Livro dois: Nada, de Carmen Laforet
Edição Cavalo de Ferro, 2014
249 páginas
Se quisermos buscar um Holden Caulfield em versão feminina e europeia, em demanda de um rumo e uma identidade que jamais encontrará, vêmo-la numa adolescente de província que desembarca em Barcelona no rescaldo imediato da guerra civil espanhola, com cinzas e escombros ainda evidentes por todo o lado. Andrea, inadaptada no tempo e no espaço, atravessa como um espectro aqueles que talvez sejam os melhores anos da sua vida sem ter a menor noção desse facto. A casa da avó, onde se acolhe, é um prolongamento da insana vida colectiva daquela época, sufocante e claustrofóbica.
Carmen Laforet (1921-2004) entrou triunfalmente no mundo das letras com este romance vigoroso e desencantado, publicado em 1945 na inóspita Espanha franquista, aqui latente em entrelinhas onde não faltam alusões à guerra. Um livro redigido num estilo deliberadamente frenético e sincopado pela jovem que produziu esta obra-prima da literatura espanhola do século XX quando mal saíra da adolescência.
“É sobretudo no domínio do amor e do sexo que as personagens de Nada parecem viver fora da realidade, numa misteriosa galáxia na qual os desejos não existem ou foram reprimidos ou canalizados para actividades de compensação. Se, em quase todos os aspectos da vida, o mundo do romance delata uma moral pacata até ao inumano, que aliena homens e mulheres e os empobrece, no aspecto sexual essa distorção alcança proporções inverosímeis”, observa com lucidez Mario Vargas Llosa no prefácio desta excelente versão portuguesa que veio colmatar uma evidente lacuna do nosso mercado editorial. Tradução competente de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.

![nada[1].jpg nada[1].jpg](http://9.fotos.web.sapo.io/i/B3d04dbeb/19666054_03TrB.jpeg)
Comprado e lido em Julho de 2014 (por acaso com 20% desconto), foi a minha estreia absoluta com a Carmen Laforet.
Gostei imenso deste livro e só posso concordar com esta sugestão de compra.
Ontem comprei o ‘Manual para mulheres de limpeza’, da Lucia Berlin (sem desconto) pois, mais uma vez, não vou poder ir à Feira do Livro. Tenho saudades dos livros e dos maravilhosos jacarandás, mas não posso mesmo ir.
Boas compras, Pedro.
🙂 Antonieta
Também gostei imenso deste romance, Antonieta. E acontece-me com ele o que sempre sucede quando gosto muito de um livro: recomendo-o em todo o lado.
Os jacarandás estão floridos, sim. De uma beleza ímpar nesta Lisboa onde continuam a faltar árvores.
Li pela primeira vez Laforet há alguns meses. Apesar do franquismo, só entre portas a vida era negra, tudo o resto era esperançoso. Gostei muito.
Entretanto, comprei “A ilha os demónios”.
Espero que a Antonieta goste tanto de Berlin quanto eu 🙂
Tenho-o há um ror de anos, comprado em Palma de Maiorca, numa excelente livraria, a Fondevila, onde me abasteci de muito livro em castelhano, a preços excelentes, durante cinco Verões que passei por lá. Excelente livro, de uma escritora pouco conhecida por cá. Infelizmente.