Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
13 de Junho de 2004: PSD pede a cabeça de Ferreira Leite e Carlos Tavares. Cinco anos passados e suspeito que teremos título semelhante (Carlos Tavares não incluído, obviamente).
06 de Junho de 2004: Vital Moreira diz que estas são as eleições europeias mais importantes. E o que diz agora: "Estas são, porventura, as mais importantes eleições europeias, desde sempre". Não nego a possibilidade lógica da coisa, mas podemos adivinhar o discurso para 2014.

Algures no País, Manuela Ferreira Leite desmente José Sócrates, por este ter dito que o PSD já quis privatizar a Segurança Social. O desmentido foi produzido num tom e em termos tais que a gente até pensa que sonhou e que os sociais-democratas nunca no passado recente sequer abordaram essa hipótese.
Noutro ponto do País, à pergunta sobre o resultado do inquérito ordenado por Mário Lino em Setembro passado sobre o trágico acidente ferroviário do Tua, o ministro, incomodado, responde que «está a correr normalmente». Como se não tivesse sido ele mesmo a determinar que o inquérito estivesse concluído em 30 dias — a menos que a normalidade seja não cumprir o que ele ordena.
Afinal, que País é este? Em que planeta vivemos e que exemplos temos na esfera da coisa pública?
1. O empresário Domingos Névoa renunciou à presidência da empresa intermunicipal Braval – sediada em Braga, câmara liderada pelo dirigente socialista Mesquita Machado – na sequência de um amplo movimento de protesto de militantes do PS, justamente indignados com o facto de essa presidência lhe ter sido entregue apesar da pena a que foi recentemente condenado pelo tribunal que o considerou culpado de corrupção.
2. PS e PSD, revelando um inegável sentido de Estado, chegaram a acordo sobre a personalidade que substituirá Nascimento Rodrigues como Provedor de Justiça. Trata-se de uma figura de reconhecido prestígio e comprovada independência política, sendo considerada equidistante de todos os partidos parlamentares.
3. O caso Freeport será investigado até às últimas consequências, doa a quem doer e com a máxima celeridade, sem atender a conveniências políticas nem a calendários eleitorais.
Lê-se no Público: "O PSD está irredutível na recusa do nome de Jorge Miranda, proposto pelo PS, para o cargo de provedor de Justiça. A decisão final foi tomada ontem na comissão permanente do partido e radica apenas no facto de não ter sido uma escolha dos social-democratas, uma posição de princípio de Manuela Ferreira Leite.". Se isto for verdade, é não apenas ridículo como absolutamente demolidor para a própria figura de Ferreira Leite, que anda há tempos a vender a ideia de que com ela a prioridade será sempre o país, e não os partidos. Esta era uma excelente oportunidade para mostrar objectivamente a tal imagem de credibilidade a que tantas vezes se refere, aceitando um nome com qualidades indiscutíveis para o cargo e libertando o país de um drama bizarro que se arrasta há meses, permitindo que se voltem a discutir as questões que realmente apoquentam a nossa sociedade. Prolongar esta polémica por querelas partidárias e "posições de princípio" assentes em meros joguinhos de poder é apenas (mais) um tiro no pé da líder do PSD.
Deste episódio sobre a escolha do Provedor de Justiça registo duas observações breves. Primeiro, que esta briga de adolescentes entre os dois maiores partidos portugueses serve apenas para mostrar a degradação em que este regime político está mergulhado. Segundo, que não deixa de ser espantoso que a discussão se centre na tendência política/ideológica do novo Provedor e não na qualidade e mérito da personalidade a nomear. Este caso é particularmente irrelevante, mas diz muito do estado geral em que nos encontramos.
Manuela Ferreira Leite optou pela via populista. Todos os males do país são culpa de Sócrates. Para uma pessoa que pretende impor-se pela sua credibilidade, acusar Sócrates de ser o responsável pela criminalidade, não é sério. É mera demonstração de desespero, de uma pessoa sem argumentos e sem carácter.
Um movimento cívico denominado “Força Emergente” foi entregar uma carta a Sócrates, pedindo-lhe que se demita e “assuma a sua culpa pela grave situação económica e social do país”.
À partida, pensei que se tratava de uma demonstração de vigor da nossa Democracia, tão achincalhada e abandalhada pelos seus protagonistas nos últimos tempos. Depressa percebi que me enganara. Ao ler que a maioria dos fundadores deste movimento prefere o anonimato e que apenas um dos seus elementos se deslocou a S. Bento para entregar a carta, deixei de ter ilusões.
Os combates pela Democracia fazem-se de peito aberto, com pessoas dispostas a dar o corpo às balas, não se fazem com encapuçados que se escondem no anonimato.
Para mim, a “Força Emergente” afundou-se ainda antes de pôr a cabeça de fora. Não confio em quem acusa um PM de não ir a uma cimeira europeia , por “ não querer dar a cara”, mas se recusa a aparecer em público no momento de defender a sua causa. Comportamentos deste jaez são típicos de um grupo de gameleiros, prontos para se sentar à mesa do orçamento, assim que surja uma oportunidade, não de quem está interessado em defender os valores da Democracia.
Nunca esperei que o animado ano eleitoral que viveremos em 2009 elevasse o nível do debate político. Os protagonistas são fracos, quer na oratória quer nas ideias, já não há tribunos que se destaquem pela excelência do seu discurso. A chicana política substituiu o debate das ideias, o nível cultural situa-se no rés do chão e a civilidade já desceu à cave.
Não imaginava é que o MP se tornasse no grande protagonista deste ano eleitoral. Faço figas para que, por parte dos partidos, não haja a tentação de explorar casos como o Freeport, o BPN e outros similares, tentando daí tirar vantagens políticas.
Se assim for, tenho medo, porque isso significa que depois da intervenção do MP no futebol (que nada provou até agora em Tribunal, mas serviu para a justiça desportiva tomar decisões arbitrárias, prejudicando alguns clubes, em detrimento de outro) poderá também intervir na política, influenciando (ainda que indirectamente) as escolhas do eleitorado.
E disso tenho medo.
"Sendo indispensável o usufruto de uma maioria absoluta para governar o país, comprometemo-nos a não formar governo a menos que o eleitorado nos dê esse voto de confiança". Eis uma declaração quer seria perfeitamente aceitável e compreensível por parte do primeiro-ministro ou de um candidato a primeiro-ministro. A versão alternativa apresentada – "pedimos maioria absoluta mas governamos com o que aparecer" – tem política e emocionalmente o valor de coisa nenhuma.
«Crescer mais ou menos do que a Europa é a bitola de sucesso ou insucesso. O crescimento económico acima da média europeia é uma questão essencial que sempre caracterizou em todos os governos a boa ou a má governação económica»
Rendimento médio mais longe da média europeia desde que Sócrates tomou posse. À luz da frase em causa como avaliar a governação económica do actual executivo?
Adenda: quem é o autor da frase?
Para o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, as críticas ao Banco de Portugal são "irresponsáveis", isto porque não contribuem no "esforço para reforçar a credibilidade das autoridades reguladoras", tão necessária perante a "turbulência" que os mercados atravessam (fonte). A crise actual já servia para justificar toda e qualquer asneira promovida pelo actual governo no campo económico (a tal lógica da necessidade de fazer algo), agora parece que também serve para tentar calar aqueles que, mesmo de forma justa e baseados em dados concretos, criticam o governador do Banco de Portugal.
O PR considerou o caso Freeport um assunto de Estado. Concordo.
Não percebo, porém, que um Conselheiro de Estado minta numa comissão parlamentar de inquérito e Cavaco se refugie no silêncio, recusando comentário. Um PR não pode ter dois pesos e duas medidas…
Estava escrito nas estrelas. Portugal nunca quis dois partidos distintos para escolher, nunca aceitou duas filosofias diferenciadas para se deixar governar — e isso tinha de acabar mal.
Conservadores e trabalhistas, republicanos e democratas, PP e PSOE, democratas-cristãos e sociais-democratas, centristas-populares e socialistas-democratas, etc., foi sempre coisa dos outros. Nós, traumatizados e complexados com a chamada pesada herança, sem sabermos romper e deixar para trás o que pertence ao passado, tivemos sempre medo de assumir uma direita moderna e fomo-nos deixando inclinar sempre para a esquerda, ora para uma esquerda-não-muito-à-esquerda e capaz de não chocar quem fosse conservador, ora para uma esquerda-esquerda de raiz socialista e capaz de se portar com moderação.
Esta realidade estava condenada há muito: a direita ia evoluir claramente para preocupações de natureza social e a esquerda tinha de adaptar-se melhor à iniciativa privada que move a economia de mercado. Os nossos partidos preferenciais foram sempre, portanto, o velho PPD, depois PSD, e o PS, cujo vermelho desbotou para o cor-de-rosa. A sua proximidade era já óbvia, se nos lembrarmos da dificuldade que o PPD/PSD teve para encontrar uma família europeia de acolhimento, enquanto o PS era recebido no seio dos sociais-democratas da Internacional Socialista e procurava rever-se na esquerda aberta dos países nórdicos.
Sem nunca experimentarmos uma autêntica alternância de poder, o resultado da opção é o que já tenho apontado em outras ocasiões: nunca votámos por convicções ideológicas, mas por simpatias pessoais; à medida que o tempo foi passando, habituámo-nos a nunca eleger o mérito de uns, mas a punir o demérito dos outros. Ora, entre os dois grandes partidos, se eles não constituem alternativa real um do outro, também não são adversários de facto: cada vez que um abre a boca está a tirar a palavra ao outro (e o outro cala-se porque fica sem palavras).
Hoje, praticamente assim esbatidas quaisquer pequenas diferenças entre duas propostas cada vez mais semelhantes, confrontados que estamos com pequeníssimos detalhes diferenciadores mantidos mais por teimosia do que por pragmatismo, ficamos de braços caídos a pensar se é melhor votarmos ou abstermo-nos, ancorados na desculpa de que ninguém merece o voto e que todos precisam de ser castigados.
É possível que sim: a óbvia falta de mérito e de capacidade deve castigar-se. O problema é que os mais castigados somos todos nós, que fomos tecendo a teia em que nos deixámos enrolar. Há forma de sair disto? É bom que haja. Por todos os motivos e mais um: o binómio que nunca tivemos verdadeiramente — a alternância que nunca quisemos ter — está agora a desenhar-se paulatinamente. Veja-se como os dois grandes partidos de sempre são agora os novos conservadores e como a esquerda que está emergir das velhas ultra-esquerdas mais radicais é agora o novo socialismo. Quanto a mim, isto dá que pensar. Mas é que dá mesmo.
Bastou Francisco Louçã admitir um eventual apoio do Bloco de Esquerda a uma candidatura de Manuel Alegre à presidência da República para enfrentar a contestação interna.
Os fundamentalistas da esquerda caviar continuam sem perceber que sem Louçã não valem um caracol. Incapazes de se adaptarem aos tempos modernos, persistem na adulação de experiências falhadas, saudosos de Enver Hoxha e do comunismo albanês, ou fazendo reverências a Mao, com aquele ar patético dos inebriados.
Elegem os comunistas como inimigos, vêem um socialista como um proto-fascista, incendeiam plateias com discursos bem estruturados, mas caem como tordos nas fileiras do Centrão, onde mais cedo ou mais tarde acabam por fazer a sua carreira política. (Não é verdade, Durão Barroso?).
Esta esquerda vale nas últimas sondagens 11 por cento porque, quando pensam no Bloco de Esquerda, os portugueses vêem Francisco Louçã acompanhado por dois ou três rostos pensantes, lúcidos cultos e com ideias construtivas. Esquecem-se que do Bloco também fazem parte pessoas como Gil Garcia, que apostam num discurso de negação,“bota-abaixista”, basista q.b. para atrair incautos ou jovens em fase política zen.
Os 11 por cento do BE de Francisco Louçã até podem ser estimulantes, mas entregues ao Bloco do Gil tornam-se imprestáveis e passadistas. São um susto! São o rosto da surpresa de Joana Amaral Dias, por ter sido excluída da Direcção.
Há gente no Bloco que adora aparecer em “vernissages”, discutir o futuro do país à volta de uma mesa degustando caviar, mas na hora da verdade, quando é preciso fazer opções, aposta em valores que contrariam o partido onde se inserem.
Um bloquista a apoiar Mário Soares, faz-me lembrar os tempos do Restaurador “Olex”. A política é bem mais do que um slogan publicitário, ou um devaneio de sábado à noite. Joana Amaral Dias já devia ter percebido isso.
O António e o Pedro já denunciaram as declarações ridículas de Augusto Santos Silva em textos anteriores, mas gostava de acrescentar uma ideia. O que realmente me incomoda neste e noutros comportamentos semelhantes é a total falta de sentido de Estado da maioria dos nossos políticos. Tanto me dá que o caso concreto remeta para uma reunião partidária ou para uma festa de angariação de fundos. Tratava-se de um evento público e Santos Silva, mais do que um membro do Partido Socialista, é neste momento um ministro do Governo, ocupando um cargo relevante no Estado.
Juro pela minha saudinha que é verdade. Quando peguei no DN de hoje e li a notícia de capa, pensei logo com os meus botões: “Só pode ser ideia do Valter Lemos”.
Reconheço que não corri grande risco. Só aquela eminência parda do ministério da educação é que podia ter a ideia peregrina de pedir aos professores para fazerem voluntariado nas escolas.
Nem por um minuto lhe terá passado pela cabeça que um governo que tratou os professores (e os funcionários públicos) abaixo de cão, culpando-os pelos males do país, rasgando contratos e fazendo letra morta de compromissos assumidos há décadas, obrigando-os a trabalhar mais do que o previamente acordado e roubando-lhes nas reformas, não tem o direito de fazer uma proposta tão indecente?
Haverá muita gente interessada em fazer voluntariado, mas nunca para favorecer propósitos eleitorais de um governo que os roubou despudoradamente.
Ó Bordalo, vem cá abaixo e mostra-lhes o Zé Povinho!
Torna-se claro que Manuela Ferreira Leite não compreende os portugueses. Sobre o debate que propôs ao secretário-geral do PS e primeiro-ministro, diz ela ao Sol: «Esperei que Sócrates aceitasse o meu desafio». Ou seja: a presidente do PSD esperou aquilo em que ninguém acreditou; nem José Sócrates, nem os eleitores esperavam que ela acreditasse nisso.
Assim manifestamente isolada, é natural que também ninguém a compreenda…
O mau tempo está para durar, embora possa aquecer para alguns: o Expresso diz que «Cavaco quer autárquicas com legislativas». Para que se confirme esta previsão, porém, teremos de aguardar pelo Expresso do próximo sábado…
Ninguém acreditava que Sócrates fosse aceder ao desafio da líder do PSD. Provavelmente, nem Manuela Ferreira Leite acreditou nisso por um só momento e, portanto, não há qualquer razão para ficar amuada. Pelo contrário: ninguém esperava, tão-pouco ela própria, convencer o primeiro-ministro com as medidas que ela já deve ter cogitado e respectivo argumentário. O debate era, pois, para o País, para os eleitores, os quais é sempre possível que ainda estejam à espera.
Assim sendo (e não se vislumbra espaço para ser de modo diferente), o debate continua em aberto. Manuela Ferreira Leite pode ir apresentando as suas medidas e fundamentos, que a gente está cá para o saudável debate. Sócrates jamais se deixaria convencer, mas a gente está aqui para se deixar conquistar. Ainda por cima, cheira-me que os eleitores, por muito que rejeitem o já cansado folclore político e todo o circo à sua volta, não arriscam o seu voto numa primeira-ministra muda e pronta a combater a crise com um pacote de medidas secreto.
A líder do PSD tem agora todo o espaço disponível, sem precisar de assentar datas com Sócrates. E parte com uma evidente vantagem: não usa nem vai usar gravatas monocromáticas…