Kauan, álbum Kahio.
Os russos Kauan continuam o percurso em direcção a um som contemplativo e nostálgico, numa linha post-rock que inclui elementos folk e de doom metal. Como antes – e como o próprio nome da banda -, as letras são em finlandês.
Kauan, álbum Kahio.
Os russos Kauan continuam o percurso em direcção a um som contemplativo e nostálgico, numa linha post-rock que inclui elementos folk e de doom metal. Como antes – e como o próprio nome da banda -, as letras são em finlandês.
1. Há o processo criminal. Esse fica para a Justiça.
2. Há o conluio entre o Estado e grupos privados, quase inevitável num país em que os políticos fazem questão de garantir que o primeiro é indispensável para tudo. As tímidas tentativas de Passos Coelho (que não do PSD) para mudar a situação estão hoje anuladas. Tal como o próprio Passos.
3. Há a cegueira dos compagnons de route, entretanto de regresso ao poder. Ou – acreditando eu não estarmos perante almas ingénuas – os interesses próprios que os levaram a fechar os olhos a todos os indícios. Os mesmos interesses, de resto, que se sobrepuseram aos do país após as eleições de 2015 e levaram à constituição da Geringonça.
4. Há os tiques intervencionistas e autoritários, que António Costa, Augusto Santos Silva, Carlos César, Eduardo Ferro Rodrigues, João Galamba et al – de Catarina Martins, das manas Mortágua ou de Jerónimo de Sousa outra coisa não seria de esperar – mantêm vivos e nem tentam esconder.
Pouco importa; a acreditar nas sondagens, os portugueses apreciam gente oportunista e autoritária. Têm-na tido – e continuarão a tê-la – em abundância. Considerando os resultados de Narciso Miranda, Valentim Loureiro e Isaltino Morais nas últimas eleições autárquicas (16,2%, 19,9% e 41,7%, respectivamente), e a insignificância comparativa dos desvios em que estiveram ou poderão ter estado envolvidos, arrisco-me a extrapolar que o próprio Sócrates ainda poderá ser eleito Presidente da República. Em 2026, talvez. Ou, no máximo, em 2031.
Fink, álbum Resurgam.
Depois de uma incursão pelos blues, Fink Greenall regressa aos sons densos (e às excelentes letras) que caracterizaram álbuns como Perfect Darkness e Hard Believer.

Jardim Botânico, Porto, 2016.
LCD Soundsystem, álbum American Dream.
O indício mais forte de que este é um álbum pessimista – proveniente de uma banda que fora oficialmente enterrada há meia dúzia de anos – talvez seja a quase total ausência de ironia. Em American Dream, a política não é evidente, mas a desilusão, bem como a crítica à inactividade e à retórica vazia, encontra-se em quase todos os temas. O american dream sempre se baseou na capacidade de perseguir sonhos. Hoje, por razões que ultrapassam a maioria das pessoas mas também por inércia própria, eles afiguram-se mais difíceis de atingir. Entretanto – não é irrelevante que James Murphy se aproxime dos 50 anos de idade -, o tempo passa.
Tori Amos, álbum Native Invader.
O problema com Amos é que o seus melhores álbuns – não por acaso todos saídos na década de 1990 – abordavam, entre a fragilidade e a raiva, traumas pessoais nascidos de violência física e sexual a que ela estivera submetida. Tori extrapolava para o geral, para as limitações e para a violência a que as mulheres estavam sujeitas (o piano funcionando por vezes como cúmplice das palavras, outras vezes como contraponto), mas a base, a nota que conferia uma sinceridade dolorosa aos temas, era a experiência pessoal. Felizmente, desde então a vida de Tori terá sido mais pacífica e confortável. Isso, porém, gera problemas à sua música. Para um fã incondicional como eu, ela não tem álbuns maus. Mas até um fã incondicional como eu é forçado a admitir que também não produz obras-primas desde From the Choirgirl Hotel, do longínquo ano de 1998, ou, no limite, Strange Little Girls, de 2001. Night of Hunters, o álbum conceptual laçando pela Deutsche Grammophon em 2010, foi – não obstante uma faceta ligeiramente presunçosa – uma experiência interessante. Os últimos dois álbuns saídos após Night of Hunters são igualmente bastante bons – mas não surpreendentes. Em Native Invader, Tori esforça-se por substituir o seu sofrimento pessoal por aquilo que entende ser o sofrimento do planeta, não se coibindo de entrar em exercícios de antropomorfização à la Björk e assestando baterias na criatura mais perniciosa de todas: o ser humano (o native invader do título). Independentemente do grau de tolerância que ainda se tenha por álbuns com mensagem ecológica, a ideia quase resulta. Apresenta, contudo, um pecado grave e pouco habitual em Tori: várias letras caem num simplismo atroz, com analogias e – considerando até a fonte de inspiração dos tais álbuns da década de 1990 – de mau gosto. Atente-se nesta passagem de Benjamin: Sucking hydrocarbon from the ground / those pimps in Washington / are selling the rape of America. Oh, Tori…

Porto, 2006.
Lizz Wright, álbum Grace.
Após Freedom & Surrender, de 2015, Wright regressa aos sons mais tradicionais do magnífico Fellowship, de 2010. Como no caso de Freedom Highway, de Rhiannon Giddens – mas baseado numa maioria de temas não originais -, recupera-se a memória para enfrentar as incertezas do presente.


Dresden, 2012 / Museu de Serralves, Porto, 2017.
Emily Haines & The Soft Skeleton, álbum Choir of the Mind.
Colaboradora dos Broken Social Scene, vocalista dos Metric, Haines lança um segundo álbum sob o nome Emily Haines & The Soft Sketleton. Como o primeiro, de 2006, mostra a faceta mais suave e contemplativa da canadiana.
Myrkur, álbum Mareridt.
A dinamarquesa Amalie Bruun mistura ruído extremo com sonoridades que remetem para as paisagens e lendas nórdicas. Aqui e ali faz pensar numa versão black metal de Björk («Myrkur» até é um termo islandês que significa «escuridão»), mas globalmente encontrar-se-á mais próxima de gente como Chelsea Wolfe, que colaborou em dois temas (entre os quais este).

Porto, 2017.
Alvvays, álbum Antisocialites.
É mais difícil fazer boa pop do que muitos crêem. Em 2014, os canadianos Alvvays acrescentaram uma pitada de distorção ao som típico da Califórnia. Agora apuram a receita.
The National, álbum Sleep Well Beast.
Desde Boxer, os The National têm executado variações sobre um estilo que talvez pudesse apelidar-se de crooner-depressivo. O novo álbum não traz mudanças substanciais, mas inclui algumas mudanças de ritmo que, se não consubstanciam um regresso aos tempos de Alligator, sacodem um pouco a letargia (viciante) dos últimos anos.

Porto, 2009.
Matt Pond PA, álbum Still Summer.
With leaves on the floor, tell me there’s more time left, canta-se em A Spark. Matt Pond sempre gostou de usar as estações do ano não apenas como suporte óbvio para a melancolia gerada pela passagem do tempo mas também como símbolos de diferentes estados de alma. A Primavera é o tema central do EP Spring Fools, de 2011, enquanto o Inverno mereceu destaque no EP Winter Songs, de 2005, e no álbum Winter Lives, do final do ano passado. O Verão já antes fora mencionado (por exemplo, no tema Summer is Coming, incluído no álbum The Nature of Maps, de 2001), mas agora é o tema central. Ou se calhar não tanto assim. Afinal, trata-se de um Verão a acabar. A música explora aquela sensação agridoce que encaixa perfeitamente no início de Setembro. Aquela luta entre o desejo de aproveitar o Sol que resta e a tristeza já instalada. Sim, ainda é Verão, mas está por dias.
Queens Of The Stone Age, álbum Villains.
Também aqui, as opiniões extremam-se. Quem detesta atira os adjectivos «dançável» e «acessível» em jeito de insulto. Quem gosta celebra o facto de o álbum ser diferente dos anteriores. Estou no segundo campo. Convenhamos três coisas: o hard rock tradicional está um nadinha gasto; Josh Homme é um tipo corpulento mas, no timbre de voz e na pose, sempre foi possível detectar sensibilidades pouco habituais – mas bem-vindas – no género; a capacidade de reinvenção por parte de gente com carreiras longas e plenas de sucesso é rara mas deliciosa. Villains pode até não ser o álbum mais perfeito dos QOTSA (considerando a existência de Rated R e Songs For the Deaf, só o tempo o dirá), mas é pelo menos o mais variado, arriscado e inovador.

Porto, 2017.
Ani DiFranco, álbum Binary.
DiFranco tem um longo historial de independência e opiniões fortes. Binary é mais suave e menos experimentalista do que alguns dos seus álbuns anteriores, mas permanece exigente e iconoclasta. Como em trabalhos de outros autores saídos recentemente, nota-se uma preocupação com a desintegração do conceito de comunidade.
Grizzly Bear, álbum Painted Ruins.
Um álbum delicado, em torno de vulnerabilidades e desencanto, que sofre ligeiramente por acrescentar pouco aos trabalhos anteriores dos Grizzly Bear.