
Livro dois: O Louco de Deus no Fim do Mundo, de Javier Cercas
Edição Porto Editora, 2025
441 páginas
Livro inclassificável. Misto de reportagem jornalística, de literatura de viagens, de meditação filosófica, de ensaio em torno do sentimento religioso. Escrito por um ateu assumido, talvez afinal agnóstico, sobre o Papa Francisco. Acompanhando uma das últimas viagens apostólicas do falecido pontífice argentino a um dos mais remotos locais do planeta: a Mongólia, 18.º país independente com maior extensão territorial e o que tem menor densidade populacional. Mais de 1,5 milhões de quilómetros quadrados, menos de três milhões de habitantes. Católicos, só cerca de 1500.
Mesmo assim, Francisco quis lá ir. Dando prioridade às periferias do chamado mundo católico, àquelas parcelas onde os fiéis da Igreja sediada em Roma estão em evidente minoria. Aconteceu em 2023, um mês após a inesquecível Jornada Mundial da Juventude em Lisboa. O sucessor de Bento XVI foi pioneiro em solo mongol, tal como nas deslocações aos Emirados Árabes Unidos, Barém, Iraque, Macedónia do Norte, Birmânia, Sudão do Sul e Timor-Leste enquanto nação livre do jugo indonésio.
A viagem decorreu de 31 de Agosto a 4 de Setembro. Javier Cercas integrou a comitiva como convidado. Afastado dos ritos católicos que lhe eram familiares na infância, recebeu com estupefacção o repto da Santa Sé para poder escrever com plena liberdade. Antes e depois, introduz-nos nos bastidores do Vaticano. Com extrema atenção aos detalhes e genuína disponibilidade para compreender algo que ignora, transmitindo sensações e reflexões ao leitor com todo o seu dom de escrita – patente em obras anteriores, nomeadamente na minuciosa Anatomia de um Instante (2009), investigação sobre o golpe neofranquista na Espanha democrática em Fevereiro de 1981.
Cercas confessa só ter aceitado o convite para agradar à sua idosa mãe, devota católica, proporcionando-lhe a alegria de transmitir uma mensagem pessoal do Papa. E para entender o enigma ligado à promessa da ressurreição da carne e da vida eterna, pedras basilares da fé. Pesquisa intensa que perdura quase até ao fim do livro, aplicando-se aqui a técnica do suspense só ao alcance de um excelente narrador.
A proximidade àquele homem vestido de branco que vivera com extrema sobriedade como arcebispo de Buenos Aires, sem ver televisão nem possuir um telemóvel, sem gozar sequer um dia de férias, mudou Cercas por dentro, como o escritor também confessa nas comoventes páginas finais. «Caíram todos os poderes, todos os soberanos, todos os reinos e todos os impérios; mas, passados dois mil anos de História, a Igreja Católica continua de pé: essa promessa demonstrou ser indestrutível, mais poderosa do que todos os exércitos juntos. Se eu acreditasse em milagres, acharia que é um milagre.»
Sugestão 2 de 2016:
Nada, de Carmen Laforet (Cavalo de Ferro)
Sugestão 2 de 2017:
Singularidades, de A. M. Pires Cabral (Cotovia)
Sugestão 2 de 2018:
Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís (Relógio d’Água)
Sugestão 2 de 2019:
A Língua Resgatada, de Elias Canetti (Cavalo de Ferro)
Sugestão 2 de 2020:
Três Retratos – Salazar, Cunhal, Soares, de António Barreto (Relógio d’Água)
Sugestão 2 de 2021:
Presos por um Fio, de Nuno Gonçalo Poças (Casa das Letras)
Sugestão 2 de 2022:
Primeira Memória, de Ana María Matute (Narrativa)
Sugestão 2 de 2023:
O Plantador de Malata, de Joseph Conrad (Sistema Solar)
Sugestão 2 de 2024:
Kokoro, de Natsume Soseki (Presença)
Sugestão 2 de 2025:
Bambino a Roma, de Chico Buarque (Companhia das Letras)

penso o mesmo depois de me terem permitido acesso ao Arquivo Secreto para investigar assunto português
Arquivo com 80km de extensão a 4 estantes. pede-se o ano e entregam caderno de entradas. ambiente simples e simpático a que não estava habituado. Permitiram-me visitar jardins e Palácios em visita guiada com a condição de levar gravata.
05.2020