Manuel Pinho: «A cama não é para ler»


Pedro Correia,

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«Portugal sem pessoas invejosas seria quase o paraíso»

 

Já liberto das funções de ministro, que exerceu entre 2005 e 2009, o economista acedeu em responder a este inquérito telefónico que não permitia fugas às perguntas. Mais contido de início, foi-se soltando. Fazendo questão de acentuar, para destinatários incertos: «Sou Escorpião e esqueço, mas não desculpo.»

 

Tem medo de quê?

De um dia ter medo.

Gostaria de viver num hotel?

Não, porque nesse próprio dia deixaria de ser um dos meus hotéis favoritos. Hotéis como o Cipriani em Veneza, o St. Regis em Nova Iorque e o Pestana Palace e o Hotel do Bairro Alto em Lisboa.

A sua bebida preferida?

Vinho de grande qualidade em pequena quantidade..

Tem alguma pedra no sapato?

Sou Escorpião e esqueço, mas não desculpo. Ter pedras no sapato seria dar demasiada importância a quem não merece.

Que número calça?

Sapato por medida do Carlos Santos, tamanho 40.

Que livro anda a ler?

Não vejo televisão nem leio jornais, salvo a Sport TV e o Financial Times. Acabei de ler a Política e o Aquecimento Global, de Anthony Giddens.

Tem muitos livros à cabeceira?

Não tenho nenhum. A cama não é para ler.

A sua personagem de ficção favorita?

Prefiro personagens reais, como Lula da Silva e Barack Obama. 

Rir é o melhor remédio?

É importante saber rir, sobretudo de nós próprios.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Nunca choro por tristeza, mas por vezes deito uma lágrima por emoções boas. Emocionei-me recentemente, quando o New York Times publicou um artigo a três colunas na primeira página dizendo que a política de energia em Portugal devia servir de exemplo a Obama.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Depende do meio de transporte, mas na vida não gosto nada de ser conduzido e raramente deixo que tal aconteça.

É bom transgredir os limites?

É bom recuar os limites, mas é mau transgredir os limites e procuro não o fazer.

Qual é o seu prato favorito?

Sopa de bacalhau no Trempe, em Campo de Ourique, costeletas de cordeiro no Tavares e comida japonesa.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Não se trata de um pecado capital, mas fumo em excesso.

A sua cor preferida?

O azul do céu. No futebol, prefiro o vermelho, mesmo nos maus dias.

Costuma cantar no duche?

Nem a brincar.

E a música da sua vida?

Vem-me à cabeça a letra do My Way, de Frank Sinatra, e o solo de guitarra de Sultans of Swing, dos Dire Straits,

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Ouvir o hino nacional mexe comigo e a única alteração era ouvi-lo em mais ocasiões, como acontece nos Estados Unidos.

Mudaria a actual bandeira nacional?

De forma alguma, porque é um símbolo da nossa identidade.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Nelson Mandela [faleceu em 2013].

As aparências iludem?

Normalmente só se engana quem quer ser enganado.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Passar à frente de uma senhora e falar mal à sua frente.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Devemos ter cuidado a vestir porque a imagem exterior é, de certa maneira, o espelho da interior.

Qual é o seu maior sonho?

O sonho é uma constante da vida. Felizmente, tenho capacidade para sonhar, para concretizar muitos dos meus sonhos e, mais do que isso, para não ficar amargo com os que não se realizam.

E o maior pesadelo?

Perder um ente querido.

O que o irrita profundamente?

Tenho alguma dificuldade em lidar com pessoas pouco inteligentes e invejosas que se tomam por inteligentes e generosas.

Qual a melhor forma de relaxar?

Jogar golfe e ganhar.

O que faria se fosse milionário?

Não faço ideia, porque não sou nem nunca serei milionário, embora tenha o suficiente.

Casamentos gay: de acordo?

Tenho vários amigos gay e não me agrada nada a ideia de eles poderem ser discriminados.

Uma mulher bonita?

É um conjunto muito delicado de atributos interiores e exteriores e uma certa forma de estar.

Acredita no paraíso?

Julho no Algarve, Agosto em Lisboa e Setembro em Nova Iorque. A família à volta, ter amigos. Portugal sem pessoas invejosas seria quase o paraíso.

Tem um lema?

Não me lamentar porque cada desafio é uma oportunidade.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (28 de Agosto de 2010)

Vítor Melícias: «Milito na sardinha assada»


Pedro Correia,

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«Uma mulher bonita é um dom de Deus que devemos louvar»

 

O sacerdote franciscano respondeu com bonomia e uma gentileza não isenta de algum formalismo inicial. Mas foi-se soltando, em tom risonho, à medida que a conversa prosseguia. Revelando inegável mestria na arte de fintar as entrelinhas. 

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de ter medo.

Gostaria de viver num hotel?

Não gostaria nada. Mas num convento sim.

A sua bebida preferida?

É água. Mas também gosto de vinho.

Branco ou tinto?

Sobretudo tinto.

Tem alguma pedra no sapato?

Que me recorde, não tenho nenhuma. Aliás faço sempre questão por não ter. Até por esse motivo prefiro usar sandálias.

Que número calça?

Não sei.

Que livro anda a ler?

Ando a ler sempre tantos ao mesmo tempo que não consigo mencionar nenhum em particular.

Existe algum livro que mantenha sempre à cabeceira?

Pelo menos dois: a Santa Bíblia e o de São Francisco de Assis.

A sua personagem de ficção favorita?

De ficção, não sei. A minha personagem histórica favorita é Amílcar Barca, aquele general cartaginês que atravessou os Alpes montado num elefante.

Rir é o melhor remédio?

É. Um remédio absolutamente recomendado contra todas as doenças. E também funciona muito bem para as prevenir.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Lembro. Foi num funeral de uma pessoa de família. Aliás, emociono-me com frequência. Emociono-me com o sofrimento humano, com situações de pobreza extrema.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir.

É bom transgredir os limites?

Não é nada bom. Mas às vezes…

Qual é o seu prato favorito?

Pertenço à facção militante da sardinha assada e do bacalhau cozido com batatas.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Já não me lembro bem quais são os pecados capitais. Se calhar é a parvoíce. Às vezes sou parvo quando não devia.

A sua cor favorita?

Verde.

No futebol também?

Claro. Sou membro do Conselho Leonino! [Órgão entretanto extinto no Sporting.]

Costuma cantar no duche?

Sim, todos os dias.

E a música da sua vida?

Gosto de tantas… Pode ser aquela que diz: «Se fores a São Francisco não te esqueças de levar umas flores no teu cabelo.»

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Sou daqueles que preferiam que o hino nacional não falasse em guerra nem mencionasse a existência de canhões. Preferia um hino que transmitisse uma mensagem de convivência fraternal e sã entre os povos pertencentes às mais diversas raças, culturas e crenças. Mas percebo que, por motivos históricos, o hino permaneça como está.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com o meu amigo António Guterres, que já não vejo há muito tempo. Tenho saudades dele.

As aparências iludem?

Às vezes iludem memo.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Uma camisola de gola alta. Assim escuso de pensar em vestir roupas mais complicadas.

Qual é o seu maior sonho?

Que as pessoas saibam encontrar sempre caminhos para o bom entendimento mesmo que pertençam a culturas, religiões ou clubes diferentes. Todos diferentes, todos iguais.

E o maior pesadelo?

É temer que as pessoas, sem sequer haver motivos para isso, se envolvam em conflitos sem solução.

O que o irrita profundamente?

Ouvir pessoas a pronunciar-se sobre alguns assuntos de forma doutoral sem perceberem nada do que estão a dizer.

Qual a melhor forma de relaxar?

Na natureza, com a natureza, pela natureza.

O que faria se fosse milionário?

Ajudava quem não é.

Casamentos homossexuais: de acordo?

Não. É uma matéria que está muito longe dos meus parâmetros.

Uma mulher bonita?

É um dom de Deus que devemos louvar.

Acredita no paraíso?

Acredito. Mas há várias formas de lá chegar.

Tem um lema?

«Vida por vida», que é o lema dos bombeiros.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (28 de Março de 2009)

Ana Bola: «Sou muito boa boca»


Pedro Correia,

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«Tenho muita pena de não ter feito Medicina. Leio muita coisa sobre temas médicos»

 

Soam gargalhadas do lado de lá do telefone. A actriz que se habituou a trabalhar nos mais diversos palcos – e a cantar bem, além de representar – sente-se à vontade na comunicação. Ou não fosse do signo Gémeos. Recordo que a conversa com ela foi particularmente bem-disposta. Mais a sério, confessou-me que sonhou ser médica.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Foi tão grande, tão grande, tão grande que não posso falar dela publicamente.

Gostaria de viver num hotel?

Neste momento, não. Mas gosto muito de hotéis, desde que tenha espaço para mim. Acho graça à ideia de imitar a Beatriz Costa, que viveu anos no Hotel Tivoli.

A sua bebida preferida?

Depende dos momentos. Pode ser água. Ou vinho. Ou chá. Ou sumo de laranja.

Que número calça?

38.

Que livro anda a ler?

Na Praia de Chesil, de Ian McEwan. 

Está a gostar?

Muito. Gosto muito da escrita dele.

A sua personagem de ficção preferida?

Neste momento estou muito presa ao Dr. House. Acho o actor [Hugh Laurie] magnífico. Além disso, interesso-me por tudo quanto seja ligado a hospitais e remédios e operações. Hoje tenho muita pena de não ter feito Medicina. Leio muita coisa sobre temas médicos. Interesso-me por diagnósticos, que sempre encarei como algo misterioso.

Considera-se uma pessoa saudável?

Sim. Tenho alguns cuidados com a saúde. Mas mantenho maus hábitos: fumo de vez em quando um cigarrinho, por exemplo. É um equilíbrio no desequilíbrio.

Qual é o seu prato favorito?

Sou muito boa boca. Gosto de tudo – até daquilo de que quase todas as pessoas não costumam gostar, como rins.

Diga lá um prato que aprecie mesmo muito…

Adoro uma coisa que é nojenta: língua de vaca. Com puré de batata, é do melhor que há.

Gosta de cozinhar?

Gosto muito. De repente, apetece-me fazer uma feijoada. Ou um prato leve. Ou um risotto. Ou comida indiana. Vou a todas…

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Hoje em dia, se calhar, é a gula. Mas já tive tempos melhores.

A sua cor preferida

O azul, nas suas mais diversas tonalidades.

Costuma cantar no duche?

Não. Costumo cantar, mas não necessariamente no duche.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Deixem lá estar o hino como está. Já existe há tantos anos…

As aparências iludem?

Iludem. Cada vez mais. Hoje em dia, então, iludem tanto…

Qual é a sua peça de vestuário preferida no Verão?

Túnicas indianas, fininhas. Têm a vantagem de tapar a anca…

O que a irrita profundamente?

A estupidez e a burrice, mais do que a falta de cultura ou a ignorância. Imagine o que tenho de me irritar todos os dias!

Com quem gostaria de jantar?

Com a Madonna. Acho fascinante como é que uma mulher que não canta quase nada consegue manter uma carreira tão profissional durante tantos anos.

Qual o seu maior sonho?

Ter tempo para fazer apenas o que realmente me apetece.

E o maior pesadelo?

Ver partir à minha frente os meus familiares e amigos, sobretudo os que são mais novos do que eu.

O que faria se fosse milionária?

Faria certamente alguma filantropia. E compraria tempo só para mim.

Casamentos gay: de acordo?

O valor que mais prezo é a liberdade. Estou de acordo que façam o que pretendem, no pleno uso dessa liberdade.

Um homem bonito?

Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés.

Acredita no paraíso?

Não.

Tem um lema?

A vida deu-te limões, faz limonadas.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (11 de Agosto de 2007)

Simone de Oliveira: «As aparências só iludem quem for muito burro»


Pedro Correia,

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«Sempre procurei viver com sinceridade. E nunca me esqueci de dizer “Por favor” e “Obrigada”»

 

Uma das nossas raras divas atendeu com prontidão, sem vedetismos de qualquer espécie, e prestou-se ao desafio: responder a perguntas que exigiam resposta rápida pelo telefone. Naquele tom genuíno e desassombrado que lhe reconhecemos há tantos anos nos palcos ou nos discos.

 

Tem medo de quê?

Do sofrimento.

Gostaria de viver num hotel?

Gostava muito.

Porquê?

Acho óptimo não ter de fazer a cama nem limpar as casas de banho. Adorava. Assim um bocadinho à Beatriz Costa…

A sua bebida preferida?

Um bom vinho tinto português.

Tem alguma pedra no sapato?

Ai, tenho tantas! Se tirasse todas as pedras do sapato dava para fazer uma pedreira…

Que número calça?

38.

Tem muitos livros à cabeceira?

Tenho neste momento cerca de uma dúzia, de vários géneros. Gosto muito de ler.

A sua personagem de ficção preferida?

Scarlett O’Hara, de E Tudo o Vento Levou.

Rir é o melhor remédio?

Às vezes é.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Há muito pouco tempo.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzida?

De conduzir. Completamente. Detesto ser conduzida.

É bom transgredir os limites?

É. Mas só com determinados limites.

Qual é o seu prato favorito?

Há vários. Gosto muito de cozido à portuguesa, de pataniscas e de eiroses fritos.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Espero bem que nenhum. Não mato, não roubo, não sou invejosa, nem faço mal a ninguém. Sou bem comportada.

A sua cor preferida?

Violeta. Qualquer tom de roxo.

Costuma cantar no duche?

Nunca.

E a música da sua vida?

As canções da minha vida têm diversas fases. Há várias canções de que gosto muito – tudo depende do meu estado de espírito. Tão depressa sou capaz de ouvir Maria João Pires ou fado. Se ouço fado é com certeza porque tenho a alma magoada.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Gosto assim. Parece-me muito bem marchar contra os canhões. Há para aí tantos canhões apontados…

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Hoje vou jantar com a minha filha, que não vejo há oito meses. Não trocava este jantar por um encontro com qualquer figura pública, fosse ela quem fosse.

As aparências iludem?

As aparências só iludem quem for muito burro.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Umas calças ou uma saia e uma blusa. E tenho muita pena que tenham acabado os pullovers para mulheres.

Qual é o seu maior sonho?

Continuar a viver com a qualidade de vida que tenho neste momento.

E o maior pesadelo?

Ter um filho ou um neto doentes.

O que a irrita profundamente?

A estupidez.

Qual a melhor forma de relaxar?

Tomar uma caipirinha ou uma caipirosca ao fim da tarde, a ver o mar.

O que faria se fosse milionária?

Era capaz de ajudar muita gente antes de qualquer outra coisa.

Casamento gay: de acordo?

Estou de acordo com as uniões de facto, chamem-lhes como quiserem.

Um homem bonito?

Prefiro um homem inteligente. Mas está difícil… É melhor não arriscar nenhum nome.

Acredita no paraíso?

Sou um bocadinho esotérica. Acredito num Para Lá…

Tem um lema?

Sempre procurei viver com sinceridade. E nunca me esqueci de dizer “Por favor” e “Obrigada”.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (7 de Fevereiro de 2009)

Júlio Machado Vaz: «Não creio no paraíso»


Pedro Correia,

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«Confesso que sou bígamo: gosto de Douro e de Alentejo»

 

Afável, sorridente, bem disposto. Este benfiquista nortenho atendeu o telefone e prontificou-se a ser submetido ao questionário, disparado à queima-roupa. Com o treino de quem está muito rodado a fazer perguntas, enquanto psiquiatra, sexólogo e comunicador de longa data na rádio e na TV.

 

Tem medo de quê?

De desperdiçar o que me resta para viver.

Gostaria de viver num hotel?

Dependeria do tamanho e do preço da suíte! Aviso que não dispensaria o jacuzi.

A sua bebida preferida?

Maduro tinto. E confesso que sou bígamo – gosto de Douro e de Alentejo.

Tem alguma pedra no sapato?

Você ainda pergunta isso a um pobre benfiquista?

Que número calça?

39.

Que livro anda a ler?

The Perfect Heresy.

A sua personagem de ficção preferida?

Cyrano de Bergerac.

Rir é o melhor remédio?

Se fosse o melhor remédio, ria-me todas as noites e o colesterol não subia.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Perfeitamente.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

De conduzir. Costumo enjoar se for ao lado.

É bom transgredir os limites?

Sou um homem de pequenas – mas saborosas – transgressões. Aqui só para nós, receio não ter a saúde física e psíquica de um Keith Richards.

Qual é o seu prato favorito?

Qualquer um à mesa (cheia) de Cantelães.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A gula (em sentido lato).

A sua cor preferida?

Azul, por incrível que possa parecer.

Costuma cantar no duche?

Não. Quando tentei fazer isso, o condomínio ameaçou-me de despejo.

A música da sua vida?

Wish You Were Here, dos Pink Floyd.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Sim. Como diria Woody Allen, sugiro que seja cantado em sueco.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Comigo mesmo. Estou a líquidos por ter tirado um dente do siso…

As aparências iludem?

Sem dúvida. Mas também reinam, incontestadas, nesta nossa sociedade.

E a peça de vestuário que prefere?

Jeans (ora cá vem o azul outra vez…)

Qual é o seu maior sonho?

Neste momento, parece mais uma utopia: é o Benfica ser campeão sem o FC Porto e o Sporting estarem catatónicos.

E o maior pesadelo?

Um mundo sem música, sem livros e sem memória.

O que o irrita profundamente?

As minhas hesitações.

Qual a melhor forma de relaxar?

Olhar os moinhos preguiçosos da Cabreira saboreando antecipadamente o jantar da tribo.

O que faria se fosse milionário?

Com toda a franqueza, não sou um coleccionador de dinheiro. Estabelecia uma fronteira de segurança e gastava o resto comigo e com os que amo.

Casamento gay: de acordo?

Obviamente, apoio-os (ainda estou influenciado por um documentário que vi há dias na televisão sobre o general Humberto Delgado).

Uma mulher bonita?

Um enorme prazer para a vista. Mas a beleza não garante nada a outros níveis.

Acredita no paraíso?

Não. E, a existir, desconfio muito que o paraíso seja um pouco entediante.

Tem um lema?

Enquanto for capaz de rir de mim próprio, nada está perdido.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (24 de Maio de 2008)

Camané: «Não costumo cantar no duche»


Pedro Correia,

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«My Way, de Frank Sinatra, e Yesterday, dos Beatles, são músicas da minha vida»

 

Percebe-se rapidamente que é uma pessoa tímida. Mesmo a falar ao telefone. Mas o fadista – que considero o melhor intérprete da canção nacional da sua geração – revelou uma paciência inexcedível nas respostas ao interrogatório que lhe fiz.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de ter medo.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Acho muito impessoal. Acabamos por entrar numa certa rotina que não me satisfaz.

A sua bebida preferida?

Coca-Cola.

Tem alguma pedra no sapato?

Tenho várias.

Não há meio de saírem?

Vão acabando por sair aos poucos. O tempo faz com que saiam todas.

Que número calça?

39.

Que livro anda a ler?

Adeus às Armas, de Hemingway. Parei de ler a 50 páginas do fim por excesso de trabalho, mas acabarei em breve. Estou a gostar muito.

Tem muitos livros à cabeceira?

Não muitos.

A sua personagem de ficção favorita?

Sherlock Holmes é uma personagem que sempre me atraiu. Mas também gosto do Drácula, de Mr. Hyde e de Jack, o Estripador.

Rir é o melhor remédio?

Sim.

É algo que faz com frequência?

Não tanto como devia. Devemos rir-nos de nós próprios, não devemos levar-nos demasiado a sério. Se nos rirmos com frequência acabamos por ter uma vida muito mais saudável e feliz.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Choro às vezes or coisas muito simples. A última vez que me aconteceu foi recentemente ao ver num canal da televisão portuguesa um documentário de um rapaz que ensina arte a pessoas com deficiência que já conseguiram vender quadros pela Europa toda.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir.

É bom transgredir os limites?

Não. Às vezes gosto de correr riscos, mas não gosto de pôr ninguém em risco.

Qual é o seu prato favorito?

Cozido à portuguesa. Em qualquer estação do ano.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Talvez a preguiça.

A sua cor preferida?

Azul.

No futebol também?

No futebol é o vermelho.

Costuma cantar no duche?

Não. Aliás não costumo cantar em casa.

E a música da sua vida?

Há várias. Gosto muito do My Way, do Frank Sinatra. E também do Yesterday, dos Beatles.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Habituei-me a reconhecer este hino. Está bem assim.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Nelson Mandela [falecido em Dezembro de 2013]. É um homem que admiro pela sua coragem, pelo seu espírito de resistência e também pela sua bondade. São pessoas assim que conseguem fazer o mundo melhor.

As aparências iludem?

Acho que sim. 

Qual é a peça de vestuário que prefere?

As calças. Têm de ser confortáveis.

Qual é o seu maior sonho?

Cantar fado a vida toda. Sempre foi esse o meu sonho.

E o maior pesadelo?

É não poder concretizar esse sonho.

O que o irrita profundamente?

A inveja, a maledicência.

Qual a melhor forma de relaxar?

Ir ao cinema, ouvir música, ir à praia.

O que faria se fosse milionário?

Concretizava alguns sonhos materiais e tentaria ajudar algumas pessoas que necessitam, praticando voluntariado.

Uma mulher bonita?

Scarlett Johansson.

Acredita no paraíso?

Não sei.

Tem um lema?

Vive e deixa viver.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (29 de Novembro de 2008)

Bagão Félix: «Sou visceralmente caseiro»


Pedro Correia,

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«A mulher mais bonita é a que parece que não o é»

 

O antigo ministro das Finanças e da Segurança Social, benfiquista militante, foi um dos entrevistados que responderam com mais segurança e rapidez a este inquérito feito por telefone. Sem vacilar sequer no momento em que fez duas citações. Pareceu-me ter gostado genuinamente deste desafio, que venceu por goleada.

 

Tem medo de quê?

Do medo.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Sou visceralmente caseiro.

A sua bebida preferida?

Água. 

Tem alguma pedra no sapato?

Nem nos sapatos nem nos rins.

Que número calça?

Vinte mais IVA.

Que livro anda a ler?

Leio sempre vários livros. Ando a ler, por exemplo, um livro sobre ética empresarial e outro sobre a história da Europa desde a II Guerra Mundial. Além disso, todas as noites, folheio um dos meus vários livros de botânica, de que gosto muito.

Tem muitos livros à cabeceira?

Muitos. Mas não tenho livros de cheques.

A sua personagem de ficção preferida?

Tintim. Tem a ver com o imaginário da minha infância.

Rir é o melhor remédio?

«Se não te conseguires rir das coisas sérias, não terás nada de que rir quando fores velho», já dizia George Bernard Shaw. O riso é uma das formas mais sadias de liberdade.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Sim. Foi recentemente, num funeral.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Não tenho particular gosto em conduzir o automóvel, apesar de costumar fazê-lo. No geral, gosto de conduzir. Gosto mais de determinar do que esperar que outros determinem por mim.

É bom transgredir os limites?

Já dizia Oscar Wilde: «Resistir a tudo menos às tentações.» Mas ainda sou daqueles que param no sinal vermelho.

Qual é o seu prato favorito?

Bacalhau com batatas na ceia de Natal. É aquele que verdadeiramente me transmite a conjugação feliz entre a comida e a família.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Tenho mais pecados veniais do que capitais. Não sei se os pecados veniais acumulados dão capital…

A sua cor preferida?

Encarnada.

Costuma cantar no duche?

Não. Gosto muito de música, mas sou absolutamente inapto para cantar.

E a música da sua vida?

Ne Me Quitte Pas, de Jacques Brel.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Quanto à música, acho bem. Mas a letra está completamente desajustada do nosso tempo.

Gosta da bandeira nacional?

Gostava mais da monárquica, apesar de não ser monárquico.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Gostaria de jantar com o Papa Bento XVI, que além do mais é um grande intelectual.

As aparências iludem?

As ilusões às vezes aparecem.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

A gravata.

Qual é o seu maior sonho?

Ser cada vez mais livre.

E o maior pesadelo?

É quando o Benfica perde e acordo na manhã seguinte.

O que o irrita profundamente?

O disfarce. Uma das coisas que mais aprecio nas pessoas é a autenticidade.

A melhor forma de relaxar?

É relaxar sem dar por isso.

O que faria se fosse milionário?

Ia para o deserto contar as notas. O deserto é o símbolo da supremacia do ser sobre o ter.

Uma mulher bonita?

A mulher mais bonita é a que parece que não o é. Sigourney Weaver, por exemplo.

Acredita no paraíso?

Acredito no paraíso porque acredito na eternidade.

Tem um lema?

Fazer dos tempos livres trabalho e fazer do trabalho tempo livre.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (22 de Novembro de 2008)

Ana Gomes: «Cada vez gosto mais do verde das plantas e das paisagens»


Pedro Correia,

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«Se os limites forem injustos, absurdos ou ilegítimos é bom transgredi-los. Convém mesmo transgredi-los sem hesitação»

 

Atendeu o telefone com prontidão e dispôs-se a retorquir sem gaguejar às perguntas que fui disparando, sem imaginar qual seria a questão seguinte. Hesitou pouco ou nada. Por vezes, antes de responder, soltava uma gargalhada, confirmando que preza o sentido de humor.

 

Tem medo de quê?

De ter medo.

Gostaria de viver num hotel?

Já vivi vários meses num hotel quando estava na Indonésia antes de ter casa lá. Tive imensa sorte: era um hotel maravilhoso. Claro que prefiro estar em casa do que num hotel, por permitir mais privacidade, mas não tenho nada contra hotéis.

A sua bebida preferida?

Água.

Tem alguma pedra no sapato?

Eu? Não. Procuro usar sempre sapatos confortáveis.

Que número calça?

38.

Que livro anda a ler?

Um livro de Amin Maalouf, Le Dérèglement du Monde. 

E que tal?

Estou a gostar muito.

Tem muitos livros à cabeceira?

Costumo ter muitos. E revistas. E papéis. Mas, infelizmente, é quase tudo relacionado com o meu trabalho no Parlamento Europeu [deixou de ser eurodeputada em 2019]. Questões relacionadas com direitos humanos, conflitos, desenvolvimento, a luta contra a corrupção, a resolução da crise financeira internacional. Não tenho conseguido tempo para ler e reflectir sobre mais nada.

A sua personagem de ficção favorita?

Nenhuma em especial.

Rir é o melhor remédio?

Rir faz muito bem, sem dúvida. Não sei se é o melhor remédio. Mas é um remédio essencial.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Lembro.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzida?

Depende das circunstâncias. Depende também de quem é o condutor.

É bom transgredir os limites?

Também depende muito de quais são os limites. Se os limites forem injustos, absurdos ou ilegítimos, é bom transgredi-los. Convém mesmo transgredi-los sem hesitação.

Qual é o seu prato favorito?

Empadão de carne.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Talvez a gula.

A sua cor favorita?

Tem variado ao longo dos anos. Mas cada vez estou a gostar mais do verde. O verde das plantas, o verde das paisagens.

Costuma cantar no duche?

Não. Costumo cantar, mas não necessariamente no duche.

E a música da sua vida?

Petite Messe Solennelle, de Rossini.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Gosto do hino nacional, embora as palavras sejam politicamente incorrectas – muito incorrectas mesmo. Comovo-me sempre que o oiço.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Pascal Lamy, director-geral da Organização Mundial do Comércio [cessou funções em 2013]. É um socialista francês que muito admiro. Gostava muito de o ver como presidente da Comissão Europeia.

As aparências iludem?

Sim. E as iludências também aparudem.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

As calças.

Qual é o seu maior sonho?

Sonho ver a humanidade mais justa. Sonho ver o mundo melhor, com mais equidade. Sonho poder contribuir para deixar um mundo melhor para os meus netos.

E o maior pesadelo?

O meu maior pesadelo relaciona-se com a crise económica do mundo actual. Apesar de todas as medidas que estão a ser tomadas, receio que esta crise acabe por avolumar as tensões sociais e políticas. Há sempre políticos populistas e xenófobos prontos a explorar o descontentamento popular devido à falta de perspectivas económicas. Em tudo isto vejo também, e com muita preocupação, um défice de intervenção da Europa.

O que a irrita profundamente?

A desonestidade intelectual. Na política, por exemplo.

Qual a melhor forma de relaxar?

Brincar com os meus netos.

O que faria se fosse milionária?

Financiava uma série de organizações não governamentais que fazem um trabalho extraordinário a favor dos direitos humanos e do desenvolvimento.

Um homem bonito?

Kevin Costner.

Acredita no paraíso?

Na Terra.

Tem um lema?

Dar o máximo.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (4 de Abril de 2009)

Quem fala assim…


Pedro Correia,

Durante três anos, num suplemento já extinto do Diário de Notícias – o DN Gente, de que fui editor – mantive um questionário com perguntas fixas em que ia introduzindo pequenas variações. Tinha a particularidade de ser um interrogatório feito em directo, a partir do jornal, e visou quase centena e meia de figuras públicas – da política, do espectáculo, das artes, da cultura. Com respostas à queima-roupa, sem pausas longas nem intervalos para meditação. Sob o título genérico Quem fala assim…

Em regra, escolhia uma hora relativamente tranquila na Redacção para conduzir estas conversas, sempre feitas ao telefone e às quais muito pouca gente se negou, devo sublinhar. Havia, em regra, momentos divertidos, sublinhados com gargalhadas de parte a parte. Ao ponto de se irem juntando alguns colegas em meu redor, curiosos por saber sobretudo as respostas a duas perguntas que se tornaram obrigatórias e constituíam talvez o maior teste ao sentido de humor das pessoas interrogadas: «Gosta mais de conduzir ou de ser conduzida?» e «Qual é o pecado mortal que pratica com mais frequência?»

Nestas últimas semanas, envolvido em grandes arrumações domésticas, reencontrei várias destas entrevistas, que aproveitarei para reproduzir nas semanas mais próximas aqui no DELITO. Sempre com uma pequena introdução de enquadramento, além de eventuais notas, entre parêntesis rectos, quando houver necessidade de alguma actualização. 

Espero que gostem. Começa amanhã, com Ana Gomes.