Música recente (146)


escafandro,

Zola Jesus, álbum Okovi.

Zola Jesus, que se identifica como Nika Danilova mas se chamará realmente Nicole Hummel (Fernando Pessoa apreciaria), continua a produzir temas que, indo beber a experiências pouco simpáticas (depressão, gente próxima dela a quem foi diagnosticado cancro ou que tentou suicidar-se), parecem negros e depressivos, mas se revelam afinal bastante reconfortantes.

Música recente (145)


escafandro,

Circuit des Yeux, álbum Reaching for Indigo.

Por excesso de uso, muitos termos e expressões vêm perdendo relevância. Ironicamente (ou talvez inevitavelmente), os superlativos amontoam-se à medida que os humanos parecem ficar mais cínicos e desiludidos. Mensalmente ocorrem dezenas de momentos «históricos» e centenas de acontecimentos «inéditos». Não obstante tudo isto, talvez ainda se possa aplicar o termo «inclassificável» à música de Haley Fohr.

Web Summit


escafandro,

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Há a parolice do presente, soberbamente corporizada no primeiro-ministro e demais membros do governo, e depois há o futuro. Sendo que, acerca deste, lá bem no íntimo, cientes que estamos da gravidade das ameaças tecnológicas, políticas, económicas, demográficas e ambientais, bem como das exigências destrutivas que queremos ver satisfeitas no curto prazo – dinheiro, fama, poder, beleza, juventude, «felicidade» -, até já desistimos dos humanos, não foi? Na sua inocência, o cão é que ainda consegue suscitar pena – e alguma militância.

Música recente (144)


escafandro,

 Phoebe Bridgers, álbum Stranger in the Alps.

1. Phoebe Bridgers tem 23 anos, mas escreve letras como esta: «When a machine keeps me alive, and I’m losing all my hair, I hope you kiss my rotten head and pull the plug – now that I’ve burned every playlist, I’ve given all my love.»

2. Phoebe Bridgers compôs um tema sobre uma rua em Los Angeles (Scott Street) que afinal é uma avenida. Foi um simples erro, mas encaixa perfeitamente num álbum onde o understatement impera e a aceitação da incongruência é forma de lidar com a depressão e com a ideia da morte.

3. Phoebe Bridgers (a propósito de incongruência) intitula o seu álbum Stranger in the Alps porque, na versão para canal aberto do filme The Big Lebowski, a frase do imortal Walter Sobchak (John Goodman) «Do you see what happens when you fuck a stranger in the ass?» foi transformada em «Do you see what happens when you find a stranger in the Alps?».

Música recente (143)


escafandro,

The Granite Shore, álbum Suspended Second. 

Há no álbum uns toques de Abba que normalmente seriam suficientes para me manter à distância que vai da foz do Porto à zona Leste de Estocolmo. Mas também há aquele estilo desenvolto, intemporal e mordaz de uns The Divine Comedy, aplicados à desilusão que, para Nick Halliwell (o homem por trás dos The Granite Shore), constitui o Brexit. What news from England, are they happy now they’re free?, canta ele em The Performance of a lifetime, perfeitamente consciente de que whatever we said or we did, we were always outside looking in (no refrão de Outside, Looking In). E depois há dúvidas candentes que só o futuro esclarecerá: Will they paint the passports blue again? Provavelmente não, Nick; o azul é a cor da União Europeia.

Música recente (142)


escafandro,

Angus & Julia Stone, álbum Snow.

Gosto da conjugação das vozes dos dois irmãos australianos e, ainda que não contendo grandes surpresas, da leveza elegante que a música deles frequentemente atinge. Gosto menos quando os temas se esvaem no sentido da lamechice. É pena que tal suceda demasiadas vezes neste último álbum.

Música recente (141)


escafandro,

Robert Plant, álbum Carry Fire.

Enquanto Jimmy Page parece ter ficado preso à memória dos Led Zeppelin, servindo hoje quase como seu guardião, Robert Plant continua a experimentar, misturando sons de vários estilos (Bluebirds Over the Mountain é uma versão – bastante diferente – de um tema de Ersel Hickey, que em 1968 também foi usado pelos Beach Boys) e geografias (ver – ou melhor, ouvir – tema abaixo).

 

 

(A voz feminina em Bluebirds Over the Mountain é a de Chrissie Hynde.)

Gestão do curto prazo


escafandro,

Senão vejamos: quando pegamos nas medidas tomadas pelo governo em 2017 e excluímos as rubricas de “poupanças nas despesas de funcionamento” que nunca são explicadas, e portanto são extremamente genéricas, temos que, sem o efeito da poupança dos juros, o défice estrutural em 2017 manter-se-ia igual a 2016 (cerca de 2%) e não em 1.8% apresentados pelo governo. Com a redução dos juros, o défice estrutural reduz-se em cerca de 0.1 p.p..

[…]

E para 2018? Para 2018 vamos assistir a uma manutenção do défice estrutural em 2%, novamente à custa da redução dos juros. Repetindo o exercício anterior, em 2018 as medidas tomadas fazem a receita cair 100 M€ e a despesa aumentar 460 M€. Isto daria um agravamento do défice estrutural em 0.3 p.p. Contudo, uma poupança de juros na ordem dos 400 M€ permitirá manter o défice estrutural estável (mas não reduzi-lo como o governo afirma).

Note-se, assim, que sem a redução dos juros o défice estrutural em 2018 atingiria um valor próximo de 2.5% (sendo que em 2016 estava em 2%). As medidas tomadas por este governo representam já um agravamento do défice estrutural em mais de mil Milhões de Euros. Por agora não se nota: o crescimento económico permite esconder esta realidade. O problema vai ser quando tivermos de enfrentar uma nova recessão.

Da análise de Joaquim Miranda Sarmento, no Eco.

Uma cronologia


escafandro,

1996

Secretário de Estado da Administração Interna Armando Vara retira a Força Aérea das operações de combate aos incêndios florestais, como sucedia até então e como ainda sucede nos países europeus mais expostos a este tipo de risco (Espanha, França, Itália e Grécia).

 

2006

Ministro da Administração Interna António Costa extingue a Guarda Florestal, recusa a compra de dois aviões Canadair (parcialmente com fundos da União Europeia), mantém o enfoque no combate privado aos incêndios e renegocia o contrato do SIRESP com ajuda do amigo Diogo Lacerda Machado (hoje na TAP, então advogado da Motorola, parte integrante do consórcio vencedor), não apenas abdicando de várias valências como ignorando uma alternativa mais barata (da Optimus).

 

2016

Em ano de «viragem da página da austeridade», governo liderado por António Costa reduz orçamento para a Protecção Civil e para o combate a incêndios de 229 para 208 milhões de euros. Ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa enfia na gaveta um estudo preparado pelo governo anterior que preconizava o regresso da Força Aérea ao combate aos incêndios.

 

2017

Mais de 500 mil hectares de área florestal são consumidos pelas chamas e mais de cem pessoas morrem na sequência de incêndios florestais. Forçado pelas circunstâncias e pelo Presidente da República, Primeiro-Ministro António Costa anuncia alterações ligeiras ao SIRESP e o regresso à Força Aérea da gestão dos meios aéreos de combate a incêndios, em moldes ainda pouco claros.

Música recente (140)


escafandro,

St. Vincent, álbum Masseduction. 

A sonoridade de Anne Erin Clark vem-se normalizando. Neste álbum, produzido por Jack Antonoff (colaborador de Lorde e Tayler Swift), estará até demasiado parecida com inúmeros trabalhos lançados nos últimos tempos. Felizmente, o álbum possui outros trunfos, à cabeça dos quais se encontra uma dissecação irónica mas feroz das pressões geradas pela fama (Oh, what a bore to be so adored, canta-se no tema Masseduction), pelo dinheiro e pelo desejo de eterna juventude.

É isto


escafandro,

[…]

O que se está a passar na nossa vida enquanto comunidade é assustadoramente preocupante. A grande massa de eleitorado urbano satisfaz-se com um bodo aos pobres, na dimensão suficiente para ir fazendo uns fins-de-semana prolongados e uns jantares fora. Dentro desse grupo merecem um tratamento especial os funcionários públicos, pela sua dimensão, e os pensionistas, com especial relevo para os que ganham mais e têm acesso ao espaço público. A estratégia é tão simples e fria quanto a de uma empresa que define um objectivo de mercado. Tudo o resto, como não faz mexer o ponteiro das vitórias eleitorais, não existe.

Os últimos orçamentos do Estado foram pensados nessa lógica. Se o país fosse uma empresa podia dizer-se que na era da troika fomos geridos pelo administrador financeiro e nestes últimos dois anos pelos responsáveis da área comercial e do marketing. Tudo o que não se vê ou que esteja protegido dos olhares externos pode ficar com menos dinheiro. E assim se faz dinheiro para acabar com os cortes dos salários da função pública rapidamente, ao mesmo tempo que se reduz o défice público.

São escolhas políticas apresentadas como uma opção pelas pessoas, pela coesão social, pelo combate à  pobreza e pela promoção da igualdade. Quem o diz assume-se até como tendo o monopólio destes objectivos, como se todos os outros fossem contra valores que são (ou deviam ser) os alicerces da nossa sociedade.

O problema vem ao de cima quando tentamos ver os actos dessas palavras. É enorme a distância entre aquilo que se diz que se faz e aquilo que realmente é concretizado. A coesão social, o combate à pobreza e a promoção da igualdade limitam-se ao segmento do mercado eleitoral urbano que faz mexer o ponteiro dos votos. Os outros ficam ao abandono, como dolorosamente vimos na morte e na vida de quem esteve dentro dos incêndios do fim-de-semana.

[…]

Um texto dolorosamente certeiro de Helena Garrido, no Observador. Convém lê-lo na íntegra. 

O «fim» da austeridade, o início das mentiras


escafandro,

Governo falseou dados das listas de espera para consultas e cirurgias no Serviço Nacional de Saúde. Entre 2014 e 2016, o tempo de espera subiu, o número de cirurgias desceu. Em 2016, 2605 pessoas morreram à espera de cirurgia.

Bem-vindos ao maravilhoso mundo da Geringonça, recuperado dos tempos de Sócrates, no qual tudo é perfeito, ainda que tenha ser à força. Muitos parecem acreditar que António Costa é, no que respeita ao estilo de governação, diferente do homem que teimou numa ilusão até ao instante em que o dinheiro acabou. Infelizmente, é igual. O roubo de Tancos e os incêndios mostraram amplamente a sua incapacidade para assumir erros, a sua indiferença pelos portugueses (que não pela opinião que os portugueses têm dele) e o despudor com que transforma os próprios correligionários em escudo pessoal (por muitos erros que tenha cometido, a Ministra da Administração Interna poderia ter sido poupada à humilhação de, na prática, se ver demitida pelo Presidente da República). Esta notícia – que certamente não irá incomodar os parceiros da Geringonça, outrora tão vocais acerca de situações menos graves – revela a sua disponibilidade para usar absolutamente todos os truques, de forma a manter as ilusões e se agarrar ao poder. E que possa não ter partido dele a indicação concreta para maquilhar os números pouco importa: em ambientes malsãos, pejados de yes men, nos quais as aparências são tudo, as estruturas fazem o que sentem ser necessário fazer.

Enfim, talvez nada disto interesse no país em que Isaltino é eleito e Sócrates ainda recebe aplausos. Talvez até constitua motivo para felicitações. Num país decente, porém, depois da forma vergonhosa como geriu o caso dos incêndios, seria razão bastante para conceder a António Costa o mesmo género de férias forçadas com que ele presenteou Constança Urbano de Sousa. Em Palma de Maiorca, como quando pretendeu escapar à polémica de Tancos, ou noutro lado qualquer.

Música recente (139)


escafandro,

Nadine Shah, álbum Holiday Destination.

Shah é filha de uma inglesa descendente de noruegueses e de um paquistanês. Centrado nas questões da imigração, o seu novo álbum foca as dificuldades de constituir o elemento estranho numa comunidade, os enviesamentos daí decorrentes, e as por vezes inacreditáveis prioridades de quem tenta proteger o seu casulo. Shah não assume um tom de confronto, excepto quando perante este último ponto: o tema Holiday Destination (no vídeo acima) foi inspirado numa reportagem onde se relatavam as queixas de turistas na Grécia sobre a forma como a crise dos refugiados lhes estava a estragar as férias. Já o tema Evil terá resultado da leitura do poema Days, de Philip Larkin (ver abaixo). Para Shah, o «dia» é a normalidade, fora do qual surgem os medos e os ódios.

 

—

 

What are days for?

Days are where we live.

They come, they wake us

Time and time over.

They are to be happy in:

Where can we live but days?

Ah, solving that question

Brings the priest and the doctor

In their long coats

Running over the fields.

Philip Larkin

Entre Orwell e Voltaire


escafandro,

(…) Costa é pragmático: “Nada é perfeito.” Mas tendo em conta que “dos 523 fogos deste domingo 400 foram extintos”, há que relativizar e “analisar as coisas como elas são”.

 

Relativizemos, então. Relativizemos os pelo menos 75 mortos num único ano. Relativizemos o valor excepcionalmente elevado de área ardida por incêndio, sinal de que a resposta às deflagrações está a ser tardia e incompetente. Relativizemos o facto de já em 2016 os dados terem sido negativos. Relativizemos as regras rígidas (o relatório sobre as falhas do SIRESP menciona a não utilização de um helicóptero que se encontrava a 42 km de distância de um incêndio por o limite autorizado ser de 40 km), o centralismo que tolhe a acção de quem está no terreno (veículos e bombeiros ficam nos quartéis à espera da ordem para avançar proveniente de Lisboa), e a incompetência de quem apenas foi nomeado por ter cartão partidário, tudo indícios não apenas da apropriação do Estado por parte do PS mas da austeridade encapotada que vai destruindo os serviços às populações em prol do rendimento de funcionários e apaniguados. E relativizemos ainda a tendência para a desculpabilização de António Costa (isto quando não se entrega a basófias deslocadas), da sua Ministra da Administração Interna (hiper-competente a afastar responsáveis de organismos suficientemente ousados para emitir pareceres técnicos contestando as posições do governo) e dos parceiros de Geringonça (outrora tão lestos a disparar acusações). Já vimos isto com Sócrates, voltamos a vê-lo com o seu mais perfeito acólito: vivemos no melhor dos mundos possíveis e pretender outra coisa só pode constituir desvio psiquiátrico ou má vontade.