
«My Way, de Frank Sinatra, e Yesterday, dos Beatles, são músicas da minha vida»
Percebe-se rapidamente que é uma pessoa tímida. Mesmo a falar ao telefone. Mas o fadista – que considero o melhor intérprete da canção nacional da sua geração – revelou uma paciência inexcedível nas respostas ao interrogatório que lhe fiz.
Tem medo de quê?
Tenho medo de ter medo.
Gostaria de viver num hotel?
Não. Acho muito impessoal. Acabamos por entrar numa certa rotina que não me satisfaz.
A sua bebida preferida?
Coca-Cola.
Tem alguma pedra no sapato?
Tenho várias.
Não há meio de saírem?
Vão acabando por sair aos poucos. O tempo faz com que saiam todas.
Que número calça?
39.
Que livro anda a ler?
Adeus às Armas, de Hemingway. Parei de ler a 50 páginas do fim por excesso de trabalho, mas acabarei em breve. Estou a gostar muito.
Tem muitos livros à cabeceira?
Não muitos.
A sua personagem de ficção favorita?
Sherlock Holmes é uma personagem que sempre me atraiu. Mas também gosto do Drácula, de Mr. Hyde e de Jack, o Estripador.
Rir é o melhor remédio?
Sim.
É algo que faz com frequência?
Não tanto como devia. Devemos rir-nos de nós próprios, não devemos levar-nos demasiado a sério. Se nos rirmos com frequência acabamos por ter uma vida muito mais saudável e feliz.
Lembra-se da última vez em que chorou?
Choro às vezes or coisas muito simples. A última vez que me aconteceu foi recentemente ao ver num canal da televisão portuguesa um documentário de um rapaz que ensina arte a pessoas com deficiência que já conseguiram vender quadros pela Europa toda.
Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?
Gosto mais de conduzir.
É bom transgredir os limites?
Não. Às vezes gosto de correr riscos, mas não gosto de pôr ninguém em risco.
Qual é o seu prato favorito?
Cozido à portuguesa. Em qualquer estação do ano.
Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?
Talvez a preguiça.
A sua cor preferida?
Azul.
No futebol também?
No futebol é o vermelho.
Costuma cantar no duche?
Não. Aliás não costumo cantar em casa.
E a música da sua vida?
Há várias. Gosto muito do My Way, do Frank Sinatra. E também do Yesterday, dos Beatles.
Sugere alguma alteração ao hino nacional?
Não. Habituei-me a reconhecer este hino. Está bem assim.
Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?
Com Nelson Mandela [falecido em Dezembro de 2013]. É um homem que admiro pela sua coragem, pelo seu espírito de resistência e também pela sua bondade. São pessoas assim que conseguem fazer o mundo melhor.
As aparências iludem?
Acho que sim.
Qual é a peça de vestuário que prefere?
As calças. Têm de ser confortáveis.
Qual é o seu maior sonho?
Cantar fado a vida toda. Sempre foi esse o meu sonho.
E o maior pesadelo?
É não poder concretizar esse sonho.
O que o irrita profundamente?
A inveja, a maledicência.
Qual a melhor forma de relaxar?
Ir ao cinema, ouvir música, ir à praia.
O que faria se fosse milionário?
Concretizava alguns sonhos materiais e tentaria ajudar algumas pessoas que necessitam, praticando voluntariado.
Uma mulher bonita?
Scarlett Johansson.
Acredita no paraíso?
Não sei.
Tem um lema?
Vive e deixa viver.
Entrevista publicada no Diário de Notícias (29 de Novembro de 2008)

Um fadista a beber coca-cola só pode ser um capitalista.
Carlinhos
Gostei. Confirma a ideia que tinha, uma figura simpática com gostos despretensiosos. Parece boa gente.
E é, garanto.
Bom dia Pedro Correia.
Aceite o meu aplauso pela sua série “Quem fala assim”. Merecedor de uma chapelada aqui do Chapéus”. Bom fds e saúde. António Cabral
Muito grato, meu caro.
Gosto muito do Camané, e depois de ler este postal ainda fiquei a gostar mais
Tem uma voz fantástica (e não só para cantar fado) e, como se diz aqui na Beira, embora eu seja alfacinha: é muito bom mocinho!
🌻
Maria
Para mim, e colocando fora o incomparável Carlos do Carmo, é o melhor fadista da actualidade.
Primou pela simplicidade, porque creio que as aparências não iludem e o Camané , para além de sem um grande fadista é uma pessoa simples. Gostei! Next!
Isso mesmo, Maria Dulce: o segredo é a simplicidade.
Sempre.
Boa foto! Não ficava nada mal no “Always handsome”
Também gostei da entrevista. Não é qualquer um que diz que gostaria de ajudar pessoas se fosse milionário. Além disso, chorar ao ver um documentário sobre um rapaz que ensina arte a deficientes e desejar jantar com Nelson Mandela espelha um carácter que se recomenda.
Ficava até muito bem, Cristina
Já o vi numa entrevista longa na tv e fiquei surpreendida com a cultura geral dele, muito superior à de alguns pretensos intelectuais que se andam pavoneando por aí, dando alegremente pontapés na gramática.
Dou-lhe já o meu voto.
Beijinho.
🌻
Maria
Já o ouvi ao vivo. Muito tímido o que prejudicou, a meu ver, o concerto (parecia desconfortável no palco)
Admito que sim. É muito tímido, de facto. O que de algum modo faz parte do carisma dele.
Estou de acordo com os leitores porque só o conheço por ouvir. Também me pareceu uma pessoa simples e nada enfatuado.
E na entrevista pareceu-me ser pessoa verdadeira. Não estou a ver uma pessoa do palco confessar que a bebida preferida é coca cola.
E alguma ingenuidade ao ser sincero no número que calça, 39. Qualquer metro e meio diria que calça o 45 para não passar a imagem dum pezinho de gueixa.
Acho que é uma pessoa de bem.
E é benfiquista (reparo agora que só tenho trazido aqui benfiquistas…)
Boa Pedro.
óptima escolha, bela selecção de perguntas que evidenciaram quão despretensiosa pode ser uma figura conhecida mas pouco “pública”
Tem muita razão, é bem verdade.
A versao americana do sinatra foi seu autor o frances Claude Francois com o titulo ma vie
A canção do Claude François era ‘Comme d’ habitude’.
Paul Anka escreveu a versão em língua inglesa ‘My Way’ celebrizada por Frank Sinatra; a música manteve-se, obviamente.
🌻
Maria
O autor de my way versao americana cantada por sinatra foi claude francois com o titulo “ma vie”.
Caro Costa,
A versão original era cantada pelo Claude François e chama-se Comme d’habitude.
Ma vie, se bem me lembro, era uma canção do Alain Barriere.
🌻
Maria
Cara Maria tem toda a razao de facto a cancao original e comme d habitude a versao my way e do Sinatra.