Antena islâmica *


Pedro Correia,

1. «Mubarak não era um ditador particularmente sanguinário.»

2. «Na Líbia podemos estar a assistir – e nisso o Kadhafi tem alguma razão – a um processo de guerra civil.»

3. «As multidões na rua são tão violentas como a polícia.»

Pacheco Pereira, esta noite, na Quadratura do Círculo (SIC N)

 

* com a devida vénia ao Filipe Nunes Vicente, que cunhou a expressão no seu blogue

Tarde piaste.


vidabreve,

A Europa, que negou à Turquia a entrada na União (eram pretos, eram árabes, cheiravam mal), que negociou cordões de segurança com a Líbia para conter a imigração ilegal (eram pobres, eram porcos, falavam alto) manifesta agora a sua comoção perante um povo que se levanta pela liberdade e pela justiça, nas palavras meigas de Rompuy.

 

De um dia para o outro fechamos a tenda, espantamos os camelos e mandamos o líder carismático para a puta que o pariu. A festa estava boa mas há um povo que se levanta, Muamá. E quando um povo se levanta, a Câncio desperta de seis anos de anestesia realista e já não há nada a fazer. Quando um povo se levanta limpamos o pó aos valores e a senhora Muznik discorre sobre os riscos do fundamentalismo islâmico. Quando um povo se levanta a nossa direita liberal-salazarista incha de virtudes democráticas e recorda Chávez, Fidel Castro e Erdoğan mas esquece, porque estão tão longe, Berlusconi ou Sarkozy.

 

Ah, isto vai soar lindamente nas ruas do Cairo e nos arrabaldes de Tripoli. A Europa dos direitos, a Europa dos princípios, a Europa que lhes cerrou as fronteiras, que lhes mimou os vergudos, que os fodeu com punhos de renda enquanto estavam prostrados agora levanta-se para os aconselhar.

 

Ajuda-te a ti próprio e todos te ajudarão, escrevia Nietzsche. Vai aprendendo, Abdul.

Onde pára a esquerda das liberdades?


Rui Rocha,

De acordo com a cartilha oficial, existem algumas regras de trânsito político que são inquestionáveis. Entre elas, aquela que afirma que quem quiser encontrar a defesa intransigente da liberdade e da democracia deve circular pela esquerda do espectro partidário. Pois é isso que tenho feito. Para me orientar no meu percurso, parti de outro axioma. O de que o PS é um partido de esquerda. Assim, nessa viagem em busca de posições claras em defesa da liberdade, decidi iniciar a viagem no PCP e fazer do PS a última etapa. E, se parti com entusiasmo, confesso que me desiludi logo no princípio. Ali onde esperava uma ampla apologia das liberdades, eis que deparei com o apoio mais ou menos explícito às ditaduras cubana, chinesa ou coreana. Restava-me seguir viagem, renovando a esperança em cada uma das próximas paragens. Recordo ainda o entusiasmo com que me aproximei do Bloco. E a decepção que este constituiu logo que constatei que o único sítio onde o Bloco apoia a revolta é Portugal. Aos costumes ditatoriais de outras paragens, o Bloco diz nada. Ou pior do que isso. Ao que parece as luzes de Teerão exercem um estranho fascínio sobre certas personalidades próximas do BE. Não podendo tratar-se de desvelo pelo iluminismo iraniano, deve tratar-se de um estranho amor pelas iluminações de rua. Sobrava-me então o PS. E aqui, caro leitor, fiquei estupefacto. Mubarak, Ben Ali e Eduardo dos Santos eram ou ainda são companheiros de José Sócrates na Internacional Socialista. O mesmo José Sócrates que ontem fugiu aos jornalistas quando lhe perguntaram sobre a situação na Líbia. E que foi recentemente o menino de ouro de Khadafi na comemoração do 41º Aniversário da Revolução Líbia. O que encontrei foi então uma esquerda comprometida, prisioneira de interesses e comparsa de ditadores. Só me resta concluir que a defesa desinteressada e altruísta da liberdade não passa por ali.

Entre Muammar e Ana Gomes


jmmcc,

Além de criticar o Governo português pelo apoio ao regime de Kadhafi e pelo incentivo aos negócios com a Líbia, a eurodeputada socialista Ana Gomes criticou também o ministro dos Negócios Estrangeiros por ter manifestado o receio de que a queda do líder líbio possa dar lugar ao fundamentalismo islâmico. Às tantas, não tem razão a frontal eurodeputada e tem razão Luís Amado: nada de corrermos riscos fundamentalistas, quando podemos ter como amigo um facínora moderado…

Convenhamos que é um risco menor considerar que Sócrates e Amado, de há uns anitos para cá, têm mostrado maior compreensão pelo velho Muammar do que por Ana Gomes.

E a estrela do 41º aniversário da revolução líbia foi…


Rui Rocha,

Sentado ao lado de Muammar Kadhafi, José Sócrates foi a estrela do 41º aniversário da revolução líbia, que foi celebrado nesta quarta-feira. Segundo o relato da agência Lusa, o primeiro-ministro português viu-se mesmo obrigado a fazer uma noitada para assistir a todas as festividades, depois de cumprido o breve encontro «5+5», que reuniu representantes de vários países do mediterrâneo.
Os principais momentos da reunião são revelados por imagens que mostram o primeiro-ministro português sentado ao lado de Kadhafi.
O líder líbio fez questão de ter Sócrates juntamente com o primeiro-ministro sérvio, Boris Tadic. no seu automóvel durante as celebrações, que tiveram lugar num hipódromo. José Sócrates e a comitiva do Governo português, composta também pelo ministro Luís Amado, abandonarem o local já depois das duas da madrugada.
Segundo informação da agência de notícias local, JANA, também estiveram presentes os presidentes da Serra Leoa, Guiné-Conacri, Malta, Tunísia e Argélia, para além dos primeiros-ministros da Croácia e da Eslovénia. Os vice-presidentes de Espanha, Grécia e Turquia, para além dos ministros dos negócios estrangeiros de Itália e Chipre também não faltaram.

Há-de acabar


jmmcc,

A UE e os EUA parece que usam libré e luvas brancas de serviçais com medo de chamar os bois pelos nomes. Já há um banho de sangue e a artilharia pesada nas ruas prepara o massacre anunciado. Espera-se que o exército perceba quanto antes que também é povo. Porque…

… mais-gravata-menos-gorro, mais-petróleo-menos-tenda…

… é tal-pai-tal-filho sempre de dedo pronto a disparar…

… mas isso há-de acabar por mudar.

Os jagunços do ditador líbio


Pedro Correia,

 

Financiou o terrorismo internacional. Sob o seu mandato, pelo menos 250 presos políticos “desapareceram” misteriosamente. Os partidos são rigorosamente proibidos no país. A tristemente célebre Lei 71 pune a “dissidência”, em casos extremos, com a pena de morte. Agora o ditador há mais tempo em funções no planeta não hesita em virar as armas contra o seu próprio povo para se perpetuar no poder: a tentativa de esmagamento do movimento pró-democracia na Líbia já ali provocou 233 mortos, segundo o Observatório de Direitos Humanos. Muammar Kadhafi, que procura censurar toda a informação, tem no entanto direito a assento oficial na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Não é preciso mais nada para se avaliar como é urgente a reforma das instituições internacionais e para se perceber a que ponto chegou o descrédito da ONU, que alguns sonham ver como sede de um futuro governo mundial.

Portugal, que em Dezembro de 2007 o recebeu com honras de estadista na lamentável cimeira dos ditadores realizada em Lisboa, mantém um envergonhado e vergonhoso silêncio sobre o massacre de cidadãos líbios às mãos dos jagunços de Kadhafi, como já muito bem o Rui Rocha sublinhou aqui. Um silêncio que não pode prolongar-se. Ser membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas não pode servir só para os habituais rodriguinhos de propaganda interna.

 

Adenda das 00.38: actualizei o número de mortos – de 173 para 233. A fonte é a mesma.

A situação na Líbia e o ensurdecedor silêncio de Portugal


Rui Rocha,

 

 

De acordo com várias fontes, está neste momento em curso um massacre na Líbia. A página online do La Reppublica, citando fontes hospitalares, fala em mais de 285 mortos e 700 feridos. Os acontecimentos mais graves terão acontecido em Benghasi, na sequência de intervenção de mercenários ao serviço do regime de Tripoli que terão aberto fogo, de forma indiscriminada, sobre manifestantes. Segundo a Al-Jazeera, a região de Benghasi pode ser agora considerada como palco de guerra e a gravidade da situação é tal que 50 líderes religiosos terão lançado um apelo desesperado aos comandos militares no sentido de não alvejarem civis. Perante o banho de sangue, importa ter presente que as últimas declarações conhecidas da diplomacia e do Governo português sobre o assunto são as do Embaixador em Tripoli, Rui Lopes Aleixo, há um par de dias. Destaco aqui as que foram recolhidas pela TSF:

«Não me parece que haja um protesto generalizado e que possa atingir uma grande área da população. A situação social da Líbia é muito melhor que nos países vizinhos e o grau de politização é muito diferente daquele que se verifica na Tunísia (…) não há uma insatisfação em relação ao regime como verifiquei em relação aos países vizinhos».

O silêncio do Governo português, reafirmo, é absolutamente inaceitável perante a gravidade da situação e traduz uma visão imoral da diplomacia e um completo desrespeito pelos direitos humanos. A Nação que se levantou contra a Indonésia perante a situação de Timor e episódios como o massacre de Santa Cruz não pode manter um silêncio cúmplice relativamente às atrocidades de Khadafi.

O terror, a excisão, o Holocausto


Pedro Correia,

  

Como dizia o outro, o mundo está perigoso. Vejam só: até o inamovível coronel Kadhafi, que permanece apenas há 42 anos como senhor absoluto da Líbia, anda a ser contestado nas ruas, respondendo aos protestos da forma expedita a que nos habituou noutras ocasiões: a tiro. Balanço provisório: 24 mortos. Só o embaixador português em Trípoli não reparou em nada.

Tanta agitação contra as ditaduras no mundo árabe deixa alguns colunistas nervosos: Maria João Avillez, na Sábado, acentua que não se deixa comover por revoluções, “francesas ou de flores”, e não consegue deixar de cismar nos Irmãos Muçulmanos: “Acho-os terríveis e não encontro nenhuma boa razão, de peso e com substância, para pensar o contrário.” Na mesma revista, o sociólogo Alberto Gonçalves vai mais longe: invoca o “Terror revolucionário francês” e – pasme-se – até o nazismo e o Holocausto a (des)propósito da queda de Mubarak. “É suficiente notar a forte hipótese de o Egipto livre e democrático dos sonhos se tornar, na prática, um Egipto institucionalmente islâmico”, proclama o titular da página de fecho da Sábado, dando como provado este facto extraordinário: “O povo que reivindica nas ruas o direito à felicidade parece, em larga medida e a acreditar nos estudos de opinião, o mesmo povo que reivindica o direito à excisão feminina (que Mubarak baniu em 2007) ou à lapidação das adúlteras (que Mubarak proibia).”

Extraordinário ditador, que poupou o povo egípcio a tais terrores. Extraordinário Mubarak, tão amigo do Ocidente em geral e tão digno da admiração de Alberto Gonçalves em particular. E extraordinários “estudos de opinião” – não especificados pelo crédulo sociólogo – que “parecem” conjugar liberdade e lapidação no Egipto.

Não conheço nenhum outro pensador mundial capaz de associar um movimento pró-democracia à excisão feminina. Espero que o sociólogo da Sábado tenha registado a patente.