onde se explica o começo desta história
Eu não sou o teu nome
Casámos há seis anos. Todos os dias penso em ti.
Carmen ouve-se e, na devolução do silêncio, sente que se perde como uma criança que larga a mão quente da mãe. Ainda pensa que pode o dia ser interrompido por outro som; aguarda. Ruídos da casa de banho, passos no andar de cima; fecha os olhos e deixa-se imaginar o barulho infernal da cidade condensado numa tortura que é só sua. Apenas sua.
Carmen.
Não pode perceber como o seu rosto chegou até ali. Por princípio evita os espelhos. Hoje não é um dia como os outros, qualquer outro dia em que consegue, apesar de tudo, consegue esquecer a solidão, a tristeza dos olhos… Como era que tu dizias?
Olhos de caramelo.
Onde a mulher é um desenho animado
Sim. Olhos de caramelo.
Ao espelho, Carmen já não vê o caramelo, o dourado, a íris num rasgo de. Qualquer coisa. Não. Só vê o fundo escuro do castanho mais negro, cada vez mais negro. Tem tendência a repetir tudo várias vezes, é uma ajuda, para entender as palavras, para as ouvir. Fala alto. Baixinho, mas em voz alta. Para si. Por vezes, fala para os outros e parece que não a conseguem ouvir. Sente-se como um boneco animado, desesperada, incompreendida. Um boneco triste, de fazer rir de tão triste.
Onde o som rasga a pele
Carmen fica ao espelho e, imprudente, acende um cigarro que não fuma. Ela diz que não fuma. Vê o fumo, pequeno, um rasgo apenas, quebrar a sua imagem. Não se reconhece. Passa a mão esquerda por água, com a direita segura o cigarro. Fica assim algum tempo. Ouve o gato. Atravessou o corredor. Depois de ficar sozinha começou a temer o bicho. O silêncio dele. Comprou-lhe uma coleira com um guizo. Considerou várias vezes se o barulho não o irritaria, se não o levaria à loucura. Um som metálico, um tilintar que podia ser de fada ou de duende. De bailarina exótica. O gato salta para o parapeito da banheira. Com a pata procura água junto à boca da torneira. Carmen observa-o, sente o fogo das cinzas a arder perto da pele, o cigarro que termina.
onde o útero materno não chega
Decide que importa regressar. São oito e quinze da manhã. No andar de cima, os vizinhos falam alto. Não é habitual. Tenta não antever uma discussão. Não quer ter vizinhos que discutem às oito da manhã. Lá fora chove e esse atirar, essa agressão, é-lhe suficiente. Consegue antecipar os movimentos rápidos para evitar a chuva, a inutilidade de tudo, o corpo a ficar encharcado, apesar da gabardine, das botas. Andar depressa assusta-a, mas tudo a assusta de momento, já sabe. Corre para a boca do metro e imagina-se a entrar numa cápsula, num útero materno. Afasta a ideia.
onde a memória nos mente
Há seis meses, talvez ainda te recordes, trocávamos ideias sobre crianças. Uma gravidez. Uma adopção. Seis meses. Não é nada, é muito. É um pesadelo.
Carmen vê os minutos que faltam para o metropolitano chegar. Sabe que precisa de contar sete paragens e obriga-se a não ver nada, a não olhar para um rosto que a possa surpreender. Importa não se distrair. Primeira estação, segunda estação…

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De ficcionista. Passa com distinção.