
«Sempre procurei viver com sinceridade. E nunca me esqueci de dizer “Por favor” e “Obrigada”»
Uma das nossas raras divas atendeu com prontidão, sem vedetismos de qualquer espécie, e prestou-se ao desafio: responder a perguntas que exigiam resposta rápida pelo telefone. Naquele tom genuíno e desassombrado que lhe reconhecemos há tantos anos nos palcos ou nos discos.
Tem medo de quê?
Do sofrimento.
Gostaria de viver num hotel?
Gostava muito.
Porquê?
Acho óptimo não ter de fazer a cama nem limpar as casas de banho. Adorava. Assim um bocadinho à Beatriz Costa…
A sua bebida preferida?
Um bom vinho tinto português.
Tem alguma pedra no sapato?
Ai, tenho tantas! Se tirasse todas as pedras do sapato dava para fazer uma pedreira…
Que número calça?
38.
Tem muitos livros à cabeceira?
Tenho neste momento cerca de uma dúzia, de vários géneros. Gosto muito de ler.
A sua personagem de ficção preferida?
Scarlett O’Hara, de E Tudo o Vento Levou.
Rir é o melhor remédio?
Às vezes é.
Lembra-se da última vez em que chorou?
Há muito pouco tempo.
Gosta mais de conduzir ou de ser conduzida?
De conduzir. Completamente. Detesto ser conduzida.
É bom transgredir os limites?
É. Mas só com determinados limites.
Qual é o seu prato favorito?
Há vários. Gosto muito de cozido à portuguesa, de pataniscas e de eiroses fritos.
Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?
Espero bem que nenhum. Não mato, não roubo, não sou invejosa, nem faço mal a ninguém. Sou bem comportada.
A sua cor preferida?
Violeta. Qualquer tom de roxo.
Costuma cantar no duche?
Nunca.
E a música da sua vida?
As canções da minha vida têm diversas fases. Há várias canções de que gosto muito – tudo depende do meu estado de espírito. Tão depressa sou capaz de ouvir Maria João Pires ou fado. Se ouço fado é com certeza porque tenho a alma magoada.
Sugere alguma alteração ao hino nacional?
Não. Gosto assim. Parece-me muito bem marchar contra os canhões. Há para aí tantos canhões apontados…
Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?
Hoje vou jantar com a minha filha, que não vejo há oito meses. Não trocava este jantar por um encontro com qualquer figura pública, fosse ela quem fosse.
As aparências iludem?
As aparências só iludem quem for muito burro.
Qual é a peça de vestuário que prefere?
Umas calças ou uma saia e uma blusa. E tenho muita pena que tenham acabado os pullovers para mulheres.
Qual é o seu maior sonho?
Continuar a viver com a qualidade de vida que tenho neste momento.
E o maior pesadelo?
Ter um filho ou um neto doentes.
O que a irrita profundamente?
A estupidez.
Qual a melhor forma de relaxar?
Tomar uma caipirinha ou uma caipirosca ao fim da tarde, a ver o mar.
O que faria se fosse milionária?
Era capaz de ajudar muita gente antes de qualquer outra coisa.
Casamento gay: de acordo?
Estou de acordo com as uniões de facto, chamem-lhes como quiserem.
Um homem bonito?
Prefiro um homem inteligente. Mas está difícil… É melhor não arriscar nenhum nome.
Acredita no paraíso?
Sou um bocadinho esotérica. Acredito num Para Lá…
Tem um lema?
Sempre procurei viver com sinceridade. E nunca me esqueci de dizer “Por favor” e “Obrigada”.
Entrevista publicada no Diário de Notícias (7 de Fevereiro de 2009)

eXotérica?
Gralha corrigida. Grato.
Simone Oliveira é uma senhora!
Hoje as raparigas têm todas tiques de camionista….
Senhora, com S maiúsculo.
Perdi a aposta, Pedro, não pensei na Simone, de quem também gosto muito; mas é um gosto tardio, em miúda não gostava nada do nacional cançonetismo.
Comecei a gostar dela a apresentar programas na televisão e já com pouca voz.
A Simone é uma Mulher Extraordinária, cheia de coragem e sem papas na língua – e cada vez está melhor, tal como o nosso vinho do Porto.
E mais bonita também!
🌻
Maria
Uma mulher bonita, charmosa, carismática. De uma beleza rara entre nós.
Uma verdadeira diva – das raras que tivemos. Amália, Milu, Eunice, muito poucas.
E sem aquela atitude sobranceira que geralmente associamos às divas, como bem comprovei nesta entrevista.
Além de ser dona de um reportório de grande qualidade. Sempre foi exigente também nisso, mesmo numa época em que não era fácil dividir as águas.
Alguns exemplos: sw64 zZkk OKlg
https://www.youtube.com/watch?v=XONXLou
https://www.youtube.com/watch?v=uyJZ-p3
https://www.youtube.com/watch?v=Ujw0hJW
Obrigada, Pedro, gostei de recordar, especialmente a primeira, que já mal lembrava…
Também gosto muito, mesmo muito, do Sol de Inverno: houve uma altura em que dava comigo a trautear essa canção, nem eu sei porquê.
🌻
Maria
‘Sol de Inverno’ é uma das canções da minha vida. Canção da dupla Jerónimo Bragança-Nóbrega e Sousa, que assinou vários temas musicais de grande qualidade.
Uma dupla que, se fosse norte-americana, seria célebre. Em Portugal, caiu no esquecimento: morreram ambos sem nunca terem obtido o reconhecimento público que mereciam.
Sofremos de uma espécie de amnésia colectiva. “Não inscrevemos”, como escreveu o outro.
E temos a Desfolhada, que tanto deu que falar. Música potente, letra incrível e indecorosa para a época, cantada por uma voz sem par, portentosa e doce. O meu pai sempre disse que não era para toda a gente cantar a Desfolhada. Era preciso ter voz e coragem.
Pouca gente sabe que a ‘Desfolhada’ esteve para ser cantada pela Madalena Iglésias. A canção foi-lhe oferecida pela dupla de autores (Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes). Mas ela recusou por causa do tal verso “quem faz um filho fá-lo por gosto”.
A Madalena Iglésias era uma “fofinha”, mas nunca teve a garra da Simone.
https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-d e-vista/arquivo-morto/2019-02-21-a-desfo lhada-chegou-a-simone-em-segredo-eela-ca ntou-a-entre-insultos-e-gnr-a-cavalo/
Diz ela (Simone) que durante meses os filhos tiveram de suportar os colegas na escola com bocas do género “Então a tua mãe fez-te por gosto?” E outras, ainda piores.
Era assim o país em 1969.
Madalena Iglésias, provavelmente, anteviu isso. E não quis que lhe andassem a chamar “puta” e outros mimos.
O que torna ainda mais corajosa a decisão de Simone ao aceitar o desafio de interpretar a canção (cheia de entrelinhas, algumas eufónicas, como o “falo por gosto” concebido por Ary), não apenas em Lisboa mas no palco da Eurovisão, em Madrid. Com centenas de milhões de pessoas a escutar.
Tenho a Simone como uma pessoa terra a terra, directa e forte. Uma Senhora .
Aliás, as respostas dela estão aí para o demonstrar. Respect!
Next!
Vedeta, sim. Mas sem vedetismos.
Parece fácil e banal, mas não é.
Uma entrevista porreira
Feita de improviso. Muitas vezes é a melhor maneira de conseguir boas entrevistas.
Estarei enganado?
Não foi esta senhora que um dia disse ser Amália prejudicial à canção portuguesa?.
Se a memória não me falha foi há muitos anos em entrevista ao extinto jornal “A Capital”.
Se alguém me puder ajudar a afastar tal ideia, desde já muito obrigado com o meu pedido de desculpas.
Está enganado.
Nem sei a que propósito é que aparece aqui com essa insinuação atirada ao ar sem fundamento.
Como detesto boatos e desinformação, deixo-lhe uma excelente entrevista da Simone (conduzida por Catarina Carvalho) em que ela faz vários elogios à grande Amália. nto-que-estou-sempre-no-palco/historias/1 10422/
https://www.noticiasmagazine.pt/2017/si
Esperemos que o senhor Aarão tenha conseguido afastar ‘tal ideia’…
E por mim está desculpadíssimo, já que, graças a ele, tive oportunidade de ler esta fantástica entrevista.
🌻
Maria
Ainda bem que gostou, Maria. Excelente entrevista, sim.
Tenciono destacá-la, noutro espaço.
Gostei de saber que estou desculpado, o que me leva a não me arrepender da pergunta que fiz, de que resultou o esclarecimento das minhas duvidas.
Muito obrigado pela elevada compreensão.
Não há nada para desculpar, meu caro. Votos de um bom domingo e de muita saúde.
Agradecimento por me dizer que estou enganado.
Não se trata de uma insinuação, mas sim de um convencimento resultante de um possível equivoco.
E foi a este propósito que aproveitei a oportunidade para esclarecer o que poderá constituir um persistente e arreliador engano da minha parte.
Sendo com humildade que pedi ajuda para me tirar de duvidas, não considero que se trate de boato ou desinformação.
Espero que goste da entrevista que lhe indiquei.
Gosto da Simone como pessoa e todas as suas entrevistas são interessantes. Além disso, é uma intérprete de excepção. Nunca a apreciei muito como cantora e nem ao sol de inverno que tanto ouvi na puberdade e adolescência. Não penso nela como diva, mas é, sem dúvida, uma mulher que não se esquece. A sua vida pessoal dava mesmo um bom filme.
Eu também gosto da Simone brasileira. Mas (confesso) prefiro a portuguesa – aliás de ascendência belga, daí o nome próprio.