onde a relação sobrevive no facebook


Patrícia Reis,

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Por isso, escolhe os poemas e coloca-os. Não tem muitos amigos. Ele nunca faz um like. Não sabe sequer se irá ver o mural dela, a página onde já não se diz que vive numa relação. Apagou todas as fotografias que o traziam, o corpo dele, os seus gestos fixos no momento, a sua cara. O cheiro. Eliminá-lo não foi fácil e, no fim, uma forma de branqueamento que lhe servia bem na dor. Apesar disso, foi incapaz de o bloquear e ele também a manteve no leque dos amigos. Ao fim de dois meses, um post anunciava que havia uma festa. Depois um jantar. Uma frase de um treinador de futebol. Um cartoon.

Onde a poesia podia salvar


Patrícia Reis,

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Desde a adolescência que conhece esse poder da música, de algumas canções serem nossas sem sabermos como nasceram, de quem nasceram. Os códigos escondidos do amor também se fazem valer de suportes a que não podemos chamar nossos. Ela começou a publicar poemas. Todos os dias, pelo meio-dia, vai ao facebook e publica os poetas de que gosta, os que aprendeu a ler. Homens e mulheres que, num desvario qualquer, conseguem colocar nas palavras as emoções que Carmen acredita serem só dela. O sofrimento é só seu.

Onde as canções são recados dos outros


Patrícia Reis,

2015-07-20-Onde-as-cancoes-sao-recados-dos-outros-

O barulho da porta foi apenas o ponto final, mas teimava em repetir-se, sempre o mesmo, um som que era a sua derrota.

Estiveram meses sem se cruzarem. Ela não o contactou. Ele não quis saber. Nenhuma mensagem escrita no telemóvel a anunciar má consciência. Durante dois meses, ele não escreveu nada no facebook. Manteve no mural um vídeo sem história de uma banda desaparecida. America. Não tem a certeza, a versão era qualquer coisa como I’ve been in desert with a horse with no name. Carmen ouviu várias vezes a canção para perceber. Às vezes, certas canções são mensagens. Ela sempre o soube.

Fictiongram primeiros capítulos


Patrícia Reis,

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onde se explica o começo desta história

 

Eu não sou o teu nome

Casámos há seis anos. Todos os dias penso em ti.
Carmen ouve-se e, na devolução do silêncio, sente que se perde como uma criança que larga a mão quente da mãe. Ainda pensa que pode o dia ser interrompido por outro som; aguarda. Ruídos da casa de banho, passos no andar de cima; fecha os olhos e deixa-se imaginar o barulho infernal da cidade condensado numa tortura que é só sua. Apenas sua.

Carmen.

Não pode perceber como o seu rosto chegou até ali. Por princípio evita os espelhos. Hoje não é um dia como os outros, qualquer outro dia em que consegue, apesar de tudo, consegue esquecer a solidão, a tristeza dos olhos… Como era que tu dizias?

Olhos de caramelo.

 

Onde a mulher é um desenho animado

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Sim. Olhos de caramelo.

Ao espelho, Carmen já não vê o caramelo, o dourado, a íris num rasgo de. Qualquer coisa. Não. Só vê o fundo escuro do castanho mais negro, cada vez mais negro. Tem tendência a repetir tudo várias vezes, é uma ajuda, para entender as palavras, para as ouvir. Fala alto. Baixinho, mas em voz alta. Para si. Por vezes, fala para os outros e parece que não a conseguem ouvir. Sente-se como um boneco animado, desesperada, incompreendida. Um boneco triste, de fazer rir de tão triste.

 

Onde o som rasga a pele

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Carmen fica ao espelho e, imprudente, acende um cigarro que não fuma. Ela diz que não fuma. Vê o fumo, pequeno, um rasgo apenas, quebrar a sua imagem. Não se reconhece. Passa a mão esquerda por água, com a direita segura o cigarro. Fica assim algum tempo. Ouve o gato. Atravessou o corredor. Depois de ficar sozinha começou a temer o bicho. O silêncio dele. Comprou-lhe uma coleira com um guizo. Considerou várias vezes se o barulho não o irritaria, se não o levaria à loucura. Um som metálico, um tilintar que podia ser de fada ou de duende. De bailarina exótica. O gato salta para o parapeito da banheira. Com a pata procura água junto à boca da torneira. Carmen observa-o, sente o fogo das cinzas a arder perto da pele, o cigarro que termina.

 

onde o útero materno não chega

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Decide que importa regressar. São oito e quinze da manhã. No andar de cima, os vizinhos falam alto. Não é habitual. Tenta não antever uma discussão. Não quer ter vizinhos que discutem às oito da manhã. Lá fora chove e esse atirar, essa agressão, é-lhe suficiente. Consegue antecipar os movimentos rápidos para evitar a chuva, a inutilidade de tudo, o corpo a ficar encharcado, apesar da gabardine, das botas. Andar depressa assusta-a, mas tudo a assusta de momento, já sabe. Corre para a boca do metro e imagina-se a entrar numa cápsula, num útero materno. Afasta a ideia.

 

onde a memória nos mente

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Há seis meses, talvez ainda te recordes, trocávamos ideias sobre crianças. Uma gravidez. Uma adopção. Seis meses. Não é nada, é muito. É um pesadelo.

Carmen vê os minutos que faltam para o metropolitano chegar. Sabe que precisa de contar sete paragens e obriga-se a não ver nada, a não olhar para um rosto que a possa surpreender. Importa não se distrair. Primeira estação, segunda estação…

onde o silêncio se fez de gritos


Patrícia Reis,

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Carmen não gritou, nem chorou. Lembra-se de ter inclinado a cabeça para a esquerda, como alguém que quer ouvir o coração e ouviu-o, com clareza, um cristal que se encolheu. Por fim, fez um gesto com a mão, um movimento apenas, o suor escorria pelo cabelo já, passou a mão na testa e, por fim, fechou os olhos. Deixou-se ficar ali até que sentiu que ele tinha recuado até à porta, os passos dele, o corpo a mexer, a mão que pegava no saco, a porta a fechar. Ela deixou-se ir até ao fim do mundo no chão da cozinha e então gritou.

Onde o medo passou a enjoo


Patrícia Reis,

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Recuou. Ouviu em silêncio – ela que não sabe escutar, quantas vezes lho disse? – sem desviar o olhar, sentindo que o coração podia desfalecer a qualquer segundo, de tanto bater, sincopado contra a sua pele. Sentiu o cheiro do desgosto, o suor a descer junto ao peito, a crescer nas axilas. Teve um ligeiro enjoo, uma tontura. O cheiro que se apoderava do seu corpo era violento, era a morte que chegava. Carmen pensou nisso assim. Não teve a capacidade de dizer nada. Ouviu:

“Ninguém merece viver assim, sabes? Ninguém.”

Onde os defeitos dela são como um menu de um restaurante


Patrícia Reis,

2015-07-14-Onde-os-defeitos-dela-sao-como-um-menu-

 

Ainda o vê, o corpo dele a baloiçar, hesitante, à espera do ruído da voz dela, da avalanche das lágrimas reveladoras da intensidade de tudo. Ele a acusá-la de ser, todos os dias, demasiado. Carmen, ela. Demasiado tudo, dramática, obsessiva, estranha, compulsiva, nervosa, frenética. E o corpo dele, na despedida, mostrava como a temia, o embate que sabia ser capaz, a guerra que só ela podia provocar. Foi aquele gesto do corpo dele, um baloiçar no pé esquerdo, as mãos a esfregarem as calças, nervosas, suadas, brancas, esguias, despidas das mãos delas, o olhar cansado e as palavras esgotadas. Tudo isso a travou. Carmen não seria capaz de se transformar num furação. O medo dele fez-lhe medo.

onde o dia 17 se repete


Patrícia Reis,

 

O mesmo que lhe disse que não lhe podia oferecer um futuro. Como se o futuro viesse numa caixa. Com laço e fita, embrulhado num papel de seda. Carmen ouviu-o com a maior tranquilidade. O coração numa guerra nunca vivida. E ela, calada, a olhá-lo, fixamente, sem esperar mais do que a dor de saber que o saco e a mala eram o abandono. Seis anos. Passaram-se seis anos. Di-lo para dentro, como uma lengalenga infantil que se permite a cada dia dezassete, o dia em que ele se foi embora.

onde o desgosto é uma palavra


Patrícia Reis,

De todas as memórias que tem, Carmen aprendeu a desconfiar da veracidade dos pormenores. A sua cabeça mente-lhe, ela deixa que o faça. Tem noção de que pode aligeirar, embelezar ou o contrário. A memória deixou de ser fiável depois do esgotamento. Faz humor. Não se trata de um esgotamento, mas de um desgostamento, uma palavra que tem origem no desgosto. Aponta a nova palavra. Para não se esquecer. Consegue esquecer-se de quase tudo. Talvez o mais difícil seja esquecer o homem que, sendo seu, é agora de outra.

onde a cara fica cheia de sangue que não se vê


Patrícia Reis,

 

Sexta estação. Não se pode distrair. Afasta o olhar da mulher, de si, no vidro, encara a ponta das botas e percebe que as calças estão sujas. É a chuva. A chuva como uma zanga do céu que a alcança, aquela força desmesurada, um soco pode atingir a cara. Carmen passa a mão no rosto. Fecha os olhos. Ainda sabes quem eu sou?

onde a mulher saber que não é como as outras


Patrícia Reis,

2015-06-19-Onde-a-mulher-sabe-que-nao-e-como-as-ou

Não sabe se é uma mulher como as outras. Se fosse, talvez… e talvez não. Carmen sabe o que os outros pensam dela e o que ela pensa dela é igualmente mau. Mantém os gestos diários para não dizer que não vive. Ontem discutia a construção de uma família. Hoje, ao ver a mulher à sua frente com a criança ao colo, inveja-lhe o peito generoso, as tranças metidas na cabeça, miúdas, a pele luzidia, as unhas cuidadas que afagam o menino num sossego de chucha. Ela podia ser uma mulher assim. O corpo disforme, a generosidade do peito, a criança acabada de fazer uma birra.

onde o planeta desconhece o conceito de paz


Patrícia Reis,

2015-06-19-Onde-o-planeta-desconhece-o-conceito-de

Em seis meses o mundo berrou a cada dois segundos. Mulheres violadas. Crianças a morrer de fome. Mais um conflito armado. Dos 207 países do mundo, crê que são tantos, Carmen suspeita que nenhum conheça o significado da palavra paz. Apenas em oposição à guerra. Estes pensamentos descansam-na. Quarta estação, quinta estação… Mas não são seis meses, são seis anos. O seu reflexo no vidro comprova o tempo. Deixou o cabelo crescer sem compromissos. Consegue ver, no vidro, consegue ver os brancos na raiz, mesmo ao centro da cabeça. Carmen sabe que era uma mulher bonita. Agora é uma espécie de mulher que em tempos foi bonita.  É ela quem se diz “espécie” para ajudar numa classificação impossível.

onde a matermática não salva


Patrícia Reis,

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Seis meses? Não, não, as palavras atravessam a mente como picadas e ela agarra-se com mais força ao varão metálico da carruagem. Pode ser que parem. As dores. E as palavras. São seis meses, por ter sido ontem, e são seis anos se quiser ser exacta. Carmen despreza a exactidão. Faz contas. Todos os dias faz contas. Seis meses são 182 dias, 4368 horas, 262 080 segundos.

onde a memória nos mente


Patrícia Reis,

2015-06-19-Onde-a-memoria-nos-mente-1[1].jpg

Há seis meses, talvez ainda te recordes, trocávamos ideias sobre crianças. Uma gravidez. Uma adopção. Seis meses. Não é nada, é muito. É um pesadelo.

Carmen vê os minutos que faltam para o metropolitano chegar. Sabe que precisa de contar sete paragens e obriga-se a não ver nada, a não olhar para um rosto que a possa surpreender. Importa não se distrair. Primeira estação, segunda estação…

onde o útero materno não chega


Patrícia Reis,

2015-06-19-Onde-o-utero-materno-nao-chega-1[1].jpg

Decide que importa regressar. São oito e quinze da manhã. No andar de cima, os vizinhos falam alto. Não é habitual. Tenta não antever uma discussão. Não quer ter vizinhos que discutem às oito da manhã. Lá fora chove e esse atirar, essa agressão, é-lhe suficiente. Consegue antecipar os movimentos rápidos para evitar a chuva, a inutilidade de tudo, o corpo a ficar encharcado, apesar da gabardine, das botas. Andar depressa assusta-a, mas tudo a assusta de momento, já sabe. Corre para a boca do metro e imagina-se a entrar numa cápsula, num útero materno. Afasta a ideia.

onde o som rasga a pele


Patrícia Reis,

2015-06-19-Onde-o-som-rasga-a-pele-1[1].jpg

Carmen fica ao espelho e, imprudente, acende um cigarro que não fuma. Ela diz que não fuma. Vê o fumo, pequeno, um rasgo apenas, quebrar a sua imagem. Não se reconhece. Passa a mão esquerda por água, com a direita segura o cigarro. Fica assim algum tempo. Ouve o gato. Atravessou o corredor. Depois de ficar sozinha começou a temer o bicho. O silêncio dele. Comprou-lhe uma coleira com um guizo. Considerou várias vezes se o barulho não o irritaria, se não o levaria à loucura. Um som metálico, um tilintar que podia ser de fada ou de duende. De bailarina exótica. O gato salta para o parapeito da banheira. Com a pata procura água junto à boca da torneira. Carmen observa-o, sente o fogo das cinzas a arder perto da pele, o cigarro que termina.

Olhos de caramelo


Patrícia Reis,

2015-06-19-Onde-a-mulher-e-um-boneco-animado-1[1].

Sim. Olhos de caramelo.

Ao espelho, Carmen já não vê o caramelo, o dourado, a íris num rasgo de. Qualquer coisa. Não. Só vê o fundo escuro do castanho mais negro, cada vez mais negro. Tem tendência a repetir tudo várias vezes, é uma ajuda, para entender as palavras, para as ouvir. Fala alto. Baixinho, mas em voz alta. Para si. Por vezes, fala para os outros e parece que não a conseguem ouvir. Sente-se como um boneco animado, desesperada, incompreendida. Um boneco triste, de fazer rir de tão triste.


Patrícia Reis,

2015-06-19-Eu-nao-sou-o-teu-nome-1[1].jpg

Eu não sou o teu nome

Casámos há seis anos. Todos os dias penso em ti.
Carmen ouve-se e, na devolução do silêncio, sente que se perde como uma criança que larga a mão quente da mãe. Ainda pensa que pode o dia ser interrompido por outro som; aguarda. Ruídos da casa de banho, passos no andar de cima; fecha os olhos e deixa-se imaginar o barulho infernal da cidade condensado numa tortura que é só sua. Apenas sua.

Carmen.

Não pode perceber como o seu rosto chegou até ali. Por princípio evita os espelhos. Hoje não é um dia como os outros, qualquer outro dia em que consegue, apesar de tudo, consegue esquecer a solidão, a tristeza dos olhos… Como era que tu dizias?
Olhos de caramelo.

anda lá, vamos para casa


Patrícia Reis,

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Estás a ver alguma coisa? Não te preocupes, deve ser o camião do lixo. Ou outro carro. Estás a ouvir? Anda lá, despacha-te, está mais frio do que esperava, temos de ir para dentro. Estás a olhar para mim? Não, não me apetece andar mais, vamos voltar para casa. Não puxes a trela, espera aí. Não me puxes. Não aguento quando me puxam e passo o dia a sacudir essas violências. Anda, vamos para casa.