Prosa de general birmanês


Pedro Correia,

 

No Avante!, nada de novo. Na sua mais recente edição, o órgão central dos comunistas surge em defesa dos direitos humanos no Sara Ocidental – e muito bem – mas páginas adiante lá vem a habitual condescendência com as ditaduras “amigas”, desta vez num texto abjecto do misógino de serviço, Correia da Fonseca, sobre a Nobel da Paz Aung San Suu Kyi. “Imagino que deve ser terrível para uma mulher, para mais senhora de boa disponibilidade financeira, não poder sair de casa para ir às compras no hipermercado mais próximo”, assinala o escriba comunista. Reduzindo a privação da liberdade da oposicionista birmanesa durante duas décadas a uma laracha machista de péssimo gosto.

Qualquer membro da junta militar de Rangum seria capaz de dar à estampa um escarro destes. Por momentos imaginei até Correia da Fonseca com divisas de general. Birmanês.

 

Ler também:

A Ana Matos Pires, a Joana Lopes, o João Tunes e o José Simões.

Estaline e Kim Jong-il


Pedro Correia,

Na última edição do Avante!, o neo-estalinismo continua em grande. A pretexto da próxima cimeira da NATO que se realiza em Lisboa, o jornal do PCP salienta que desde a sua criação, em 1949, esta organização «apontava o seu fogo à União Soviética, cujo prestígio no mundo era imparável por ter sido a grande responsável pela vitória sobre o nazifascismo na II Guerra Mundial». Típica linguagem da Guerra Fria: o “órgão central” dos comunistas portugueses parece estar pelo menos há 25 anos parado no tempo, como se Tchernenko ainda fosse o ditador de turno na Moscovo soviética. Por um resquício de pudor, o nome de Estaline não é impresso nesta edição do jornal, mas a glorificação do estalinismo está lá, intacta, na referência ao “imparável prestígio no mundo” da URSS em 1949, então gerida com mão de ferro por Estaline, um dos maiores criminosos da História.

Ao melhor estilo estalinista, o Avante! omite, aliás, que durante dois anos, entre 1939 e 1941, a União Soviética foi aliada de Hitler e Mussolini durante a II Guerra Mundial e só rompeu com o nazismo quando os tanques de Berlim já invadiam o seu território.

 

O neo-estalinismo do jornal é também muito nítido no noticiário internacional. Repare-se nesta notícia: «A rejeição do convite para conversações por parte da Coreia do Sul é uma expressão de ignorância sobre a actualidade e um acto de traição para com todos os coreanos, considerou Pyongyang. De acordo com informações veiculadas pela agência de notícias norte-coreana, o governo da República Popular Democrática da Coreia convidou o vizinho do Sul para conversações. O objectivo era o estabelecimento de um acordo militar, mas Seul terá rejeitado “persistindo no enfrentamento e na guerra”, disse fonte oficial à KCNA.»

Que vemos aqui?

A defesa aberta e declarada do regime neo-estalinista da Coreia do Norte, o mais repressivo do mundo, que o Avante! – só mesmo ele – apresenta aos seus leitores como amante do diálogo, da concórdia e da paz. Assim se distorce deliberadamente a verdade dos factos, rasurando a fotografia.

Essa mesma página é encimada com a seguinte notícia: «Por aumentos salariais e contra a retirada de direitos / Trabalhadores voltaram aos protestos nas Honduras».

Alguém imagina uma manifestação de protesto de trabalhadores por aumentos salariais na Coreia do Norte “Popular e Democrática”, como tão carinhosamente lhe chama o órgão neo-estalinista do PCP?

Mais papistas que o Papa


Pedro Correia,

Pressionado pela comunidade internacional, e sob a mediação da Igreja Católica, o Governo cubano libertou 52 presos políticos que estavam detidos desde a ‘Primavera negra’ de 2003. O Avante!, mais papista que o Papa, aproveitou a ocasião para insultar esses cidadãos cubanos que conheceram os cárceres da ditadura castrista. Chama-lhes “mercenários”, que foram “pagos a peso de ouro pelos EUA”. E garante aos seus leitores que não são presos de consciência, como diz a Amnistia Internacional: são pessoas que “receberam de países estrangeiros (os EUA) fundos e materiais para conspirar contra o Estado cubano”.

Com este fraseado e esta terminologia, o jornal oficial do PCP desacredita a própria luta dos seus militantes contra a ditadura salazarista. O Diário da Manhã é que costumava transformar os presos de consciência em “mercenários” ao serviço do estrangeiro, negando os relatórios de organizações de direitos humanos como a Amnistia Internacional. Muitos comunistas portugueses certamente coram de vergonha ao lerem hoje o Avante!.

Será que o ‘Avante’ noticiará isto?


Pedro Correia,

 

Fidel Castro, surpreendendo muito boa gente, acaba de reconhecer que o “modelo cubano” não é exportável, pois nem em Cuba funciona. “El modelo cubano ya no funciona ni siquiera para nosotros”, declarou o histórico dirigente comunista, ainda hoje idolatrado por uma certa esquerda, ao jornalista Jeffrey Goldberg, já aqui citado pela Ana Margarida.

Fidel já antes surpreendera ao reconhecer os erros cometidos pelo regime cubano nas décadas de 60 e 70, quando perseguiu os homossexuais. “Sí, fueron momentos de una gran injusticia, una gran injusticia!, la haya hecho quien sea. Si la hicimos nosotros, nosotros…”, reconheceu, em entrevista ao jornal mexicano La Jornada, o ditador cubano, que em 1963 chegou a considerar a homossexualidade uma “degenerescência”.

Apetece perguntar: será que o Avante!, sempre tão atento a todas as declarações de Castro, também transcreverá estas nas próximas edições? Por mim, não tenho ilusões: certamente o director do jornal, José Casanova, dará ordens para omitir por completo o assunto no jornal oficial dos comunistas portugueses, incapazes de lidar com tanta heterodoxia. Vai uma aposta?

Vale a pena ler o ‘Avante!’


Pedro Correia,

I

Carvalho quê?

Querem saber o que realmente pensa o PCP? Esqueçam o que dizem deputados cordatos e engravatados, como António Filipe ou Honório Novo. O melhor mesmo é pegar no Avante!

A mais recente edição do “órgão central do Partido Comunista Português” tem data da passada quinta-feira, 8 de Julho. Manchete: “Hoje é dia de luta! (no Avante!, ao contrário do que sucede em certos blogues, os pontos de exclamação são muito apreciados). E “dia de luta” porquê? A CGTP promoveu na quinta-feira uma “jornada nacional contra o desemprego e a precariedade”. O tema ocupa a metade superior da capa e também toda a página 5 desta edição.

Com tanto destaque a uma iniciativa da CGTP, pensar-se-ia que o secretário-geral desta organização, Manuel Carvalho da Silva, estaria em foco. Puro engano. O nome de Carvalho da Silva não é sequer mencionado neste Avante!, o que diz muito sobre a forma como a direcção do partido de que é militante de base o avalia.

Pelo contrário, o nome de Arménio Carlos – o membro da Comissão Executiva da CGTP que Jerónimo de Sousa e os seus pares gostariam de ver como líder da central sindical é mencionado oito vezes. Não há coincidências, como dizia a outra.

 

II

Ó tempo volta para trás

No capítulo internacional, como sempre o Avante! honra as melhores tradições do PCP. Abre a sua secção dedicada a temas estrangeiros com uma notícia que deve ter enchido de alegria os camaradas saudosos dos bons velhos tempos da Cortina de Ferro: “Partido Comunista renasce na Roménia”. Tendo o cuidado de lembrar que “o golpe de Estado que derrubou o regime socialista (o Avante! ainda chama ‘regime socialista’ à feroz ditadura do casal Ceausescu) restaurou o capitalismo e provocou um verdadeiro genocídio social”. E chora-se, pela enésima vez, a queda do bloco soviético: “O novo poder tentacular do capital, que imergiu após a queda da URSS, tende a reduzir os trabalhadores a meros instrumentos para os seus desígnios de opressão global”, lê-se em prosa assinada por Domingos Lobo.

 

III

Irão sim, Obama não

Albano Nunes, o eterno responsável pelo sector internacional do partido, mostra-se preocupado com a “escalada contra o Irão e a RPD da Coreia [do Norte]”, revelando assim quais os modelos que servem de referência ao PCP. A monarquia vermelha e os aiatolás.

O Irão dos enforcamentos e das lapidações é, aliás, uma autêntica obsessão para o Avante! Que dedica uma das suas cabeças de página às “provas apresentadas” pelo Governo de Teerão sobre o suposto “sequestro” de um cientista iraniano pela CIA.

Na permanente dicotomia entre anjos e demónios que molda o imaginário dos comunistas, se o Irão é bom, quem será o mau? Obviamente, o inquilino da Casa Branca. Henrique Custódio, analista do jornal, descobre com inegável argúcia que Barack Obama e George W. Bush são “farinha do mesmo saco”. De resto, lê-se numa ‘breve’, os EUA são tão tirânicos que “invadiram” Porto Rico em 1989, ocupando desde então este país independente. Maldito imperialismo.

 

IV

China: porreiro, pá

Mas talvez o texto mais notável desta edição seja uma pequena notícia sobre a China, país governado desde 1949 pelo partido único, o comunista – força política “irmã” do PCP. A China onde os trabalhadores laboram em regime de virtual escravatura, sem direitos de espécie alguma, incluindo o da greve e o do livre associativismo sindical, é apresentada pelo jornal oficial dos comunistas portugueses como um caso exemplar.

“Face à luta dos trabalhadores na China Governo aumenta salários mínimos”, titula o Avante! Marcando distâncias face ao regime chinês? Nada disso: os protestos surgiram “contra construtoras automóveis japonesas e depois do primeiro-ministro, Wen Jiabao, ter exigido publicamente melhores condições para os trabalhadores chineses”. Porreiro, pá.

Moral da história: na China o camarada primeiro-ministro funciona como delegado sindical, preocupado com as condições de vida dos trabalhadores nas horríveis empresas nipónicas (e só nestas). Se vivesse em Portugal, Wen Jiabao pertenceria à Comissão Executiva da CGTP. E talvez visse até o seu nome impresso oito vezes, como o camarada Arménio Carlos, futuro sucessor do outro. Daquele cujo nome não convém escrever. Eu próprio já me esqueci de quem se trata.