Música recente (90)


escafandro,

Karen Elson, álbum Double Roses.

Há sete anos, quando lançou The Ghost Who Walks, Elson encontrava-se casada com Jack White. O álbum era excelente, mas permitia a dúvida, inevitável no caso de primeiros trabalhos de gente cujos parceiros têm carreira firmada, de saber até que ponto essa qualidade se lhe devia exclusivamente (ainda por cima, White fora o produtor). Incluindo canções um tudo-nada menos teatrais e colaborações tão discretas que é fácil não as detectar (em Distante Shore, a voz longínqua e esperançosa pertence a Laura Marling), Double Roses mostra que Elson não precisa de ter White por perto.

 

(O tema Wonder Blind, ao vivo.) 

Diário semifictício de insignificâncias (24)


escafandro,

Continuo um leitor compulsivo de t-shirts. Devia parar. Um dia destes arranjo problemas. É quase impossível ler as frases mais compridas das t-shirts femininas (chegam a parecer volumes do Guerra e Paz) sem dar ideia de estar a obervar as mamas das utilizadoras.

Voltei a pensar nisto por causa de uma rapariga com quem me cruzei no passeio. Vestia uma t-shirt preta com as palavras Can’t touch this. Em mais um sinal de que nasci há demasiado tempo, primeiro lembrei-me de MC Hammer. Quase me pus a cantarolar o tema. Só depois ponderei se a rapariga usaria a t-shirt em modo de desafio ligeiramente parvo, confiante na capacidade de atracção dos seus atributos, se em jeito de pedido quase desesperado de atenção. A verdade é que, sem aquela t-shirt, eu jamais pensaria em tocar-lhe (desculpa, OK?). Ainda assim, espero que o motivo fosse excesso de confiança. Fora dos campos da ciência, da economia e da política, há ilusões benignas.

Mélenchon ou o populismo que não costuma receber tal designação


escafandro,

Simpatia para com Putin. Desejo de aderir à Aliança Bolivariana, onde pontificam regimes como o de Cuba e o da Venezuela. Abandonar a NATO. Alterar os tratados que regem o euro. Estabelecer um «novo papel» para o BCE. «Libertar» as finanças públicas das «garras» dos mercados financeiros. Criar um «Fundo Europeu de Desenvolvimento Social» para a «expansão dos serviços públicos, do emprego e das qualificações». Aumentar o salário mínimo em 15% (para os 1700 euros). Fixar o tempo de trabalho nas 35 horas semanais e limitar as horas extraordinárias («sob controlo de representantes dos trabalhadores»). Instaurar tectos salariais. Aumentar o poder dos trabalhadores nas empresas e dos cidadãos nas instituições bancárias. Fixar a idade da reforma nos 60 anos, com pagamento integral das pensões. Integrar 800 mil precários na Função Pública. Implementar um plano contra a «especulação imobiliária». Congelar as rendas. Construir 200 mil habitações sociais. Criar um «estatuto social» para os jovens, remunerando-os em situações como a procura do primeiro emprego. Nacionalizar empresas, com enfoque nas do sector sector energético (e.g., Total). Criar «pólos» públicos de produção em vários sectores (energia, banca, medicamentos, …).

E por aí fora.

Música recente (89)


escafandro,

 

 Kendrick Lamar, álbum Damn.

 

 This may be hard to believe, coming from a black man, but I’ve never stolen anything. Never cheated on my taxes or at cards. Never snuck into the movies or failed to give back the extra change to a drugstore cashier indifferent to the ways of mercantilism and minimum-wage expectations. I’ve never burgled a house. Held up a liquor store. Never boarded a crowded bus or subway car, sat in the seat reserved for the elderly, pulled out my gigantic penis and masturbated to satisfaction with a perverted, yet somehow crestfallen, look on my face.

 

As frases acima não são de Kendrick Lamar. Constituem o início do livro The Sellout, de Paul Beatty, vencedor do Man Booker 2016. The Sellout é uma sátira. Aponta os problemas recorrendo ao exagero e ao ridículo. As mensagens, a estética (as poses) do hip-hop costumam ser interpretadas literalmente. Por vezes, é esta a intenção dos autores; por vezes, trata-se de distorção por parte de quem ouve (falta de capacidade de encaixe, digamos). As posições extremam-se quando a mensagem é – ou parece ser – simplista. Considere-se um exemplo típico: denunciar a violência policial sobre a comunidade negra – tema não apenas recorrente mas inevitável – exige genuinidade e que se ultrapassem as simples ameaças de retaliação; caso contrário, as críticas serão naturais e justas. O primeiro aspecto sofre quase sempre que um cantor atinge o sucesso: em gente rica, canções sobre dificuldades e discriminação soam a falso (hoje, Kanye é basicamente uma Kardashian). O segundo exige capacidade para sublimar o assunto através de formas como as que Paul Beatty utiliza magistralmente. Isto é, exige capacidade artística.

 

Kendrick Lamar tem conseguido manter um equilíbrio assinalável entre todos estes aspectos. Sonicamente, Damn é menos variado do que To Pimp a Butterfly. Ainda assim, contém momentos jazzy (Lust), colaborações inesperadas (os U2, em XXX) e subtilezas que apenas se detectam em auscultadores ou em bons sistemas de som. Evita as frases orelhudas, as declarações bombásticas e inclui momentos de ironia (por vezes, raivosa) não negligenciáveis: vejam-se as letras de Humble ou de DNA. E será também de referir que Lamar permanece um rapper do caraças, capaz de debitar palavras a um ritmo e com uma dicção fenomenais. 

 

Música recente (88)


escafandro,

The Gift, álbum Altar.

Apesar de sempre ter existido nos The Gift uma propensão para a grandiloquência, gostei bastante dos primeiros três álbuns que lançaram. Mas depois vieram o projecto Amália Hoje e o álbum Explode, e eles tornaram-se-me insuportáveis – até à semana passada. A produção de Altar esteve a cargo de Brian Eno. Podia ser apenas uma forma de, mais uma vez, a banda procurar uma audiência internacional (ambição nunca lhe faltou), mas Eno tem ideias demasiado fortes para se limitar a fazer figura de corpo presente. A voz de Sónia Tavares está lá, as teclas e os sintetizadores de Nuno Gonçalves também, mas, tirando um outro deslize, encontram-se bastante mais domados. Love without violins (excelente título) pode mesmo ser um dos melhores temas que os The Gift já criaram (o vídeo está aqui, mas o YouTube exige autenticação para acesso à versão não-censurada).

Pensamento da semana


escafandro,

Em semana pascal, há um milagre que crentes, ateus e agnósticos podem partilhar: mais pão faz emagrecer monstros, menos investimento drena pântanos, retórica lava mãos que constroem bancarrotas, políticas de sempre detêm espirais recessivas e ressuscitam países para a felicidade eterna.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Música recente (86)


escafandro,

The New Pornographers, álbum Whiteout Conditions.

 Pode tomar-se a música dos The New Pornographers como pop simples e despretensiosa. Mas também pode dedicar-se-lhe um pouquinho mais de atenção e perceber-se a sua inteligência. Trata-se de pop lida e viajada, que usa a aparente inconsequência da pop como mecanismo de sublimação e ironia.

 

(Coisas giras do politicamente correcto: entrem na Amazon inglesa, francesa ou alemã; comecem a escrever «The New Pornographers» na caixa de pesquisa; reparem como, à medida que digitam letras, vão aparecendo e desaparecendo sugestões sem que alguma vez «The New Pornographers» esteja entre elas; notem como, a partir de «The New Porn», as sugestões desaparecem; terminem de escrever; façam Enter; percebam como existem afinal tantos resultados.)

A fotografia


escafandro,

As paredes são imaculadamente brancas, mas uma escuridão densa domina as fotografias. Ruas, edifícios, água, céu — mesmo roupa e faces são escuras na maioria delas. Suspensas por fios quase invisíveis, iluminadas por luz difusa, as fotografias parecem buracos no tempo para um passado há muito desaparecido e, todavia, estranhamente familiar.

As portas foram abertas há poucos minutos e, de momento, parece que apenas os guardas se encontram no interior do museu. Fui dos primeiros visitantes a entrar. Não tenho plano definido, nenhuma foto que deseje especialmente ver. Passeio pelas salas vazias, parando defronte de cada imagem durante alguns segundos, um pouco mais quando me captam a atenção. A maioria mostra gente anónima, em ruas de cidade ou campos de cultivo. Há também uns quantos retratos de homens e mulheres que a passagem de várias décadas ainda não apagou totalmente da memória colectiva: actores de filmes a preto e branco, um par de escritores, meia dúzia de políticos. Reconhecer estas pessoas gera um instante de prazer, como se as fotos fizessem o espectador relembrar colegas de escola há muito perdidos de vista. E, no entanto, a satisfação que se sente ao identificar estas pessoas é insignificante quando comparada com a obtida ao apreciar a maioria das restantes. Mostram gente anónima executando as suas tarefas diárias, gozando momentos de descontracção ou posando para as fotos de forma tão consciente que só a atitude diz imenso sobre o tempo e o local em que as fotografias foram tiradas. Sem saber bem porquê, aprecio especialmente a imagem de uma rapariga gorducha rindo por trás de uma bancada de fruta. Desconhecendo a razão por que ri, é impossível não sentir ternura. Não sorrir. Não invejar o momento.

Para além das fotografias com pessoas estão expostas algumas paisagens urbanas. Belas mas negras e opressivas. Como se o fotógrafo não tivesse conseguido descobrir calor sem a presença humana.

Tenho uma câmara comigo. É permitido fotografar no interior do museu, desde que não se utilize flash. Isso não me causa problemas. Não gosto de flash. Nunca inseri um na sapata da pequena Leica M6 com quinze anos de idade e milhares de fotos tiradas que trago comigo. A superfície está pejada de riscos e a tinta preta foi-lhe abandonando as arestas. Tem neste momento encaixada uma objectiva de 50 mm. Dentro de um minúsculo saco que trago pendurado no ombro direito tenho outra objectiva, de 35 mm, e dois rolos de filme: um a cores de 800 ISO, o outro a preto e branco de 400. Nesta época de fotos digitais sinto-me por vezes antiquado por entre todos os entusiastas brandindo com orgulho as suas Canons e Nikons de milhares de megapixeis. Contudo, essa sensação é rara porque já passei a idade em que sentia a cada instante ter de justificar as minhas opções perante os outros ou perante mim mesmo.

Gosto de fotografar. Como o fotógrafo cujo trabalho se encontra exposto nas paredes brancas e assépticas, gosto de fotografar pessoas. Mas nos dias que correm muita gente não gosta de ser fotografada por um estranho. Com frequência, as pessoas tornam-se agressivas ao verem uma câmara apontada para elas. E, ainda que nada digam quando a foto é tirada, há sempre a possibilidade de processos legais se a imagem for exposta ou comercializada. Devagar mas inexoravelmente, o estilo de fotografia exposto com orgulho nas paredes do museu está a desaparecer. Numa época em que em que milhões mostram as suas vidas no Facebook, em que toda a gente parece querer ser famosa, aparecer na TV, tornar-se num fenómeno do YouTube, isto confunde-me e entristece-me mas a realidade é incontornável e por isso tenho cuidado ao fotografar pessoas. No museu, introduzo o filme a cores na máquina e preparo-me para as usar apenas como silhuetas coloridas contrastando com as paredes brancas e os rectângulos escuros.

(Ainda mais confusão me faz ser cada vez mais frequente a proibição de fotografar no interior de museus, mesmo sem flash, mesmo em exposições de fotografia. O mundo anda difícil de entender. Mas não é por isso que estou a escrever este texto. Ou, em parte, talvez seja.)

Devagar, percorro todas as salas. Tiro meia dúzia de fotos sem grande convicção. A verdade é que as imagens expostas são demasiado boas para que dos meus esforços possa resultar algo que me leve a pensar ter valido a pena trazer a máquina. É então que reparo no homem. Tem pelo menos setenta e cinco anos, talvez mais, é baixo e está permanentemente inclinado para a frente, mesmo quando caminha. Veste um fato cinzento escuro, demasiado largo e de corte antiquado, mas em perfeito estado de conservação. Traz um jornal dobrado na mão direita e um chapéu de feltro na esquerda. O cabelo grisalho é ralo e encontra-se despenteado, fios espetados no ar como que surpreendidos por estarem a descoberto. Parece deslocado neste ambiente (estaria mais enquadrado dentro de uma das fotos) mas o que verdadeiramente chama a minha atenção é o modo como se comporta. Pára a meio metro de cada fotografia durante menos de um segundo, olha-a, continua para a seguinte. Nenhuma lhe merece mais tempo, não olha em volta, não muda de expressão — no seu rosto onde não parece haver lugar para o prazer ou para a crítica. Age metodicamente, como que seguindo um plano. Ergo a máquina fotográfica e apanho-o deslocando-se entre imagens. Permaneço naquela sala mais alguns minutos enquanto ele segue para outro compartimento.

Vejo-o de novo algum tempo depois, no final da minha segunda volta pelo museu. Estou decidido a sair e, apesar de ter apreciado a exposição, um pouco desiludido por sentir não ter conseguido obter imagens que valha a pena guardar. (A sensação é inevitável, sei-o perfeitamente, por muita racionalização que faça.) O velhote está parado em frente a uma fotografia, o jornal agora entalado debaixo do braço esquerdo, o chapéu, agarrado pela aba com ambas as mãos, encostado ao peito. Aguardo durante um par de segundos que se movimente para a foto seguinte, mas ele não o faz. Aquela imagem parece realmente interessá-lo, constituir o objectivo da sua visita à exposição. Aproximo-me lentamente. Reconheço a fotografia, da minha primeira passagem por aquela sala. Mostra uma rapariga de seis ou sete anos de idade, sentada num muro de pedra. Agarra uma boneca de trapos contra o peito magro e sorri para a objectiva com absoluta confiança. A foto foi tirada de um plano ligeiramente inferior (o fotógrafo ter-se-á baixado ou talvez existisse ali um lance de escadas e ele se encontrasse três ou quatro degraus mais abaixo) e, por trás da rapariga, vê-se uma linha desfocada de estreitos edifícios geminados. As fachadas são escuras, em diferentes tons de cinzento. Em grande medida por estarem fortemente desfocadas, algumas peças de roupa de tonalidade clara penduradas do lado de fora das janelas são insuficientes para aliviar a escuridão que domina o segundo plano. Toda a luz está concentrada na miúda, que enverga um vestido branco ou muito claro. Como claros são as meias rendilhadas, os sapatos — e a face. A rapariga quase salta da fotografia e é impossível não permanecer hipnotizado a olhá-la durante algum tempo.

Ela contrasta com o homem a tantos níveis (juventude versus velhice; confiança versus resignação; descontracção versus rigidez) que não resisto. Ergo a Leica, foco na miúda e disparo. O homem roda. Lágrimas descem-lhe pelas faces. Olha-me, baixa os olhos para a câmara e, sem uma palavra, vira-se de novo para a fotografia.

Permaneço imóvel durante o que me parece imenso tempo, incapaz de decidir o que fazer. Fui apanhado de surpresa e não sei se devo deixá-lo sozinho ou ficar, para pedir desculpa e justificar a minha atitude. Depois, talvez mais por mim do que por ele (por sentir que não conseguiria deixar de pensar nele e de imaginar as razões por que chora), dou um passo em frente e coloco-me a seu lado. Pergunto:

«Sente-se bem?»

Demora tanto tempo a responder que começo a duvidar que o faça. Quando fala, a voz é firme mas o tom é baixo, rouco, forçando-me a prestar atenção.

«Tinha sete anos, sabe? Ou talvez já tivesse feito oito, não sei. Depende de quando a fotografia foi tirada. A legenda só diz 1938. Ela fazia anos em Agosto. Estava sempre muito calor, o que era bom porque podíamos andar na rua a brincar. Eu fazia… faço anos em Janeiro. Chovia quase sempre e fazia frio por alturas do meu aniversário. Gostávamos mais de calor. Não gostávamos nada de estar presos dentro de casa. Às vezes, no Inverno, ficávamos todos molhados porque não resistíamos a andar na rua. Apanhámos muitas palmadas, e com um chinelo, por causa disso. Mas não conseguíamos resistir. Detestávamos estar presos dentro de casa. Então ela não suportava mesmo… O vestido é leve, devia ser Verão. Talvez fosse mesmo Agosto, aqui não diz. Só diz 1938.» Cala-se. Espero em silêncio, receoso de quebrar a ténue ligação que parece ter-se estabelecido entre nós. Receoso de que ele me peça para ir embora. «Nós não tínhamos máquina fotográfica. Naquela altura quase ninguém tinha. Eram caras, só para os ricos. Nem sei se ela percebeu o que o fotógrafo estava a fazer. Acho que nunca ninguém lhe tinha tirado uma fotografia. Mas ficou bem, não ficou?»

Pára novamente, mas agora espera que eu fale. Que eu responda. Sinto dificuldade em fazê-lo, mas acabo por dizer, com total sinceridade:

«Ficou linda.»

«Deve ter sido uma ocasião especial, para estar vestida assim. Quem sabe se até foi mesmo no dia dos anos… Aquela boneca, houve uma altura em que nunca a largava. Foi um problema, ter que a deixar em casa quando foi para a escola. Todas as tardes, quando voltava, ia a correr ver se a boneca estava bem. É verdade que a nossa mãe estava sempre a ameaçar que havia de deitá-la fora, mas isso era só para a levar a fazer o que queria. Se deitasse a boneca fora, perdia o poder de a obrigar a fazer certas coisas. Mas ela não percebia isso (eu também não mas eu era menos esperto) e andava sempre preocupada com a boneca… Fica bem, na fotografia. Mas fá-la parecer mais nova, mais criança.» Inspira profunda mas lentamente, como se saboreasse o ar. «Eu era um ano mais novo. Para dizer a verdade, dezassete meses quase ao dia. Até aos três ou quatro anos acho que ela me via mais como um irmão da boneca do que dela. Isto depois de passar uma fase (dizem, eu não me lembro) em que sentia inveja de mim.» Sorri, e no sorriso há uma censura carinhosa dirigida à irmã na foto. «Tem uma certa graça porque eu é que sentia inveja dela. Ela conseguia ser sempre o centro das atenções: era esperta, dizia coisas que as pessoas gostavam de ouvir. Eu era mais calado, mais metido comigo próprio.»

Ouço-o numa mistura de encantamento e desconforto. A história atrai-me, sinto que estou a cumprir um papel importante para ele e, todavia, não consigo deixar de me considerar um intruso — uma espécie de voyer emocional, degustando os sentimentos de um completo estranho. Então, com a precisão que usara antes — como se a exactidão das datas fosse importante para lhe manter as recordações sob controlo —, ele diz:

«Tinha doze anos quando morreu. Quase treze. Na altura ninguém me disse o que tinha causado a morte. Só vim a saber anos depois. Pneumonia. Era fraca, magrinha… Mas eu era ainda mais magro e nada me aconteceu. Os nossos pais andavam a tentar arranjar-lhe emprego desde por volta dos dez, quando ela acabou a quarta classe, mas ninguém a queria. Diziam que era muito fraca para aguentar um trabalho a sério. Tomava conta da casa desde antes dessa altura porque a nossa mãe andava doente.» Encolhe os ombros quase imperceptivelmente. «Andava sempre doente. Passava a maior parte do tempo na cama a queixar-se da nossa vida miserável. Nós os dois não a achávamos miserável. Sabíamos que não éramos ricos, mas não sentíamos falta de grande coisa. Quando cresci, comecei a pensar que a nossa mãe era mesmo assim e que não tinha doença nenhuma. Estou convencido que foi assim que ela apanhou a pneumonia: a lavar o chão de joelhos e a nossa roupa no tanque. Só pode ter sido. Mas, na altura, eu nem sabia o que era pneumonia.»

Cala-se de novo. Permanecemos em silêncio durante muito tempo — minutos, talvez —, mas eu já não sinto desconforto. Olhamos ambos para a fotografia na parede. Ele estará a relembrar milhões de acontecimentos ocorridos há setenta e tal anos. Eu estou a pensar que, para mim, a imagem acaba de ganhar uma história — uma história concreta, não apenas a sensação difusa que se consegue ao observar pessoas numa fotografia, seja esta recente ou antiga, tirada na cidade onde vivemos ou do outro lado do globo. De vez em quando, há fotos que sugerem histórias ainda mais definidas — verdadeiras ou falsas, não interessa —, mas esta acaba de se guindar a um patamar ainda mais alto. É quase como se eu a tivesse tirado — ou vivido.

 O velho diz:

«Nunca pensei que ia voltar a vê-la. Às vezes já tinha problemas em lembrar-me dela. Do aspecto que ela tinha. Isso deixava-me tão triste. E irritado.»

«Não sabia que existia uma fotografia?»

Abana a cabeça, devagar.

«Até ontem, a única imagem dela era na minha cabeça.» Tira o jornal de debaixo do braço. Segurando o chapéu pela aba com a mão direita, abre-o numa das últimas folhas. Mostra-me a notícia. O título anuncia a realização de uma exposição de fotografias de um dos maiores fotógrafos portugueses do século XX, agora que passam vinte e cinco anos sobre a sua morte. A foto da miúda sentada no muro de pedra com a boneca de trapos nos braços ilustra a notícia. «Nem imagina o que senti. Foi como se tudo tivesse parado. Não conseguia acreditar. Mas», sorri novamente para a irmã, «afinal há uma fotografia dela.»

 

Pago, recolho o invólucro com as fotografias de cima do balcão e procuro um banco onde me sentar. Acabo ao lado de uma mulher vestida com um fato de corte austero que balança um carrinho de bebé enquanto vigia meia dúzia de sacos de compras pousados no chão. Deita-me um olhar rápido e depois ignora-me. Tiro as fotos do invólucro e passo-as rapidamente até chegar à do velho em frente da imagem da irmã. De súbito, o ruído do centro comercial parece diminuir.

Apanhei-o praticamente de costas. A luz fraca do museu obrigou-me a usar uma abertura larga e ele encontra-se ligeiramente desfocado. A face quase não se vê. Mas o mais importante encontra-se lá. A rapariga, luminosa, etérea — um fantasma benigno e deslumbrante —, sorri para o velho com a alegria do reencontro.

Tecnicamente, não é uma grande fotografia. Encontra-se um tudo-nada subexposta, o enquadramento não é perfeito e a expressão dele mal se distingue. A focagem é o único aspecto que me agrada: realça a miúda e aumenta o efeito de profundidade. Já a circunstância de ser uma imagem a cores não ajuda: distrai a atenção do essencial. Normalmente, considerá-la-ia banal, pouco acima de fracassada. Mas não hoje.

Regresso à loja e encomendo uma cópia. Fiquei com a morada do velho. Terá uma foto da irmã.

 

(Republicado. Com uma dedicatória irónica ao comentador Luís Lavoura.)

Música recente (85)


escafandro,

Goldfrapp, álbum Silver Eye.

Alison e Will saltaram da delicadeza de Felt Mountain, a estreia no ano 2000, para batidas de dança relativamente anónimas em Black Cherry e Supernature, de 2003 e 2005, respectivamente. Em 2013, de forma inesperada para mim, voltaram a terrenos intimistas com Tales of Us. Um pouco como Seventh Tree, de 2008, Silver Eye tenta unir os dois universos. Resulta bastante bem.

 

(Considerando este vídeo e os trabalhos que Laura Marling realizou para Semper Femina, há alguma tendência sazonal que eu desconheça para inserir sugestões de lesbianismo nos vídeos musicais?)

 

(Não é que me esteja a queixar…)

Música recente (84)


escafandro,

Aimee Mann, álbum Mental Illness.

Whatever, primeiro álbum de Aimee Mann após os ‘Til Tuesday, foi um dos dois que mais ouvi em 1993 (o outro foi Siamese Dream, dos Smashing Pumpkins). A fama de Mann, porém, surgiu apenas em 1999, quando escreveu várias canções para o filme Magnólia. De então para cá, tem lançado álbuns – uns melhores, outros piores – que insistem em manter o equilíbrio entre desencanto (ou mesmo desespero) e vontade de viver. Mental Illness conta-se entre os mais sombrios – mas também entre os melhores.