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Livro dois: Singularidades, de A. M. Pires Cabral
Edição Cotovia, 2017
157 páginas
O conto continua a ser um parente pobre na literatura portuguesa. Como se alguns dos nossos maiores escritores – de Eça a Miguéis, de Sophia a Cardoso Pires – não tivessem sido cultores do género.
A edição de contos neste país que só acorre às livrarias em busca de bestas céleres – para recorrer à deliciosa expressão de Alexandre O’ Neill – é um acto de resistência cultural que merece louvor. E que propicia ao leitor boas supresas.
Aconteceu-me com este voluminho intitulado Singularidades: aqui se agrupam oito histórias autónomas – todas com nome próprio elevado a título. Quadros do quotidiano marcados pela suave intromissão do insólito nas roldanas da rotina. Numa linguagem cuidada e precisa, sem desperdício de vocábulos, A. M.Pires Cabral confirma-se aqui como um arguto observador de comportamentos humanos, sem anátemas nem juízos morais. Basta-lhe sondar o rasto de umas quantas notas soltas na partitura dos dias.
Flávio Cerqueira, analista num laboratório clínico e solitário bebedor nocturno. Honório Rocha, suposto agente de seguros com um segredo por desvendar. Gabriel Guerra, ex-activista universitário travestido em charlatão com bola de cristal. Hipólito Clemente, quadro superior de uma editora assediado por um imbecil armado em intelectual. César Gaspar, pacato organizador de abstrusas antologias. Rodolfo Isidro Palha, hipocondríaco assombrado pela coincidência entre as iniciais do seu nome e as do piedoso voto em latim que ornamenta muitas sepulturas – Requiescat in pace. Artur Pacheco, exaltado “colunista de causas” num jornal de província. Basileu Simões, doente terminal que faz um pedido surpreendente à mulher.
Nem sopro de epopeia nem vanguarda literária: apenas um conjunto de narrativas tocadas pelo prazer antigo de contar uma história. A nossa civilização começou a construir-se assim, graças à sedução do relato oral, entretanto passado a escrito. É bom saber que esta arte de narrar ainda se cultiva com esmero, mesmo com tantas bestas céleres a cruzar o horizonte.

Meu caro, eu desde sempre gostei deste tipo de ficção, aliás, costumo comprar todos os livros de contos de autor único ou colectânea de contos de vários autores que vão aparecendo no meu caminho de leitor. No livro “Lições de literatura” do nosso amigo Cortazar, que transcreve as suas aulas de Berkeley na década de 80, ele desfia de forma apaixonante o estilo “conto”, em contraponto com o romance, ele próprio aliás, como uma boa mão de grandes autores sul-americanos, como Bioy Casares e o próprio Borges, um adepto do conto, que segundo ele, na américa latina é “iniciado”, se assim se pode dizer, já que parece que os sul-americanos gostam especialmente do estilo, pelo Horácio Quiroga, com os seus contos da selva e os contos de amor loucura e morte. Mas há uma série de bons autores especialistas no conto, dos quais, que eu conheça e assim de memória (que já me vai atraiçoando), destaco Tchekov, Munro, Lydia Davies, John Cheever, Akutagawa, entre tantos outros. Curiosamente, já passei várias vezes por este livro do Cabral, mas nunca tive a ousadia de o abrir. O que eu terei perdido…
Não me parece um bom livro para comprar na feira, dado que foi editado este ano e, como consequência do regime do preço fixo do livro, não poderá ter desconto superior a 10%, enquanto que muitos livros na feira têm descontos bem maiores.