O abismo grego


Pedro Correia,

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A irresponsabilidade, o experimentalismo extremo e a navegação à vista estão a debilitar de forma irreversível o Governo grego: com o país ainda formalmente inserido na União Europeia, a coligação Syriza-Anel conseguiu rebaixá-lo ao nível de um Sudão ou um Zimbábue, que também falharam o cumprimento das suas obrigações financeiras.

Os bancos gregos estão encerrados. E a população deixou de dispor sequer da liberdade de utilizar o seu dinheiro devido à proibição governamental de levantamentos diários superiores a 60 euros nas caixas multibanco, aliás em grande parte já descapitalizadas.

Se a situação era má quando o actual executivo tomou posse, em Janeiro, agora é péssima: a Grécia prossegue no caminho para o abismo enquanto alguns basbaques cá do burgo – cada vez menos, valha a verdade – ainda se atrevem a vitoriar Tsipras e Varoufakis, condutores de um comboio desgovernado.

Incapaz de conseguir financiamento autónomo, sem o menor prestígio internacional e com as suas próprias hostes divididas, o ainda primeiro-ministro grego ensaia agora uma nova fuga em frente levando a referendo no domingo uma pergunta que se tornou absurda: «Deverá ser aceite o projecto de acordo que foi apresentado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional no Eurogrupo em 25 de Junho?»

O “projecto de acordo” a que a pergunta alude caducou assim que Atenas entrou em incumprimento. De qualquer modo, responda como responder o eleitorado, resta ver até que ponto Tsipras e Varoufakis serão capazes de ultrapassar o assombroso nível de incompetência que vêm demonstrando.

Nisso, pelo menos, ninguém deve subestimá-los.

Showdown na Grécia


Rui Rocha,

Na noite de 25 de Janeiro de 2015, Alexis Tsipras chegou sorridente ao átrio da Universidade de Atenas. Antes de alcançar o púlpito onde proferiu o discurso da vitória, sorriu, acenou e deu vários abraços pelo caminho. «Hoje o povo helénico escreveu História e deixou a austeridade para trás». Uma história de «esperança». «A vossa voz anulou a austeridade. A troika é passado», disse aos milhares de gregos que o esperavam na capital. Em 27 de Junho de 2015, Alexis Tsipras comunicou ao país a decisão de convocar um referendo. Chegou, finalmente, o momento de o primeiro-ministro grego mostrar as cartas que tinha na mão. E não há, face a estes factos, duas leituras. É evidente que o Syriza apresentou aos eleitores um programa que não podia cumprir. Utilizou o desespero dos gregos para os iludir com promessas e palavras vãs. Ao remeter agora a decisão sobre o acordo com as instituições para a decisão popular, Tsipras assume o fracasso do seu confronto com os credores e a inconsistência da sua proposta política. Pelo meio, ficam mais de cinco meses de governação que teve como único resultado uma enorme sangria  da economia, do sistema bancário e das finanças gregas. A comparação entre o que foi dito em Janeiro e o resultado obtido em final de Junho é brutal: a esperança dos gregos concretizou-se na possibilidade de decidir entre a fome e a vontade de comer. Muitos sublinham constantemente que a Grécia foi o berço da democracia. A realidade encarrega-se agora de nos recordar que foi também ali que nasceu a demagogia.

O sonho helénico


fiodeprumo,

O novo caderno de encargos do governo Tsipras assentará basicamente nos pontos abaixo discriminados:

1.aumento da idade de reforma para 67 anos;

2.fim imediato das pré-reformas;

3.extinção dos suplementos às reformas mais baixas;

4.aumento das contribuições dos pensionistas para terem acesso à Saúde (5%);

5.aumento da TSU (3,9%) para os patrões;

6.aumento do IVA por intermédio da passagem de diversos produtos da taxa mínima para a máxima;

7.aumento do IRC de 26% para 29%;

8.corte de 200 milhões de euros na Defesa;

9.introdução de um imposto de 12% nos lucros das empresas com lucros iguais ou superiores a meio milhão de euros;

10.introdução de um imposto sobre iates privados;

11.aumento do excedente orçamental primário no PIB. 

O povo grego vai ser, assim, submetido a um novo plano de austeridade. Que os portugueses bem conhecem. Todavia nada está seguro, visto que o Parlamento nacional ainda não aprovou tais medidas. Mas que elas representam uma certa desilusão, isso, ninguém duvida. Não era este o sonho helénico. 

O eixo Espanha-Portugal


Luís Menezes Leitão,

Numa reunião do comité central do Syriza, o presidente desse partido Alexis Tsipras, afirmou o seguinte: “Descobrimos um eixo de poderes liderado pelos governos de Espanha e de Portugal que, por motivos políticos óbvios, tentou levar a Grécia para o lado, para o abismo durante todas as negociações“. E acrescentou que “o plano deles era e é desgastar-nos, derrubar o nosso governo ou levar o nosso Executivo a uma rendição incondicional antes que o nosso trabalho comece a dar frutos e que o exemplo da Grécia afecte outros países, sobretudo antes das eleições em Espanha“. Trata-se de liguagem tipicamente partidária, para consumo interno do Syriza, mas que não deixa de ter um fundo de verdade. Afinal de contas não foi a imprensa alemã que noticiou que Maria Luís Albuquerque tinha pedido a Schaeuble para ser duro em relação à Grécia?

 

Portugal e Espanha ficaram obviamente ofendidíssimos com as acusações de Alexis Tsipras. E para assegurar que não formam eixo nenhum, resolveram enviar um protesto conjunto em carta assinada por ambos — importam-se de repetir? — destinada aos presidentes da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e do Conselho Europeu, Donald Tusk. Presumo assim que estejam cortadas as relações diplomáticas com a Grécia, pois caso contrário seria de esperar que o protesto fosse enviado por via diplomática a este país. Claro que é altamente original governos protestarem por declarações feitas num encontro partidário, mas a confusão é tanta que já ninguém conhece as regras.

 

Em qualquer caso, esta reacção conjunta demonstra claramente que afinal Tsipras estava cheio de razão. Há, de facto, presentemente um eixo Espanha-Portugal. O que demonstra a falta que estão a fazer as comemorações do 1º de Dezembro no nosso país.

Penso rápido (65)


Pedro Correia,

Há uma contradição aparentemente insanável entre o que o Syriza  proclama e o que o Syriza faz. Enquanto proclama o desejo de manter a Grécia no euro (correspondendo aliás à opinião largamente maioritária no país, cerca de 74%) começa a fazer tudo, e em passo rápido, para que o país abandone o sistema monetário europeu com as primeiras medidas de carácter populista já anunciadas em ruptura com os compromissos assumidos ao receber o fundo de resgate (aumento do salário mínimo, electricidade gratuita para cerca de um milhão de pessoas, restituição do subsídio de Natal, abolição das taxas moderadoras, medicamentos gratuitos e passes de transportes também gratuitos para desempregados, renacionalizações de empresas privatizadas ou em fase de privatização, tudo envolvido num pacote que agravaria o défice orçamental grego em nove pontos percentuais).
A intenção, por enquanto inconfessável, parece evidente: apontar mais tarde o dedo acusador às instituições comunitárias, acusando-as de responsabilidade directa na ruptura da Grécia com o euro.
Tudo demasiado previsível. Estamos perante rudimentares aprendizes de Maquiavel. Só receio que o povo grego acabe por sofrer ainda mais com isto. E nós com ele.

Razão e emoção.


Luís Menezes Leitão,

Como bem se demonstra neste artigo a única decisão racional possível implicaria o Eurogrupo chegar a acordo com a Grécia, atribuindo-lhe condições mais favoráveis de pagamento da dívida para poder permanecer na zona euro. Essa situação evitaria que a Grécia se aproximasse da esfera de influência russa, o que é essencial numa altura em que estamos a um passo da guerra total na Ucrânia.

 

Não me parece, porém, que tal vá acontecer, especialmente porque as decisões políticas nem sempre são racionais, podendo ser ditadas por uma forte carga emocional. Foi assim, por exemplo, que os Estados Unidos encararam a revolução cubana, onde um grupo de guerrilheiros derrubou o regime pró-americano de Fulgêncio Baptista, visto internamente como um simples capataz dos EUA. Desde o início, os EUA adoptaram uma política de total intransigência em relação a Fidel Castro, o que teve como único resultado que Cuba se atirou para a esfera de influência soviética, passando os EUA a ter um regime pró-soviético a 120 km das suas costas. Cuba quase atirou os EUA para uma guerra nuclear e só agora, passados mais de 60 anos, os dois países voltaram a ter uma aproximação.

 

Mas a revolução cubana teve também um efeito altamente pernicioso no ocidente, devido à grande influência que teve na sua juventude.   Che Guevara e Fidel Castro transformaram-se em ícones mundiais da juventude, levando a uma contestação sem precedentes nas democracias ocidentais. Nos EUA assistiu-se às gigantescas manifestações contra a guerra no Vietname e na Europa culminou com o Maio de 68, que até provocou a renúncia de De Gaulle no ano seguinte. Curiosamente, enquanto toda a juventude europeia olhava fascinada para Cuba, a URSS esmagava tranquilamente a primavera de Praga. Na altura dizia-se que o ocidente atravessava uma época de depressão nervosa, da qual só sairia com o governo de Thatcher no Reino Unido e com a presidência de Reagan nos EUA, essenciais para a vitória na guerra fria.

 

A Europa atravessa um período semelhante de emoções à flor da pele. Há muito tempo que costumo ver em viagens à Alemanha cartazes a dizer: “os gregos que paguem sozinhos as suas dívidas” ou “os resgates do euro põem em causa as nossas pensões“, num país que deveria estar a cantar loas aos ganhos líquidos que está a ter com o euro. Em Portugal Passos Coelho também se pôs a criticar as propostas gregas, porque sabe que, se forem satisfeitas, ele será posto em causa por não ter feito exigências semelhantes. E agora até Cavaco Silva saiu da sua torre de marfim para falar dos muitos milhões que Portugal emprestou à Grécia, numa atitude totalmente imprópria de um Chefe de Estado.

 

Curiosamente, não me parece que o governo grego esteja minimamente preocupado com esta falta de acordo. Dá-me aliás a ideia que as constantes viagens de Tsipras e Varoufakis não se destinam minimamente a influenciar os seus inimigos europeus, perdão, os seus parceiros europeus para que cheguem a acordo com a Grécia. A ideia parece-me ser antes a de influenciar a opinião pública europeia, que se tem multiplicado em manifestações de apoio aos gregos. As declarações públicas de Schäuble e agora de Cavaco Silva parecem-me assim uma tentativa frustrada para combater a simpatia com que a iniciativa grega está a ser vista pelas populações europeias. Neste enquadramento, a estratégia de Tsipras parece clara: o homem que chamou Ernesto ao seu filho, em homenagem a Che Guevara, quer realizar o velho sonho de Otelo e ser o Fidel Castro da Europa. Já esteve mais longe de o conseguir.

O primeiro muro derrubado pelo Syriza


Rui Rocha,

O primeiro muro derrubado pelo Syriza não é, ao contrário do que dizem, o da austeridade. Esse é um jogo de tabuleiro em que se estão ainda a fazer os movimentos iniciais. Mas, entretanto, está aberta uma brecha de significativa dimensão na paz podre do rame-rame político. Independentemente das consequências das medidas aprovadas pelo governo de Tsipras, há um facto incontornável: estão a ser cumpridos na frente interna os aspectos essenciais do programa apresentado a sufrágio. Não há muitos por aí que possam orgulhar-se de tal coisa. O curioso é que este primeiro impacto provoca danos sobretudo à esquerda. Não propriamente à direita, uma vez que a distância do discurso esbate a viabilidade da comparação. Nem, naturalmente, às áreas da esquerda que genuinamente assumem uma agenda próxima da defendida pelo Syriza. Mas, claramente, naquela zona da esquerda povoada por passageiros de circunstância que tentaram aproveitar de forma oportunista a onda Syriza. O problema para estes é que fica cada vez mais evidente que, apesar das proclamações de circunstância e da tralha demagógica em que se vão entretendo, jamais seriam capazes de concretizar decisões como as que o novo governo grego aprovou nos últimos dias. Não faltará por aí quem vá tentar passar entre os pingos da chuva nos próximos dias.

A coligação esquerdo-direitista apressa-se a exigir o impossível


Pedro Correia,

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 Panos Kammenos e Alexis Tsipras

 

Nascido em 1974, Alexis Tsipras é filho do Maio de 68. Que consagrou esta palavra de ordem: «A imaginação ao poder: exige o impossível.»

Em Atenas, a imaginação chegou ao poder. Por via das urnas — algo nunca antes acontecido — e graças ao bónus de meia centena de deputados possibilitado por uma excêntrica lei eleitoral que transforma 99 lugares no parlamento em 149, uma federação de 12 partidos da esquerda radical acaba de formar governo com uma força política da direita xenófoba e eurofóbica. Numa bizarra simbiose de nacionalismo e populismo, em que o discurso contra o “estrangeiro” inflama as gargantas e os espíritos como fogo em palha. Distorcendo aliás a mensagem original do Maio de 68, que era internacionalista e manifestava um desdém absoluto pelo conceito de “soberania nacional”.

Mas cumpre questionar: que soberania efectiva existe num país que mentiu aos seus parceiros sobre o volume real do défice das contas públicas, desbaratou milhares de milhões de euros em fundos estruturais lançados na maior “economia paralela” da União Europeia, detém ainda hoje o lamentável recorde de campeão europeu na fuga aos impostos e vive desde 2010 graças ao balão de oxigénio de 240 mil milhões de euros de auxílio de emergência destinado a travar in extremis a declaração de bancarrota?

 

Tendo chegado a imaginação ao poder, na insólita coligação de extremos simétricos protagonizada por Tsipras e Panos Kammenos, líder dos Gregos Independentes (ANEL), o novo chefe do executivo de Atenas trata agora de exigir o impossível: suprimir os compromissos estabelecidos com as entidades credoras. Cessam de imediato as privatizações em curso, o salário mínimo sobe 28% por decreto (passando de 586 para 751 euros), são readmitidos os funcionários públicos entretanto despedidos, estabelece-se um tecto de 12 mil euros de rendimento anual para isenção de imposto, suprimem-se as taxas moderadoras na saúde e lança-se um vasto pacote de medidas assistencialistas avaliado em 11,7 mil milhões de euros – ou seja, 6,5% do PIB helénico. O equivalente à soma dos depósitos que já voaram este mês dos bancos gregos.

Na prática, Atenas rasga o Tratado de Maastricht, que criou o sistema monetário europeu estabelecendo um conjunto de direitos e deveres aos estados signatários, e o Tratado Orçamental, que impõe limites à expansão do endividamento na UE. Lança assim novas achas na imensa fogueira da dívida pública grega ao prometer um pacote de gastos desmesurados com dinheiro que não tem. Exigindo o impossível com a sonora retórica da esquerda pura aliada à vibrante oratória da direita dura num país que representa menos de 2% do PIB comunitário.

«Os contribuintes da UE acabarão por pagar», consideram os arautos da nova coligação esquerdo-direitista de Atenas, unidos na aversão ao estrangeiro — uma coligação contra naturam, que reúne todos os ingredientes indispensáveis para não funcionar. Porque congrega o pior dos dois hemisférios políticos numa mescla de bravatas populistas e ressentimento ideológico que ameaça acelerar o colapso das finanças públicas num país recém-saído de seis anos de recessão.

 

«Não sou ateniense nem grego, mas cidadão do mundo», ensinou Sócrates há 25 séculos. Este lema contraria o essencial da doutrina programática do novo executivo Tsipras-Kammenos, alicerçada no combate aos aliados externos transformados em inimigos para efeitos de propaganda política. Receio que, na atmosfera de irreprimível demagogia agora reinante em Atenas, sejam cada vez menos os que optem por seguir a sensata voz da sabedoria milenar.

Menina não entra


Pedro Correia,

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Em Atenas, o recém-empossado  Governo encabeçado por Alexis Tsipras evitou embarcar em modernices: do novo elenco ministerial não consta uma só mulher, com quotas ou sem quotas.

Aqui está um tema em que a esquerda radical difere claramente da esquerda moderada de Zapatero, Renzi e  Manuel Valls, que formaram governos “paritários” em Madrid (2004), Roma e Paris (2014).

Aguardo as primeiras críticas, ainda que tímidas, de grupos feministas ao executivo de coligação entre o Syriza e a direita nacionalista. Aguardo sobretudo uma reacção enérgica do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas, que já em 2009 reclamava um “governo mais feminino” a José Sócrates. E um protesto muito sonoro de Ana Gomes, aliás pioneira nestas reivindicações.

Tsipras é até capaz de reconsiderar.

A viragem grega.


Luís Menezes Leitão,

Contrariando as perspectivas optimistas de rendição de Tsipras às posições de Merkel, os primeiros sinais que vêm da Grécia são muito elucidativos. Primeiro, o facto de o primeiro acto de Tsipras ter sido homenagear os gregos vítimas do nazismo, numa clara mensagem para Merkel que se prepara para levantar a questão das indemnizações não cobradas à Alemanha após a guerra. Logo de seguida Tsipras tem uma reunião com o embaixador russo, e nesse mesmo dia a Grécia bloqueia uma declaração conjunta dos países da União Europeia sobre a Rússia. Tsipras mostra assim urbi et orbi que o seu coração pende muito mais para Moscovo do que para Berlim. Tal pode significar uma alteração do posicionamento geo-estratégico da Grécia, um país da Nato com uma posição fulcral no Mediterrãneo Oriental, e que pode agora assumir-se como o cavalo de Tróia de Putin dentro da União Europeia.

 

No plano económico as primeiras medidas de Tsipras assemelham-se às do PREC: fim das privatizações, electricidade gratuita para 300.000 gregos e salário mínimo nos 751 euros. Os danos que isto vai causar na competitividade da economia grega são evidentes. Mas não me parece que isso preocupe os actuais governantes gregos. No Portugal de 1974 também o salário mínimo foi colocado em valores tão elevados que em termos reais nunca mais foram atingidos, o que, juntamente com as intervenções nas empresas, arrasou completamente a economia. Mas isso não fez perder um segundo de sono aos homens sem sono e muito menos a Vasco Gonçalves. Os dirigentes comunistas não se costumam preocupar com a saúde da economia capitalista e muito menos com os mercados, que já fizeram os juros gregos disparar e a bolsa cair a pique. Recorde-se que Mao-Tsé-Tung dizia: “Está um caos total debaixo dos céus. A situação é excelente“.

 

O que me aborrece é que tudo isto era previsível e poderia ter sido evitado se não fosse a incompetência total na gestão da crise europeia por parte de Merkel e Barroso, naturalmente apoiados por Passos Coelho que acha tudo isto um conto de crianças. Mas os contos de crianças também ensinam algumas coisas: uma delas é que os génios podem ser perigosos quando são libertados da garrafa.

A grande ilusão.


Luís Menezes Leitão,

Perante a vitória mais que previsível do Syriza, imensos comentadores esforçaram-se por salientar que iria ficar tudo na mesma, com Angela Merkel a continuar a mandar na Grécia e Alexis Tsipras a vergar-se às posições alemães. No fundo é a repetição do velho TINA (There is no alternative) que até na Alemanha levou à criação de um partido radical Alternativ für Deutschland, que defende a saída imediata da Alemanha do euro. Parece-me um colossal erro de perspectiva. Tsipras é ambicioso, tem convicções ideológicas marcadas, tanto assim que até deu ao filho o nome do Che, e não vai querer ficar na história como o Hollande grego. Se seguir um padrão, será o de Lenine, que não hesitou em repudiar os compromissos russos, alegando que o novo estado soviético não tinha que os cumprir. E não me parece que neste momento os gregos encarassem mal uma declaração de bancarrota, pois provavelmente chegaram ao ponto em que acham que nada pode ficar pior do que já está. Os primeiros sinais que chegam, com Tsipras a proclamar que a austeridade acabou, e os eurocratas habituais a dizer que a Grécia tem que cumprir os seus compromissos levam a concluir que a ruptura é inevitável. Desiludam-se assim aqueles que julgam que tudo vai ficar na mesma.

 

Outros julgam, porém, que a bancarrota grega e a saída da Grécia do euro pode até ser positiva para os outros Estados-Membros que já se resguardaram para esta situação. Mais uma grande ilusão. A bancarrota grega terá um impacto mundial tão elevado que fará a queda do Lehman Brothers parecer uma brincadeira. E o resultado, a curto ou a médio prazo, será o descrédito do euro, com muito especulador a apostar qual é o próximo país a sair, com Portugal em excelente lugar na lista de apostas. 

 

Dir-se-á que tudo isto é irracional e que uma negociação séria permitirá limar arestas. Mas a verdade é que o comportamento dos Estados nem sempre é racional. Em 1914 ninguém de bom senso acreditaria que um crime político pudesse arrastar o continente europeu para uma guerra, mas de um momento para outro foi isso o que se passou. Em 2015 corremos o risco de assistir a uma bancarrota grega com ondas de choque inevitáveis em todo o continente. E julgo que agora é tarde para a evitar.