Vale a pena ler o ‘Avante!’


Pedro Correia,

I

Carvalho quê?

Querem saber o que realmente pensa o PCP? Esqueçam o que dizem deputados cordatos e engravatados, como António Filipe ou Honório Novo. O melhor mesmo é pegar no Avante!

A mais recente edição do “órgão central do Partido Comunista Português” tem data da passada quinta-feira, 8 de Julho. Manchete: “Hoje é dia de luta! (no Avante!, ao contrário do que sucede em certos blogues, os pontos de exclamação são muito apreciados). E “dia de luta” porquê? A CGTP promoveu na quinta-feira uma “jornada nacional contra o desemprego e a precariedade”. O tema ocupa a metade superior da capa e também toda a página 5 desta edição.

Com tanto destaque a uma iniciativa da CGTP, pensar-se-ia que o secretário-geral desta organização, Manuel Carvalho da Silva, estaria em foco. Puro engano. O nome de Carvalho da Silva não é sequer mencionado neste Avante!, o que diz muito sobre a forma como a direcção do partido de que é militante de base o avalia.

Pelo contrário, o nome de Arménio Carlos – o membro da Comissão Executiva da CGTP que Jerónimo de Sousa e os seus pares gostariam de ver como líder da central sindical é mencionado oito vezes. Não há coincidências, como dizia a outra.

 

II

Ó tempo volta para trás

No capítulo internacional, como sempre o Avante! honra as melhores tradições do PCP. Abre a sua secção dedicada a temas estrangeiros com uma notícia que deve ter enchido de alegria os camaradas saudosos dos bons velhos tempos da Cortina de Ferro: “Partido Comunista renasce na Roménia”. Tendo o cuidado de lembrar que “o golpe de Estado que derrubou o regime socialista (o Avante! ainda chama ‘regime socialista’ à feroz ditadura do casal Ceausescu) restaurou o capitalismo e provocou um verdadeiro genocídio social”. E chora-se, pela enésima vez, a queda do bloco soviético: “O novo poder tentacular do capital, que imergiu após a queda da URSS, tende a reduzir os trabalhadores a meros instrumentos para os seus desígnios de opressão global”, lê-se em prosa assinada por Domingos Lobo.

 

III

Irão sim, Obama não

Albano Nunes, o eterno responsável pelo sector internacional do partido, mostra-se preocupado com a “escalada contra o Irão e a RPD da Coreia [do Norte]”, revelando assim quais os modelos que servem de referência ao PCP. A monarquia vermelha e os aiatolás.

O Irão dos enforcamentos e das lapidações é, aliás, uma autêntica obsessão para o Avante! Que dedica uma das suas cabeças de página às “provas apresentadas” pelo Governo de Teerão sobre o suposto “sequestro” de um cientista iraniano pela CIA.

Na permanente dicotomia entre anjos e demónios que molda o imaginário dos comunistas, se o Irão é bom, quem será o mau? Obviamente, o inquilino da Casa Branca. Henrique Custódio, analista do jornal, descobre com inegável argúcia que Barack Obama e George W. Bush são “farinha do mesmo saco”. De resto, lê-se numa ‘breve’, os EUA são tão tirânicos que “invadiram” Porto Rico em 1989, ocupando desde então este país independente. Maldito imperialismo.

 

IV

China: porreiro, pá

Mas talvez o texto mais notável desta edição seja uma pequena notícia sobre a China, país governado desde 1949 pelo partido único, o comunista – força política “irmã” do PCP. A China onde os trabalhadores laboram em regime de virtual escravatura, sem direitos de espécie alguma, incluindo o da greve e o do livre associativismo sindical, é apresentada pelo jornal oficial dos comunistas portugueses como um caso exemplar.

“Face à luta dos trabalhadores na China Governo aumenta salários mínimos”, titula o Avante! Marcando distâncias face ao regime chinês? Nada disso: os protestos surgiram “contra construtoras automóveis japonesas e depois do primeiro-ministro, Wen Jiabao, ter exigido publicamente melhores condições para os trabalhadores chineses”. Porreiro, pá.

Moral da história: na China o camarada primeiro-ministro funciona como delegado sindical, preocupado com as condições de vida dos trabalhadores nas horríveis empresas nipónicas (e só nestas). Se vivesse em Portugal, Wen Jiabao pertenceria à Comissão Executiva da CGTP. E talvez visse até o seu nome impresso oito vezes, como o camarada Arménio Carlos, futuro sucessor do outro. Daquele cujo nome não convém escrever. Eu próprio já me esqueci de quem se trata.

26 comentários em “Vale a pena ler o ‘Avante!’”

  1. O grande mistério na China actual é realmente perceber que a luta dos trabalhadores chineses é representada pelo primeiro-ministro em Pequim, que «aumenta salários mínimos» contra as empresas japonesas instaladas em território chinês.

    O Avante! parece que se esqueceu do fundamental: os trabalhadores chineses perderam a paciência e estão a ganhar coragem. Começaram a fazer greves de vários dias por verem o crescimento do país (à custa do know-how de empresas japonesas e outras instaladas na China por via da mão-de-obra barata) e não lhes tocar nada.

    A verdade é que o processo será certamente longo, mas a inundação do mundo ocidental com produtos chineses tem os dias contados e vai ser o alívio da Europa. Os baixos salários e a ausência de direitos dos trabalhadores chineses entraram num processo imparável de mudança, quer o primeiro-ministro Win Jiabao faça estes “números” de circo, quer não faça. E quer o PCP e o Avante! queiram, quer não queiram.

  2. O PCP resiste como «muralha d’aço» a esta enorme contradição: em território português, defende a “justa luta” dos trabalhadores. Nos países onde vigoram as ditaduras dos ‘partidos irmãos’, de Cuba à Coreia, passando pela China, defende os regimes opressores, que esmagam os trabalhadores.
    Enquanto mantiver esta duplicidade jamais poderá ser levado a sério, por mais que tente e por mais generosos que sejam muitos dos seus militantes, genuinamente apostados em construir uma sociedade mais justa.

  3. O PCP com o seu elevadíssimo poder militante tanto em nº como na rua, colocando as suas figuras mais mediáticas nos jornais e nos Comícios, e com alguma abertura interna, poderia ser um caso de sucesso eleitoral (15%), assim nunca passará dos 8/9%.

    Imaginem o PCP apresentar Octávio Teixeira às presidenciais. De certeza que se instalaria uma imensa confusão nos eleitores à esquerda do PS e mesmo nas franjas “esquerdistas” deste.

  4. Com estas visões tão peculiares do mundo actual e com tantas e tão ajustadas notícias sobre a realidade nos “países irmãos”, é uma pena que esta verdadeira pérola informativa só se publique semanalmente. Devia ser diária (e, se possível até, bi-diária com uma edição da manhã e outra à tarde) para, assim, haver a toda a hora uma informação séria, isenta e de qualidade acerca do que na verdade se passa nos países dos “camaradas amigos”.
    «Avance camarada, avance!»…

      1. O quê?, pela ‘calada da longa noite fascista’? Nem pensar! Ainda saía uma notícia à Avante, a dizer que ela tinha sido brutal e lamentavelmente interrompida pela nefasta e inoportuna acção dos Capitães de Abril…

  5. Por favor, expliquem a esses senhores que os operários foram aumentados de 900 yuan para 1200 yuan/mês.
    De 90 para 120 euros por mês.
    Estarão os camaradas dispostos a vir trabalhar para estes paraísos?
    E com estes salários?

  6. Caro Pedro Correia,
    Desactualizado, muito e muito desactualizado.
    «Albano Nunes, o eterno responsável pelo sector internacional do partido,…» deixou de o ser no…XVII Congresso do PCP em … 2004!!!
    Basta pesquisar no site do PCP, onde estão enumeradas as responsabilidades actuais de todos e cada uma dos membros do Secretariado e da Comissão Política do Comité Central do PCP.
    Vá lá eu dou uma ajuda: vá percorrendo as Resoluções do CC a partir do XVIII Congresso (Nov/Dez 2008)

    1. Então não havia de saber isso, caro António Vilarigues? Logo eu, que acompanhei de fio a pavio esse importante congresso, incluindo o seu longo e agitado período de preparação?
      Usei essa designação numa perspectiva honorífica. Direi mesmo mais agora: eterno e insubstituível. Como se vê. Ou antes: como se lê.

      1. Caro Pedro Correia,
        «…eterno e insubstituível. Como se vê. Ou antes: como se lê.».
        Só você para me por bem disposto de estômago ainda (quase) vazio.
        Já viu quantos militantes do PCP escrevem artigos de opinião no «Avante!» sobre questões internacionais? Até eu!!!…
        Escrevem no Artigo de fundo semanal, nas secções Actual, Europa, Internacional, Temas, Em Foco, A Talhe de Foice, e, claro está, Crónica Internacional.
        «Eterno e insubstituível»???…

        1. Ah, mas figurar na página 3, ao lado do editorial, dá mais «panache», mesmo num jornal comunista. Ainda bem que o deixei bem disposto, caro António Vilarigues. Devo confessar-lhe que tenho sentido o mesmo em relação a vários dos seus artigos, que leio sempre com a devida atenção.

  7. Algumas notas:

    É claro que o PCP, como partido de apoio às legítimas manifestações dos trabalhadores, tem de dar um grande destaque a este tipo de acções de massas. Prefiro a atitude do PCP que a atitude do PS que, ao contrário do primeiro, nos tem lixado muito mais a vida (a nós, trabalhadores) do que os pontos de exclamação do PCP. Venham eles.

    Segundo: o PCP é bastante ponderado quando se trata de falar do Irão. O PCP não defende o Irão; o PCP defende o fim da escalada de agressividade que os EUA estão a construir naquela zona, independentemente de ser o Irão ou outro qualquer. Porque o PCP é coerente: naturalmente opõe-se ao militarismo. Tentar fazer passar a ideia que por isso é PCP é defensor do regime inumano de penas vigente no Irão é tão imbecil como inútil: você não consegue passar essa mensagem e só se ridiculariza a si próprio.

    Por último, não vejo o PCP a “chorar” a queda do regime soviético. Mas que estes povos viviam muito melhor durante o comunismo, não é só o PCP mas vários estudos sociológicos que o afirmam. E por mi só acho positivo que o Partido Comunista da Roménia se erga de novo. O mesmo não acontece na Polónia onde se ilegalizaram os comunistas. Mas isso não me parece que o preocupe. O que me leva a pensar: se quisessem fazer o mesmo em Portugal, o que diria Pedro Correia? Provavelmente mandaria às urtigas todas as suas teses de “liberdade” e “liberdade política” e ficaria caladinho. Felizmente o PCP é mais coerente que isso.

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