Música recente (89)


escafandro,

 

 Kendrick Lamar, álbum Damn.

 

 This may be hard to believe, coming from a black man, but I’ve never stolen anything. Never cheated on my taxes or at cards. Never snuck into the movies or failed to give back the extra change to a drugstore cashier indifferent to the ways of mercantilism and minimum-wage expectations. I’ve never burgled a house. Held up a liquor store. Never boarded a crowded bus or subway car, sat in the seat reserved for the elderly, pulled out my gigantic penis and masturbated to satisfaction with a perverted, yet somehow crestfallen, look on my face.

 

As frases acima não são de Kendrick Lamar. Constituem o início do livro The Sellout, de Paul Beatty, vencedor do Man Booker 2016. The Sellout é uma sátira. Aponta os problemas recorrendo ao exagero e ao ridículo. As mensagens, a estética (as poses) do hip-hop costumam ser interpretadas literalmente. Por vezes, é esta a intenção dos autores; por vezes, trata-se de distorção por parte de quem ouve (falta de capacidade de encaixe, digamos). As posições extremam-se quando a mensagem é – ou parece ser – simplista. Considere-se um exemplo típico: denunciar a violência policial sobre a comunidade negra – tema não apenas recorrente mas inevitável – exige genuinidade e que se ultrapassem as simples ameaças de retaliação; caso contrário, as críticas serão naturais e justas. O primeiro aspecto sofre quase sempre que um cantor atinge o sucesso: em gente rica, canções sobre dificuldades e discriminação soam a falso (hoje, Kanye é basicamente uma Kardashian). O segundo exige capacidade para sublimar o assunto através de formas como as que Paul Beatty utiliza magistralmente. Isto é, exige capacidade artística.

 

Kendrick Lamar tem conseguido manter um equilíbrio assinalável entre todos estes aspectos. Sonicamente, Damn é menos variado do que To Pimp a Butterfly. Ainda assim, contém momentos jazzy (Lust), colaborações inesperadas (os U2, em XXX) e subtilezas que apenas se detectam em auscultadores ou em bons sistemas de som. Evita as frases orelhudas, as declarações bombásticas e inclui momentos de ironia (por vezes, raivosa) não negligenciáveis: vejam-se as letras de Humble ou de DNA. E será também de referir que Lamar permanece um rapper do caraças, capaz de debitar palavras a um ritmo e com uma dicção fenomenais. 

 

0 comentários em “Música recente (89)”

  1. This may be hard to believe, coming from a black man, but I’ve never stolen anything etc

    Não me parece sátira, ironia ou exagero — mais a canção do coitadinho.

    1. Eu acho que o início do livro é excelente a transmitir uma visão estereotipada, também usada pelo hip-hop e por muitos dos seus detractores. Depois acontecem imensas coisas. O narrador nunca fez nada do descrito, efectivamente, mas não apenas cultiva droga como se encontra perante o Supremo Tribunal por ter decidido reimplantar a escravatura (na sua própria casa) e segregar os brancos na escola local.

      https://www.nytimes.com/2015/02/27/books/review-the-sellout-paul-beattys-biting-satire-on-black-american-culture.html?_r=0

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *