
Livro quatro: Ir a Havana, de Leonardo Padura
Edição Bertrand, 2025
274 páginas
Corajosa descrição do quotidiano na capital cubana pela pena do mais prestigiado – e marginalizado – dos seus escritores actuais, que aqui disseca os mecanismos da feroz ditadura instalada em Havana há 67 anos, sempre sob a égide da família Castro. Em chocante negação do princípio da igualdade proclamado pelos barbudos da Sierra Maestra ao tomarem o poder, em Janeiro de 1959.
Leonardo Padura, nesta crónica memorialística de forma ainda mais óbvia do que na ficção, deixa evidente que o balanço das décadas precedentes é trágico. Cuba compete com o Haiti pelo topo da pobreza per capita nas Américas, os jovens abandonam a ilha sem olhar para trás, a paisagem urbana está povoada de velhos com pensões de miséria que contemplam o vasto oceano sem um lampejo de esperança.
Padura escreve em Mantilla, bairro da periferia sul de Havana onde nasceu em 1955, na casa onde sempre morou. «Ir a Havana» era expressão frequente, na sua infância, para rumar do arrabalde ao centro da capital, quando os transportes públicos ainda funcionavam e a capital mantinha múltiplos vestígios do que foi outrora: a mais próspera e bela cidade do império espanhol, extinto por imposição dos EUA em 1898.
«Nos alvores da década de 1960, a Havana em revolução ainda se deslocaria durante um bom tempo pelo esplendor luminoso que havia alcançado o seu clímax nos dias equívocos da década anterior, quando se pretendeu converter na Monte Carlo das Caraíbas, no coração das Cem Milhas de ouro que cobririam uma parte do litoral norte da ilha que está voltado para o estreito da Florida», escreve o autor do memorável “Quarteto de Havana”, conjunto de romances policiais protagonizados pelo investigador Mario Conde, seu alter ego. Não detective privado: em Cuba, só existe esfera pública.
Em breve as luzes foram-se apagando, as faiscantes montras eclipsaram-se, quase todo o parque habitacional se transformou em iminente ruína. A capital moderna da era da electricidade onde em 1913 «circulavam mais automóveis do que em Madrid e Barcelona juntas» e no final dos anos 40 tinha mais salas de cinema por habitante do que Buenos Aires tornou-se palco da promessa utópica do Homem Novo, envolta em estribilhos demenciais como «Estudo, trabalho, fuzil» e «Pátria ou morte».
A cortina de ferro tombou ali em 1968: o som do bolero deu lugar aos hinos socialistas. «Chegou a Ofensiva Revolucionária que apagaria muitas das luzes da cidade» (tradução de Jorge Pereirinha Pires). Até hoje, com as forças armadas fundidas no partido único e este a tomar posse exclusiva do Estado.
De tudo isto Padura nos fala, com desassombro envolto em amargura. Escreve para o exterior: os seus livros não são editados em Cuba, o seu nome nunca é mencionado na imprensa oficial da ilha, sujeita a férrea censura. Espera manter-se no seu melancólico posto de observação em Mantilla, já com quase todos os sonhos pretéritos sepultados, vogando entre o pouco e o nada. É um lema dele, tal como dos restantes habaneros, nos mais diversos aspectos da vida: «Agarrar o que há agora, porque amanhã não se sabe…»
Sugestão 4 de 2016:
Páginas de Melancolia e Contentamento, de António Sousa Homem (Bertrand)
Sugestão 4 de 2017:
Os Filipes, de António Borges Coelho (Caminho)
Sugestão 4 de 2018:
Não Respire, de Pedro Rolo Duarte (Manuscrito)
Sugestão 4 de 2019:
Dois Países, um Sistema, de Rui Ramos e outros (D. Quixote)
Sugestão 4 de 2020:
Que Nós Estamos Aqui, de João Tordo (Fundação Francisco Manuel dos Santos)
Sugestão 4 de 2021:
Uma História da ETA, de Diogo Noivo (E-Primatur)
Sugestão 4 de 2022:
História de um Homem Comum, de George Orwell (E-Primatur)
Sugestão 4 de 2023:
Biblioteca Pessoal, de Jorge Luis Borges (Quetzal)
Sugestão 4 de 2024:
Tempestades de Aço, de Ernst Jünger (Guerra & Paz)
Sugestão 4 de 2025:
Autocracia Inc., de Anne Applebaum (Bertrand)

os jovens abandonam a ilha sem olhar para trás
Note-se que são livres de o fazer.
Tenho um colega luso-cubano (isto é, cubano que adquiriu nacionalidade portuguesa) que vai sempre que lhe apetece a Cuba visitar os familiares e regressa livremente.
São livres agora. Não o foram durante décadas. Muitos morreram tentando fugir em embarcações improvisadas rumo à costa da Florida.
A maior fonte de receitas de Cuba são hoje as remessas de imigrantes cubanos nos Estados Unidos para os familiares que residem na ilha. Por amarga ironia, após 67 anos de regime comunista.
São livres agora. Não o foram durante décadas. Muitos morreram tentando fugir em embarcações improvisadas rumo à costa da Florida.
Não sei se isso é assim. Eu diria que, mais provavelmente, fugiram em embarcações improvisadas porque se fugissem de avião as autoridades dos EUA não as teriam deixado entrar, por não terem visto.
Da mesma forma que os imigrantes que chegam em embarcações improvisadas às Canárias o fazem porque se tentassem voar para Espaha nem lhes permitiriam embarcar no avião.
O meu colega saiu livremente de Cuba já há uns 40 anos ou próximo disso e durante esse tempo regressou à ilha sempe que lhe apeteceu. Ele saiu para se doutorar no estrangeiro e depois arranjou emprego em Portugal, sem que jamais as autoridades cubanas interferissem. O pai dele, que é filho de um imigrante galego, pediu a nacionalidade espanhola e fugiu para Espanha em toda a liberdade. Nada de embarcações improvisadas.
Não fugiam de avião por ser impossível fugir de Cuba de avião naquele tempo de repressão feroz do castrismo que só abrandou com a morte do Castro mais velho, em 2016. Fugiam em jangadas improvisadas, em embarcações totalmente improvisadas. Muitos foram devorados por tubarões.
Hoje continuam a fugir, mesmo sem arriscar a vida. Cuba tornou-se um país de gente aposentada, com pensões de miséria. Uma reforma lá, em termos médios, é insuficiente para garantir sobrevivência mínima: equivale a dez dólares mensais.
Há uns 40 anos saiu de Cuba sem problemas ? Que sorte a dele, eu trabalhei no aeroporto de Lisboa entre 1979 e 2022, lembro-me bem dos cubanos que, aproveitando a escala do vôo Moscovo – Havana, da Aeroflot, enquanto na antiga sala de trânsito, fugiam para as instalações da Guarda Fiscal, que era o SEF da altura. Engenheiros, médicos, professores, tudo gente qualificada. Devo ainda ter guardado o papel que um deles, engenheiro, me entregou, pois num dos casos foi a mim que se dirigiu, liderando um grupo de 4, escrito num portunhol básico, eu ia a passar na dita sala, pedi(em espanhol) lume a outro passageiro, pois deixara o isqueiro no serviço, o sujeito deu-me o papel e em voz baixa, assustado, implorou que mostrasse o acesso às instalações da Guarda Fiscal. Fi-lo rapidamente e com a satisfação de ajudar alguém que, corajosamente, deixava uma vida e família atrás, em busca da liberdade. Ah, só para lhe dizer que o regime cubano chamava “gusanos”, ou seja, vermes, a quem conseguia sair daquele “paraíso” …
Até ao último suspiro da ditadura cubana haverá quem persista em ignorar o óbvio ululante. São os chamados idiotas úteis.
Absolutamente, caro Pedro Correia. Aqueles “paraísos” eram fantásticos, a malta em Berlim, sabe-se lá porquê, entre 1961 e 1989 só saltava o muro de leste para oeste, que coisa estranha…
Abraço
Também não há nota de matilhas em fuga do “inferno” capitalista norte-americano para o “paraíso” cubano, caro Fernando. O movimento é sempre, sempre, sempre em sentido contrário.
Abraço.
Gusanos, idiotas úteis, balios, …, onde ficamos?
aproveitando a escala do vôo Moscovo – Havana, da Aeroflot, enquanto na antiga sala de trânsito, fugiam para as instalações da Guarda Fiscal
Repare: eles não tinham nem dinheiro para pagar o vôo de Havana para Lisboa, nem uma embaixada de Portugal em Havana onde se refugiarem, nem Portugal lhes daria um visto para entrarem no país. Portanto, a única forma que tinham era aproveitarem-se de estarem temporariamente em território português para verem se Portugal lhes concedia asilo.
Eu não estou a dizer que não tenha havido um tempo em que era proibido sair da ilha; não sei se houve ou não houve. Sei que o meu colega me disse que sempre foi livre sair. A mãe dele, uma senhora cubana muito idosa, já veio a Lisboa visitá-lo e depois regressou à ilha – ninguém a impediu de sair de lá. Mas, é claro, só lhe terá sido permitido entrar em Portugal por ter cá um filho, cidadão português, com proventos para a receber.
Balio, em 1979 já havia embaixada de Cuba em Portugal. Eles iam para Moscovo estudar ou completar estágios e formações, os passaportes nem os tinham com eles, era um comissário político que os levava, sendo que normalmente tentava tudo para não os entregar à Guarda Fiscal, acabando por fazê-lo quase à força. Que raio de noção tem o Balio do que era – e ainda é – o regime cubano ?
Ah. E ao seu colega também aplicaram (aplicam?) o “imposto solidário” no ordenado, como aos médicos, para ajudar o GAESA a “desenvolver” Cuba?
Excelente pergunta, Zebra. Creio que ficará sem resposta.
É natural, estará entretido a ouvir o “Pero no voy a llorar” da Celeste Mendoza, sobre os que atravessam o canal e, bem feita!, ficam sem pátria…
Uma melodia lindíssima, aliás, e a Celeste Mendoza foi uma grande voz cubana, é sempre um prazer ouvi-la.
El ocaso de la democracia . La seducción del autoritarismo
Autocracia, S.A. Los dictadores que quieren gobernar el mundo
ANNE APPLEBAUM
Partilho escolhas da edição 2026 da Feira
As mil e uma noites (E-Primatur) – Vols I II e III – prenda para uma adolescente
Não dormir (Zigurate) – prenda para uma frequentadora da menopausa
O preço da vida (Zigurate)
Sobre a linguagem (Zigurate)
A parede (Antígona)
Elogio à Catalunha (Antígona)
O caminho para Wigan Pier (Antígona)
Boas Leituras
A ler: Racismos, de Francisco Bethencourt (alguém devia oferecer este livro a Rita Matias e à sua bancada para lamentar)
Haja enfim um leitor que partilha as leituras a propósito da Feira do Livro de Lisboa (e de outras que já se anunciam no Porto, em Braga, em Coimbra e noutras cidades).
Partilha que registo com muito agrado.
Zigurate e Antígona são duas das minhas editoras preferidas. Em anos anteriores destaquei várias obras com essas chancelas.
Orwell é um autor imprescindível. Mesmo com livros de ensaio e reportagem, como é o caso desses que menciona.
Talvez o possa fazer, quando da Feira do Livro do Porto, algures entre os jogos últimos dias de Agosto e os primeiros de Setembro. Se houver autor do Delito que para tanto deixe o pretexto.
Se houver Delito.
Muita coisa ainda em aberto.
Seguramente. Em qualquer caso, e sendo certo que há um tempo para tudo, seria uma lástima (e é pouco assim qualificá-lo) que tudo isto se perdesse.
Quanto a esse “jogos”, no que acima escrevi… Enfim, teclados ditos “inteligentes”.
Armadilhados, na verdade.
Os teclados pseudo-inteligente insistem em mudar-me a prosa. E a limitar-me o vocabulário.
Há dias, escrevi verve – bela palavra, tão em desuso. O dito cujo decidiu emendar e saiu… cerveja.
Já desertaram todos para outras plantaformas.
Aguardo tomada de decisão para actualizar marcadores
Boas Leituras
Faltam poucos dias. Agradeço a atenção.
“Cuba Libre!” Sou por esse país livre e pelo cocktail com o mesmo nome…
Há muitos anos que não bebo isso. Nem uma piña colada. Nem sequer um daiquiri. Bebidas que associo aos trópicos (daiquiri, especificamente, a Cuba). Ficaram lá para trás.
Praticamente tudo o que se associe a trópicos para mim, à partida, é bom, desde música, clima, paisagens, pessoas e até bebidas… Se calhar nasci no país errado… Retomar (alguns) hábitos antigos, às vezes, faz-nos bem… O Pedro pode sempre reconsiderar e trazê-los de volta…