Pontos nos is (9)


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SOCIALISTAS

Num rápido olhar pelos noticiários televisivos, deparei hoje com três dos diversos Partidos Socialistas que teimam em existir e persistir em Portugal: o Partido Socialista crescidinho, o Partido Socialista lamuriento e o Partido Socialista apalhaçado. Vejamos o que aconteceu hoje para os ver quase unidos de uma só penada.

 

O Partido Socialista crescidinho é aquele que ora diz que percebe e aceita as medidas lançadas pela actual maioria, ora diz o contrário, mas sem convicção e apenas para se defender de modo medíocre e com vergonha de não ter sido sério na governação do passado recente. Este PS crescidote foi representado hoje pelo ex-ministro das Finanças Teixeira dos Santos, homem que nem sei se já teria passado a ser militante socialista, mas que veio a público garantir que concorda com as medidas adoptadas pelo Governo actual e até as apoia e subscreve. Claro que este PS, mais a mais com figuras como Teixeira dos Santos, está longe de ser recomendável, por motivos óbvios, mas é o melhor que pode arranjar-se.

 

O Partido Socialista lamuriento é aquele que levou hoje um deputado à tribuna do Parlamento para declarar esta coisa interessantíssima: o actual Governo conseguiu um acordo com assinaturas bastantes para lhe chamar concertação social, mas perdeu muito tempo para o obter. Por outras palavras: o PS choramingas tem necessidade absoluta de encontrar sempre um ponto de discórdia que lhe garanta um lugar na oposição, por mais absurdo que seja. No caso, tem de reconhecer-se o provável esforço, que não deve ter sido fácil a este PS, para encontrar um deputado capaz de subir à tribuna da Assembleia da República para perorar sobre nada, juntando uma lamentável vitória ao tempo lamentavelmente perdido para chegar a uma não menos lamentável vitória.

 

O Partido Socialista apalhaçado é aquele que consegue reunir, como hoje, três figuras que têm claramente em comum a sempre forte probabilidade de co-protagonizar as mesmas anedotas. A saber:

– Alberto Costa, o ex-ministro que um belo dia julgava que estava a ser conduzido para a Justiça sem perceber que estava a ser levado para a Administração Interna e que ficou tão furioso com isso que se zangou com os polícias depois de tê-los mandado investir contra cidadãos que protestavam;

– Vitalino Canas, o ex-porta-voz e ex-coisas-parecidas que já é muito grande para continuar a ser júnior e não se vislumbra que consiga um dia ser sénior porque nunca convence que já não é um júnior;

– Isabel Moreira, a jus-constitucionalista que, neste País de jus-constitucionalistas, só se distingue dos outros jus-constitucionalistas por falar invariavelmente do alto de uma cátedra que foi só ela que ergueu com as suas próprias mãos para seu uso exclusivo e também por se apresentar sempre despeitada e com cara de quem tem os salários em atraso.

Pois estas três figuras deste PS anedótico deram hoje nas vistas por se terem juntado a pedir ao Tribunal Constitucional que verifique a posteriori se os cortes de subsídios e quejandos são medidas constitucionais ou não. Querem eles dizer, no seu pensamento profundo e sem-mais-nem-para-quê, depois dos longos debates parlamentares que sabemos e nos quais nem demos por eles, que Portugal tem duas possibilidades: ou não passa cartão a este trio sem ideias, faz cortes e tenta recuperar, ou lhes dá razão e não faz cortes porque o País está constitucionalmente condenado a ser deitado ao mar sem botes e sem coletes salva-vidas.

 

É por estas e por outras de igual estilo que os socialistas, todos eles, de todos os Partidos Socialistas que temos, me deixam comovido. Fico quase sempre muito emocionado quando eles se mexem. Quando mexem os lábios, sobretudo.

Pontos nos is (8)


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MAÇONARIA

I

José Xavier Mouzinho da Silveira (1780–1849) matriculou-se em Outubro de 1797 na Faculdade de Direito de Coimbra, onde obteve o grau de bacharel cinco anos mais tarde e terminou a formatura com a classificação final de nemine discrepante a 10 de Julho de 1802.

Colaborou na resistência às Invasões Francesas e esteve colocado em Marvão, de onde foi tranferido para ser empossado como juiz de fora na então vila de Setúbal a 29 de Maio de 1813, lugar que manteve até 22 de Novembro de 1816.

«Sete anos mais tarde, o corregedor da comarca vai acusá-lo de ter propagado em Setúbal a seita dos “pedreiros-livres”, garantindo constar que até “estabelecera duas lojas deles, sendo um libertino de primeira ordem, e tão escandaloso que nunca ouvia aqui missa”. Sem dúvida, quando se fala do movimento liberal, a Maçonaria está necessariamente implícita e faz tempo que Mouzinho, no mínimo, se sente muito chegado aos maçons com quem costuma privar.» (O Supremo Tribunal de Justiça em Portugal: Dois Séculos e Quatro Regimes de Memórias; João Carvalho; STJ, 2003.)

Como se vê, mesmo sem ser líquido que Mouzinho da Silveira fosse já um maçon aos 30 anos, foi acusado de o ser, pois era um libertino que parece que nem ia à missa. Uma acusação proferida e posta a circular por um superior de Mouzinho, que se referia ao eventual comportamento dele sete anos antes.

II

Mouzinho foi uma figura de proa do Liberalismo e até do Portugal que temos hoje. A sua reforma administrativa era totalmente irrealista na dimensão, mas foi em frente com alterações insuficientes e ainda agora está por corrigir. Contudo, a sua construção de raiz de uma nova Justiça independente revelou um trabalho sem paralelo que ainda prevalece e que já então colocava Portugal entre os países mais avançados, segundo um regime com um sistema judicial que ainda é comum aos Estados civilizados.

Em suma: há coisas que a Maçonaria não pode tolher, como sejam a questão civilizacional que nos consome, a transparência do desempenho político, a ética na gestão dos assuntos públicos. Se assim não for, certas obediências, obscuras ou não, tornam-se incongruentes e destituídas de sentido, especialmente quando reclamam o seu altruísmo e os seus elevados valores.

Enquanto se trocam galhardetes ocos, convém recordar que o País fica a marcar passo em discussões menores e o tempo escasseia cada vez mais para os avanços imprescindíveis. Tenham juízo e tentem manter a cabeça levantada. Lembrem-se que Mouzinho foi um exemplo indiscutível de patriotismo, entrega e seriedade.

O único problema que actualmente se coloca entre quem exerce cargos e funções políticas de relevo é simples: estão a ser sérios ou não? Porque o facto é este: a exigência que todos fazemos não tem de estar incluída ou de vir a fazer parte de qualquer estatuto político. Pode incluir-se, sim, se fizerem muita questão disso, mas o que se quer de facto sempre fez parte de qualquer estatuto. Chama-se seriedade — e isso é obrigatório.

Quem concorda?


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Se o DELITO DE OPINIÃO tem sido bem sucedido nestes três anos, não há-de ser um disparate acreditar que a sua imagem gráfica contribuiu para essa boa receptividade. As alterações agora introduzidas podem ajudar a melhorar um pouco essa imagem, aqui e ali, mas não necessariamente em toda a sua extensão. Um dos detalhes é o fundo branco dos textos, que passou a ser igual ao dos outros todos e deixou de distinguir o DO. Sem qualquer maldade da minha parte, deixo-vos um desafio: quem concordar comigo a favor do tom avelhado geral anterior que ponha um braço no ar. Pode ser que volte tudo atrás no próximo aniversário.

Tenham todos um ano jeitoso


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De acordo com um velho calendário Maya de previsões, o ano que vai entrar não augura nada de bom. Porém, para mim, a civilização Maya é um logro. Maya é só uma cartomante e palpita-me que nem sequer adivinhou como garantir o seu próprio futuro sem ser a deitar cartas. Por isso, esqueçam as previsões e façam o seguinte: tentem que 2012 seja um ano mais ou menos jeitoso para todos. São os votos de felicidade que vos dirijo. A vossa sorte será a minha.

Tiques de ditadores


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Mais um “milagre” do Photoshop ao serviço dos ditadores: à esquerda, a foto do funeral de Kim que um free-lancer registou; à direita, a foto do mesmo momento e que as autoridades norte-coreanas distribuíram às agências noticiosas internacionais, depois de “restabelecida a ordem” por via do computador.

O processo é velho e conhecido, desde a era pré-Photoshop na União Soviética ao regime egípcio recentemente deposto. Estes retoques têm todos uma coisa em comum: são tiques que só lembram aos ditadores, que gostam sempre de experimentar se o poder os deixa apagar ou modificar a História.

Será o querido ditador?


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Não tenho a certeza, mas parece que esta foto não é do funeral do querido ditador norte-coreano. Se fosse, aquele ciclista refractário que acabou de fugir da coluna já estaria, no momento da foto, a ser mortalmente alvejado por um agente da autoridade em julgamento supersumário feito a olho.

Ainda assim, vou falar com o camarada Bernardino Soares para tirar dúvidas.

Ele que aprenda


jmmcc,

Diz o nosso João Campos aqui que diz o Daniel Oliveira no Expresso: «Não gostam da luta dos maquinistas? Aprendam a conduzir comboios.»

Ora, diz também o nosso João Campos — e diz muito bem — o seguinte: «No meu caso, e no caso de muita gente, não gostar da luta dos maquinistas (não é isso que está em causa, mas vá) não significa aprender a conduzir comboios (mesmo que o quisesse fazer, quem seria despedido para eu ter trabalho?), mas sim ser forçado a optar por transportadoras rodoviárias privadas.» E acrescenta que, «mais dia menos dia, com mais greve e menos comboio, a CP estoira de vez, e os maquinistas — estes mesmos que boicotaram o Natal de milhares de pessoas e que passaram 2011 a transtornar a vida a milhões — ficam desempregados».

O prognóstico é muito aceitável para uma mente linear. Já para o Daniel Oliveira talvez não seja, porque dá-se o caso de tudo isto resultar da actual gestão política do Estado, que ele parece que não aprecia muito.

Mas não faz mal. O Daniel não gosta da gestão do Estado? Ele que aprenda a fazer-se eleger para conduzir o país. Palpita-me que eu aprenderei muito mais depressa a conduzir comboios.

A serponte


jmmcc,

 

Se fizer ponte nesta quadra e for viajar, aproveite bem porque as pontes estão em vias de extinção. Se passar por esta ponte, conte-nos a experiência. Não há que enganar: tem forma de serpente. É uma serponte.