Estou a ler a biografia de Estaline de Jean-Jacques Marie (9)


Luís Menezes Leitão,

 

Gosto de ler biografias de personagens históricas. A História que aprendi no Liceu baseava-se na escola dos Annales,  consistente apenas no estudo da evolução económica, deixando completamente de fora as pessoas, e portanto a vida. As biografias permitem suprir essa lacuna, transmitindo-nos a vida das pessoas que modificaram a história do mundo.

 

Kissinger disse que a capacidade de Estaline nas relações internacionais justificava que ele fosse qualificado como o Cardeal Richelieu do séc. XX. O livro não transmite essa impressão. Revela-nos um homem fraco, desconfiado, e muito preocupado com a sua imagem. Era extraordinariamente baixo, ao contrário do que as fotografias sistematicamente sugerem. Mas era um homem absolutamente implacável, até nas relações familiares. A sua mulher suicidou-se, o que ele considerou como um ataque pessoal. O seu filho foi soldado no exército russo, tendo sido capturado pelos alemães. Quando estes lhe propuseram trocá-lo pelo Marechal Von Paulus, preso em Estalinegrado, Estaline respondeu que nunca trocaria um marechal por um simples soldado.

 

O período mais interessante do livro é o da II Guerra Mundial. Revela os inúmeros erros que foram cometidos por Estaline nesse período, que quase levaram a União Soviética a perder a guerra. Mas revela também que foi a sua implacável determinação, que chegava ao ponto de eliminar os subordinados que lhe desobedeciam, que no fim permitiu a vitória. Repare-se neste diálogo a pp. 513 entre Estaline e as suas tropas:

“Em meados de Outubro, o comissário político Stepanov, do Estado-Maior da Frente Oeste estacionada em Perkhuchovo, nos arredores de Moscovo, telefona ao GQG. Informa Estaline que o Estado-Maior propõe instalar-se mais a leste, em Arzamas, e o posto do comando mais perto da capital. Depois de um longo silêncio, Estaline declara: <<Camarada Stepanov, pergunte aos camaradas se têm pás.>> Stepanov não compreende. Estaline repete: <<Será que os camaradas têm aí pás?>>. Stepanov interroga os membros do Estado-Maior, depois inquire: <<Pás de sapador ou pás normais? – Tanto faz>>, responde Estaline. Stepanov, todo contente, informa-o de que dispõem de pás e pergunta-lhe o que é que deverão fazer com elas. A resposta de Estaline cai como um cutelo: <<Aconselhe os seus camaradas a pegarem nas pás e escavarem os seus próprios túmulos. Não abandonaremos Moscovo, o GQG ficará em Moscovo, e quanto a eles, não abandonarão Perkhuchovo>>”.  

 

E agora chegou a vez de outro membro deste blogue: que livro andará Patrícia Reis a ler?

2 comentários em “Estou a ler a biografia de Estaline de Jean-Jacques Marie (9)”

  1. Se já existisse o ‘photoshop’ na altura em que este homem viveu, teria sido muitíssimo difícil e confuso escrever e entender a história da URSS a partir das fotografias que certamente nos teria deixado. O seu álbum deveria ser simplesmente surreal.

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