
Livro dois: Presos por um Fio, de Nuno Gonçalo Poças
Edição Casa das Letras, 2021
278 páginas
Este livro cumpre serviço público. Porque começou a investigar onde o jornalismo parou. Resgatando do esquecimento colectivo os crimes cometidos pelas chamadas Forças Populares 25 de Abril, fundadas e lideradas por Otelo Saraiva de Carvalho. Já com a democracia consolidada, houve em Portugal um movimento terrorista que, a pretexto da luta contra o «Estado burguês», assaltou, roubou, feriu e matou. Durante sete anos, de 1980 a 1987. Entre as vítimas mortais incluíram-se um bebé de quatro meses em São Manços, Évora. E o director dos Serviços Prisionais, assassinado com tiro na nuca, à porta de sua casa. E um jovem agente da Polícia Judiciária, que deixou viúva grávida.
As FP-25 sempre beneficiaram de uma insólita tolerância no plano mediático. Como se estes crimes que mancharam de sangue a democracia portuguesa merecessem atenuante por envolverem o comandante operacional da Revolução dos Cravos.
Nuno Gonçalo Poças, advogado nascido em 1985, não tem memória viva desses tempos. O que torna ainda mais meritório este livro, fruto de um trabalho de investigação sério e rigoroso. Mergulha nos arquivos da época, recolhe depoimentos de diversas testemunhas e procede à minuciosa autópsia do longo processo judicial que levou à condenação de mais de meia centena de réus, incluindo Otelo, num tribunal criado para o efeito e com protecção especial aos magistrados em risco de vida. Tudo culminou numa chocante amnistia cozinhada pelo poder político na década de 90. Dos 16 mortos, apenas um – soldado da GNR – tem nome de rua. Nenhum recebeu indemnização porque o Estado se esqueceu de ordenar o arresto de bens dos autores materiais e morais dos crimes. Nunca houve uma associação de apoio às vítimas. Enquanto a cúpula das FP-25 beneficiava da solidariedade aberta nos jornais e de abaixo-assinados pró-amnistia com assinaturas de muitos nomes conhecidos da cultura, da política e do espectáculo.
Dois pesos, duas medidas. E um prolongado manto de silêncio a que Nuno Gonçalo Poças acaba de pôr fim, combatendo a desmemória. Com nomes e datas. Para que todos saibamos.
Sugestão 2 de 2016:
Nada, de Carmen Laforet (Cavalo de Ferro)
Sugestão 2 de 2017:
Singularidades, de A. M. Pires Cabral (Cotovia)
Sugestão 2 de 2018:
Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís (Relógio d’ Água)
Sugestão 2 de 2019:
A Língua Resgatada, de Elias Canetti (Cavalo de Ferro)
Sugestão 2 de 2020:
Três Retratos – Salazar, Cunhal, Soares, de António Barreto (Relógio d’Água)

Excelente escolha.
Grande sinopse . Mt bom
Boa noite Pedro Correia
Quebrando uma regra pessoal, tenho esse livro logo que saiu.
Salvo melhor opinião, e respeitando sempre a de outrem mesmo dela discordando 100%, esse livro é uma das melhores ferramentas explicando como isto anda tudo ligado. Saúde.
António Cabral
Saúde para si também, meu caro.
Verdadeiramente revelador que tenha sido alguém da geração seguinte, e não exactamente um jornalista, a ousar uma obra como esta. Leitura absolutamente imprescindível. Ou deveria sê-lo.
Uma obra indispensável. Também pelo que revela sobre cumplicidades morais das FP-25 no chamado “escol” intelectual português.
Tinha o de morrer o homem para aparecer este livro ou, então, agora é que dá jeito.
‘..para que todos saibamos’ , para quê considerar como criancinhas ignorantes os leitores do “Delito de Opinião”?
O escritor não trouxe novidades e até podia transcrever as partes do processo de duvidosa e confusa acusação ao ponto do advogado (conhecido doutro caso e já falecido) ter dado um baile ao MP. Nunca se soube que eram os mascarados e para que foi o dinheiro roubado, o palerma do Otelo e os outros quiseram ser heróis revolucionários da treta e a amnistia foi um até parece que estava tudo combinado.
Agora o livro está mesmo a calhar e nem é preciso voltar a “abrir” o caso do desastre de Camarate, que aparece sempre em alturas de “complicadas” eleições.
Se há coisa desprezível é um anónimo insultar um morto, seja ele quem for.
Fazer o que este anónimo fez.