Protocolo


Sérgio de Almeida Correia,

As imagens têm corrido mundo.

São ambos relativamente jovens, intelectualmente interessantes, e, cada um à sua escala, poderosos. Ela tem, para um homem, a vantagem de ser elegante. Diria mesmo bonita, bem sabendo que os padrões são sempre relativos e dependem dos olhos de quem vê. O momento não seria o mais apropriado para a galhofa, mas admito facilmente que ambos se enterneceram reciprocamente. Isto é normal entre gente que se entende, que fala a mesma linguagem e tem nos olhos o espelho da alma.

O tempo de um olhar é muitas vezes o tempo que dura um flirt. E que bem faz à alma!

Foram autênticos. Será isso criticável, esquecendo obviamente as questões protocolares? Não creio.

Evidentemente que não posso falar por ela. Nem colocar-me no seu lugar, embora saiba que como homem dificilmente resistiria. Como ele não resistiu. Não há nada como uma mulher interessante, genuína, para nos tirar do sério. Detesto os emplastros protocolares. E o ciúme.

Os que não conseguem perceber a profundidade de tudo o que se esconde por detrás da autenticidade de um gesto simples, de uma troca de sorrisos, de um olhar rápido e furtivo, nunca perceberão nada da vida.

Um gesto para a História


Pedro Correia,

 

Em 8 de Abril de 2005, por ocasião do funeral do Papa João Paulo II na Praça de São Pedro, houve um encontro histórico, até aí impensável: o presidente israelita, Moshe Katsav, cumprimentou o seu homólogo iraniano, Muhammad Khatami, com quem trocou breves impressões aproveitando o facto de ser fluente na língua persa por ter nascido no Irão. Este gesto de boa vontade, ocorrido no momento da missa de exéquias em que os fiéis eram convidados a saudar-se “na paz de Cristo”, surpreendeu todos os observadores internacionais e suscitou críticas aos dois chefes de estado por parte dos sectores mais extremistas de ambos os países.

Hoje, durante as cerimónias fúnebres de Nelson Mandela em Joanesburgo, aconteceu um gesto ainda ainda mais relevante e mais imprevisto: o aperto de mão trocado entre Barack Obama e Raúl Castro quando o Presidente norte-americano se encaminhava para o púlpito onde fez o seu vibrante discurso de homenagem ao falecido ex-líder sul-africano, a quem justamente chamou “um gigante da História”.

Há homens que têm este condão: conseguem congregar os outros mesmo depois da morte. O exemplo de Mandela, Nobel da Paz em 1993, pairava nas tribunas do estádio Soccer City, onde os dirigentes máximos de Cuba e dos EUA começaram a quebrar um gelo acumulado há mais de meio século: os dois países cortaram relações diplomáticas em 3 de Janeiro de 1961.

Mandela –- “personalidade maior do século XX”, como o designou a Presidente brasileira Dilma Rousseff, discursando em português pouco antes de Obama, no mesmo local –- teria certamente exibido o melhor dos seus sorrisos perante o aperto de mão entre Obama e Castro. Porque não houve estadista capaz de odiar o ódio como ele.

Falta agora traduzir em acções concretas o belo simbolismo ilustrado nesta fotografia difundida pela cadeia televisiva norte-americana ABC. Obama, para ser verdadeiramente digno do Nobel que lhe foi atribuído em 2009, deve pôr em prática o que nenhum dos seus antecessores –- de Lyndon Johnson a George W. Bush –- teve coragem de fazer: levantar o embargo a Cuba decretado em 1960 pelo presidente Eisenhower e ampliado dois anos depois por John F. Kennedy.

Extinta a guerra fria, Cuba é hoje um tigre de papel que proclama slogans anti-imperialistas enquanto mendiga dólares para a subsistência elementar. Meio século de “revolução” que impôs a monocultura agrícola para abastecer de açúcar os camaradas soviéticos e a nacionalização total da propriedade de cultivo foi a receita certa para o fracasso actual: Havana importa 84% dos alimentos que consome –- e não faltam bolsas de fome na ilha, que dispõe de 6,6 milhões de hectares de solo fértil mas só cultiva pouco mais de três milhões.

É este o momento para a administração norte-americana dar um sinal positivo. Afinal, Washington normalizou as relações com o Vietname –- que se mantém uma ditadura comunista –- apesar da sangrenta guerra que ali travou durante uma década. Desmoronado o império soviético, ultrapassada a guerra fria, Cuba deixou de ser uma ameaça para o poderoso vizinho do norte. Condená-la ao isolamento é dificultar ainda mais uma transição que não será fácil do totalitarismo comunista para uma economia de mercado onde as liberdades sejam respeitadas e defendidas.

Para ser consequente com o histórico gesto de hoje, Obama deve incluir o levantamento do bloqueio a Cuba entre as suas prioridades imediatas.

Espionagem


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O avanço de Obama para a presidência foi simpático, principalmente pela afronta aos preconceitos racistas, nos Estados Unidos tão misturados com o fundamentalismo cristão popularucho. Mas teve um lado oposto, mais para a minha terra, sintomático que foi da imbecilidade militante de alguma esquerda, identitarista, caída de fervores pelo obamismo. “Eu sou obamista” passou a ser um pin político, “alfinete de peito”, iman de geleira, de qualquer candidato a colunista do “Público” ou de comentarista fedorento.

 

À revelia do real Obama, “Obama” é, olhando Portugal, um símbolo do vazio intelectual da primeira década de XXI. Lembro-me disso agora, quando se sabe que os EUA andam espiando tudo e todos, uma série de políticos aliados, etc. O que diriam os democráticos identitaristas, os teclistas do eixo BE-PS, se o presidente americano fosse Bush, pai, filho ou irmão? Mas sendo este presidente devem estar a alisar os posters, lá nos quartos adolescentes. Retardados. 

 

E os outros continuam a lê-los. E a rir-se das piadinhas na TV. Retardados?

Telefonema Alemanha-EUA


joaomsandre,

– Boa tarde, serviço de escutas da NSA, em que lhe posso ser útil?

– Estou sim, daqui fala a Angie, és tu Barack?

– Peço desculpa Sra. Merkel, mas temos aqui uma pequena confusão nas linhas. Eu vou passá-la para o telemóvel do senhor presidente.

– Mas eu liguei-lhe directamente para o telemóvel, queria perguntar se me têm o telemóvel sob escuta.

– Senhora Merkel, por favor, nunca faríamos isso. Ter acabado nos nossos serviços foi… hmmm…. um engano. Uma consequência do shutdown, nada mais… É isso… Vou passar a chamada.

– …

– Sim? Daqui fala Barack.

– Barack? Aqui é a Angie. Que coisa é esta? Afinal temos os dois os telemóveis sob escuta da NSA?

– Sim, nem queiras saber. Da última vez que quis encomendar uma pizza não me deixaram. Disseram-me que na pizzaria trabalha um tipo chamado Mohammed e que não podia encomendar ali.

– Mas isso não pode ser. Vou fazer queixa nas Nações unidas!

– Estás a gozar não? Se lhes ligas levas com uma musiquinha do Barry White e uma voz da NSA a dizer que a tua chamada está a ser autenticada e que quando puder te passam ao Ban.

– Há alguma forma de falarmos sem sermos ouvidos?

– Creio que há uma hipótese, mas não sei se temos um fio longo o suficiente…

Carta aberta, para o lixo


Ana Vidal,

Caro presidente Obama,

Sei que é um homem muito ocupado, não lhe tomo muito tempo. Venho apenas lembrá-lo de que tem em casa um Nobel da Paz. Mais: um prémio que lhe foi atribuído por antecipação, antes de qualquer obra de vulto que o justificasse. Ou seja, um inédito voto de confiança no seu carácter e na sua capacidade de promover a paz no mundo, que o sentou directamente ao lado de pessoas como Nelson Mandela e Madre Teresa de Calcutá. Tem agora uma excelente ocasião para provar que mereceu essa honra. Espero, sinceramente, que não a desperdice.

 

O Estado da União


josegomesandre,

Esta noite, às 21h (2h em Portugal), Barack Obama realizará perante uma sessão conjunta do Congresso o seu “Discurso sobre o Estado da União”. Mais do que um mero requisito constitucional, esta é uma tradição fundamental da vida política americana, utilizada pelo Presidente para descrever o ambiente político actual e influenciar decisões futuras do Congresso, traçando as grandes metas e prioridades legislativas dos meses seguintes.

Derivado do precedente britânico (o monarca discursava na sessão de abertura do Parlamento), este procedimento foi seguido à risca desde a entrada em vigor da Constituição, cuja secção 3ª do Artigo 2º determina: “O Presidente deverá, de tempos a tempos [“from time to time”], prestar ao Congresso informações sobre o Estado da União e submeter à sua consideração as medidas que julgue necessárias e convenientes”. O objectivo desta disposição era atribuir ao chefe do Executivo a possibilidade de condicionar a agenda legislativa do Congresso, entendendo os Pais Fundadores americanos que o Presidente tinha um papel muito limitado neste domínio (a história alteraria essa situação).

Curiosamente, como vemos, o articulado constitucional não se refere a uma comunicação “anual”, mas meramente periódica. Como em tantas outras questões formais, a prática seguida pelo Presidente George Washington (um discurso anual) criou um sólido precedente, ainda hoje respeitado. Todavia, ao contrário do primeiro Presidente americano, muitos foram os chefes do executivo que optaram por transmitir ao Congresso uma declaração escrita e não um discurso oral (desde Jefferson a William H. Taft). Já no século XX, Woodrow Wilson reinstaurou esta última tradição, seguida (com raras excepções) por todos os Presidentes até aos nossos dias.

Um dos acontecimentos políticos mais vistos e comentados nos EUA, este momento solene está também repleto de curiosidades. Uma das mais interessantes refere-se à necessidade de designar um membro da Administração para não estar presente na sessão (ficando em local desconhecido). Devido à (rara) aparição conjunta de várias figuras de topo da hierarquia federal, garante-se assim que, em caso de um atentado ou acidente, um dos membros do governo federal sobrevive a essa tragédia, impedindo que o país ficasse sem uma chefia legalmente reconhecida.

Os desafios de Obama


josegomesandre,

 

São hercúleos os desafios que esperam Obama: crise económica, reforma da saúde, problemas ambientais, controlo de armas, imigração, nova política energética – a nível interno. Instabilidade no Médio Oriente, relações difíceis com a Rússia e a China, a contenção do Irão – a nível internacional. Nada de muito diferente em relação a 2009, quando tomou posse pela primeira vez.

Hoje Obama tem todavia uma grande vantagem: por esta altura, ninguém espera, como no passado, que ele possa resolver todos aqueles problemas de uma só assentada. Obama tem diante de si uma agenda monumental, mas livre do messianismo que o perseguiu há quatro anos, pode agir recorrendo à “arte da política”, sem que a avaliação do seu desempenho esteja sistematicamente sujeita a uma comparação com o Rei Midas.

A nível interno, o maior desafio de Obama será lidar com a enorme bipolarização da política americana. O sistema político dos EUA assenta num sistema de “freios e contrapesos”, concebido para exigir permanentes lógicas de diálogo e construções de consensos entre os diversos agentes políticos. Todavia, os Pais Fundadores não contaram com as particularidades da modernidade, nomeadamente a radicalização ideológica e partidária, que têm minado o sistema e servido como autênticos mecanismos de bloqueio, impedindo os referidos consensos e a tomada de decisões políticas céleres e resolutas. Desde 2004 que Obama defende uma agenda bipartidária e a “reconciliação da América”, mas raramente tem promovido ambas. Com os Republicanos a controlarem a Câmara dos Representantes, as suas capacidades de negociação serão severamente postas à prova neste segundo mandato.

O maior desafio de Obama é contudo um outro, que assola aliás em geral o Ocidente: preservar a estrutura fundamental do “Estado Social”, num quadro económico e demográfico mundial que não permite aos países desenvolvidos manter os mesmos níveis de despesa pública até aqui praticados. Se a nível interno a resposta para esta autêntica quadratura do círculo não foi ainda encontrada, no que toca à política externa e à Defesa, as orientações estão definidas: reduzir os gastos nuns impressionantes 400 mil milhões de dólares, cortando na ajuda a países em desenvolvimento, reduzindo os efectivos militares em vários continentes, diminuindo as operações de vigilância, etc.

Estas orientações têm implicações severas em toda a organização externa norte-americana e por consequência nos alinhamentos estratégicos do poder mundial. Se em alguns casos elas são sobretudo simbólicas (a redução de bases militares na Europa, por exemplo), noutros significam uma efectiva retracção da influência norte-americana, que pode comprometer os seus interesses futuros em áreas estratégicas vitais (designadamente o Médio Oriente e a Ásia).

Obama tem insistido que o recurso ao “soft power” (diplomacia, fortalecimento das relações comerciais, cooperação com as instâncias internacionais), aliado a um posicionamento militar mais diminuto, mas cirúrgico, será suficiente para manter a influência americana intacta, mas só o tempo dirá se os EUA continuarão a ser “a nação indispensável”. Mais um desafio para o mais desafiado Presidente americano.

 

[publicado inicialmente no site da TVI24]

Número oito dá azar na Casa Branca


Pedro Correia,

No século XX, cada presidente norte-americano ocupou em média cinco anos e meio na Casa Branca. Esta média seria inferior se não existisse uma notória excepção: Franklin Delano Roosevelt, único chefe do Executivo dos EUA até hoje eleito sucessivamente para quatro mandatos e que faleceu após 12 anos no poder. Depois da sua morte, uma emenda à Constituição fixou um número máximo de mandatos presidenciais consecutivos: apenas dois. Dos 18 presidentes dos EUA ao longo do século XX – e com a excepção já referida – só quatro cumpriram dois mandatos integrais. Woodrow Wilson, Dwight Eisenhower, Ronald Reagan e Bill Clinton. Vantagem para o Partido Democrático.
Três presidentes não chegaram sequer a cumprir um mandato: Warren Harding, subitamente falecido em 1923, John Kennedy, assassinado em 1963, e Gerald Ford, que ascendeu à presidência por demissão de Richard Nixon, em 1974, e perdeu a eleição de Novembro de 1976. Foi até hoje o único líder norte-americano a entrar na Casa Branca sem ser sufragado pelos eleitores. E Nixon foi o único forçado a resignar, a meio do segundo mandato.

William McKinley, assassinado em 1901, também deixou o segundo mandato por cumprir. Sucedeu-lhe o vice-presidente Theodore Roosevelt. Outros vice-presidentes que ascenderam inesperadamente à presidência foram Calvin Coolidge (1923), Harry Truman (1945) e Lyndon Johnson (1963). Theodore Roosevelt – primo de Franklin – figura ainda hoje como o mais jovem presidente norte-americano de sempre: chegou à Casa Branca com apenas 42 anos. O mais idoso a ser eleito foi Reagan: estava a poucos dias de completar 70 anos quando tomou posse, em Janeiro de 1981.
A baixa média de permanência de inquilinos na Casa Branca durante o século XX explica-se em boa parte pelo facto de quatro deles terem cumprido só um mandato: William Howard Taft (1909-13), Herbert Hoover (1929-33), Jimmy Carter (1977-81) e George Bush (1989-93). Todos acabaram derrotados nas urnas quatro anos depois. Três deles – os republicanos Taft, Hoover e Bush – foram eleitos em anos terminados em oito. Precisamente como sucedeu com Barack Obama, vencedor em 2008.

Um mau prenúncio para o actual presidente?

 

Imagem: Bush, Reagan, Carter, Ford e Nixon (1991)

Debate nos EUA: a vitória de Romney


josegomesandre,

1. Um debate presidencial é sobretudo uma encenação mediática, onde o que importa é parecer melhor: mais confiante e assertivo, mais simpático e descontraído, mais bem preparado, mais “presidenciável”. A forma ganha os debates, não o conteúdo.

 

2. Face a estes parâmetros, Mitt Romney foi um evidente vencedor. Face a um Obama surpreendemente cinzento, cansado, tropeçando nas próprias palavras, olhando para baixo enquanto ouvia o adversário, Romney surgiu como um orador talentoso, afirmativo, confiante. A sua linguagem corporal (olhando Obama como um predador olha a presa) mostrou um macho-alfa dominador. E as suas permanentes referências a histórias concretas e ao sofrimento do americano comum quebraram a sua imagem robótica, humanizando-o perante o eleitorado. 

 

3. Mas Romney ganhou noutros campos. Contrariando um dos (até aqui) maiores erros da sua campanha, Romney não se limitou a um discurso crítico do Presidente, como se “ser o outro” candidato bastasse para chegar à Casa Branca. Enviou portanto uma mensagem positiva ao eleitorado, insistindo nos méritos do seu próprio programa, focado na criação de emprego e na eliminação das “gorduras do Estado”. Enquanto Obama se perdia em detalhes técnicos aborrecidos, Romney defendia o seu projecto político de forma articulada e sintética, sem soar demasiado abstracto.

 

4. Chegará, por si só, para ganhar a eleição? Provavelmente não. Os debates presidenciais são amplamente escrutinados e têm excelentes audiências, mas os dados mostram que a maioria dos eleitores atentos procuram apenas “confirmar” posições previamente definidas, sendo que muitos dos chamados “indecisos” confessam posteriormente à eleição ter prestado pouca ou nenhuma atenção aos debates. Em todo o caso, numa eleição renhida como esta, alterações em franjas do eleitorado podem ser decisivas. Além do mais, este debate tem desde já o condão de enfraquecer o optimismo dos Democratas e renovar o entusiasmo Republicano (tanto da base eleitoral como dos financiadores da campanha)…

 

5. Faltam dois debates presidenciais, um debate entre candidatos a vice-presidentes e um mês de campanha. Continuo convencido que Obama é favorito e que Romney, apesar desta boa prestação, tem alguns problemas por resolver – nomeadamente a explicação cabal da revolução fiscal prometida, as alterações na Segurança Social e os cortes nos programas de saúde, temas de grande sensibilidade onde a dupla Romney/Ryan gera grande desconfiança. Todavia, se até aqui os eleitores viam Obama como um “mal menor”, a excelente prestação de Romney terá pelo menos generalizado a ideia de que ele pode constituir uma alternativa credível. Conseguir isto em hora e meia é notável.

A utopia de Romney


josegomesandre,

Embora extraordinária no aspecto mediático e formal, a Convenção Nacional Republicana deixou-me algo perplexo quanto à substância das propostas da dupla Romney/Ryan nos EUA. Em síntese, os Republicanos propõem reduzir o desemprego, criar 12 milhões de postos de trabalho, revitalizar o crescimento económico, estimular as pequenas e médias empresas, diminuir os impostos aos mais ricos, criar um novo paradigma energético que não dependa da importação de petróleo (limitando contudo a indústria carbonífera e rejeitando igualmente as “energias verdes”), fortalecer o aparato militar (com maior apoio a Israel e um desafio explícito à Rússia de Putin), endurecer globalmente a política externa e reafirmar o poder americano no mundo.

 

Propõem fazer tudo isto sem criar novos impostos às classes médias, nem limitar os gastos militares (em Defesa e Segurança), reduzindo o défice orçamental e diminuindo a dívida pública (nomeadamente a contraída face à China), no meio da maior crise mundial económica e financeira dos últimos 80 anos. Espantoso. Obama foi (justamente) criticado por prometer este mundo e o outro. Mas o que são as propostas de Romney/Ryan senão um programa de intenções absolutamente utópico, tão irresponsável quanto irrealizável?

Follow the leader, er, well… Obama


Rui Rocha,

A Gallup segue diariamente a taxa de aprovação de Obama pelos eleitores americanos:

 

Pelo visto, dos últimos oito Presidentes, apenas Bill Clinton apresentava um resultado pior, sendo certo que, como se sabe, este último não valia, por aquelas alturas, um charuto: 

 

Querendo, pode acompanhar a evolução aqui. Não é uma actividade muito estimulante, mas sempre tem mais interesse do que acompanhar as primárias republicanas.

11 de Fevereiro de 2011


Pedro Correia,

  

«There are very few moments in our lives where we have the privilege to witness history taking place. This is one of those moments. This is one of those times. The people of Egypt have spoken, their voices have been heard, and Egypt will never be the same.

By stepping down, President Mubarak responded to the Egyptian people’s hunger for change. But this is not the end of Egypt’s transition. It’s a beginning. I’m sure there will be difficult days ahead, and many questions remain unanswered. But I am confident that the people of Egypt can find the answers, and do so peacefully, constructively, and in the spirit of unity that has defined these last few weeks. For Egyptians have made it clear that nothing less than genuine democracy will carry the day.»

Barack Obama, esta noite, reagindo à queda de Mubarak

Yes, you can


josegomesandre,

 

As (excelentes) intervenções de Obama em África suscitaram um óptimo texto de Nuno Gouveia, do qual salientaria a seguinte passagem: "Obama pediu aos africanos que parem de se queixar do seu passado colonialista, e da exploração que sofreram pelos europeus. A génese dos problemas africanos está sim, na corrupção e nas suas elites. E Barack Obama foi mais longe, dizendo que a ajuda ocidental deve ser acompanhada pela garantia de boa governação e de boas práticas democráticas. […] ao contrário daqueles que culpam o Ocidente e o capitalismo, o presidente americano urge os governos africanos a abraçaram um modelo de desenvolvimento económico e social responsável, assente nas instituições democráticas."

Obama está perfeitamente ciente de que a sua Presidência assume importantes contornos simbólicos e que esse facto, mais do que simples curiosidade, pode ser utilizado para operar alterações concretas nas políticas públicas. Naturalmente que não se "decreta" por exemplo o fim do racismo nos EUA, nem o fim da corrupção em África, mas quando um Presidente negro se refere a estes dois temas, as suas palavras têm uma amplitude e um significado reforçados. E ao insistir que, quer os afro-americanos, quer os povos africanos, têm de abandonar a referência sistemática à "exploração do passado", e assumir a sua responsabilidade e lutar pelo seu próprio destino, Obama envia claramente a mensagem certa.

Da Democracia na América


jorgeassuncao,

 

É, também, no respeito que os governantes têm por aqueles que governam que se encontra a grandeza do país em causa. E os jornalistas são, além de vigilantes para com os abusos do poder, os melhores intermediários que um povo pode ter na sua relação com quem exerce o poder.

 

A foto foi roubada daqui e uma óptima entrevista com o recém eleito presidente Obama pode ser encontrada aqui.