Um dia de cada vez (1)


Ana Vidal,

É estranho como o amor e o ódio se equivalem. Ambos são poderosos filtros que definem as cores com que vemos o mundo. Ambos alimentam, ambos podem ser objectivos de vida ou puros instrumentos de sobrevivência. Igualmente demolidores, por ambos se mata, por ambos se morre.  Nem sempre a opção é simples, nem sempre é possível. Se nunca odiei verdadeiramente ninguém, o mérito não é meu: sempre tive a sorte de poder escolher.

Por outras palavras


Pedro Correia,

 

«Where I’m going, you can’t follow. What I’ve got to do,

you can’t be any part of.» (Rick Blaine, Casablanca)

 

A História, a todos os níveis, não se escreve com ses. Mas é possível, com uma simples pergunta, fazermos uma análise contrafactual a uma história de amor para testar a sua solidez. Até que ponto os seus protagonistas sofreriam se perdessem quem amam? Por outras palavras: o amor não se alimenta apenas da felicidade que há, mas da infelicidade que se deseja desesperadamente que não exista.

a melhor frase do ano


Patrícia Reis,

“Adorávamo-nos para além de todas as diferenças. Mais: adorávamo-nos também por causa das nossas diferenças. Cada um de nós procurava no outro a sua parte de maior verdade.“

Paulo Portas sobre Miguel Portas (29.4.2012)

 

Meu amor vou-te deixar


letraspequenas,

Tão convincente és no abandono e nunca cumpres. Acabas sempre aqui. Sufocado de saudades, a roer queixumes, atraiçoado pela voz maldita que reivindica o que é teu. Só teu, dizes. A posse é a conquista deste vai e vem.

Tão convincente eu no teu abandono que me vence. Na aceitação com que remato o desespero, na persistência que imprimo à esperança, na culpa sacudida docemente dos teus ombros, dos meus. Voamos outra vez.

Tão convincentes somos neste embalo, que a nenhum ocorreu ainda – meu amor, para a alma, cada abandono é sem sentido e o nosso voo perde altura.

 

 

Já só o Amor nos salva.

Sereno ou esgroviado, insano ou bem aprumado, indo e vindo como os ventos, nunca lhe cortem as asas, nem lhe fujam aos tormentos.

Cumprindo a missiva do ‘Cão’, deixo o meu pedido de contribuição ao José Anjos e ao IzNotMeIzYou para tão bela iniciativa – cantar o Amor, como lhes aprouver, lá na casota do canito.

Casou!


fiodeprumo,

 

A televisiva Maria Elisa Domingues, de 62 anos, casou-se, numa cerimónia íntima num luxuoso hotel de Lisboa. A jornalista não estava à espera de voltar a apaixonar-se. Numa altura em que vivia dedicada e babada com a sua neta, foi surpreendida por este grande amor por um advogado americano de 59 anos. O casal conheceu-se há cerca de dois anos em Washington e desde então estão juntos.

Ora aqui está a prova, irrefutável, de que a paixão e o casamento não têm idade… pensará ela! 

O amor não tem tempo


Patrícia Reis,

Com todos os cuidados morriam de amor as moças, muito translúcidas e veias de fora, algumas trigueiras, outras morenas, suspirando por amados com quem não chegavam a trocar uma caricia, às vezes apenas um bilhete escondido, um favor de uma alma portadora. O amor era, então, um jogo, uma sedução e tinha a dose de perigo suficiente para que nada mais tivesse qualquer importância.

Os cientistas dizem que o amor dura cinco anos, na verdade dois, os últimos são uma espécie de exercício de “aguentar” ou de “ser crescido”. Posto isto, chegados aos seis anos de casamento e quase dez de relação, a pergunta que se podia fazer seria de índole indiscreta e, porventura, pouco simpática, temerosa, em sobressalto. É bom quando não se fazem perguntas, conclui há muito. Assim como conclui que quando duas pessoas falam muito sobre a relação que têm, a dita cuja já era. Pode ser uma ideia minha, é certo, e cada um vive com as suas ideias e anda para trás e para a frente, diz e contradiz num exercício de condição humana que garante que ser-se coerente uma vida inteira é um enorme acto de desinteligência.

Hoje um adolescente disse-me, com desdém, que não acredita no casamento. Ri-me e respondi:

 

Eu também não acreditava.

 

E o que é isso de acreditar num casamento nos dias que correm? É um risco e uma exigência, é como ter fé e assumir que se tem. Ser cristão é difícil, ser católico, com todas as dúvidas, é uma eterno compilar de questões. Mas ficamos tão sozinhos sem Deus e é tão exigente viver sem esse consolo.

Ficamos também sozinhos por não acreditarmos que o plural composto com outra pessoa possa ser um caminho que precisa de ser tratado com os mesmos preceitos do século XIX. Como sempre, o amor é um problema, uma questão, um mistério, passem os séculos que passarem, leia-se a literatura que se ler. Brindar está em desuso e, a esta hora, é impossível, não tenho como. Seis anos depois de tudo a casa está vazia e não faz mal. Daqui a pouco será distinto. Será, como na vida, uma possibilidade e um mistério.

Leituras


Pedro Correia,

«Nada se sabe verdadeiramente antes de se ter amado.»

Julio Cortázar, Blow-Up e Outras Histórias

Edição Publicações Europa-América, colecção Livros de Bolso Europa-América, nº 394. Tradução: Maria Manuela Fernandes Ferreira.

Para a Helena, querida Helena


Patrícia Reis,

i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
                                  i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that’s keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

 

e.e.cummings

O estado da arte


Ana Vidal,

 

Não deixa de ser revelador do estado da Europa que o dia de hoje, por todo o lado consagrado ao amor com a benção de S. Valentim, seja também o Dia Europeu da Disfunção Eréctil. Só Portugal parece salvar do fiasco a honra do convento, como lembra aqui em baixo a nossa Helena. Por uma vez, pobrezinhos mas… artistas.

Amor e sexo – surpresa e inveja dos deuses


escafandro,

Este amor, este amor mortal, foram eles que o criaram, algo que nós não planeámos, previmos ou sancionámos. Como é que não haveria de nos fascinar? Demos-lhes aquela irresistível compulsão no baixo-ventre – Eros e Ananké trabalhando de mãos dadas –, só para que eles superassem a sua repulsa pela carne do outro e se unissem de bom grado, mais do que de bom grado, no acto de procriação, já que, uma vez que os criámos, detestámos a ideia de os deixar perecer, sendo eles, no fim de contas, a nossa obra, para o bem e para o mal, ou, como é muitas vezes o caso, para o mal. Mas, olhem!, vejam o que eles fizeram desta trapalhada do esfreganço. É como se alguém tivesse dado a uma criança birrenta umas quantas aparas de madeira e um balde de lama para ela ficar sossegada e, de imediato, ela tivesse erguido uma catedral, com direito a baptistério, campanário, cata-vento e tudo. No recinto desta consagrada casa, oferecem-se uns aos outros refúgio, desculpam uns aos outros as suas falhas, suores e cheiros, as suas mentiras e subterfúgios e, acima de tudo, a sua inextirpável auto-obsessão. É isto que nos desconcerta, a maneira como fugiram ao nosso controlo e, de alguma maneira, se tornaram livres de se perdoar uns aos outros por tudo aquilo que não são.

 

E do princípio ao fim, a coisa não passa de uma fantasia auto-induzida. O que o meu pai, ansiando pela amor delas, não vê e não admite que lhe digam é que aquilo que o amor ama é precisamente a representação, pois a representação é a única coisa que o amor conhece. Ou nem sequer tanto. Mostrem-me um par em pleno acto e eu mostro-vos dois espelhos, rosados, lisonjeiramente distorcidos, presos num abraço de incompreensão mútua. Eles amam para poderem ver o seus eus em piruetas maravilhosamente reflectidos nos olhos do amado. É a imortalidade que buscam – sim, aquilo de que gostaríamos de nos livrar, eles almejam, ou pelo menos, desejam a ilusão de imortalidade, a sensação de viver para sempre num instante de paixão. Donde as suas cerimónias de entrega e voracidade. Ágape?… Sim, nesse festim eles comem-se uns aos outros, devorando-se mutuamente. E isso, isso é o que grande Zeus cobiça, os seus pequeninos arroubos manufacturados dos quais ele se vê excluído.

 

John Banville, Os Infinitos. Edição Asa, tradução de Tânia Ganho.

As primaveras da vida


Rui Rocha,

No meio desta torrente de notícias que nos afogam de neura e angústia, dou por mim a pensar que devemos a nós próprios não nos focarmos exclusivamente no lado errado das coisas. Florbela Espanca escreveu que ‘há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar’. A minha  primavera são a minha mulher e os meus filhos, a quem não posso amar mais. E a quem nunca hei-de amar menos. Aos que já encontraram as primaveras da vida, digo que as vão beijar, abraçar, contemplar ou confortar. Que lhes falem se estiverem longe. Que lhes escrevam, se for apropriado. Que as recordem, se não lhes puderem falar. Em todo o caso, que as cantem. Aos que não as encontraram ainda, digo que as procurem. E que nunca desistam. Em qualquer dos casos, não fiquem aí a ler este post que isto de um homem estar assim a falar de amor é coisa para me fazer corar.