Como dizia o outro, o mundo está perigoso. Vejam só: até o inamovível coronel Kadhafi, que permanece apenas há 42 anos como senhor absoluto da Líbia, anda a ser contestado nas ruas, respondendo aos protestos da forma expedita a que nos habituou noutras ocasiões: a tiro. Balanço provisório: 24 mortos. Só o embaixador português em Trípoli não reparou em nada.
Tanta agitação contra as ditaduras no mundo árabe deixa alguns colunistas nervosos: Maria João Avillez, na Sábado, acentua que não se deixa comover por revoluções, “francesas ou de flores”, e não consegue deixar de cismar nos Irmãos Muçulmanos: “Acho-os terríveis e não encontro nenhuma boa razão, de peso e com substância, para pensar o contrário.” Na mesma revista, o sociólogo Alberto Gonçalves vai mais longe: invoca o “Terror revolucionário francês” e – pasme-se – até o nazismo e o Holocausto a (des)propósito da queda de Mubarak. “É suficiente notar a forte hipótese de o Egipto livre e democrático dos sonhos se tornar, na prática, um Egipto institucionalmente islâmico”, proclama o titular da página de fecho da Sábado, dando como provado este facto extraordinário: “O povo que reivindica nas ruas o direito à felicidade parece, em larga medida e a acreditar nos estudos de opinião, o mesmo povo que reivindica o direito à excisão feminina (que Mubarak baniu em 2007) ou à lapidação das adúlteras (que Mubarak proibia).”
Extraordinário ditador, que poupou o povo egípcio a tais terrores. Extraordinário Mubarak, tão amigo do Ocidente em geral e tão digno da admiração de Alberto Gonçalves em particular. E extraordinários “estudos de opinião” – não especificados pelo crédulo sociólogo – que “parecem” conjugar liberdade e lapidação no Egipto.
Não conheço nenhum outro pensador mundial capaz de associar um movimento pró-democracia à excisão feminina. Espero que o sociólogo da Sábado tenha registado a patente.


Outro regime nada recomendável que se abeira do fim, qual efeito dominó. O Poder não é eterno.
Alguns gostariam que fosse, Gonçalo. Para que tudo ficasse sempre arrumadinho e previsível, ‘in seculum seculorum’.
As ditaduras vão caindo. As teias de aranha em certas cabeças pensantes vão permanecendo.
Permanecem – e de que maneira, Rui. Para certas pessoas um mundo cheio de ditaduras era um mundo mais calmo, menos perigoso, mais defensável. Desde que elas próprias possam viver em democracia e escrever tudo quanto lhes dá na gana, tudo bem.
Estes manifestantes não estão isolados do mundo, sabem, através da informação a que têm acesso na net e nas redes sociais, avaliar a diferença que existe entre as condições de vida do ocidente e aquelas em que têm sido forçados a viver. Por isso não configuram a comunidade atrasada e acéfala, passível de ser facilmente manipulada por organizações islamistas, descrita por estes comentadores que referes. As novas tecnologias tiveram um papel muito importante nesta revolução. Esse “detalhe” fez toda a diferença, no entanto é ignorado, incompreensivelmente, por esses analistas.