Agosto casamenteiro (1)


jmmcc,

Este post da nossa Ana Margarida veio lembrar-me que o mês de Agosto é vulgarmente propício a casamentos. Com a emigração de novo a crescer, crescem também os enlaces que aproveitam a reunião da família e amigos para dar pompa ao acto e circunstância ao copo d’água (a água, no caso, é uma das melhores e mais antigas metáforas portuguesas). Assim — e porque a escolha do bolo dos noivos é sempre um quebra-cabeças — nesta segunda metade de Agosto deixarei aqui algumas ideias sugestivas. Espero que sejam felizes.

Estes dois bolos de casamento traduzem fortemente os votos trocados na igreja: «até que a morte nos separe». Ou nem isso.

Casamentos em flor


cadernoelastico,

Em plena época de casamentos, dou por mim a pensar no absurdo de tudo isto. Não há-de existir muita igrejinha por esse país fora que escape aos casamentos de Verão. Noiva que é noiva tem de desfilar pela igreja fora, com uma grande cauda, e o povo todo a assistir. Noiva que é noiva tem de ter fotografias à porta da igreja, com arroz e tudo o mais. Tudo muito lindo, perfeitamente abençoado pelo Senhor. Agora vamos raspar esta superfície, e ver o que está por trás do quadro, e em muitos dos casos (sou testemunha de alguns), temos a situação mais confrangedora de todas, que é o silêncio absoluto na parte em que a assembleia deve participar, o padre a dizer – aos noivos também, claro está – quando é suposto levantar ou sentar, e a imensa multidão cá fora a fumar e tagarelar.

Há dias, uma amiga protestante escrevia no blogue dela que, nos dias de hoje, ser coerente é ser, aos olhos dos outros, fundamentalista. Ela concluía com um assertivo seja. A Igreja católica há muito que gosta de massas. É bom ter igrejas cheias, e números confortáveis de crentes (mais baptizados que crentes, mas são as estatísticas que temos). No tempo de João Paulo II, o que interessava era chegar a todo o lado, ser simpático (no sentido de criar empatia) com todos. E lentamente foi escorregando nas concessões, aceitando tudo e todos. Muito honestamente, já pensei que era esse o caminho. Aliás, tenho sobretudo dúvidas a este respeito, mas parece-me que a lógica subjacente à questão pode ser comparada à dos partidos: um catch-all (um partido centrão, estilo PS e PSD) abrange todo o centro, e ainda mais uma franja à esquerda e outra à direita. Mas, na verdade, são poucos os que militam nesse partido, e por vezes até tendem a abster-se e a ser voláteis no voto (perdoem a comparação, são defeitos de oficio). Suponho, pelo que leio, que Bento XVI tem outra abordagem: poucos, mas bons. Ou seja: podemos não ter igrejas repletas, nem casamentos a cada fim-de-semana do estio, mas o que temos é convicto, e está consciente do passo que está a dar. De novo, o que tenho mais dúvidas: alguém quereria uma igreja tipo PC?

Discriminação sexual


jmmcc,

Certa autora da nossa blogosfera ficou aqui em pulgas depois de ter encontrado uma notícia sobre as virtudes (?) da «homoparentalidade lésbica», seja lá o que isso for.

A menos que se trate de algum fenómeno hermafrodita, é fácil perceber como é que se faz para uma mulher ser mãe, lésbica ou não. Só receio que esteja a aproximar-se uma nova forma de discriminação sexual. É que, sem querer desiludir aquela autora, não estou a ver muito bem como poderemos chegar à “homoparentalidade masculina”. E esta diferença ainda há-de dar que falar…

Panteras ao ataque


jmmcc,

«Neste momento, a lei da adopção é uma questão fundamental. É incrível como a nível familiar não são reconhecidas as duas mães a uma criança» – diz Sérgio Vitorino, das “Panteras Rosa”, e transcreve aqui o Sérgio de Almeida Correia. Não sei quem são as “Panteras Rosa” e o Sérgio Vitorino, mas posso imaginar. E vou fazer uma coisa que não é muito meu hábito, que é ajudar o Pantera Rosa a guardar os disparates na sua privacidade.

A nível familiar – para usar as palavras do Pantera – não são reconhecidas as duas mães porque ninguém tem duas mães. Tal como foi reconhecido o casamento homossexual, até pode ser que venha a ser consagrada institucionalmente a adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Pode ser. Mas é institucionalmente, legalmente; não é «a nível familiar», como o Rosa quer. A nível familiar, uma criança tem sempre um pai e uma mãe, perto ou longe, vivos ou mortos. E tem o supremo direito de saber quem são.

Portanto, se é duvidoso chamar “casamento” à união de duas pessoas do mesmo sexo, é muito mais melindroso educar uma criança, cujos direitos devem merecer protecção especial, no erro impossível de que tem duas mães ou dois pais, deixando-a descobrir mais tarde que andou a ser enganada «a nível familiar».

É imperdoável centrar o assunto deste modo, é inacreditável vir à praça pública declará-lo e é inaceitável manifestar tanto egoísmo, quando o foco de todas as atenções tem de continuar a estar nas crianças. Felizmente, com abordagens como a do Rosa, o debate destas coisas mantém-se longe do fim. Por isso é que eu digo ao Sérgio Vitorino, seja ele quem for:

— Ó Pantera, um passo de cada vez, sim? Até porque pode ser conveniente dar um passo atrás, de vez em quando.

Avanços e avanços


jmmcc,

Acabo de ouvir o ex-porta-voz do PS Vitalino Canas dizer repetidamente, com o ar mais feliz do mundo, que a promulgação do diploma sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo é um «imenso avanço civilizacional». Não estou certo, mas isso não vem ao caso — o PS achou que era uma medida fundamental nos tempos que correm, dividiu opiniões e sensibilidades e ganhou a sua.

Do que estou certo é que, entre os imensos avanços civilizacionais, o bem-estar dos cidadãos, com tudo o que isso implica (educação, progresso, segurança, justiça, trabalho, saúde, etc.), é claramente prioritário. Prioritário ao ponto de facilitar o casamento e os nascimentos entre os heterossexuais através da esperança de uma vida decente sem sair do país.

Vitalino Canas, no seu esgar de alegria, não foi capaz de captar o essencial e o PS continua sistematicamente a esquecer-se do que são os imensos avanços civilizacionais aos quais lhe competia abrir caminho. Foi mais uma imagem tristíssima, aquela a que acabei de assistir.

Iguais e diferentes


jmmcc,

Há quem diga que os casamentos homossexuais são diferentes e que não deviam ser tratados como iguais. Estive a meditar. Esqueçam isso. Um casamento homossexual é o mais igual de todos. Desde logo no sexo dos cônjuges. Os outros é que são diferentes.

Vidas


jmmcc,

Portugal é o sexto país europeu e o oitavo do mundo a aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não me lembro de termos sido tão lestos desde a abolição da pena de morte.

O fim da pena de morte salvou a vida a grandes criminosos. Espera-se que o casamento homossexual possa salvar alguém de qualquer coisa, já que o resto do país continua sem ilusões de vida.

Incoerências por incoerências


oanonimoanonimo,

Há dias, dizia-me uma amiga que se o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse aprovado, teria de ir a um casamento não tarda muito. E que, provavelmente, até teria de ser madrinha. Não sei se da noiva, se do noivo, se. Encolhi os ombros – já estou por tudo. Pedi-lhe, apenas, que não se lembrasse de me convidar para a acompanhar no eventual evento. Do mesmo modo que já garanti que, como advogado, recusaria patrocinar qualquer parte num divórcio homossexual, também não me sinto preparado para entrar numa festa dessas. Tal como o Papa, acho que o casamento que é casamento, é entre pessoas de sexos diferentes. Tudo isto não invalida que respeite a orientação sexual de quem quer que seja. Ou que ostracize os homossexuais, desde que não sejam daqueles que, virilmente, impõem o seu incomodativo «orgulho». Ou que não respeitem a minha diferença.

Tenho visto, curiosamente, que os mais acérrimos defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo são aqueles que mais estremecem quando se lhes pergunta: «Como reagiria se o seu filho chegasse a casa e lhe apresentasse o namorado?».

Pois bem. Incoerência por incoerência, o único casamento homossexual em que admitiria participar seria o de um filho meu. Ou de um amigo muito próximo. Não iria muito feliz. Mas iria compassivo. E talvez até conseguisse esboçar um sorriso. Quanto ao mais, que o diabo seja cego, surdo e mudo. E paralítico.

 

O veto e a liberdade de escolha


Adolfo Mesquita Nunes,

Sai hoje, no jornal i, e a propósito do veto presidencial à alteração da chamada lei das uniões de facto, a minha opinião sobre o assunto: O Estado deve manter o casamento e a união de facto como dois tipos contratuais distintos.

 

No entanto, venho defendendo que esses contratos, no respeito dessa distinção, devem estar abertos à vontade do casal, num sistema de geometria variável, permitindo que um casal em união de facto possa ter o regime que pretende, que pode são ser igual ao casal em união de facto que vive na porta do lado.

 

Isto é, sem prejuízo de previsão de clausulados supletivamente aplicáveis, os casais deveriam poder compor os termos dos seus contratos, escolhendo de entre as várias opções possíveis. É que, convenhamos, uma união de facto com três anos pode não significar para os próprios a mesma vontade de assumir direitos e deveres que é partilhada por quem está unido há mais de dez, por exemplo.

 

O texto, entretanto editado por questões de tamanho, que enviei para o i, pode ser lido no Rua Direita.

Prós & Contras


josegomesandre,

Do debate de ontem sobre o casamento homossexual fica uma certeza: moderados como eu vão passar muito mal. Há um grande radicalismo em ambos os lados e, tal como na questão do aborto, parece-me inevitável que os insultos e o ruído se venham a sobrepor às discussões ponderadas e racionais. Com efeito, a julgar por exemplo pela prestação de Isabel Moreira – uma constitucionalista histérica, de dedo em riste e intolerante como raras vezes vi no mundo académico – vamos assistir a um circo deprimente.