira pessoa, que por vezes deriva para a primeira do singular, em evidente identificação existencial com o narrador.

Miguéis, excepto na alteração dos nomes, não quer marcar distâncias com a matéria concreta que lhe serve de inspiração romanesca: cá estão o irmão Santiago, a irmã Águeda, a mãe Adélia, o pai-herói Agustín – porteiro de hotel natural da Galiza e desembarcado muito jovem em Lisboa, como tantos da sua região, para fugir à incorporação militar em Espanha e ao consequente envolvimento em conflitos bélicos em Marrocos, Cuba e Filipinas. Mais o esquivo avô Colmeal, que só uma vez rumou lá da terra, em Pombal, para visitar a filha e os netos na capital do reino, quando já dissipara a fortuna acumulada em tempos idos. E o avô Callante, natural de São Tiago de Borbén (Redondela, Pontevedra), que de quando em vez descia da Galiza a Lisboa, distribuindo pelos netos «aquele maravilhoso chocolate galego, negro e duro, em pranchas quadriculadas no papel gorduroso, que a mãe ralava e fervia com leite» (p. 93).

 

Vale a pena seguirmos o percurso desta família residente na velha Lisboa de outras eras, recriada pela talentosa pena de um prosador a que nem o longo desterro de quase meio século desviou da devoção ao idioma materno.

«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dentro dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir de voltar» (p. 23). Miguéis escreve como se falasse de outro, mas é dele mesmo que fala. Do menino que na vida adulta, a partir de 1933, se tornou desterrado por opção profissional e política. À cidade natal foi regressando fisicamente, ancorando aqui por três períodos breves (1946-47, 1957-59, 1963-64) antes do retorno definitivo a Manhattan.

Mas do ponto de vista afectivo e sentimental nunca de cá saiu. Como este livro bem comprova: A Escola do Paraíso é uma declaração perene de amor a Lisboa.

 

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Tornamo-nos íntimos de um incomparável cortejo de personagens: o capador anunciado pelo som da gaita, que bastava para afugentar os gatos; as manas Parreirinhas, frequentando a missa diária sempre de mantilha negra; a tia Zulmira, entoando baladas tristes; o Manuel da Margarida, dono da mercearia, que oferece ao miúdo pirolitos e bolachas Maria; o Zé do Adro, tolhido dum braço; o vizinho Torres, homem de grande estatura para condizer com o apelido; as manas Perliquitetes, «solteiras, levianas, com chapéus arrendados e floridos»; o alfaiate Geadas; a corista Miquelina, que dá que falar na vizinhança; o general Belchior, «sempre atrás das costureirinhas»; o médico António José, «de barba em bico espetada, voz nasalada e quente», que viria a ser Presidente da República.

Enfim, deparamos com uma sucessão de quadros vivos e vibrantes, renascidos na pena arguta do romancista: os moços-de-fretes galegos cruzando as ruas «a carregar andores de trastes empilhados a uma altura assustadora» durante a «estação das mudanças», quando a capital amanhecia «coberta de escritos» nas janelas. Os primeiros automóveis que aceleravam nas ruas alfacinhas, envoltos em nuvens de fumarada e popularmente conhecidos por «mata-gente». Jantares domésticos em dias de festa com ementa assim descrita: «Puré de feijão encarnado com nabiças, lombo de porco assado no forno, arroz doce enfeitado a canela, saúdes com vinho fino.» 

Dando assim consistência à conclusão de David Mourão-Ferreira, atento leitor deste romancista. Na sua perspectiva, Miguéis é «o ficcionista que mais pessoalmente vem realizando, neste século, através da memória e da fantasia, uma íntima, sortílega e variada “reedificação” da própria cidade que lhe serviu de berço.»

 

O menino que se tornava rapaz a tudo assistia, gravando cada imagem, cada som, cada odor nos confins recônditos da memória. Sempre «de olhos abertos para o invisível», como se no mais fundo de si se adivinhasse fadado a plasmar em livro aquelas fugidias reminiscências da primeira infância, conferindo uma segunda vida a tantas figuras há muito desaparecidas da nossa paisagem urbana, hoje cada vez mais semelhante à de tantas outras capitais.

Gente morta e renascida, conferindo-nos a certeza sempre renovada nuns dos méritos da grande literatura: a de ser capaz de nos elevar a patamares de eternidade.

 

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Anteriores textos desta série:

 

O Fim da Aventura – Efémero amor eterno

O Anão – O Infra-homem

Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch – A lei do frio e da fome

A Mancha Humana – A América vista ao espelho

Os Maias – O século XIX aqui tão perto

Sinais de Fogo – Do amor e da guerra

17 comentários em “Grandes romances (27)”

  1. O sr. escreve bem e venho aqui pelas recensões literárias, breves ou não. Presumo que seja jornalista e tenha como modelo o E. Hemingway, pese embora quando decida publicar algum livro opte por recolhas políticas.

    1. Obrigado, João Fernandes.
      Sim, Hemingway continua a ser para mim uma enorme referência. Visitar a casa dele, nos arredores de Havana, e a aldeia piscatória de Cojímar, onde se situa ‘O Velho e o Mar’, foram dois dos melhores momentos de todas as viagens que já fiz.

  2. Neste tempo de mensagens breves alarvemente ilustradas com auto-retratos de hora a hora,um texto como o seu ultrapassando em profundidade e extensão os que os líteras espremem pelas badanas e raquíticos prefácios,um texto assim merece relevo e elogios.Acresce que o Miguéis (tal como o Carlos Oliveira ou o Cochofel)serviu mas já não serve um determinado partido e está arredado do nosso convívio.
    Que tenha ânimo e paixão e tempo para mais.
    Teodolito da septuagésima

    1. Muito lhe agradeço as palavras de incentivo que aqui deixa. De facto, infelizmente, hoje andamos cada vez mais submersos por “mensagens curtas” que impedem pensamentos elaborados, intercaladas com “auto-retratos de hora a hora”: deixamos de olhar para fora, passamos o tempo a mirar-nos ao espelho, perdendo cada vez mais a capacidade de admirar os outros.
      Enquanto tiver incentivos como o seu, e a certeza de haver quem leia estas linhas, continuarei a remar contra essa maré.

  3. O fim da monarquia e o princípio da República na perspectiva do Gabriel.
    A minha tia-avó Adelaide , nasceu a 5 de Outubro de 1910 e foi servir para Cascais com 8 anos, mas segundo a minha bisavó Júlia , a infância foi muito melhor para ela do que para os irmãos.
    Este livro é excepcionalmente bom.

  4. Nunca li este livro.
    Do Miguéis apenas li “Léah e outras Histórias” e “Gente da Terceira Classe”.
    Esta recensão está muito apelativa e, como já foi dito acima, dá mesmo vontade de ir já à procura do livro.
    Quem sabe não o encontro na biblioteca…
    ⚘
    Maria

    1. ‘Léah e Outras Histórias’ é um dos meus livros de contos favoritos, juntamente com ‘Jogos de Azar’ (de Cardoso Pires), ‘Bichos’ (de Torga) e ‘Contos Exemplares’ (de Sophia).
      Bastaria ‘Regresso à Cúpula da Pena’ – obra-prima do género – para justificar o elogio. Mas todo o livro é excelente.

    1. Gosto muito deste escritor, um dos mais subvalorizados pelo cânone académico das últimas décadas. É sistematicamente esquecido nas referências literárias dos bonzos cá do burgo que vão entronizando mediocridades.
      Vale sempre a pena lê-lo e relê-lo.

  5. Tenho dois livros de José Rodrigues Miguéis, ambos da Editorial Estampa: A Escola do Paraíso e O Pão Não Cai do Céu. Gosto muito da maneira com nos envolve na sua escrita.

    1. Um autor muito original, com uma escrita de imensa qualidade. Gostaria de vê-lo redescoberto pelas gerações mais jovens. Mas não é fácil: os livros dele estão retirados do mercado pelo menos desde 2017, ano em que foi decretada a falência da Editorial Estampa.
      Um delito de lesa-cultura.

      1. Acho que tenho os 13 títulos na biblioteca cá de casa (um lançamento do Círculo de Leitores). Avise se procura algum em particular, pode ser que o tenha.

        Maria Maia

  6. As ‘Perliquitetes’, termo certeiro que ouvi vezes sem conta e a referência aos pirolitos, por si só, já fazem apetecer leitura, mas o melhor é a boa prosa do Pedro, e o que se aprende ao lê-lo

    Isabel

  7. Pois, talvez com algum atraso, lhe agradeço as informações sobre o escritor. Dão-nos uma ideia de quem foi e do tipo de escrita. Mas a um escritor não há senão que lê-lo.

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