Um regresso auspicioso.


Luís Menezes Leitão,

 

Este novo Astérix entre os Pictos é uma boa notícia para os apreciadores das aventuras dos heróis da pequena aldeia gaulesa que resiste ainda e sempre ao invasor. Efectivamente a série estava a incorrer numa dolorosa decadência desde a morte de Goscinny, já que Uderzo, embora mantendo a qualidade do desenho, nunca conseguiu apresentar um argumento de jeito, exceptuando talvez O Grande Fosso. Sempre que se comprava um livro, ia-se de decepção em decepção até ao inenarrável O céu cai-lhe em cima da cabeça, que levou muita gente a proclamar: “Por Toutatis! Este Uderzo está louco!”. Felizmente ganhou algum juízo para entregar a série a outros argumentista e desenhador, que conseguiram produzir uma obra que, ainda estando longe da genialidade de Goscinny, tem finalmente uma história com graça. Podem continuar que os leitores agradecem.

A Feira e o refugo


eventhorizon,

Se há coisa de que os livros não gostam – para além das labaredas que muitos stocks esquecidos em armazém acabam por conhecer – é de chuva e humidade. Também por isso é de louvar que a organização da Feira do Livro de Lisboa tenha percebido, após vários anos a insistir com o arranque do certame ainda em Abril e a prolongá-lo só até meados de Maio, que talvez a coisa corra melhor mais perto do Verão (nem sempre o óbvio é evidente, como se vê). Na única ocasião em que me desloquei à Feira no ano passado, o cenário era desolador: pouca gente no parque, bancas envolvidas em plástico, livros humedecidos, e uma carga de água das antigas. Já este ano, o inverso: duas vezes até ao momento, sempre com sol. Muito sol e muito calor, como apetece.

 

Os livros agradecem. E eu também, mesmo sendo mais dado às estações frias. 

 

Livres das coberturas baças de plástico, os livros ganham protagonismo – como facilmente se vê na banca colorida da Tinta-da-China, que em termos de capas faz (ou devia fazer) todas as outras editoras presentes corarem de vergonha com as suas stock photos indistinguíveis e ilustrações de gosto duvidoso. A aposta – quase teimosia – da editora num design simples mas elegante para as capas dos seus livros é louvável – e se não compro lá nada, vontade não falta. Depois há as quintas particulares da Leya e da Porto Editora (os “latifúndios” a que o Pedro aludia ali abaixo, num comentário certeiro), fechadas sobre si mesmas como se fossem (e são) feiras dentro da Feira. Passo por lá de fugida – abomino o ambiente de centro comercial que se gera ali em pleno Parque Eduardo VII, ao qual não faltam os alarmes de entrada e saída; pelo caminho, encontro entre os descontos quatro exemplares perdidos da velha colecção policial, de capa preta – exilados do armazém, decerto fugidos à incineradora que consumiu os seus parentes azuis. Mas não me detenho, nem na secção de banda desenhada da Asa – convidativa, decerto, mas com preços pela hora da morte (namoro um tomo do Bilal há anos, mas o preço, o preço). Se bem que, no que aos preços diz respeito, os nossos mastodontes editoriais não estão sozinhos – não fossem os caixotes de refugo e fundos de armazém que várias editoras arrumam ao lado das respectivas bancas e a minha carteira só se abriria para café e água. 

 

Mas vale-nos a nós, leitores apertados, o refugo editorial, as edições em segunda mão, as obras esquecidas; e se nos alfarrabistas (onde resisto à tentação de completar por fim a minha colecção de Astérix) a procura por alguns volumes mais raros se revela impossível, já nos caixotes da Devir – cujas capas ilustradas de comics norte-americanos e graphic novels de referência serão talvez as únicas a competir com as cores da Tinta-da-China – encontram-se alguns tesouros em saldo. E porque o tempo não é de desperdiçar nem tesouros nem saldos, não resisto a trazer por menos de metade do preço o décimo-segundo volume de The Walking Dead, a banda desenhada do momento, apesar de a minha colecção pessoal (construída devagarinho ao longo dos últimos dois anos e meio) ainda só ir no nono paperback. A ler no futuro, quando as promoções ou as finanças permitirem comprar os dois entretantos. E o tesouro maior: Hellblazer: All His Engines, na edição portuguesa da Devir desta aventura singular do célebre exorcista britânico John Constantine, criado nos anos 80 por Alan Moore, Steve Bissette e Jamie Delano (com inspiração em Sting) para a DC Comics. Uma graphic novel que procurava há anos a um preço razoável (o último exemplar que passara pelas minhas mãos, há meses, custava 30 euros), ali, esquecida no caixote ao sol. Ainda não chegou à estante; para já, o lugar de banda desenhada de mesa de cabeceira pertence-lhe.

 

 

Para trás fica a minha curta lista de compras para a Feira, improvável salvo milagre de promoção fortuita. Mas se mais nada trouxer do Parque, já me dou por satisfeito.

 

(fora do texto, mas a merecer destaque: foi um prazer encontrar o nosso Pedro na cadeira de autor)

Não, não estou zangado.


letraspequenas,

 

Nem cansado dos homens, nem desesperançado deles. Vim ver o mar. Fazei o regabofe que quiserdes. Ride de mim, ride de todos. Dançai gaivotas, à vontade, essa canção. Mas olhai, olhai para nós. Todos farinha do mesmo saco. Carne e osso, alma e coração, medo e ambição, tentando apanhar o melhor grão. Como vós, aves do céu. Como vós, gente com asas. Como vós, atraídos para o alvo – peito aberto, picando o voo, caímos na emboscada, mergulhamos na tentação. É só isso, gaivotas. E então?

Fantástico


eventhorizon,

Decorreu entre 18 e 20 de Novembro o Fórum Fantástico 2011. Em jeito de resumo (que não fará justiça ao evento), foram três dias de excelentes sessões sobre os géneros do fantástico na literatura, no cinema e na banda desenhada. Entre os convidados estiveram, entre outros, o escritor e cineasta António de Macedo (e é fascinante ouvi-lo, esteja ele no palco entre os oradores ou na plateia, entre o público, a fazer comentários e a colocar questões), o autor espanhol Félix J. Palma, o escritor João Barreiros, Filipe Melo (cuja obra já aqui foi mencionada), e Victor Mesquita, “guru” da banda desenhada portuguesa. As sessões, essas, oscilaram entre o bom e o excelente.

 

Para terem uma ideia melhor do que foi o Fórum Fantástico 2011, podem consultar o blogue oficial.

 

Uma vez mais, o mérito da organização vai para Rogério Ribeiro e Safaa Dib.

 

Estou a ler “As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse” (4)


eventhorizon,

 

Enfim, deixem-me agora dar continuidade à jogada que o passe de belo efeito e mestria técnica do José (o meu futebolês anda cada vez melhor) proporciona. E continuo com a confissão de uma falha: não estou a ler este livro. Na verdade, já o li há alguns dias, mas como a alternativa seria, uma vez mais, escrever sobre um livro de ficção científica, opto antes por a banda desenhada. Melhor ainda: para a banda desenhada em Português de Portugal (o bom e velho). Falo do álbum As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse, escrito por Filipe Melo, desenhado pelo argentino Juan Cavia e colorido pelo também argentino Santiago Villa. É a sequela a um álbum lançado em 2010 que conheceu um enorme sucesso (actualmente está esgotado): As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy. Em jeito de paródia à pulp fiction, ao cinema de terror, aos filmes de “série B” (e não só) e à cultura pop, a narrativa acompanha Eurico, um distribuidor de pizzas (no segundo volume trabalha num call center), João Vicente “Dog” Mendonça, detective do oculto, Pazuul, um demónio com seis milénios no corpo de uma miúda de seis anos, e a cabeça de uma gárgula – um grupo no mínimo estranho que, sem querer, vai salvar o mundo (três vezes em dois álbuns) na cidade de Lisboa. 

 

Invulgar? Sem dúvida. Junte-se a este improvável grupo de (anti)heróis as ilustrações soberbas de Cavia e Villa (basta ver a imagem da Ponte 25 de Abril sob o céu vermelho do Apocalipse – em baixo – ou as Torres das Amoreiras rodeadas por uma praga bíblica de gafanhotos) e a história atribulada, satírica e extremamente divertida de Filipe Melo para se chegar à conclusão de que esta obra é, de facto, única na BD portuguesa. E não só: a popularidade de Dog Mendonça e Pizzaboy já saiu do rectângulo, e os autores foram convidados a publicar alguns capítulos especials pela Dark Horse – a maior editora independente de banda desenhada norte-americana, com títulos consagrados como Sin City de Frank Miller. 

 

Já agora: o primeiro álbum contou com um prefácio de John Landis, realizador consagrado responsável, entre outras coisas, pelo filme de culto An American Werewolf in London e pelo mais famoso videoclip de todos os tempos: Thriller, de Michael Jackson. O segundo álbum, por seu lado, conta com prefácio de George Romero, que desde o clássico Night of the Living Dead dispensa quaisquer apresentações. 

 

Em resumo: para quem gosta de BD, é leitura mais do que recomendada. 

 

E a série continua com o João Carvalho.

 

 

 

As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse

Argumento: Filipe Melo

Ilustração: Juan Cavia

Cor: Santiago Villa

Tinta da China, 2011