Música recente (113)


escafandro,

Broken Social Scene, álbum Hug of Thunder.

Há meia dúzia de anos, na Sala 2 da Casa da Música, rodeado por cerca de uma dezena de companheiros, entre os quais uma Lisa Lobsinger loura, descalça, ligeiramente imaterial (o meu cérebro já não é o que era, mas há visões indeléveis), Kevin Drew, vocalista principal e centro de gravidade dos Broken Social Scene, descobriu que as calças o apertavam. Sem hesitar, despiu-as e fez grande parte do concerto em boxers (cinzentos). Como outras bandas canadianas que enchem o palco de gente e de som – The New Pornographers, Arcade Fire dos primeiros tempos -, os Broken Social Scene são uma demonstração de harmonia nascida das diferenças – ou mesmo do caos aparente: há instantes em que a unidade da música parece ir desintegrar-se, mas tal nunca sucede. No álbum que lançaram há exactamente uma semana – o primeiro após a digressão que passou pela Casa da Música -, colaboraram 15 elementos, entre os quais Leslie Feist (yay). Hug of Thunder terá menos instantes de caos controlado do que outros trabalhos, mas, na luta contra o desânimo que sempre constituiu a coluna dorsal da sonoridade dos BSS, trata-se de um marco fundamental. Aos lamentos e protestos (em Protest Song, admite-se que We’re just the latest in the longest rank and file that’s ever to exist in the history of the protest song), sobrepõe-se a noção de que é necessário redireccionar os interesses das pessoas e reforçar o conceito de comunidade. Sem deprimir ou moralizar, antes incentivando e dando esperança: os maus tempos hão-de passar.

 

(Adenda: o tema que dá título ao álbum – vídeo abaixo – é desde já uma das minhas canções do ano.)

Diário semifictício de insignificâncias (29)


escafandro,

Encontro o meu velho Sony Ericsson no fundo de uma gaveta. Pego nele, revolvo-o nas mãos. É do final da época em que os fabricantes procuravam tornar os telemóveis do tamanho de cartões de crédito. Dos tempos em que os telemóveis ainda não eram computadores e, mesmo sendo já capazes de tirar fotografias, ninguém os confundia com máquinas fotográficas.

Procuro ligá-lo, sem sucesso. No mínimo, tem a bateria descarregada. Devia deitá-lo fora. Só ocupa espaço – embora pouco (muito pouco).

Lembro-me do prazer que tive ao comprá-lo. Um objecto tão pequeno e fino, impante na sua miniaturização, nas capacidades de ler ficheiros MP3 e de tirar fotos com 2 megapixeis de resolução. Uma espécie de chihuahua particulamente dotado e orgulhoso de o ser. Claro, o orgulho era meu – como o dos chihuahuas também é frequentemente mais dos donos. Três anos depois, acabou relegado para o fundo de uma gaveta.

Ansia-se por objectos. Brinquedos electrónicos no caso dos homens, roupa e sapatos no caso das mulheres. Extrai-se deles o prazer que nem sempre se consegue obter por outra via – pela leitura, pela música, pelo cinema, pela arte, pelo contacto com outros humanos. Consideram-se fundamentais durante uns tempos, depois atiram-se para o lixo. Os caixotes do lixo são depósitos de sonhos cuja validade expirou. Ainda que – como é habitual nos sonhos – possam vir a ser reciclados.

Interrompo as digressões mentais e digo-me novamente que devia deitá-lo fora. Contudo, volto a enfiá-lo na gaveta. Ocupa tão pouco espaço.

Música recente (112)


escafandro,

Os Quatro e Meia, álbum Pontos nos Is.

Houve cá na casa quem os tivesse descoberto há perto de um ano; contudo, apenas no final do mês passado ficou disponível o primeiro álbum d’Os Quatro e Meia (o nome advém da circunstância, bastante digna de registo, de um elemento da formação original ser significativamente mais baixo do que os outros quatro). Este tema parece-me muito adequado ao Verão, mas receio que o vídeo cause problemas ao tal meu colega de blogue (perdoa-lhes, Diogo: eles descobriram os óculos de sol e as miúdas com peito avantajado.)

Diário semifictício de insignificâncias (27)


escafandro,

Escrevo «abraços e beijinhos» (o mail é para pessoas de ambos os sexos e «cumprimentos» seria demasiado impessoal), mas depois fico a matutar que não tem muita lógica. Beijinhos entre homens são menos comuns e mais íntimos do que abraços. Já um homem beijar uma mulher na face pode ser algo impessoal, mas abraçá-la exige um grau mínimo de intimidade.

Talvez fosse mais lógico escrever «Abraços e/ou beijinhos», deixando ao receptor da mensagem a liberdade da escolha, que poderia ser realizada em função do apreço que lhe merece o despachante. Infelizmente, permaneceriam ainda de fora aqueles elementos do grupo em relação aos quais o que apetece mesmo é enviar um insulto. Ou talvez não: «abraços e/ou beijinhos» funciona igualmente enquanto expressão de um voto (como «felicidades» ou «boa sorte») e o receptor nunca saberá onde se deseja que ele ou ela pouse os lábios.

Música recente (110)


escafandro,

Cigarettes After Sex, álbum Cigarettes After Sex.

A sonoridade adequar-se-á mais às noites de Inverno, e ouvir os dez temas de seguida pode revelar-se uma experiência repetitiva, mas existe muito que apreciar no primeiro álbum da banda de Greg Gonzalez, nascida em El Paso em 2008 e tornada conhecida através da Internet. Para os não fumadores (como eu), a languidez da música e imagens como kisses on the foreheads of the lovers wrapped in your arms são mais do que suficientes para apreender o espírito da coisa.

Diário semifictício de insignificâncias (26)


escafandro,

Confesso que fiquei a observar durante um par de minutos. Nem sequer é preciso entrar, basta permanecer junto à porta ou na zona de transição entre secções. Em tempos, o Gato Fedorento garantia que em Ermesinde era possível encontrar «gajas boas». Incapaz de confirmar ou de desmentir, sei, contudo, onde encontrar «gajas» em elevado grau de excitação: nos saldos da Zara.

Um retrato da falência moral do país político (e jornalístico)


escafandro,

Ontem, porém, houve luz na escuridão. O provedor da Misericórdia de Pedrogão Grande induziu Passos Coelho num lapso, de que o líder do PSD decidiu pedir desculpa. Foi a alegria do costismo. Era a sorte outra vez. Mas talvez o sarcasmo do regime tenha desta vez ficado demasiado patente: é que tivemos desculpas do líder da oposição por um pequeno comentário, mas nem uma palavra de contrição do governo pela incompetência e descontrole que mataram 64 pessoas e deixaram mais de 200 feridas.

Rui Ramos, no Observador.

Blogue da semana


escafandro,

Cães e gatos em estilo samurai (o meu horror só é igualado pelo meu fascínio). Um «Restaurante dos Pedidos Errados», onde o cliente pode solicitar hambúrguer e receber bolinhos, dado os funcionários sofrerem de demência (a prova de que é possível ser-se politicamente correcto e politicamente incorrecto ao mesmo tempo). Uma igreja com um metro e trinta e cinco centímetros de largura por quarenta e cinco metros de altura (atenção aos ventos laterais). Fotografias nocturnas de máquinas de venda automática (pelos vistos, há uma por cada 23 habitantes). Um serviço de despertar executado por pescadores (em Caxinas, incluiria certamente linguagem colorida). Pop gloriosamente dançável acerca da indispensabilidade de dançar (um pé-de-chumbo como eu sente-se a desperdiçar a vida). Sapatos de senhora em imitação de pombo (já não basta os cães roçarem-se nas pernas…). E ainda: origami, decoração de bolachinhas, ambigramas, esculturas na areia, lounges de aeroporto, suportes de bicicleta em forma de bicicleta, manga, jardins, refeições em miniatura, livros que permitem a bebés andar às cavalitas de tartarugas, métodos de aprendizagem à base de cocó.

O Japão é um lugar estranho e o Spoon & Tamago é o blogue da semana.

 

Música recente (106)


escafandro,

Lorde, álbum Melodrama.

Uma surpresa aos dezassete anos de idade, uma confirmação aos vinte. Na música como noutras artes, há imensa gente tentando descrever as ansiedades, as raivas e as desilusões experimentadas no final da adolescência e na transição para a idade adulta. Lorde está entre as pessoas que melhor o conseguem fazer. Melodrama é um álbum mais maduro do que Pure Heroine. Isto torna-o menos surpreendente, mas também mais completo. Ao longo dos 11 temas, passa-se da descoberta à reclusão, da alegria à tristeza, da irreverência à decepção, sem quaisquer indícios do histrionismo que o título poderia deixar antever.