
Livro quatro: História de um Homem Comum, de George Orwell
Edição E-primatur, 2022
239 páginas
Este livro veio preencher uma lacuna no nosso mercado editorial: era o único dos seis romances de George Orwell (pseudónimo de Eric Blair, 1903-1950) ainda inexistente com chancela portuguesa. A iniciativa constitui serviço público. Até porque esta História de um Homem Comum (Coming Up For Air, no original) é hoje considerada uma das suas melhores obras.
Toda a ficção do autor de Homenagem à Catalunha é um acto de militância contra sistemas iníquos – seja na corajosa autópsia do colonialismo inglês no Oriente (Dias da Birmânia), seja na denúncia de uma sociedade rendida à tentação do dinheiro (O Vil Metal), seja no implacável libelo contra o comunismo (O Triunfo dos Porcos), seja na aterradora antevisão de um mundo mergulhado na tecnologia que dissolve toda a liberdade individual (1984). Convicto, como ele dizia, que «o totalitarismo, quando não combatido, poderá triunfar onde quer que seja».
Em História de um Homem Comum, escrito em 1938 e publicado em Junho do ano seguinte, Orwell prevê com argúcia a eclosão da guerra e o modo como este conflito à escala planetária mudaria a face do mundo. Mas esta não é uma obra de cariz político no sentido estrito do termo: o grande escritor britânico descreve aqui o percurso biográfico de um inglês banal, de meia-idade, cruzando-o com as quatro primeiras décadas do Reino Unido no século XX. Interessa-lhe mais a sociedade do que a ideologia. Sem se pôr de fora. Pelo contrário, faz questão de atribuir ao protagonista o seu próprio nome literário.
«George Bowling representa, na sua mediania, milhões de pessoas como ele, para quem a família e o emprego são o núcleo à volta do qual tudo gira e no qual tudo se esgota», escreve no prefácio a esta edição – felizmente imune à praga do “acordo ortográfico” – a professora universitária Jacinta Maria Matos, que fez bem ao evitar a tradução literal do título, tornando-o mais apelativo ao leitor português.
Em tom de assumida nostalgia, esta História de um Homem Comum fala-nos de uma época que ficou para sempre ultrapassada com a dilacerante Grande Guerra de 1914-1918: «É como se um um diabo dentro de nós nos fizesse andar para trás e para diante, sempre ocupados com ninharias. Há tempo para tudo menos para o que interessa.»
Bowling, ecoando as inquietações de Orwell sobre o rumo do “progresso”, tinha a certeza de que aquilo que viesse seria a antítese da sua doce infância remediada numa pacata vila inglesa que a voragem do tempo sepultou.
Sugestão 4 de 2016:
Páginas de Melancolia e Contentamento, de António Sousa Homem (Bertrand)
Sugestão 4 de 2017:
Os Filipes, de António Borges Coelho (Caminho)
Sugestão 4 de 2018:
Não Respire, de Pedro Rolo Duarte (Manuscrito)
Sugestão 4 de 2019:
Dois Países, um Sistema, de Rui Ramos e outros (D. Quixote)
Sugestão 4 de 2020:
Que Nós Estamos Aqui, de João Tordo (Fundação Francisco Manuel dos Santos)
Sugestão 4 de 2021:
Uma História da ETA, de Diogo Noivo (E-primatur)

Parece que “os Filipe” está esgotado, como saber? E comprar em online?
Estão a decorrer várias feiras do livro no Pais. Certamente haverá, nesses espaços. Ou na Caminho ou nos pavilhões de livros em segunda mão.
Excelente obra. Todos devem ler.
Pela História. E também porque o autor escreve muito bem.
Obrigado, vou tentar comprar online.
Tenho a saga ou tramoia montada, para o Filipe I, de cá, ser Rei de Portugal. A exaltação religiosa para D. Sebastião não casar e sua aventura em Alcacer Quibir com quase toda a nobreza portuguesa fez parte de toda essa engrenagem, com a sua avó a ‘comandar’ os acontecimentos.
Realmente quer dos Filipes quer destes obscuros acontecimentos pouco se fala ou sequer falou nos tempos patrióticos do estado novo.
Aprendi muito com esta obra de António Borges Coelho, a quem aproveito para prestar a minha homenagem enquanto leitor atento e grato.