Diário semifictício de insignificâncias (30)


escafandro,

Pombos (2).jpg

Na A1, entre as portagens de Grijó e a saída de Santa Maria da Feira, dois pombos atravessam-se-me à frente do carro. Quase não travo (julgo também não ser boa ideia travar a fundo em auto-estrada). Ocorrem dois impactos mas não percebo bem em que zona (admito que possa ter fechado os olhos durante uma fracção de segundo). Instintivamente, olho para o retrovisor, à espera de ver os pombos rodopiar no ar. Nada. O carro que vinha umas dezenas de metros atrás de mim continua lá, quiçá um pouco mais distante (o condutor terá travado mais do que eu). Na parte superior do pára-brisas há uma mancha, mas nenhum dano visível. Prossigo. Depois de sair da auto-estrada paro e vou analisar os estragos. Na parte da frente do capot há sangue, no emblema vestígios de penas. O rebordo do capot tem um vinco (merda). Já o pára-brisas encontra-se intacto e o tejadilho, acima dele, parece também apenas sujo. Pergunto-me se terei atingido ambos os pombos (pelo menos evitar-se-ia a tristeza de um ter que viver sem o outro) ou se as marcas na zona superior do carro decorrerão de um segundo impacto com o mesmo.

Olho para o carro imundo e não consigo evitar pensar em todas as outras vezes que pombos o sujaram. Pelo menos desta vez não se ficaram a rir. Ainda assim, não fossem elas maiores e mais pesadas – logo, capazes de provocar mais estragos -, teria preferido acertar em gaivotas, minhas inimigas figadais.

Nunca atropelara pombos. Insectos, mato milhares todos os anos com impunidade total (nem o PAN parece ligar). Há quase vinte anos matei um cão que, numa estrada secundária, saiu a correr de um pinhal (era um rafeiro com ar simpático e na altura fiquei com um nó no estômago, mas quando vi a conta da reparação roguei-lhe meia dúzia de pragas). Pombos, nunca acontecera. Suponho que, nestes tempos politicamente correctos, será inadequado pintar dois risquinhos verticais na lateral do carro, junto ao retrovisor. (Nunca o faria.)

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Ainda não lavei as manchas. Desagrada-me ver lá o sangue, mas parece-me ter uma faceta positiva. Nas ruas da cidade, ao verem-me chegar, os peões ficam muito mais cuidadosos.

3 comentários em “Diário semifictício de insignificâncias (30)”

  1. Vê, brincou, enquanto conduziu, aos deuses. Também eles, com as suas Fúrias, nos esboracham ao acaso, quando o não fazem para passarem o tempo.

  2. Isso é mesmo uma atracção fatal para chacinar animais e, pelos vistos, nem pelo tamanho escapam. Mas se os mata, devia ser obrigado a comê-los porque isto da sustentabilidade do Planeta, parece implicar o não desperdício e, pelo que dizem, deles todos, os insectos são os mais nutritivos.

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