Música recente (125)


escafandro,

Cloakroom, álbum Time Well.

A desilusão e a cólera dos norte-americanos do Midwest têm sido alvo de análises, incompreensões e ataques variados. Sem as mencionar explicitamente, o segundo álbum deste trio de Michigan City, Indiana, parece querer ajudar a explicá-las, montando paisagens sonoras onde os momentos de beleza exsudam angústia e raiva, onde a paz (há momentos em que quase se vêem as nuvens a percorrer o céu) se mistura com o medo e onde a nostalgia é – como sempre – uma prisão e um conforto.

Música recente (123)


escafandro,

Dale Crover, álbum The Fickle Finger of Fate.

O baterista dos Melvins apresenta um conjunto de 20 temas – muitos dos quais apenas esboços sonoros com menos de 60 segundos – em que a faceta heavy se deixa contagiar por uma sensibilidade pop – e também por pura extravagância. Honestamente, tão depressa parece genial como absurdo. Mas – ei – ainda estamos na silly season, não é verdade?

Música recente (121)


escafandro,

Randy Newman, álbum Dark Matter.

Aos setenta e três anos de idade, quarenta e nove após lançar o primeiro álbum, Newman – ultimamente mais dedicado a bandas sonoras para a Pixar e similares – relata encontros póstumos entre Sonny Boy Williamson e Aleck Miller (AKA Sonny Boy Williamson II), organiza debates entre ciência e fé, imagina os Kennedy a planear a invasão da Baía dos Porcos, pondera a razão por que foi escolhido pela mais bela mulher que alguma vez encontrou e delicia-se a satirizar Vladimir Putin.

 

Diário semifictício de insignificâncias (30)


escafandro,

Pombos (2).jpg

Na A1, entre as portagens de Grijó e a saída de Santa Maria da Feira, dois pombos atravessam-se-me à frente do carro. Quase não travo (julgo também não ser boa ideia travar a fundo em auto-estrada). Ocorrem dois impactos mas não percebo bem em que zona (admito que possa ter fechado os olhos durante uma fracção de segundo). Instintivamente, olho para o retrovisor, à espera de ver os pombos rodopiar no ar. Nada. O carro que vinha umas dezenas de metros atrás de mim continua lá, quiçá um pouco mais distante (o condutor terá travado mais do que eu). Na parte superior do pára-brisas há uma mancha, mas nenhum dano visível. Prossigo. Depois de sair da auto-estrada paro e vou analisar os estragos. Na parte da frente do capot há sangue, no emblema vestígios de penas. O rebordo do capot tem um vinco (merda). Já o pára-brisas encontra-se intacto e o tejadilho, acima dele, parece também apenas sujo. Pergunto-me se terei atingido ambos os pombos (pelo menos evitar-se-ia a tristeza de um ter que viver sem o outro) ou se as marcas na zona superior do carro decorrerão de um segundo impacto com o mesmo.

Olho para o carro imundo e não consigo evitar pensar em todas as outras vezes que pombos o sujaram. Pelo menos desta vez não se ficaram a rir. Ainda assim, não fossem elas maiores e mais pesadas – logo, capazes de provocar mais estragos -, teria preferido acertar em gaivotas, minhas inimigas figadais.

Nunca atropelara pombos. Insectos, mato milhares todos os anos com impunidade total (nem o PAN parece ligar). Há quase vinte anos matei um cão que, numa estrada secundária, saiu a correr de um pinhal (era um rafeiro com ar simpático e na altura fiquei com um nó no estômago, mas quando vi a conta da reparação roguei-lhe meia dúzia de pragas). Pombos, nunca acontecera. Suponho que, nestes tempos politicamente correctos, será inadequado pintar dois risquinhos verticais na lateral do carro, junto ao retrovisor. (Nunca o faria.)

Pombos_contagem (2).jpg

Ainda não lavei as manchas. Desagrada-me ver lá o sangue, mas parece-me ter uma faceta positiva. Nas ruas da cidade, ao verem-me chegar, os peões ficam muito mais cuidadosos.

Música recente (120)


escafandro,

Nine Inch Nails, EPs Not The Actual Events e Add Violence.

Há temas dos Nine Inch Nails que me são perigosos. Mr. Self Destruct, abertura do seminal The Downward Spiral, invade as convoluções do meu cérebro como uma droga extraída do pólen de uma planta carnívora. Sob a sua influência, receio mutilar-me com todo o prazer ou – alerta aos guardiães do politicamente correcto – começar a destruir propriedade pública. The Perfect Drug, da banda sonora de The Lost Highway, levou-me a fazer algo que raramente faço: comprar uma banda sonora (há por lá outras coisas boas). Aos longos dos anos, a raiva depressiva de Trent Reznor apresentou flutuações. Nestes dois EPs (um lançado há meses, o outro há um par de semanas), surge razoavelmente intensa – e variada: os dez temas (cinco por EP) incluem momentos de tensão reprimida e momentos de catarse. No que me diz respeito, é capaz de ser boa ideia ir ao YouTube assistir a vídeos de gatinhos.

Música recente (119)


escafandro,

Manchester Orchestra, álbum A Black Mile to the Surface.

Num registo mais intimista do que em trabalhos passados (ainda que por vezes as guitarras subam de tom), cheio de temas complexos e bem escritos (ainda que por vezes não inteiramente originais), A Black Mile to the Surface prova que os Manchester Orchestra, nascidos há 13 anos, mereciam uma audiência maior.

Música recente (118)


escafandro,

Arcade Fire, álbum Everything Now. 

Ora bem. Humm… Há excelentes momentos em Everything Now. A sério. Momentos, no plural. Ainda assim… Em 2005, por alturas de Funeral, os Arcade Fire misturavam sons de forma simultaneamente exuberante e melancólica, mantendo, por entre referências ao passado, vontade de experimentar coisas novas. Já se notava pose, mas ficava submersa no caleidoscópio que a música – e a presença em palco – assegurava. Em 2017, as coisas estão um tudo-nadinha diferentes. A pose aumentou e a sonoridade fechou-se. Aqui e ali, Everything Now parece uma colaboração – bem feitinha e empenhada, sem dúvida – entre os Abba e os Bee Gees, destinada a concorrer ao Festival da Eurovisão (na versão pop-disco dos anos 70, não na versão indie-emo-nerd que tanta alegria deu aos portugueses em 2017). Se não acreditam, verifiquem o tema que dá título ao álbum (nem arranjei coragem para inserir aqui o vídeo). Ora os Abba e os Bee Gees, excelentes como eram a debitar melodias orelhudas, não estão no Top 10 das minhas bandas favoritas. Nem no Top 20. Nem no Top 100. Pelo que… Mas Everything Now tem coisas boas. Mesmo. Só não é – como Will e Régine pareciam pretender – uma crítica aos tempos actuais, de emoções formatadas e reacções instantâneas. Nem sequer uma crítica irónica. Na sua (involuntária) superficialidade, acaba a parecer celebrá-los.

Música recente (117)


escafandro,

Japanese Breakfast, álbum Soft Sounds from Another Planet.

Em 2013, Michelle Zauner, vocalista da banda Little Big League, regressou a casa, no Oregon, para tratar da mãe, doente com cancro. O projecto Japanese Breakfast nasceu dos temas então compostos, mas Psychopomp, o primeiro álbum, foi apenas lançado em 2016, já após a morte da mãe. O álbum tinha uma sonoridade lo-fi e misturava ritmos e emoções, fugindo – assumidamente – a sentimentalismos excessivos. Soft Sounds from Another Planet é a evolução lógica: menos lo-fi, mais trabalho de estúdio; menos ligações a um acontecimento específico, mais projecto em fase de amadurecimento.

Música recente (116)


escafandro,

Terry, álbum Remember Terry.

O segundo álbum do quarteto australiano apresenta mais uma mistura de pop, indie e psicadelismo, em modo low-fi. São canções que poderiam ser cantadas à volta de uma fogueira no meio de lugar nenhum – se à volta de uma fogueira no meio de lugar nenhum fosse fácil arranjar electricidade.

 

(Não, não percebo o vídeo. Juro que, pelo menos da minha parte, não é publicidade encapotada.)

Música recente (115)


escafandro,

Haim, álbum Something to Tell You.

Há inteligência e bom gosto na música das Haim, mas confesso um problema com a maioria dos temas: gosto imenso deles durante o primeiro minuto, um pouco menos no decorrer do segundo, tenho fortes dúvidas no terceiro e já não os suporto ao quarto. A tendência das manas para repetirem refrões ad nauseum, em ritmo e/ou oitava ligeiramente diferente, terá algo a ver com o assunto. Ou então o defeito é meu.