Uma história trivial…


fiodeprumo,



“Courage à Olivier Falorni qui n’a pas démérité, qui se bat aux côtés des Rochelais depuis tant d’années dans un engagement désintéressé.” 


Eis a frase fatal que está a animar “la vie en rose” dos franceses. O que se passa? Um trivialíssimo triângulo de poder.

François Hollande vive hoje com Valérie Trierweiler, depois de ter vivido vários anos com Ségolène Royal, a mãe dos seus quatro filhos e também ela uma mulher da política socialista francesa.

Aquelas palavras, escritas no Twitter por Valérie, são a manifestação do seu apoio público ao adversário eleitoral de Ségolène, a qual, por sua vez, terá o apoio do PS, do Primeiro Ministro e do Chefe de Estado. E são também uma desnecessária gafe. Até porque Hollande, seu companheiro, criticou bastante o seu antecessor, a quem acusava de misturar vida privada e vida política.

Apesar da França ter tido no Eliseu bastantes “histórias de cama”, a verdade é que depois de Strauss Kahn esta pedrinha na engrenagem era perfeitamente dispensável.

Trata-se de um erro político de que a primeira vítima é a imagem de um  Presidente coerente e sereno e de que a segunda vítima é a própria Valerie que, a meu ver, se tem evidenciado mais do que o desejável para quem quer compaginar a vida de Primeira Dama com a carreira de jornalista política.

Reflexão do dia


Pedro Correia,

«Acabado de tomar posse, encharcado pela cerimónia à chuva, sacudido no meio de uma tempestade no avião e até atingido por um raio, mesmo assim François Hollande não desistiu de levar avante o seu primeiro gesto presidencial: ir a Berlim, cumprimentar a srª Merkel. Adeus, grandeur de la France: o Presidente que a chanceler havia humilhado, recusando-se a recebê-lo quando era apenas candidato presidencial, o primeiro Presidente francês desde a Guerra que não tem pose de galo, o “Presidente normal”, assinalava assim a normalidade a que chegámos: a Europa já não conta, só conta a srª Merkel. Quando é preciso falar com a Europa, fala-se com ela. E, quanto mais cedo se lhe mostrar deferência ou vassalagem, tanto melhor para todos. Até para a França.»

Miguel Sousa Tavares, no Expresso

O aviso do Olimpo


fiodeprumo,

No Olimpo, os deuses não se entendiam – cá também não – sobre a visita de Hollande a Angela Merkel. Daí, uma acesa discussão em que o grupo mais fracturante fazia as mais terríveis ameaças.

O empossado Presidente da República, consciente da urgência deste encontro, toma o avião. Mas – há sempre esta adversativa quando o Olimpo não está de acordo -, quando a aeronave seguia viagem, um raio imenso abateu-se sobre ela obrigando-a a recuar e voltar ao aeroporto de partida. Está de ver que o grupo fracturante cumprira a promessa…

Finalmente Hollande pôde seguir viagem e, atrasado, mas ainda no próprio dia de ser empossado, cumprimentar a chanceler.

Hoje tentei perceber através da comunicação social qual o resultado de tanta urgência. Só vi banalidades. Que sim, que ambos concordavam em que a Grécia devia manter-se no euro. Que não, que a austeridade estava a impedir o desenvolvimento. Que talvez sim ou talvez não, se tornava necessário trabalhar em conjunto e ouvir as vozes europeias.

E pronto. A Grécia segue para novas eleições, que sim ou que talvez não, resolvam o assunto. E eu continuo sem perceber a urgência do encontro. Defeito meu, certamente, que ando menos acelerada que a França!

Para quê tanto afã?!


fiodeprumo,

François Hollande tomou posse hoje como PR da França e parte de imediato para a Alemanha para se encontrar com Angela Merkel.

Por muito que Hollande diga que leva na bagagem uma nova era no relacionamento entre os dois países, confesso que me causa um certo incómodo a rapidez com que esta viagem se realiza. É que tanta pressa – no próprio dia da tomada de posse… – configura mais subserviência do que o contrário.

Seguramente que Hollande tem bons conselheiros. Mas neste caso não seria preferível que a chanceler alemã viesse cumprimentar o novo PR no seu país? E não sendo assim, o que é que justifica que esta visita não pudesse ser realizada dentro de dias? Será que é a agenda alemã que continua a comandar a vida na França?

Há algo de verdadeiramente bizarro no afã desta deslocação…

O início da era Hollande (2)


Pedro Correia,

 

«Como é que alguém consegue governar um país que tem duzentas e quarenta seis variedades de queijo?»

Charles de Gaulle

 

Dados macro-económicos da França que François Hollande herda de Nicolas Sarkozy:

– crescimento médio do PIB entre 2009 e 2011: 1,5%

– crescimento do PIB em 2012 (previsão): entre 0,4% e 0,7%

– desemprego: 10,1%

– défice público: 5,2% do PIB

– dívida pública: 83% do PIB

 

Promessas eleitorais de Hollande:

– renegociação do tratado orçamental

– redução em 30% dos salários do Presidente e dos ministros

– equilíbrio orçamental em 2017 (défice zero)

– introdução na Constituição do princípio da concertação social

– concessão do direito de voto aos cidadãos estrangeiros provenientes de países extra-comunitários

– actualização do salário mínimo, indexado ao crescimento do PIB

– criação de 150 mil empregos para jovens: “contratos de geração”

– incentivos fiscais às empresas que contratem pessoas com menos de 30 anos e mantenham nos seus quadros pessoas com mais de 55 anos

– criação de 60 mil postos de trabalho no sector da educação público da educação e cinco mil na justiça durante os próximos cinco anos

– diminuição da idade de reforma para 60 anos quando houver 41,5 anos de descontos

– reforma fiscal: novo escalão de 45% para rendimentos acima de 150 mil euros e de 75% sobre os rendimentos superiores a um milhão de euros por ano

– taxa de IRC de 35% para grandes empresas, 30% para as médias e 15% para as pequenas

– renegociação dos acordos com Bélgica, Suíça e Luxemburgo que permitam cobrar impostos aos exilados fiscais

– reforma bancária, criando um banco público de investimento separado da banca comercial

– maior regulação do sistema bancário

– proibição de envolvimento da banca francesa em paraísos fiscais

– aumento de 15% do imposto sobre os lucros bancários

– congelamento durante três meses dos preços dos combustíveis e do gás

– redução da componente nuclear da produção de energia eléctrica dos actuais 75% para 50%

– manutenção do Estado nos sectores postal, dos transportes e da energia

– redução do preço dos medicamentos e maior comparticipação de genéricos

– redução para metade da taxa do insucesso escolar

– casamento entre pessoas do mesmo sexo, com reconhecimento do direito à adopção

 

Fica o registo. Para dentro de um prazo razoável verificarmos quantas destas promessas foram cumpridas – e em que termos. Cada vez mais os políticos devem ser confrontados entre o que propõem aos eleitores e aquilo que são capazes de concretizar assim que ascendem ao poder.

Publicado também aqui

O início da era Hollande (1)


Pedro Correia,

 

Vinte e quatro anos depois, a França – o país da Europa que pensa mais à esquerda e vota mais à direita – voltou a eleger um presidente socialista. François Hollande derrotou um desgastado Nicolas Sarkozy por escassos três pontos percentuais, inferiores ao que prediziam todas as sondagens.

Sarkozy, que pela sua natureza e pelas suas atitudes tem pouco a ver com os conservadores clássicos, repetiu até à exaustão durante a campanha que durante o seu mandato de cinco anos nunca a França esteve um trimestre em recessão, apesar da crise generalizada na Europa. É verdade. Mas também é certo que o país tem um nível de desemprego preocupante e as taxas oficiais de crescimento não revelam – longe disso – uma economia dinâmica, o que ajuda a dar asas ao discurso demagógico e populista de Marine Le Pen, a dirigente da Frente Nacional que ambiciona liderar a direita francesa.

 

No digno discurso em que reconheceu a derrota, na noite de 6 de Maio, Sarkozy destacou a força das instituições democráticas que permitem uma alternância tranquila no poder. A vitória de Hollande projecta-se para fora das fronteiras da Europa com a força de um símbolo numa região do mundo onde a esquerda tem sido duramente penalizada nas urnas desde que eclodiu a crise dos mercados financeiros.

Para um democrata, nunca é de mais sublinhar a importância destas rotações de poder ditadas pela soberania do voto popular. Num continente onde crescem de modo alarmante as forças extremistas “anti-sistémicas”, indiferentes às lições da História bem evidenciadas nas décadas de 20 e 30 do século passado, um democrata convicto tem o dever cívico de proclamar esta sua condição. Que implica a aceitação dos resultados eleitorais, sejam eles quais forem. O exercício do direito de voto torna as sociedades mais fortes contra as investidas de todos quantos pretendem suprimi-lo invocando para esse efeito palavras tão apelativas e tão manipuláveis como povo, pátria, nação ou classe.

 

A economia francesa não está bem. Mas a política mantém-se de boa saúde e recomenda-se. Prova disso foi a grande afluência eleitoral: mais de 80% dos franceses inscritos nos cadernos de recenseamento acorreram às assembleias de voto na segunda volta das presidenciais.

Uma boa notícia para a União Europeia, que está tão carente delas. E uma responsabilidade acrescida para o novo inquilino do Eliseu, que amanhã toma posse. O seu primeiro passo como Presidente é significativo: voa de imediato para Berlim, onde será recebido por Angela Merkel.

A política vive muito de símbolos. Este é tão forte que fala por si. De forma mais expressiva do que todas as torrentes de retórica em que a França sempre foi fértil. Como costumava dizer o general De Gaulle, “nada grandioso será alguma vez conseguido sem grandes homens – e os homens só se engrandecem quando estão determinados nisso”.

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Merkel: derrota em três frentes


Pedro Correia,

 

Angela Merkel perdeu hoje em três frentes.

Na frente externa, o seu mais fiel parceiro europeu – Nicolas Sarkozy – foi derrotado por François Hollande nas presidenciais francesas. E a Grécia sai das urnas ainda mais fragmentada e ainda mais ingovernável, com um expressivo voto de protesto que penaliza as duas maiores forças políticas pró-europeias e rejeita novas medidas de austeridade impostas por Berlim.

Na frente interna, a chanceler alemã vê a União Democrata-Cristã recuar nas eleições estaduais de Schleswig-Holstein, onde o seu parceiro de coligação se afunda. Depois das derrotas na Renânia do Norte-Vestefália, Hamburgo, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Baden-Vutemberga.

São sinais reveladores. Que devem ser lidos com atenção. Em todas as capitais da União Europeia, onde as forças extremistas, nacionalistas e populistas vão ganhando terreno. Não só em Atenas, não só em Paris. Por uma espécie de lenta implosão das famílias políticas tradicionais, incapazes de escutar a voz da rua.

Sinais que devem fazer meditar seriamente os políticos com responsabilidades governativas. Para que a união não se transforme em desunião e o sonho europeu não naufrague. Só ele possibilitou a paz prolongada na Europa, de longe o continente com maiores cicatrizes de guerra. Como a História nos ensina.

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As duas eleições


fiodeprumo,

 

Hoje houve eleições em dois países europeus. Um, a Grécia, mergulhado numa crise como não há memória, deu ao partido socialista uma derrota da qual vai ser difícil sair. O outro, a França, a caminhar para uma crise cujos contornos são ainda pouco claros, deu ao socialista François Hollande, o seu voto para que ele ponha em prática as sessenta medidas com que se comprometeu.

Nenhuma destas eleições é, hoje, apenas nacional. Elas terão repercussão a nível europeu e até de algum modo a nível mundial. Veremos se a mudança foi, ou não, para melhor…