Os livros que fomos lendo


Pedro Correia,

 

Durante quase três meses, fomos aqui revelando as leituras que íamos fazendo, partilhando-as com os leitores. Chegou o momento do balanço desta série, desenrolada em 24 etapas.

 

A Ivone Costa, a 3 de Novembro, relia A Mecânica da Ficção, de James Wood.

 

O JAA, a 7 de Novembro, falou-nos de um dos três livros que então lia: Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo.

 

O José Maria Pimentel, a 14 de Novembro, deixou-nos nota da obra que ia lendo: China: its History and Culture, de W. Scott Morton e Charlton Lewis.

 

O João Campos, a 15 de Novembro, fazia uma incursão pela banda desenhada: As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse. De Filipe Melo (argumento) e Juan Cavia (ilustrações).

 

O João Carvalho, a 18 de Novembro, optava por “alcoviteirices”: Amantes dos Reis de Portugal, de Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni.

 

A Laura Ramos, a 22 de Novembro, citava Leo Ferré à laia de introdução do seu texto sobre o livro A Confraria do Vinho, de John Fante.

 

A Leonor Barros, a 28 de Novembro, trouxe-nos literatura em alemão: Meine Russischen Nachbarn, de Wladimir Kaminer.

 

O Luís M. Jorge, a 30 de Novembro, lamentava a perda do livro que estava a ler: The Sense of an Ending, de Julian Barnes.

 

O Luís Menezes Leitão, a 2 de Dezembro, assumia-se como apreciador de biografias ao escrever sobre Estaline, de Jean-Jacques Marie.

 

A Patrícia Reis, a 2 de Dezembro, escreveu sobre Dois Rios, de Salem Tatiana Levy, e a biografia de Lúcio Feteira, de Miguel Carvalho.

 

A 6 de Dezembro, foi a minha vez: deixei a minha opinião sobre uma obra muito interessante: A Liderança Segundo John Kennedy, de John Barnes.

 

O Rui Rocha, a 7 de Dezembro, desvendava-nos o livro que andava a reler: A Criação do Mundo, de Miguel Torga.

 

A Teresa Ribeiro, a 12 de Dezembro, trazia-nos aqui a sua perspectiva sobre Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer.

 

O Adolfo Mesquita Nunes, a 19 de Dezembro, confessou-nos a sua nada surpreendente predilecção por The Iron Lady, biografia de Margaret Thatcher escrita por John Campbell.

 

A Ana Cláudia Vicente, a 23 de Dezembro, interrompia Vitorino Nemésio para ler Luiz Pacheco.

 

A Ana Lima, a 26 de Dezembro, narrava-nos a sua opinião sobre O Retorno, de Dulce Maria Cardoso.

 

A Ana Margarida Craveiro, a 27 de Dezembro, andava a braços com “um tijolo de 800 páginas”: The Better Angels of our Nature, de Steven Pinker.

 

A Ana Sofia Couto, a 30 de Dezembro, falou-nos de Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff.

 

A Ana Vidal, a 2 de Janeiro, trouxe-nos notícias d’ O Túnel, de Ernesto Sabato.

 

O António Manuel Venda, a 3 de Janeiro, relia o Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho.

 

A Cláudia Köver, a 13 de Janeiro, transmitiu-nos as suas impressões sobre Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier.

 

O Fernando Sousa, a 20 de Janeiro, apresentou-nos os Contos Reunidos, de Felisberto Hernández.

 

A Helena Sacadura Cabral, a 21 de Janeiro, lia Longe é um Bom Lugar, de Mário Zambujal.

 

E a série terminou a 26 de Janeiro com o José Navarro de Andrade. Leitor d’ Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo.

O que ando a ler (24)


enlil,

Somos o único bicho incapaz de dormir ao relento. Somos também o único animal que lê na cama. Um livro bom de se ler deitado há-de ser suficientemente cativante para impedir que nos deixemos distrair por outras solicitações que possam surgir, como por exemplo, enfim, isso, mas também suficientemente magnânimo para nos permitir que deslizemos em paz para dentro do sono.

Nem toda a arte, neste passo a literatura, tem que ser um espinho cravado na consciência ou um tiro na cabeça. É um bocado redutor enfiá-la nessa caixa e dela não a deixar sair. Pode ser assim, pode ser assado, seja como o escritor quiser. Pode ser uma tentativa de atingir o Belo (uma proposta demodèe nos dias correntes), pode querer comover-nos, ou consolar-nos, ou apenas retirar-nos, durante o tempo que temos o livro entre mãos, da nossa amarga realidade e transportar-nos para outros lugares. Pode ser ainda uma forma de pôr em ordem uma parte do mundo que ficou por arrumar; pelo menos na cabeça de quem o escreve e de quem o lê.

Atrevo-me a considerar que todas estas formas são equivalentes em nobreza quando conseguem atingir aquilo a que se propõem. Atrevo-me ainda mais a dizer que “Os Espiões” de Luis Fernando Veríssimo é bom para ler na cama. Espero que percebas, ó sereno leitor, que estou a elogiar o livro e também espero que não te passe pela cabeça que faço o elogio da literatura light; suplico-te um esforço aristotélico para que não baralhes categorias, como tão amiúde se faz por preconceito e precipitação, ou apenas porque há quem não dê para mais.

“Os Espiões”:

Um enredo que no dizer do protagonista é digno de John le Carré, sobre uma misteriosa escritora que assina como Ariadne, logo eruditamente remetendo para os olimpos da mitologia, acaba desmistificado por na verdade decorrer à copofónica mesa de um botequim manhoso de Porto Alegre. Vidas conformadas, boémia de bairro, cosmopolitismo intelectual de meia tigela, tudo isto também é desmobilizado pela prosa irónica mas sem sobranceria, generosa com as personagens mas sem complacência, enfim divertida – palavra caída em desuso e normalmente substituída por “fluente” ou “conciso”.

Não sendo novidade, “Os Espiões” é novo de 2009. E guardado estava o bocado, pois Luis Fernando Veríssimo que nunca me cativara nas crónicas publicadas no “Expresso”, veio agora vencer-me com “Os Espiões”. Retrocedo, relerei as crónicas e retracto-me.

Mão amicíssima em boa hora mo fez chegar aos olhos, porque isto é da melhor literatura portuguesa actual. Portuguesa? Mas Luis Fernando não é brasileiro, descendente do anti-presbítero Érico? Sim, mas a nossa língua é só uma e só há a perder dividi-la pelos continentes. Boas noites.

O que ando a ler (23)


fiodeprumo,

 

Não será bem o que estou a ler, mas antes, o que acabei de ler. Pelo que vejo das escolhas da “confraria”, eu sou a mais heterogenea… Acabei, há dias, a leitura de dois. Sim, sou megalómana e tenho, por norma, duas obras de cabeceira. 

Desta vez, foi o último livro do meu querido Mário Zambujal Longe é um bom lugar, colectânea deliciosa de short stories que é um dos meus estilos preferidos e com o qual o autor e eu própria não nos damos nada mal. Gaba-te cesto!

São contos sobre o quotidiano, com um marcado sentido do humor e que caracterizam os comportamentos de uma certa novel classe média nacional. Fiquei fiel ao Mário desde a velha “Crónica dos bons malandros” e assim continuarei enquanto ele publicar. Nada de filosófico, de intelectual, mas uma bonomia que faz falta neste país de fado triste.

Ao mesmo tempo, li a Ordem Breve da “nossa” Ivone Costa, uma colectânea de poesia difícil mas de rara qualidade e que, aos meus ouvidos – sim leio sempre alto poesia -, soou com uma harmoniosíssima sinfonia. Li-o duas vezes porque, no género, isso me acontece quase sempre. E à segunda volta, ainda gostei mais. Tanto, que tenciono, quando estiver inspirada, escrever um post sobre ele. Não coloco aqui a capa – linda – porque não tenho scanner e não encontrei foto na net. Alguém dá uma ajuda?

 

 

 

E pronto. A seguir apetece-me uma biografia de um homem forte. Tenho duas em mente, mas ainda me não decidi!

 

E tu, Zé Navarro, o que andas a ler agora?

O que ando a ler (22)


modosdever,

 

Tomo estas notas a quente e frio, por causa de uma despedida e da temperatura que baixou, e por as duas coisas me terem lembrado umas férias de Verão, em 1966, de um imenso calor e de uma morte, de uma escultura de areia e de como a maré a desfez, seriam umas sete da tarde, isto para vos sugerir o que o uruguaio Felizberto Hernández levou a vida a fazer: a procurar, entre as palavras, os seus sentidos. Foi o autor que acabei de reler, porque a leitura é isso mesmo, voltar a ela. Mas que livro, este Contos Reunidos! Naqueles em que volta a ser menino, FH descobre o passado, e o homem que resultou dele, através por exemplo da amizade com Clemente Colling, um violinista virtuoso que nunca trocava de meias e tinha o corpo coberto de percevejos, de duas irmãs velhas que a mãe visitava, duas mulheres de véus caídos sobre as caras e de chás tomados na penumbra de uma sala igual há cinquenta anos, de como o atraiu, adolescente, o cesto de roupa suja da casa de banho de uma mulher bonita – e de como lhe bateu o coração com medo de que alguém de repente entrasse. Noutro, já homem e pianista, antes de trocar o mundo dos sons pelo das palavras, aceita ser convidado de uma matrona rica que vegeta, caprichosa e ferida de amores, numa casa alagada, onde só se pode andar de canoa, e as camas e os armários flutuam sobre bóias. Felizberto Hernández convive com as palavras para encontrar o sentido das coisas, umas vezes claro outras misterioso. “… Tenho como um processo de amizade com as palavras, primeiro faço-me amigo directo delas; e depois fico muito contente quando me aparecem juntas, duas que nunca haviam estado juntas, que se haviam simpatizado, ou que se haviam atraído nalgum lugar da minha alma não vigiado por mim. Mas há palavras que nunca poderão ser minhas amigas, as que não me parecem naturais ou as que não entram no mistério da simpatia” – escreveu a uma amiga. Portugal conhece pouco este abridor de caminhos, este autor incomparável – o mais próximo, no humor e na angústia, talvez seja Kafka. E no entanto Italo Calvino, Júlio Cortázar ou García Márquez, para citar só estes, têm-no como um dos seus maiores mentores. Este o livro que acabei de reler. O que estou a terminar, O Espião Alemão em Goa, de José António Barreiros, é outra história: de como, em Março de 1943, no porto de Mormugão, as tripulações de três navios mercantes alemães e um italiano, atacados por um comando britânico, preferiram metê-los no fundo, criando um problema ao Portugal neutral, que, não podendo reconhecer o ataque, fez julgar e condenar as quatro equipagens. Uma história feia, que o conhecido advogado soube investigar e trazer à tona.

E aqui vai, Cláudia, com um enorme pedido de desculpas pelo atraso, o meu contributo para esta série. E tu, Helena Sacadura, o que andas a ler?

O que ando a ler (21)


claudiakover,

 

Escolhi o livro não pelo título, autor ou imensa vastidão de páginas, mas porque insisto em ler em alemão e foi esta a obra que a minha mãe me colocou na mala antes de eu partir para Istambul. O tempo para a leitura foi escasso, mas a obra “Comboio Nocturno para Lisboa” de Pascal Mercier fez me companhia em algumas noites de insónia. Não o terminei, nem a meio estou. Não por desgostar mas por falta de tempo e dedicação.

O livro inicia-se com uma fuga irracional (ou um acto de coragem dependendo do leitor) para a cidade de Lisboa. Um breve instante na vida do protagonista leva-o a arrancar-se da sua monotonia em Berna e a embarcar numa viagem que o levará a questionar todo o seu estilo de vida e decisões tomadas até então (a forma como viveu as discussões coma sua ex-mulher, a forma como exercera a sua profissão, etc.) Trata-se de um homem invulgarmente inteligente com fracas capacidades sociais e pouca vontade de mudar, que num dia chuvoso se encontra numa situação invulgar e encantadora. A busca por uma mulher portuguesa deixa o cair nos braços de uma obra de Amadeu Inácio de Almeida Prado, escritor português que falecera 30 anos antes, em 1975. O homem míope e que fugia a tudo – exactamente por se negar à evasão e se afundar na leitura dos seus amados livros – dá corpo ao terceiro romance deste autor suíço. A obra foi traduzida em 15 idiomas, tendo sido um grande sucesso na Alemanha, mantendo-se no top durante três anos. Um autor apaixonado por Pessoa, cujas descrições “thrillescas” nos levam a uma Lisboa mística que reflecte bem a sensação que tantos visitantes dizem ter ao visitarem a nossa capital, e que nós – por termos o privilégio de aqui vivermos – tantas vezes escolhemos ignorar.

Não sei o que me espera nos próximos dias em Lisboa (no livro, digo eu), mas sei que sempre que estou “lá por fora” sinto a falta desta cidade e de muita coisa que se representa neste livro: o vintage, o velho, o local remoto, romântico e por vezes esquecido e abandonado pelos seus próprios habitantes.

 

Espero que o Fernado esteja mais dedicado à leitura do que eu!

O que ando a ler (19)


Ana Vidal,

Essa pergunta não é de resposta fácil, Ana Sofia. Acho que já disse por aqui que nunca leio só um livro de cada vez. Mas, como a maioria dos livros que empilho na mesa de cabeceira é de poesia – neste momento há uma invasão da maravilhosa poesia brasileira, vários livros oferecidos e com dedicatórias que me comovem – falarei aqui do último que li em prosa, acabado ontem mesmo (atravessou comigo o ano, por sinal). É O Túnel, o primeiro romance do argentino Ernesto Sabato. Dele, já tinha lido em tempos “Heróis e túmulos”, um livro empolgante que me deixou água na boca e foi considerado, penso que muito justamente, o melhor romance argentino do século XX. O Túnel é um texto muito diferente, embora nos agarre igualmente pelos colarinhos e não nos deixe respirar até à última página. A estrutura é quase policial: um mergulho lento e a cada capítulo mais profundo numa trama obsessiva e tão bem urdida que, mesmo revelado o desfecho logo na primeira frase do livro, a história não perde o suspense, pelo contrário.

 

 

Juan Pablo Castel, um pintor de talento reconhecido – embora despreze totalmente as opiniões dos críticos sobre a sua obra – repara, numa exposição sua, numa mulher que, por sua vez, observa um dos seus quadros atentamente. Maravilha-o que ela se fixe num pormenor do quadro que ninguém mais parece valorizar: uma pequena janela, a um canto, através da qual se vê uma mulher olhando o mar. Está dado o mote: esta sequência, aparentemente inocente, de observadores e objectos de interesse – pintor>mulher>quadro>janela>mulher>mar – dá início a um caleidoscópio alucinante, um jogo de espelhos em permanente mutação que nos desvenda a labiríntica e tortuosa mente do narrador, o próprio pintor. Sob a batuta  de uma paixão súbita e avassaladora (não mais do que um pretexto, já que o amor por Maria não passa da busca de um nome para um papel pré-definido), começa o opressivo bailado nupcial de predador e presa, dois seres desesperados e cada um deles perdido na sua própria e inescapável solidão: Maria, a vítima, que permanece triste e misteriosa até ao fim, e Castel, o implacável algoz, que nos vai conduzindo até à exaustão pelos abismos do seu pensamento, meticulosamente organizado mas circular: “Em geral, esta sensação de estar só no mundo aparece misturada com um orgulhoso sentimento de superioridade. Desprezo os homens, vejo-os feios, sujos, incapazes, ávidos, grosseiros e mesquinhos. E então a minha solidão não me assusta, é quase olímpica. Mas naquele momento, como noutros semelhantes, encontrava-me só como consequência dos meus piores atributos, das minhas baixas acções. Em tais casos sinto que o mundo é desprezível, mas também que faço parte dele, e sou invadido por uma fúria de aniquilação.” É este homem que, mesmo nos momentos de felicidade com a mulher que considera a sua alma gémea e a única pessoa no mundo capaz de compreendê-lo, é incapaz de aceitar essa felicidade e semeia nela uma dúvida envenenada até deitar tudo a perder. Um espírito destrutivo que tão bem cabe naquela frase de Schopenhauer: “Quando não tenho nenhuma angústia, é isso mesmo que me angustia”.

 

A narrativa, primorosamente escrita e rica de inquietantes metáforas (não falta até uma referência a Kafka e às suas metamorfoses, com a descrição de uma transformação do narrador em pássaro, num sonho), vai num crescendo de angústia e loucura que só pode levar a um final trágico. Já o sabíamos desde a primeira página, mas chegamos lá sem fôlego e ainda expectantes de alguma coisa que possa ter-nos escapado.

 

Ernesto Sabato é um desses escritores mágicos em que a América Latina tem sido pródiga. Tem uma escrita vibrante e lúcida, que prende irremediavelmente o leitor desde as primeiras linhas. Morreu neste ano que agora acabou, a dois meses de completar cem anos. Vale a pena lê-lo.

 

Título: “O Túnel”

Autor: Ernesto Sabato

Editora portuguesa: Relógio d’Água

135 páginas (de puro prazer)

 

E tu, António, o que andas a ler por estes dias?

O que ando a ler (18)


discutindoopinioes,

 

Cruzámo-nos muitas vezes nas livrarias antes de eu o levar comigo. Houve razões para tanta hesitação. Não sei se foi uma embirração com o título, a influência de um professor que eu admiro e que não tinha grande simpatia pelo livro ou, simplesmente, por causa das minhas dúvidas a respeito de um medicamento filosófico (uma expressão que é toda uma teoria). Mesmo assim, decidi dar-lhe uma oportunidade e comecei a ler, há poucos dias, Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff. O livro tem como ponto de partida a ideia de que é possível encontrar nos filósofos (e em alguns romancistas) um conjunto de preceitos que nos orientem e nos ajudem a tomar decisões. Nas primeiras páginas, percebemos que o método proposto pretende roubar clientes à psicologia e à psiquiatria. Os problemas de realização pessoal podem ser – é uma ideia reiterada – resolvidos com a ajuda dos grandes filósofos. Assim, no capítulo “Utilidade dos Estudos de Filosofia”, encontramos uma síntese das principais teses de filosofia moral que surgiram no pensamento ocidental, apesar de o “Oriente” também merecer uns parágrafos. Depois desta síntese, o autor passa à demonstração da aplicação do método. Nos dois primeiros casos (foi o que li até agora), o aconselhamento visa o autoconhecimento e a formulação de soluções através da leitura, mais ou menos orientada, de frases dos grandes pensadores. Fica, no entanto, e para desilusão de quem criou algumas expectativas na primeira parte, a ideia de que a resolução dos problemas depende da utilização de uma espécie de fórmula encontrada nas leituras sugeridas. Ou seja, apesar de afirmar a importância da meditação e sublinhar que a abordagem filosófica dos problemas traz consigo a responsabilidade pessoal, o autor explica a evolução dos vários casos de estudo descrevendo de forma muito pobre o modo como cada pessoa foi capaz de relacionar o pensamento de outros com a sua vida. Ler e perceber que não é assim tão fácil.     

 

E tu, Ana Vidal, o que tens andado a ler?

O que ando a ler (17)


cadernoelastico,

 

Nas últimas semanas, tenho andado a braços com um tijolo de 800 páginas. O autor é Steven Pinker, psicólogo social, que nos oferece este The Better Angels of Our Nature – The Decline of Violence in History and Its Causes. O subtítulo explica exactamente o conteúdo: a violência tem vindo a diminuir, ao longo do tempo, e o autor procura as causas desse declínio, recorrendo à história, sociologia, economia, psicologia e filosofia política.

Contrariamente às teses mais negras sobre a contemporaneidade, Pinker explica-nos, por estatísticas, gráficos e exemplos, que nunca vivemos tão em paz e tão tranquilos. O período posterior à Segunda Guerra Mundial caracteriza-se por uma longa paz, um período pacífico como nunca antes a espécie humana conheceu. E apresenta quatro grandes tendências que explicam esta paz: processo de pacificação, processo civilizacional, revolução humanitária e revolução dos direitos.

Os primeiros capítulos são uma descrição da nossa evolução: massacres, torturas, escravidão, guerras, enfim. A nossa história é um longo banho de sangue, que se verifica empiricamente nos esqueletos mutilados dos primeiros homens e simbolicamente nos relatos bíblicos. Só a Idade Moderna vem refrear os nossos ímpetos de chacina em massa, com o aparecimento do Estado, e o seu monopólio da violência. Pinker confirma que Hobbes tinha razão: sem o Leviathan, a vida era mesmo “nasty, brutish, and short”. É o chamado Processo de Pacificação, que diminuiu as hipóteses de morrermos vítimas de homicídio ou guerra. Claro que passámos a morrer às mãos dos governantes, mas os números indicam que a vida passou a ser um bocadinho melhor.

O processo seguinte centra-se numa teoria de Norbert Elias, um daqueles autores prejudicados pelo timing inconveniente das suas conclusões. Judeu na Alemanha Nazi, Elias centrou a sua carreira na teoria do Processo Civilizacional, que nos explica como lentamente passámos a controlar melhor os nossos ímpetos, tendo como consequência uma descida, por exemplo, do número de homicídios e crimes violentos. Substituímos uma série de códigos morais relacionados com o indivíduo (duelos por honra, a vingança) por uma acção em sociedade, arbitrada pelo Estado. Ao mesmo tempo, fomos reforçando os laços societais, através do comércio, e isso também nos levou a dominarmo-nos em público. Esfaquear um sócio de negócios é capaz de não ser boa publicidade para o nosso próprio negócio.

O Iluminismo trouxe-nos a Revolução Humanitária, devidamente amplificada pelo fenómeno da imprensa. De repente, cortar pedaços aos prisioneiros e atirar mulheres amarradas para dentro de rios a ver se boiavam passou a ser cada vez mais mal visto. Livros como A Cabana do Pai Tomás foram fundamentais para desmontar mitos e ideias falsas sobre os negros, isto é, sobre a diferença. Os próprios animais beneficiaram desta revolução, com a queima lenta de gatos a deixar de ser um desporto das elites. A última grande tendência é a revolução dos direitos, incluindo mulheres, minorias étnicas e sexuais, crianças e animais.

Pinker oferece sempre números para esta difícil realidade. O nosso problema, parece, é de memória: lembramo-nos imediatamente de Hitler e de Estaline, mas esquecemos os milhões mortos pelos Mongóis, durante a Rebelião de Taiping, durante a conquista das Américas ou pela escravatura. Lembramo-nos do que está mais perto, e muito naturalmente damos mais importância. Na verdade, hoje ligamos a televisão e anunciam-nos que morreram dez afegãos ou dez iraquianos. Não há muito tempo, anunciavam-nos alguns milhares de vietnamitas. Antes disso, milhões de chineses. Passámos, inconscientemente, a dar mais valor a cada vida, e isso é bom. A espécie humana melhorou um bocadinho, mas nós temos dificuldade em aceitá-lo. Procuramos logo outros números que o desmintam: então e os Balcãs? E o Ruanda, ou o Sudão? Mas os gráficos do autor, recolhidos de várias fontes, demonstram que somos mesmo míopes: olhando para a “bigger picture”, a tendência é mesmo de descida. 

Estou nas páginas finais deste livro, à descoberta dos tais “better angels” que explicam tudo isto. Mas uma coisa é certa: Kant tinha razão. A paz perpétua pode não ser perpétua, num certo sentido determinista, mas existe. Pelas instituições políticas e pelas instituições económicas, conseguimos uma sociedade um bocadinho mais cosmopolita, um bocadinho mais aberta. E, sobretudo, mais pacífica.

 

Posto isto, Ana Sofia Couto, que andas tu a ler?

O que ando a ler (16)


Ana Lima,

A primeira vez que li um livro de Dulce Maria Cardoso, “Campo de Sangue”, o primeiro romance que publicou, tive uma estranha sensação. Senti que aquele livro poderia ter sido escrito por mim, ou melhor, mesmo que o tema fosse outro, aquele seria, pelo estilo, pela  construção das frases, o livro que eu escreveria se soubesse e pudesse escrever. Os outros livros que li da mesma autora não tiveram o mesmo impacto em mim mas deixaram-me a certeza que ela é uma escritora que nunca deixarei de acompanhar. Foi por isso que comprei este “O Retorno” mal ele foi publicado. Acabei de o ler na sexta-feira. 

 

Através de “O Retorno” regressamos ao ano de 1975 para acompanharmos o Rui, adolescente, desde os últimos dias em Luanda, quando se vê obrigado a deixar a sua casa, onde a mãe colocou, pela última vez, na mesa da cozinha uma toalha com dálias bordadas, até ao dia em que a sua família se muda para uma casa “com janelas coladas ao tecto”, já na metrópole, onde ele pensava existirem, com abundância, cerejas e raparigas bonitas. 

É um tempo de crescimento, de aprendizagem, um tempo em que, a viver num hotel de 5 estrelas, no Estoril, transformado pelo IARN em residência temporária de famílias sem habitação, Rui descobre o lado de cá de um império que tentava aprender, naqueles dias, a sobreviver reduzido ao seu espaço mais pequeno. Do seu quarto acanhado só a vista para um mar imenso lhe permitia sonhar com a América para onde levaria a sua mãe e a sua irmã. Não foi para a América. O seu corpo aprendeu a habituar-se à água fria deste mar, mas não se habituou ao lugar que as professoras lhe reservavam no fundo da sala por ser retornado. 

Nunca estive em África. Podia ter estado. Se os meus pais não tivessem optado pela migração interna, quando quiseram afastar-se da pobreza que os tolhia. De ambas as famílias foram os únicos. Todos os meus tios saíram de Portugal. Os mais velhos, primeiro, para o Brasil. Os outros depois para Moçambique. Estes últimos “vieram com o Rui”. Eu era demasiado pequena para compreender a revolta, a tristeza, a estranheza perante uma terra que alguns tinham deixado jurando que a ela só voltariam quando pudessem enfrentá-la com a certeza de que ela já não voltaria a rir-se deles; e que os mais novos só conheciam de fotografias. Mas não era assim tão pequena que não me tivesse ficado na memória aquele quarto de pensão em Setúbal onde as camas estavam a um palmo do fogão. Era ali que os meus primos mudavam as fraldas às bebés nascidas havia apenas alguns meses. E era ali, certamente, que eles recordavam a vida que deixaram para trás. Este livro fez-me compreendê-los melhor. 

Há dois retornos presentes nesta obra: a vinda para Portugal dos que residiam nestes territórios que passaram a constituir países independentes; e a tomada de consciência de que o sonho que se tinha ficou pelo caminho e que se está preso a uma realidade que se conhece mal mas que é preciso absorver para que se possa renascer para uma nova vida. Muitos dos que retornaram terão feito os dois. Outros terão ficado pelo retorno físico. A nenhuns a história do Rui será estranha. E nem aos que não viveram este retorno mas que sabem que a vida também se desenha em círculos e não apenas em linhas rectas.

 

E tu, Ana Margarida, queres falar-nos do livro que andas a ler?

O que ando a ler (15)


Ana Cláudia Vicente,

… Adolfo, é, por coincidência, uma biografia também. E devo dizer que não foi a clássica imprecação feita título, depois de arremessada pelo biografado em modo de resposta final na entrevista à Revista Ler, em 1995, que me fez poisar por uns dias o Nemésio com que me tenho andado a entreter. Foi um excerto do Diário de 1982 citado na dobra da capa, no qual Luiz Pacheco, escritor, crítico, polemista, malandrista e outras coisas mais, evoca o período de ‘vida louca de Massamá‘, o qual inclui certa peregrinação em pijama e casaco até Lisboa, a 25 de Abril de 1974. 

[Foto: JL, in JRF]

Porque enfim, como pode uma moderadamente pacata mactamense viver sem perceber em que consistiu a vida louca de um dos seus mais ilustres  vizinhos? Não pode: a solução é fruir da resposta serzida, entre outras, pelo autor que em tempos também brincou aos blogues, de seu nome João Pedro George. Pelo que já li – e ainda estou a chegar a meio – a obra tem disto e muito mais, em modo vivo e limpo de dizer. 

 

[Nota: Ficaram curiosos? A Tinta-da-China disponibiliza algumas páginas para degustação.]

 

Mas então e tu, Ana Lima, o que andas por estes dias a ler? Conta, conta!

O que ando a ler (14)


Adolfo Mesquita Nunes,

Quando a Teresa me reencaminhou o desafio de revelar o que ando a ler pensei imediatamente em mentir. Não por vergonha mas tão simplesmente porque a revelação não só desviará a atenção para a política como me afastará do meu género de eleição, que é a ficção.

Ponderei por isso em falar da Flannery, que me enche as medidas, ou da Agustina, que merece que se fale dela. Uma e outra poderiam dar bem conta do que me apaixona na leitura. Mas tenho a leve sensação de que a Flannery não gostaria que mentisse, ainda que a Agustina, aposto, se divertisse com a coisa. Para não deixar uma vencer sobre a outra, optei pela verdade. Se não ficam a conhecer os meus gostos literários, ficam com certeza a conhecer os meus gostos políticos (venham de lá as pedras).

O que estou a ler é isto:

 

 

Não é possível descrever esta obra sem falar de Thatcher, a líder política que mais inspira, talvez porque se tenha inspirado, como eu, nas ideias de Hayek. E falar de Thatcher afasta-me um pouco dos meus propósitos neste blogue e, parece-me, da intenção desta série de posts. Sobretudo porque, apesar da recente reabilitação dos seus discursos e ideias, gostar de Thatcher ainda requer muitas explicações e gera alguma controvérsia. Ela não beneficiou nunca de uma complacência que se tem por quem vem de outros quadrantes políticos em que a bondade e a sensibilidade social são pressupostas e não têm de ser demonstradas. Mas isso é toda uma outra discussão que fica para outros plenários. Para quem a quiser conhecer melhor, antecipando o filme que aí vem, é uma boa proposta de leitura.

 

E tu, Ana Cláudia, o que andas a ler?

O que ando a ler (13)


Teresa Ribeiro,

 

O que ando a ler? Bem, para não fugir à verdade tenho de responder que ando agora a ler um misógino nojento, que chegou ao cúmulo de esfaquear em público uma das suas seis mulheres. Pior que ele só mesmo o Barba Azul. Machista assumido, insuportável fanfarrão, Norman Mailer, o escritor que tenho agora à cabeceira, podia ter um péssimo carácter, mas escrevia como poucos. Dele já tinha lido O Sonho Americano (1965) e Os Duros Não Dançam (1984). Gostei dos dois romances. Da crueza do estilo, da atenção aos detalhes quando se trata de descrever a natureza humana, em que ele obviamente não acredita. Já lhe chamaram, num tom tão ácido e cínico que só poderia ser inspirado no seu, “metafísico das entranhas”. Ignorem o “metafísico”, que foi acrescentado às “entranhas” por blague, quanto ao resto não há exagero. Mailer vai ao fundo, mas como faz o culto exacerbado do macho man style e gosta de se identificar com os estereotipos, esforça-se também por ser bruto a escrever. Usa vocábulos duros, calão, vernáculo. Descreve as suas personagens masculinas com termos apropriados para um “gajo”, tanto para o que descreve como para o que é descrito (queixo forte, mãos firmes, mandíbula longa, expressão de desprezo) e de sexo fala assumindo o mais despudorado sexismo. Mais um pouco e esse estilo tornar-se-ia caricatural. Mas estamos a falar de uma bomba que tem tanto de adrenalina como de talento, por isso o instinto preservou-o de derivas de mau gosto.

Ler Mailer é uma experiência forte. Envolve-me e ao mesmo tempo alimenta o meu voyeurismo feminino, ajudando-me a ver o mundo pelas lentes embaciadas da testosterona. Se gostei daqueles dois romances seria imperioso mais tarde ou mais cedo ler a sua masterpiece, Os Nus e os Mortos. Chegaram a compará-lo à Guerra e Paz, quando em 1948 foi editado nos Estados Unidos. Foi a estreia literária de Mailer, tinha então apenas 25 anos. Não admira que se tenha tornado no ser insuportável que o mundo conheceu. O sucesso precoce e instantâneo, como se sabe, faz mal à saúde.

Ainda nem cheguei a meio deste romance de 700 páginas mas já estou em condições de dizer que é, sem dúvida, um dos mais bem escritos e apaixonantes que já ali. Baseado na experiência de guerra do autor, que se alistou durante a Segunda Guerra Mundial e serviu nas Filipinas e no Japão, descreve as provações por que passa um grupo de soldados norte-americanos durante a invasão de uma ilha do Pacífico Sul ocupada pelos japoneses.

Narrada num estilo muito cinematográfico, esta obra, que não por acaso veio a ser adaptada para o cinema dez anos depois, descreve o horror da guerra à escala humana: “Red estava a pensar mais uma vez nos cadáveres da clareira. Sentia uma estranha fascinação ao lembrar-se da sua aparência. Uma vaga de medo penetrou no torvelinho do seu cérebro e olhou por cima do ombro, para trás de si“; “As vozes e os comandos ecoavam no vazio, perdiam-se num coro de obscenidades e roucos murmúrios, os sons esforçados e suados de homens que labutam. Ao fim duma hora nada mais existia para eles senão o pequeno canhão que tinham de puxar ao longo do trilho“.

Em Os Nus e os Mortos todos os personagens têm uma biografia através da qual percebemos de que mescla de americanos são feitos os EUA, mas sendo todos homens, apesar das suas diferenças partilham com raras excepções a doença do autor, o homem que dizia que “uma mulher só se conhece verdadeiramente em tribunal”: “Há só dois ingredientes para fazer uma boa festa: bebida suficiente e algumas fêmeas condescendentes” (Conn); “Eu não vou lá muito com mulheres. O que elas querem é apanhar-te, tenho visto exemplos que cheguem” (Red), “Não há uma única mulher que mereça confiança” (Brown) “Estou bem contente de não ter de me preocupar acerca de uma dessas cadelas me fazer cornudo” (Polack), “A verdade é, Robert, que a minha mulher é uma cadela” (Cummings). And so on…

Enfim, é por estas e por outras que se diz que todo o romance é autobiográfico.

 

Norman Mailer, Os Nus e os Mortos. Tradução de António Neves-Pedro. Portugália Editora (1957). 705 páginas.

 

E tu, Adolfo, o que andas a ler?

Ando a (re)ler a Criação do Mundo, de Miguel Torga (12)


Rui Rocha,

António José Faria de Barros foi o meu primeiro chefe. Transmontano, sisudo, teimoso, frio, áspero. Ou… nada disso. Antes de mais, um ser humano marcado pela vida. A mulher morreu prematuramente. Os dois filhos, deficientes profundos, sobreviveram um par de anos à mãe. Ao longo dos cinco anos em que trabalhámos juntos, os seus olhos só se iluminavam quando, depois de um dia de trabalho duro, contava algumas histórias de caça. Foi assim, pelos relatos de interposta pessoa, que conheci Adolfo Rocha. Eram amigos de longa data e caçavam juntos. As peripécias eram saborosas e bem contadas. Por vezes, imaginava-me com eles a comer achigãs na Foz do Sabor. Ou a caminhar ao seu lado, com os pés enterrados nas lamas transmontanas de Novembro. Um dia, disse-me: sabe, a minha mulher detestava o Torga… Mantive-me em silêncio, dando-lhe tempo para esconder o rosto atrás do monitor, enquanto uma lágrima de saudade lhe desfigurava a máscara gelada com que sempre se apresentava ao mundo. Pelo visto, em determinada altura, Torga teria tido um comentário mais frio sobre os filhos deficientes do casal: não podem viver só para eles. Nada de ofensivo ou brutal. Algo até muito natural para os ouvidos de qualquer outro interlocutor. Um punhal para o coração daquela mãe. E o Senhor Dr. como reagiu, perguntei-lhe. Sabe, eu li a Criação do Mundo, pisei com ele as pedras dos caminhos de São Martinho de Anta, estive com ele no sítio onde ele tratava do estrume enquanto os outros miúdos brincavam… por isso, percebo. Da obra de Torga, até então, tinha apenas suportado Os Bichos no ensino secundário. Por obrigação e com muito pouco entusiasmo e menos proveito. O tempo foi passando, mas aquela frase ficou: eu li a Criação do Mundo. A curiosidade foi crescendo e acabei por comprar o livro. Comecei a ler sem grande esperança ou entusiasmo. A memória do Corvo Vicente ainda estava demasiado presente… Depois, o assombro foi crescendo. Em termos estruturais, o livro divide-se em 6 partes, correspondendo cada uma delas a uma fase da vida de Torga. As duas primeiras (a infância em Trás-os-Montes e a adolescência e parte da juventude no Brasil) são relatadas em páginas que me marcaram como poucos livros o fizeram. É claro que, mais para a frente, perdi a magia. Digo que a perdi eu e não o livro porque é provável que seja assim. Se bem me lembro, desliguei-me do texto a partir do momento em que Torga descreve uma viagem em automóvel, por paragens de Espanha, e cai no auto-elogio. Agora, estou a relê-lo. É uma forma de recordar António José Faria de Barros e de agradecer tantos ensinamentos que não soube retribuir-lhe, sequer em palavras, em vida. De dizer-lhe que também eu percebo tudo, todos e nada ou nenhum deles. E, sobretudo, de tentar refazer a leitura a partir do episódio de Espanha. Se tiver a sorte de reaver a magia, direi que a Criação do Mundo é, no seu todo, um livro inesquecível.

 

Como deve ser, o melhor fica para o fim: em breve, a Teresa Ribeiro vai dar continuidade à série.

Ando a ler uma fascinante digressão pela vida política de Kennedy (11)


Pedro Correia,

 

“UM PERÍODO QUASE IDÍLICO” DE PAZ E PROSPERIDADE

 

A frase que mais contribuiu para imortalizar John Fitzgerald Kennedy no decurso dos mil dias do seu mandato na Casa Branca não foi pronunciada em inglês, mas em alemão. Ao declarar-se cidadão de Berlim no local mais emblemático da Guerra Fria, por onde passava a última fronteira do mundo livre, o 35º presidente dos Estados Unidos atingia um patamar inédito de popularidade. Ninguém imaginava, nesse dia 26 de Junho de 1963, que o seu mandato terminaria menos de cinco meses depois, ao fim de uma manhã de sol outonal em Dallas.

Muita gente ignora que essa frase não constava da versão original do seu discurso. Foi o próprio Kennedy que decidiu pronunciá-la enquanto a viatura que o conduzia nas avenidas de Berlim era saudada por multidões entusiásticas vitoriando o seu nome. Fora-lhe sugerida pelo principal conselheiro do presidente — o seu irmão Robert Kennedy, na altura procurador-geral dos EUA.

“Há dois mil anos a afirmação mais orgulhosa era Civis Romanus suma. Hoje, no mundo da liberdade, a afirmação mais orgulhosa é Ich bin ein Berliner“, declarou o líder norte-americano nas imediações do Muro da Vergonha erigido apenas dois anos antes pelos soviéticos na cidade dividida.

A génese desta frase ilustra bem a forma de trabalhar de Kennedy, um homem que gostava de funcionar em equipa e absorvia com rara intuição as melhores sugestões da sua competentíssima equipa de conselheiros. Três deles, curiosamente, oriundos das fileiras do Partido Republicano — o secretário da Defesa, Robert McNamara, o secretário do Tesouro, C. Douglas Dillon, e o conselheiro da Segurança Nacional, McGeorge Bundy. O facto de serem simpatizantes do partido rival — e um deles, Dillon, ter chegado a integrar a anterior administração Eisenhower e a contribuir com 26 mil dólares para a campanha presidencial de Richard Nixon — não os impediu de atingir o primeiro plano no Executivo democrata, prova evidente do rasgo político de Kennedy. Ao ser convidado para liderar o Pentágono, McNamara reagiu com surpresa, dizendo que não tinha experiência governativa. “Também não há escola para presidentes. Aprenderemos juntos”, respondeu-lhe o inquilino da Casa Branca.

 

A Liderança segundo John F. Kennedy, um livro do jornalista e colunista John A. Barnes, conduz-nos aos bastidores da vida política do mais popular presidente dos EUA no século XX que atingiu uma extraordinária taxa de aprovação — 83% — e à data da sua morte, segundo a Gallup, era aplaudido por 70% dos americanos.

Oriundo de uma família milionária de Boston, herói da II Guerra Mundial, congressista e depois senador pelo Massachusetts, galardoado com o Prémio Pulitzer pelo seu livro Retratos de Coragem (com uma tardia mas notável tradução portuguesa a cargo do nosso José Gomes André) e o mais jovem presidente eleito desde sempre pelo Partido Democrata, em Novembro de 1960, Kennedy tinha uma sólida cultura e um dos mais fascinantes percursos biográficos de que há memória entre os inquilinos da Casa Branca. Filho do embaixador americano em Londres, Joseph Patrick Kennedy, tinha 22 anos quando assistiu à declaração de guerra britânica à Alemanha, na manhã de 3 de Setembro de 1939, na galeria dos visitantes da Câmara dos Comuns. Um episódio que nunca mais esqueceu.

Barnes deixa bem claro nesta obra, imprescindível para todos quantos se interessam pelo processo de formação das decisões políticas: Kennedy foi um precursor em vários domínios. Estava 20 anos à frente da maioria dos políticos do seu tempo. Foi ele que pela primeira vez compreendeu a importância da televisão — ao ponto de se ter inscrito em 1959 num curso da CBS destinado a dominar as técnicas televisivas. Foi também o primeiro presidente a conceder conferências de imprensa regulares na Casa Branca e a responder em directo aos repórteres da TV. Deu um toque majestático à presidência com os banquetes de Estado aos visitantes, inspirado na recepção de que foi alvo no Palácio de Buckingham em Junho de 1961. Baptizou o avião presidencial — um Boeing 707 — com o nome Air Force One, “para que descesse dos céus como símbolo do próprio poder presidencial”. Transformou os assessores da Casa Branca em decisores políticos, instituindo o cargo de conselheiro da Segurança Nacional, mais importante do que muitos postos no Governo.

Onde outros viam problemas, ele via oportunidades. “Ele adorava ser presidente”, lembrou o historiador Arthur Schlesinger, que também integrou  a administração Kennedy, como biógrafo oficial, apontando desta forma um dos ingredientes do sucesso deste mandato.

 

Ficaram para a história muitas frases que Kennedy proferiu nos seus discursos. Eis algumas: “Não perguntem ao vosso país o que poderá fazer por vós, perguntem a vós próprios o que podereis fazer pelo vosso país”; “Se uma sociedade livre não consegue ajudar os seus inúmeros pobres não conseguirá salvar os seus raros ricos”; “Nunca negociemos por medo — mas nunca tenhamos medo de negociar”; “A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã”; “Decidimos ir à Lua nesta década não porque seja fácil mas porque é difícil”; “A corrida ao armamento deve ser extinta antes que nos extinga a nós”; “Apoiamos qualquer amigo e enfrentamos qualquer inimigo para assegurar a sobrevivência e o êxito da liberdade”; “Não procuremos a resposta republicana ou a resposta democrata, mas a resposta certa”.

Hoje olhamos para a presidência Kennedy e parece-nos, como acentua Barnes, “um período quase idílico” de paz e prosperidade. É sempre assim: só a passagem do tempo presta verdadeira justiça aos políticos, separando os estadistas dos restantes. Kennedy foi um estadista: já ninguém duvida disso.

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Nota final: não falta quem se queixe dos preços dos livros. Depende. Comprei este há poucas semanas, na Livraria Barata — uma das mais prestigiadas de Lisboa. Estava num recanto destinado a títulos considerados “fundo de armazém”. Custou-me apenas quatro euros. É fundamental saber procurar.

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John A. Barnes, A Liderança segundo John F. Kennedy. Tradução de Paulo Tiago Bento. Casa das Letras (2008). 278 páginas.

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E agora passo a bola — ou melhor, passo o livro — ao Rui Rocha.

O que ando a ler (10)


Patrícia Reis,

 

Tatiana Salem Levy é uma jovem autora brasileira, nasceu em 1979. Li o primeiro romance – A chave de casa – e agora estou a terminar este: Dois Rios. É uma leitura sincopada, como uma música quase repetitiva (no melhor dos sentidos), com um ritmo muito bom e extremamente bem escrita. Relata o encontro de Joana com Marie-Ange, uma brasileira a viver com a mãe, uma francesa de visita ao Rio de Janeiro. Uma das raridades da literatura, diria, é conseguir encontrar uma voz que se possa distinguir das demais. Tatiana Salem Levy consegue isso com uma escrita singular, envolvendo-nos numa história de amor, de culpa, de alguma loucura, de segredos, encontros e desencontros. O livro não está ainda editado em Portugal, a edição brasileira é da responsabilidade da Record. Deixo-vos o video para que possam ouvir e ver a autora.

 

O segundo livro que estou a ler (sou incapaz de ler apenas um livro, desculpem lá) é a biografia de Lúcio Feteira escrita pelo jornalista da Visão Miguel Carvalho. O Miguel é meu amigo, logo seria injusto não ser honesta convosco: gosto muito dele, gosto muito do que escreve e sigo o blog dele todos os dias (A Devida Comédia) que aconselho vivamente. A história deste livro é a história da vida de um homem sobre quem temos ouvido falar a propósito de uma herança, de uma morte, de suspeitas e outras coisas. O que me importa a mim este livro, além de ter sido escrito por um amigo? O que me importa é este gosto especial que tenho pelas biografias, aprendemos muito a ler sobre a vida dos outros. A última biografia que li e recomendo, antes desta, foi a de Clarice Lispector por Benjamin Moser, um trabalho notável. Aqui, no caso de Lúcio Feteira, vamos percorrendo a história e a vida de um homem a quem chamaram louco, génio, visionário. Miguel Carvalho levanta várias questões e a forma como escreve e nos relata quem foi Lúcio Feteira é fruto de uma pesquisa e investigação séria e, claramente, exaustiva. Ainda não terminei, mas estou a gostar. 

 

 

Passo a palavra ao Pedro Correia! Boas leituras.

Estou a ler a biografia de Estaline de Jean-Jacques Marie (9)


Luís Menezes Leitão,

 

Gosto de ler biografias de personagens históricas. A História que aprendi no Liceu baseava-se na escola dos Annales,  consistente apenas no estudo da evolução económica, deixando completamente de fora as pessoas, e portanto a vida. As biografias permitem suprir essa lacuna, transmitindo-nos a vida das pessoas que modificaram a história do mundo.

 

Kissinger disse que a capacidade de Estaline nas relações internacionais justificava que ele fosse qualificado como o Cardeal Richelieu do séc. XX. O livro não transmite essa impressão. Revela-nos um homem fraco, desconfiado, e muito preocupado com a sua imagem. Era extraordinariamente baixo, ao contrário do que as fotografias sistematicamente sugerem. Mas era um homem absolutamente implacável, até nas relações familiares. A sua mulher suicidou-se, o que ele considerou como um ataque pessoal. O seu filho foi soldado no exército russo, tendo sido capturado pelos alemães. Quando estes lhe propuseram trocá-lo pelo Marechal Von Paulus, preso em Estalinegrado, Estaline respondeu que nunca trocaria um marechal por um simples soldado.

 

O período mais interessante do livro é o da II Guerra Mundial. Revela os inúmeros erros que foram cometidos por Estaline nesse período, que quase levaram a União Soviética a perder a guerra. Mas revela também que foi a sua implacável determinação, que chegava ao ponto de eliminar os subordinados que lhe desobedeciam, que no fim permitiu a vitória. Repare-se neste diálogo a pp. 513 entre Estaline e as suas tropas:

“Em meados de Outubro, o comissário político Stepanov, do Estado-Maior da Frente Oeste estacionada em Perkhuchovo, nos arredores de Moscovo, telefona ao GQG. Informa Estaline que o Estado-Maior propõe instalar-se mais a leste, em Arzamas, e o posto do comando mais perto da capital. Depois de um longo silêncio, Estaline declara: <<Camarada Stepanov, pergunte aos camaradas se têm pás.>> Stepanov não compreende. Estaline repete: <<Será que os camaradas têm aí pás?>>. Stepanov interroga os membros do Estado-Maior, depois inquire: <<Pás de sapador ou pás normais? – Tanto faz>>, responde Estaline. Stepanov, todo contente, informa-o de que dispõem de pás e pergunta-lhe o que é que deverão fazer com elas. A resposta de Estaline cai como um cutelo: <<Aconselhe os seus camaradas a pegarem nas pás e escavarem os seus próprios túmulos. Não abandonaremos Moscovo, o GQG ficará em Moscovo, e quanto a eles, não abandonarão Perkhuchovo>>”.  

 

E agora chegou a vez de outro membro deste blogue: que livro andará Patrícia Reis a ler?

Estou (ou melhor, estava) a ler “The Sense on an Ending” (8).


vidabreve,

 

Estava, digo bem, porque perdi o maldito livro hoje mesmo.

 

Ao sair para tomar café e levantar dinheiro no multibanco e visitar uma loja de electrodomésticos onde há umas merdas a bom preço (sou um Scrooge no que toca a electrodomésticos e detergentes, ao contrário da minha mulher-a-dias que é a raínha de Sabá, a Ivana Trump dos limpa-vidros) de repente olhei para as mãos — e tungas, estavam vazias. Regresso à loja de electrodomésticos, ao multibanco e ao café, entrei por desfastio numa frutaria, numa loja de candeeiros e no Celeiro, quase comprei uma barra energética com sementes de sésamo e alfafa, e telefonei para a minha namorada a choramingar. Ela é uma santa, mas mais gira, disse-me deixa lá querido, oh que azar, coitadinho, não penses nisso.

 

E eu pensei: Está bem, abelha.

 

Mal entrei em casa encomendei outro. Para poupar portes de envio mandei vir também este, este, este e este. Como precisava de um miminho, e ainda ontem fiz anos, julguei que não era mal nenhum acrescentar este. E já agora este. Ou seja, fiz um excelente negócio em portes e dei um bom uso aos meus euros, que agora estão a salvo em Inglaterra. 

 

O livro é muito bom — sei disso porque já ia na página 23. Tem a palavra o Luis Menezes Leitão. 

Estou a ler “Meine russischen Nachbarn” (7)


cronicasnofeminino,

O penúltimo dia de Agosto brindou-me com chuva. Pela janela um dia cinzento. A cidade meio pálida e precocemente escura. Largo as malas e faço o que mais gosto: passear, ver, deambular com a ligeireza de quem nada tem para fazer se não deixar-se ir por entre a multidão e sentir, respirar, ver.

Subo a rua. O passo mais rápido pela chuva insistente na cidade que me surpreende sempre e nunca se esgota em cada visita. E entro na livraria. Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro. Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.

Meine russichen Nachbarn, os meus vizinhos russos, conta a história de dois russos, Andrej e Sergej que convenientemente ocupam o andar por cima do de Wladimir Kaminer, lá na Schönhauser Allee, algures em Prenzlauer Berg, uma zona emergente de Berlim a viver os seus melhores dias depois da Queda do Muro em Novembro de 1989. Andrej e Sergej encetam uma nova vida nesta nova Europa que se quer livre e democrática derrubados os muros físicos que a cortavam em duas, os de lá e os de cá, Ossis e Wessis. Rondando os trinta anos, Andrej de Leningrado, hoje São Petersburgo, e Sergej da Bielorússia provocam uma pequena revolução na vida aparentemente pacata dos habitantes do prédio de Schönhauser Alle. A porteira não gosta, os vizinhos reclamam do trompete logo pela manhã. Andrej luta com a língua alemã e apaixona-se pela professora enquanto Sergej assina exemplares d’O Capital de Karl Marx que venderá no e-bay como relíquias do grande filósofo e ideólogo. As aventuras sucedem-se.

E ambos teriam tido uma vida anónima e tranquila, caso tivessem escolhido um outro local para viver. É que Kaminer é um observador atento da realidade, um crítico mordaz das várias vidas que já teve e escritor implacável a quem as aventuras acontecem sempre e de forma renovada. Não poderia desperdiçar esta oportunidade e fixa-os a uma narrativa de leitura muito fácil sem artifícios ou malabarismos estilísticos e despojadamente cativante. Na vida destes dois russos vemos desfilar a União Soviética a que Kaminer disse adeus em 1990 para abraçar Berlim como sua nova pátria, as cidades também são pátria. E as histórias entrelaçam-se. E os tempos. Há a União Soviética com as suas características peculiares, os russos que não riem e Kaminer explica porquê, os moscovitas, reconhecidamente rudes nos modos e a Rússia actual de novos-ricos. E há a Alemanha e Berlim, a vida na cidade, ressentimentos e singularidades. Muito portanto num pequeno livro de 222 páginas em tom humorístico e divertido.

A leitura implica um tu com que se possam trocar impressões, um interlocutor que se possa rir connosco ou opor-se ao que bebemos nos livros, um duelo de palavras e ideias. Para minha grande pena só dois livros de Kaminer estão traduzidos em Português O panorama literário alemão virou uma página acompanhando os ventos de mudança na Alemanha e na Europa. Wladimir Kaminer é um dos mais lidos escritores de língua alemã, por cá quase um desconhecido. Para quando mais um Kaminer em português, senhores editores? Até lá deixo-vos com uma pequena amostra: “Um professor esforça-se por explicar a um pioneiro o que é o comunismo numa linguagem acessível. ‘O comunismo é’, diz ele, ‘quando tens de comer morangos com natas todos os dias ao pequeno-almoço’. ‘Mas eu não gosto de morangos com natas’ responde o pioneiro. ‘Não interessa’, esclarece o professor, ‘vais comê-los na mesma, quer gostes quer não’.”

 


É isto que acabei de ler, Laura. Passo o testemunho ao Luis M. Jorge. O que estás a ler, Luís?  

Estou a ler “A Confraria do Vinho” (6)


lauraramos,

‘La lumière ne se fait que sur les tombes’, dizia Leo Ferré. Esta verdade irritava-me e citei a frase muitas vezes para me insurgir contra a ideia de predestinação dos grandes artistas à injustiça do anonimato e à implacabilidade da dura sobrevivência. Não tinha de ser assim, uma sociedade culta devia saber reconhecê-los em vida e obrigar-se a dar a cada dom sublime o seu merecido mecenas. Avec le temps, aprendi com Ferré que, de facto, para esses poucos a vida é quase sempre um gosto e seis vinténs. Mas nem por isso deixei de sentir uma emoção acrescida perante um talento que se tenha encarniçado contra as marés da sorte e sobrevivido à indiferença dos seus contemporâneos.

John Fante foi isso mesmo: um escritor americano filho de italianos pobres imigrados no Colorado, cujo pai assentava tijolos com brios de escultor e vivia entregue à bebedeira constante, às permanentes infidelidades à mulher e ao quase desprezo pelos filhos, numa espiral autoritária e primitiva que marcou o escritor para sempre.

A Confraria do Vinho é assumidamente autobiográfico e um dos últimos livros publicados por este ‘Hemingway italo-americano’, como lhe chamaram, girando em torno dos derradeiros dias do pai, quando o escritor, já casado e a viver em Malibu, regressa penosamente à casa da família perto de Sacramento e à vida entre os paisani, dominados pela idolatria às vinhas de Musso, afogados em chianti (o leite das suas segundas infâncias), eternos malandros deambulando pelas tascas à espera de se atirarem a qualquer rabo de saias.

O livro tem momentos de humor inesquecíveis, perpassados de uma sensibilidade extrema, ainda que esta se revele – nas palavras do narrador, Henry Molise – através de uma escrita que, sendo vigorosa e directa, varia entre os timbres opostos da crueza distante e do afecto profundo, à medida que se embrenha pelas descrições da vida em San Elmo, a terra onde nasce e de onde parte o mais cedo que pode, absolutamente determinado a entregar-se à paixão da escrita (uma obsessão que o consome depois de conhecer autores como Dostoyevsky, Steinbeck, Jack London, Fitzgerald, Wolfe e Chandler).

Fante até isso revive: os tempos em que, entregue a si próprio, longe do gueto italiano, é mais um homeless que desce ao fundo dos horrores da privação. Procura trabalho desesperadamente, não tem dinheiro e chega a dormir debaixo das pontes como um clochard. E quando consegue a estabilidade mínima (um quarto, uma cama, uma máquina de escrever) começa a produzir contos e histórias soltas para vários jornais e revistas, como o Evening Post, a Harper’s e a Esquire, mas é a debilidade económica que o leva a tomar em definitivo o ofício de argumentista de Hollywood, actividade pelo que ficará sobretudo conhecido. Com uma produção muito irregular, e apesar de publicar obras de grande envergadura, John Fante jamais conseguirá o estatuto de verdadeiro escritor. Será só em 1980, três anos antes da sua morte, que o poeta Buchovsky consegue, num ultimatum à sua editora, que a principal obra do escritor (Ask the Dust) seja reeditada, provocando um revivalismo da produção de Fante que o devolve à sua justa dimensão, mais de 40 anos depois da sua primeira publicação.

 

FANTE, John
‘A Confraria do Vinho’                          

(The brotherhood of the grape)  
tradução de Luís Ruivo

editorial Teorema, 2007

colecção “outras estórias“

capa: Fernando Mateus

isbn 978-972-695-723-2

Passo agora a palavra à Leonor: – O que estás a ler quando não escreves?

Estou a ler… alcoviteirices (5)


jmmcc,

 

Se fosse há ainda não muito tempo, teria de dizer-vos que estava a ler o “Manual de Acolhimento do Centro Hospitalar de Gaia”, vejam só. Afastada esta que mais parece uma nota de humor negro, tenho de confessar que estou a ler (imaginem) Amantes dos Reis de Portugal, um livro de segredinhos e mexericos históricos de alcova que tive de interromper há já vários meses e em que repeguei agora.

Não, não posso cair na tentação alcoviteira de agitar camas e reposteiros, sedas e damascos, linhos e estopas; tão-pouco devo deixar que se escapem alfazemas e suores ou outros aromas e odores. Não posso, porque seria injusto. O trabalho de quase 400 páginas é sério na pesquisa profunda e no modo fundamentado como expõe as histórias da História que são propostas: «o “estatuto” das amantes dos Reis de Portugal», entre «o proibido e o legitimado».

 

Dir-se-ia que um tema destes só poderia ser escrito por mulheres, certo? Deixo isso aqui à vossa consideração. Ora vejam só: uma Professora Auxiliar do Departamento de História, uma licenciada em História e Mestre em História Moderna e uma doutorada, as três da (ou pela) Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, co-autoras deste livro.

Com elas, percorremos a Dinastia Afonsina, recuada ao nascimento do Reino e à relação de D. Henrique e D. Teresa, a Dinastia de Avis, que arranca com um bastardo feito rei, a Dinastia Filipina, em que só o do meio é fiel à sua rainha, e a Dinastia de Bragança, o longo período de um regime que caminha para uma agonia cheia de pecados que ainda hoje desafiam os nossos sentidos.

 

Narrativas que devassam a vida na Corte em séculos de Monarquia, através de passos disfarçados e de olhares fugidios, carregados de culpa? Intromissão concupiscente e lânguida em camarins e docéis, antecâmaras e quartos, corredores escuros e lugares esconsos da Casa Real? Nada disso: «este não é um livro de história frívola, anedótica e muito menos voluptuosa que pretenda estudar um tema tão apelativo, mas nem por isso menos complexo», conforme garantem as autoras.

Nos matrimónios de Estado e na sucessão dinástica, não raro «os afectos secundarizavam-se face às estratégias políticas régias». Procriar, assegurar o nascimento de um varão e ultrapassar as eventuais frustrações dos soberanos (das rainhas, em especial) nesse capítulo essencial justificavam um padrão comportamental que colocava a política em primeiro lugar (ou nela se escudava para cobrir ilicitudes), em amplos períodos da História de antanho. Já noutros períodos mais chegados, com princípios morais menos elásticos e políticas mais adaptadas à realidade para que a continuidade da nação não fosse posta em perigo, passaram a considerar-se bem menos recomendáveis os devaneios incontidos do poder.

 

«Por detrás da história oficial dos reis portugueses e dos seus casamentos de Estado com princesas de toda a Europa, esconde-se uma história de paixões arrebatadoras, filhos ilegítimos e amores ilícitos que nunca foi contada.

Damas da rainha, prostitutas, barregãs, negras, escravas, cantoras líricas, atrizes, mulheres do povo ou senhoras da alta burguesia, todas competiam pela atenção e pelos favores do rei.»

Escrito por historiadoras, tem o mérito de integrar a historiografia portuguesa sem discussões, numa abordagem inesperada e inédita. E nem sequer perde tempo a decidir se voluptuosidade se escreve com p ou sem p, ou se capela-mor é com hífen ou sem hífen, porque a escrita, essa, passa ao lado do “novo acordo ortográfico” sem pestanejar.

 

É a tua vez, Laura. Conta-nos lá o que andas a ler.

 

Amantes dos Reis de Portugal

Paula Lourenço (coord.), Ana Cristina Pereira e Joana Troni

Edição: A Esfera dos Livros

1.ª ed.: Novembro/2008

2.ª ed.: Dezembro/2008

3.ª ed.: Dezembro/2008

Imagem da capa: Geoffrey Clements – Corbis

ISBN 978-989-626-136-8