Música recente (102)


escafandro,

Pumarosa, álbum The Witch. 

Passando sobre algumas letras em registo new age, trata-se de um primeiro álbum surpreendentemente maduro. Detalhe revelador: vários temas prolongam-se para além dos seis minutos, uma raridade em época de atenção fragmentada, um risco que poucas bandas novas se atreveriam a correr. Os resultados são excelentes, como se pode constatar no vídeo abaixo, de um tema avançado pela primeira vez em 2015 (que o álbum tenha demorado tanto tempo a chegar só pode constituir um sinal de perfeccionismo).

 

Música recente (99)


escafandro,

The Mountain Goats, álbum Goths.

Os Mountain Goats são basicamente John Darnielle, que, desde 1994, já lançou 16 álbuns. Vários abordam recordações da juventude, mais ou menos ficcionadas. Goths contém uma série de histórias sobre inadaptados tentando encontrar um lugar no panorama gótico das décadas de 1980 e 1990. O décimo primeiro tema intitula-se For The Portuguese Goth Metal Bands. Mesmo prestando atenção à letra, ainda não entendi bem porquê.

Música recente (97)


escafandro,

Slowdive, álbum Slowdive.

Os ingleses Slowdive surgiram em 1989 e lançaram o primeiro álbum em 1991. Por esta altura haviam sido enquadrados no movimento shoegaze, já a passar de moda. Os três álbuns lançados até 1995 tiveram vendas modestas e foram recebidos com frieza pela crítica. A banda entrou em hibernação. Reanimada em 2014 (um dos primeiros concertos ocorreu no Festival Primavera Sounds, do Porto), lançou um novo álbum há um par de semanas. É constituído por oito temas dominados pelo registo langoroso, de suspensão ou queda lenta (poucas bandas terão um nome mais adequado), que caracteriza o estilo, mas apresenta um nível de bom gosto inegável e toques inesperados (inflexões na música e/ou na voz) que afastam quaisquer ameaças de monotonia.

Música recente (96)


escafandro,

Sylvan Esso, álbum What Now.

Os Sylvan Esso foram uma das melhores descobertas que fiz em 2014. Ao segundo álbum, Amelia Meath e Nick Sanborn mantêm a peculiaridade dos ritmos e reforçam a dose de ironia – como se pode constatar nos temas destes dois vídeos: a protagonista de Die Young vê o amor estragar-lhe os planos de morrer jovem, talvez num incêndio ou despenhando-se por uma ravina, e de levar as pessoas a chorar: “Que tragédia, tão cedo”; Radio, por seu turno, é uma crítica feroz ao mundo das pop stars que debitam temas radio-friendly com três minutos e meio de duração, embrulhada em exactamente três minutos e trinta e dois segundos de pop gloriosa.

Música recente (95)


escafandro,

Thurston Moore, álbum Rock N Roll Consciousness.

Cinco temas, o mais curto com seis minutos (no vídeo, surge amputado), o mais longo com quase doze, dos quais sete e tal puramente instrumentais. Por vezes faz pensar nas barragens de som que os Sonic Youth (de que Moore fazia parte) emitiam nos concertos ao vivo, outras vezes remete para um registo mais zen (ou talvez hippie).

Música recente (94)


escafandro,

Juliana Hatfield, álbum Pussycat.

Politicamente, Donald Trump é um oportunista. Acima de tudo, quer «ganhar», pouco lhe importando como o faz ou com que políticas o faz. Duas facetas, porém, mantêm-se nele constantes: o narcisismo e o machismo. Juliana Hatfield está particularmente interessada nestes aspectos. Em Outubro passado, na sequência da divulgação do vídeo do autocarro, no qual Trump se gabava de, sendo uma celebridade, poder agarrar as mulheres «by the pussy», escreveu um artigo acerca do tema. Agora faz dele o âmago de Pussycat. Há golpes fáceis, ainda que compreensíveis (Short-Fingered Man), há referências a personagens secundárias (Kellyanne), há ironia feroz (Sex Machine, Rhinoceros), há derivações que alargam o âmbito muito para além de Trump (Touch You Again), mas, acima de tudo, há nojo e franqueza, num trabalho simples e directo, gravado em duas semanas, em que Juliana apenas não tocou bateria. A existir uma falha, poderá encontrar-se na doçura e no optimismo que, apesar de tudo, perpassam várias melodias (e.g., Sunny Somewhere) e, quase sempre, a voz. Mas um registo constantemente áspero e zangado (assumindo que a voz de Hatfield o conseguiria atingir) teria provavelmente tornado o álbum demasiado óbvio e unidimensional. Mesmo na crítica, convém preservar um grau de subtileza superior ao do objecto criticado.

 

(Nota: A versão do álbum não é acústica.)

 

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Dois excertos do artigo que Juliana escreveu em Outubro, para quem não estiver disposto a seguir o link acima:

 

But it’s not funny anymore. Since the Trump “pussy grab” tapes were released, I’ve found myself wanting to reach for my emergency supply of valium, which I keep mainly for plane travel to ease my visceral fear of flying. These viscera of mine are currently in a state of constant high anxiety. It’s the Trump effect: the sight of his face and/or the sound of his voice tightens the stomach, the heart, the sphincter. Everything’s clenched. Even — maybe especially — the “pussy.”

 

The venom-spewing from and around Trump is a black cloud hovering over this country. Trump has re-opened the emotional wounds of millions of people. It’s his special talent, apart from self-propagandizing and con-artistry. He stirs up bitterness, hatred, anger; he brings out the worst in people. He does it to people on both sides — all sides. There’s bile all around.

 

(…)

 

This is Trump’s frightening, dangerous power — he reminds us of the worst of human nature: the sexism and misogyny, the racism and bigotry, the blood lust, violence, vengefulness and cruelty. It’s sickening to observe the glee with which some people are letting it all out, spurred on and inflamed by Trump, like they’ve been waiting all their lives for this — for their opportunity to finally unleash their snarling dogs on everyone and everything they hate with a spitting, drooling, vomitous passion.

Música recente (93)


escafandro,

Gorillaz, álbum Humanz.

Os Gorillaz foram não apenas uma excelente ideia em termos de marketing como uma forma de Damon Albarn se apoiar em convidados para dar novas roupagens ao seu pessimismo. Humanz não traz novidades substanciais (basicamente, propõe música para uma última festa antes do fim do mundo), mas leva a colaboração a um ponto talvez excessivo: os convidados definem de tal modo o som dos temas em que participam que a coesão global acaba ligeiramente prejudicada. Seja como for, entre os catorze temas da versão normal do álbum ou os dezanove da versão especial (em ambos os casos, já retirados intro e interlúdios), será difícil alguém não encontrar pelo menos meia dúzia que lhe agradem.

Música recente (92)


escafandro,

Feist, álbum Pleasure.

Ao contrário do que parece suceder na maioria dos casos, a idade tem trazido inconformismo e variedade à música de Feist. Em Metals já se notava, mas a fuga às melodias pop que fizeram a fama e o sucesso de Let It Die e The Reminder torna-se ainda mais óbvia em Pleasure. Marcando uma aproximação à sonoridade de gente como PJ Harvey, não é um álbum para avaliar após uma única audição nem para usar como música de fundo.