Estou a ler “As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse” (4)


eventhorizon,

 

Enfim, deixem-me agora dar continuidade à jogada que o passe de belo efeito e mestria técnica do José (o meu futebolês anda cada vez melhor) proporciona. E continuo com a confissão de uma falha: não estou a ler este livro. Na verdade, já o li há alguns dias, mas como a alternativa seria, uma vez mais, escrever sobre um livro de ficção científica, opto antes por a banda desenhada. Melhor ainda: para a banda desenhada em Português de Portugal (o bom e velho). Falo do álbum As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse, escrito por Filipe Melo, desenhado pelo argentino Juan Cavia e colorido pelo também argentino Santiago Villa. É a sequela a um álbum lançado em 2010 que conheceu um enorme sucesso (actualmente está esgotado): As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy. Em jeito de paródia à pulp fiction, ao cinema de terror, aos filmes de “série B” (e não só) e à cultura pop, a narrativa acompanha Eurico, um distribuidor de pizzas (no segundo volume trabalha num call center), João Vicente “Dog” Mendonça, detective do oculto, Pazuul, um demónio com seis milénios no corpo de uma miúda de seis anos, e a cabeça de uma gárgula – um grupo no mínimo estranho que, sem querer, vai salvar o mundo (três vezes em dois álbuns) na cidade de Lisboa. 

 

Invulgar? Sem dúvida. Junte-se a este improvável grupo de (anti)heróis as ilustrações soberbas de Cavia e Villa (basta ver a imagem da Ponte 25 de Abril sob o céu vermelho do Apocalipse – em baixo – ou as Torres das Amoreiras rodeadas por uma praga bíblica de gafanhotos) e a história atribulada, satírica e extremamente divertida de Filipe Melo para se chegar à conclusão de que esta obra é, de facto, única na BD portuguesa. E não só: a popularidade de Dog Mendonça e Pizzaboy já saiu do rectângulo, e os autores foram convidados a publicar alguns capítulos especials pela Dark Horse – a maior editora independente de banda desenhada norte-americana, com títulos consagrados como Sin City de Frank Miller. 

 

Já agora: o primeiro álbum contou com um prefácio de John Landis, realizador consagrado responsável, entre outras coisas, pelo filme de culto An American Werewolf in London e pelo mais famoso videoclip de todos os tempos: Thriller, de Michael Jackson. O segundo álbum, por seu lado, conta com prefácio de George Romero, que desde o clássico Night of the Living Dead dispensa quaisquer apresentações. 

 

Em resumo: para quem gosta de BD, é leitura mais do que recomendada. 

 

E a série continua com o João Carvalho.

 

 

 

As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse

Argumento: Filipe Melo

Ilustração: Juan Cavia

Cor: Santiago Villa

Tinta da China, 2011

Estou a ler “China: its History and Culture” (3)


José Maria Gui Pimentel,

 

Qualquer jogador de futebol sabe que não se deve desaproveitar uma bola passada sem querer, e por isso aproveito o esférico que o jaa me enviou, tabelando no José Gomes André.

 

Foi há pouco – muito pouco – tempo que assimilei por completo um facto de que me vinha apercebendo lentamente nos últimos anos, designadamente a dimensão da Civilização Chinesa, e o facto de esta ter sido, até aos Descobrimentos, não só garantidamente rival como, muito possivelmente, mesmo superior àquilo a que simplisticamente chamarei Civilização Ocidental. Por um lado – decerto – por culpa própria, por outro também devido a um sistema de ensino enviesado, o meu olhar perante a História foi sempre eurocêntrico (bem sei que este termo já é usado para outro fim). O Livro “China: its History and Culture”, de W. Scott Morton e Charlton M. Lewis (este último creditado apenas na 4ª edição, visto que escreveu essencialmente a parte de História contemporânea) é uma concisa e eficaz introdução à enorme História da China. Uma História que, embora não deixe de ser fragmentada, é bastante mais unida do que a nossa, em virtude de factores muito específicos: China throughout its history has been comparatively isolated owing to geographical barriers. The vast Pacific Ocean on the east, the impassable gorges of the Burma border and the inhospitable plateau of Tibet to the south and west, and the arid and sparsely populated lands of Central Asia and Mongolia to the northwest and north have caused China to have less than average contact with other major civilizations and to develop its own way of life in relative isolation (pp.5).


O livro tenta, até ver com algum sucesso, contar de um modo simultaneamente apelativo e organizado as várias componentes da História – política, religiosa, económica, social, cultural, artística, etc – realçando o facto de os períodos bons num determinado aspecto não o serem necessariamente noutras vertentes. As diferenças nos campos da Religião e da Arte são as mais evidentes, até porque, designadamente no primeiro caso, continuam a manifestar-se hoje em dia, quando a China é considerada por alguns inquéritos o país mais ateu do mundo, uma categorização que, aplicada àquela cultura, é claramente desadequada. In China there was no creation myth, no source of divine law outside nature. Nature thus partook of the divine, and moral law was securely fixed in human authority, as represented by the sage kings, the Zhou founders, and Confucius. Religion for the Chinese has a practical rather than a highly mystical concern; likewise, Chinese philosophy has to do primarily with ethics and conduct in actual life, and not to any great degree with abstract questions such as are dealt with in Western metaphysics. There are notable exceptions: Buddhism, coming from India, is both mystical and intellectually complex, while Daoism does deal with Being and Nonbeing. But the practical, this-worldly tendency is inherent in Chinese religion and philosophy and finds its fullest expression in the dominant school of Confucius (pp.32). Mais à frente, Morton destaca outro factor importante: the Chinese have never felt that to hold one belief it is necessary to exclude others (pp.65)


No campo da Arte, embora a pintura tenha, tal como no Ocidente, lugar de destaque, é na paisagem e não no retrato que esta atinge o seu expoente máximo, uma realidade a que não é estranha a referida ligação do Divino à natureza. Deste modo, while the eye of the Western artist takes in the scene from the level of the average man five or six feet above the ground, the Chinese artist works from a raised viewpoint, on a hillside opposite the scene, as it were, so that he is delivered from too much teasing detail in the foreground and can obtain an overview of the whole.


Ao nível da História política, mais do que as diferenças, são as semelhanças que impressionam face à Civilização ocidental, uma vez que até aos Descobrimentos (e, mesmo depois destes, até ao século XIX) não houve praticamente contacto entre os dois mundos. É especialmente curioso e, em certo sentido, desconcertante, o modo como duas grandes civilizações como a chinesa e a romana coexistiram sem praticamente qualquer contacto, porém, em ambos os casos, atingindo um desenvolvimento civilizacional espantoso. It is evident that the Chinese knew more about Rome than the Romans knew about China. The dynastic histories of the Later Han and subsequent shorter dynasties contain these statements in their summary accounts: The people of Ta Ts’in (Rome) have historians and interpreters for foreign languages as the Han have. The walls of their cities are built of stone. They cut their hair short, wear embroidered garments, and ride in very small chariots. Their rulers only govern for a short time and are chosen from among the most worthy men. When things go badly they are changed. [An anachronism at this point, referring to the consuls under the Republic—C.P.F.] The people of Ta Ts’in are big men. . . . They dress differently from the Chinese. Their country produces gold and silver, all kinds of precious goods, amber, glass and giant eggs (ostrich eggs). From China by way of An Hsi (Parthia) they obtain silk which they re-spin into fine gauze. (…) The Ta Ts’in are honest. Prices are fixed and grain is always cheap. The granaries and public treasury are always full. (…) The Ta Ts’in first sent envoys to us (in 166 a.d.).

 

Termino com uma pequena história, que nunca destacaria não fosse a sua inegável graça: A famous scholar at court, Dong Fangsuo, was more fortunate. He was discovered to have drunk a potion of an elixir of immortality prepared for the emperor. Wu Di (importante Imperador da dinastia Han: 156 AC-87 AC) was furious and ordered him to be killed, to which Dong Fangsuo, with admirable presence of mind, saved himself by replying, “If the elixir was genuine, your Majesty can do me no harm; if it was not, what harm have I done?


Morton, W. Scott and Lewis, Charlton M. – China: Its History and Culture, 4th ed (2004)

McGraw-Hill

 

E agora chuto a bola ao João Campos.

Estou a ler Uma Mentira Mil Vezes Repetida (2)


escafandro,

A Ivone passou-me a bola mas, na altura, eu nem me dei conta, o que suponho constituir prova suficiente de que o mecanismo de defesa que me permite não ver indicações cujo objectivo seja fazer-me trabalhar mais está a funcionar correctamente. (Nota: trata-se mesmo de não ver e não de fingir não ver, que isso seria batota.) Ainda assim, não escapei ao repto e, porque no ‘Delito’ o alfabeto começa onde um homem (ou, neste caso, uma mulher) quiser (para grande alívio do Adolfo, que já admitiu ter ficado farto de ser o primeiro a ser chamado na escola), cabe-me continuar a série de textos sobre os livros que cada um de nós anda a ler.

 

Ora bem, estou a ler pelo menos três mas dois de forma irregular: Os Crimes dos Viúvos Negros, de Isaac Asimov, livro que há uma semana e tal me fez passar uma vergonha na Fnac, e Mortes Imaginárias, de Michel Schneider. Sendo formados por textos curtos e independentes (contos no primeiro caso, ensaios no segundo), vou-lhes pegando quando acabo outras obras. Quanto ao terceiro livro, aquele que estou verdadeiramente a ler no momento, é Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo. Peguei-lhe na sexta-feira, cumprindo uma promessa feita dias antes a mim mesmo de que, acabado o livro que então estava a ler, a minha próxima leitura sairia de um montinho na minha mesa da sala com quatro obras recentes de autores portugueses contemporâneos: Uma Mentira Mil Vezes Repetida; O Retorno, de Dulce Maria Cardoso; Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho; e Por Este Mundo Acima, da minha colega delituosa Patrícia Reis (já agora, façam-me o favor de manter em segredo o facto de eu ainda não ter lido o livro dela, ok?). Por que escolhi a do Marmelo? Hmmm, querem mesmo saber? Os que responderam «não» façam o favor de se mudar imediatamente para o Arrastão ou para o Blasfémias. Os restantes merecem a verdade: tenho um fetiche por chapéus de coco desde os tempos em que Mr. Steed era tão cool usando um que conseguia ter Mrs. Peel como parceira (estranhamente, a minha relação com os guarda-chuvas é cem por cento impessoal ou até um pouco antagónica).

 

Mas basta de falar de mim. Do que trata Uma Mentira Mil Vezes Repetida, se é que a ficção trata alguma vez de alguma coisa? Tão simples que se conta numa frase: trata das histórias escritas por Marcos Sacatepequez, um autor do Belize que levou à falência todas as editoras que o publicaram e cujo corpo sem vida andou a passear pelo mundo em resultado de um conflito legal entre a viúva e o governo da Guatemala antes de desaparecer em parte incerta, e também de acontecimentos da vida de Albrecht, um marinheiro flamengo que se julga amaldiçoado depois de partilhar um navio com o cadáver de Sacatepequez, e ainda do facto de um e outro serem personagens de Cidade Conquistada, a monumental obra de Oscar Schidinski, um desconhecido escritor húngaro que em fuga ao nazismo terá passado por Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial antes de também ele desaparecer num navio efectuando a travessia do Atlântico (a menos que, como alvitra Afonso Cão, um mendigo de Gondomar que o conheceu em Lisboa, tenha ido para a Argentina e ficado famoso com o nome de Jorge Luis Borges), e ainda da circunstância de Cidade Conquistada e o seu autor serem afinal obra de um portuense que aproveita o tempo de que dispõe na sequência da generosa reforma por invalidez que, aos trinta e seis anos de idade, lhe foi atribuída em resultado de uma grave doença de pele causada pelo «implacável stresse do funcionalismo público» para se sentar nos transportes públicos agarrando um volumoso calhamaço de mil e duzentas páginas com o título Cidade Conquistada, que ele próprio encheu de textos avulsos retirados da internet (entre os quais um de Borges) e mandou depois encadernar, o qual lhe serve de pretexto para meter conversa com os outros passageiros, a quem conta episódios da vida de Schidinski e histórias de Sacatepequez (como a excelente O homem-zebra, pretensamente incluída em Cidade Conquistada e que abre Uma Mentira Mil Vezes Repetida), salientando quão injusto é um escritor de tal calibre permanecer desconhecido da maioria do público, tudo na esperança de, incapaz de escrever um livro de sucesso ele mesmo (apesar de algumas brilhantes ideias tidas no passado mas antecipadas por escritores como José Saramago e Almudena Grandes), acabar por se tornar num intelectual famoso, convidado para colóquios e programas televisivos como especialista maior num autor monumental e enigmático. (Ponto1: Eu não garanti que se explicava numa frase? Ponto 2: Não é curioso como essa frase, oficialmente a mais longa que alguma vez escrevi, parece acabar cedo demais? Uma pessoa começa a ler, activa o regulador de velocidade e depois está distraída quando é preciso travar…) Ah, só mais um pormenor: tudo isto (o portuense nos transportes públicos, o livro do autor húngaro e as personagens desse mesmo livro) é afinal obra de um portuense, Manuel Jorge Marmelo, que anda há meses a colocar no seu blogue crónicas de viagens de autocarro pela cidade do Porto.

 

Confusos? You won’t be, after this week’s episode of… Soap. (Credo, duas referências a séries televisivas de culto no mesmo post. Ainda bem que miúdos com menos de trinta anos não lêem textos deste tamanho ou entrariam em parafuso.) A verdade é que, lendo o livro, torna-se fácil distinguir os vários planos e isto constitui um elogio tanto à forma como ele se encontra estruturado como escrito. Uma Mentira Mil Vezes Repetida encaixa-se naquela corrente literária em que, por inserção de vários níveis de ficção, e pelo modo como esta se intercala com e sobrepõe à realidade (também ela parcial ou totalmente ficcionada), se questiona o papel da literatura na vida comum, e cujos expoentes máximos são gente como Jorge Luis Borges (obviamente, mencionado no livro de forma nada acidental), Italo Calvino, Enrique Vila-Matas e Roberto Bolaño. Terceiro livro de Manuel Jorge Marmelo que leio (após Os Fantasmas de Pessoa e As Sereias do Mindelo), Uma Mentira Mil Vezes Repetida ameaça ser o melhor. Porém, encontrando-me apenas a meio, não posso emitir um juízo concludente nem contar-vos como acaba. Posso apenas desejar que o narrador não se veja afectado pelo anunciado corte de linhas nos transportes públicos.

 

E agora cabe-me passar a vez. O que é que andas ler, José Gomes André? 

  

Marmelo, Manuel Jorge Uma Mentira Mil Vezes Repetida

Quetzal Editores (2011)

Col. Língua Comum

ISBN 9789725649725

(Nota: Apesar de ser uma edição da Quetzal, Uma Mentira Mil Vezes Repetida encontra-se em português.)

Estou a ler A Mecânica da Ficção (1)


convite,

 

Ontem, na caixa de comentários ao post que escrevi sobre releituras, resolvemos iniciar uma série nova no Delito: Estou a ler …

Mais me valia ter estado caladinha, em dieta de posts. Coube-me começar a série, que avançará por ordem alfabética. Um por dia.

Como lá disse, de momento releio A Mecânica da Ficçãode James Wood. Não me perguntem o porquê da releitura. Não sei.

Lembro-me de ter estado, há dias, a escrever num mail uma frase de Mau tempo no canal , “Margarida não ia triste nem alegre: ia embrulhada no casaco cinzento, de gola puxada para cima”, porque era uma excelente frase para ilustrar o que pretendia dizer, mudada a cor do casaco.

Que associação de ideias fiz, não vo-la sei contar, o certo é que, dali a instantes, estava sentada no sofá a beber chá dos Açores e a ler, a reler, A Mecânica da Ficção.

James Wood é um renomado crítico literário, com aversões e admirações como qualquer bom crítico que se preze e, actualmente, professor de Prática da Crítica Literária em Harvard.

Neste livro, conduz-nos ao longo de pequenos capítulos aforísticos entre metáforas e diálogos, como se de uma visita guiada se tratasse. Wood aponta, mostra, chama a atenção. De Iris Murdoch a Tolstói, de Saramago a Joyce, de Proust a Virginia Woolf, de Updike a Shakespeare, de Coetzee a Flaubert, está lá tudo. Quase tudo.

Eu que me prendo, às vezes, nos emaranhados gongóricos de algumas frases e estilos e, por muito que não queira, acabo sempre por voltar ao damasco ondulado de certas formas de dizer e de contar as coisas, não deixo, não quero deixar nunca, de me deslumbrar com a capacidade iluminadora de parágrafos como este:

 

Em Sea and Sardinia, Lawrence descreve as pernas curtas do rei Vítor Manuel; mas refere-se às “suas pequenas pernas curtas”. Tecnicamente, não há necessidade para “pequenas” e “curtas” na mesma frase. Se Lawrence fosse um estudante, o seu professor teria escrito “redundância” na margem da folha e riscado um dos adjectivos. Mas se repetirmos a frase em voz alta, o que é redundante passa a ser inevitável. A frase precisa das duas palavras, porque só as duas juntas produzem o efeito cómico. E “pequenas” não significa exactamente o mesmo que “curtas”: as duas desfrutam da companhia uma da outra; e “pequenas pernas curtas” é mais original que do “curtas pernas pequenas”, por ser mais eufónico, mais absurdo, forçando-nos a tropeçar ligeiramente – um tropeção de pernas curtas – no ritmo inesperado.

 

Estou sempre disposta a que me ensinem a ler melhor. Estou convicta de que ler melhor é viver melhor.

E agora passo ao jaa.

 

Wood, James A Mecânica da Ficção

Tradução de Rogério Casanova

Livros Quetzal (2010)

Col. Textos Breves

ISBN 9789725648551